Manejo de plantas daninhas em trigo
Introdução
Existem diferenças básicas entre manejo e controle de plantas daninhas. Entende-se que ”manejo” sejam práticas realizadas com planejamento e em conjunto, que prejudicam, de várias formas, as plantas daninhas, para diminuir os seus danos às culturas. O ”controle”, nesse contexto, se refere ao ato de eliminar a planta daninha, de forma mecânica, química ou outra qualquer. Para diminuir, de fato, o prejuízo causado por plantas daninhas em trigo – e em outras culturas – reconhecidamente são necessárias ações integradas, de manejo.Diversas plantas daninhas causam prejuízos ao trigo. No Sul do Brasil, o azevém (Lolium multiflorum) e a aveia preta (Avena strigosa) provavelmente sejam as competidoras mais importantes da cultura. Dentre as dicotiledôneas, se destacam a nabiça (Raphanus raphanistrum) e (R. sativus), o cipó de veado (Polygonum convolvulus), a língua-de-vaca (Rumex spp.), a erva-salsa (Bowlesia incana), a silene (Silene gallica), a gorga ou espérgula (Spergula arvensis) e a esparguta (Stellaria media). De modo geral, o azevém e a aveia preta, por serem gramíneas, terem boa adaptação regional, necessidades de crescimento semelhantes às do trigo e ampla dispersão, são as invasoras que têm causado as maiores perdas nos cereais de inverno, notadamente na cevada, no triticale, na aveia branca e, principalmente, no trigo.
Formas de controle de plantas daninhas em trigo Controle preventivo
Evitar a entrada de plantas daninhas na área e diminuir a sua disseminação são as bases do controle preventivo de invasoras. Componentes importantes no manejo de plantas daninhas, são medidas eficientes e de baixo custo. Alguns exemplos de medidas preventivas são:
1. Uso de sementes livres de sementes de plantas daninhas.
2. Limpeza de máquinas e equipamentos;
3. Manter as áreas próximas da lavoura livres de plantas daninhas;
4. Não permitir que animais se movam de locais infestados para lavouras livres de determinada espécie daninha;
5. Evitar que as plantas daninhas produzam sementes.
Controle cultural
Favorecer a cultura, em relação às plantas daninhas, é o princípio básico do controle cultural. A semeadura na ausência de invasoras, adubação correta, sementes de boa qualidade e variedades adaptadas, densidade, época e profundidade dentro dos níveis ótimos ao cultivar sendo utilizado se constituem em formas de manejo cultural.
A rotação de culturas também é uma forma de manejo cultural, que pode contribuir na redução da infestação de espécies daninhas nas áreas cultivadas com trigo. Plantas de cobertura como ervilhaca, tremoço, nabo forrageiro – ou a combinação destas espécies – ocupam de forma mais uniforme o solo do que o trigo, dificultando o desenvolvimento das invasoras. Já quando as plantas de cobertura de inverno forem gramíneas, estas podem ser dessecadas ou manejadas antes da formação de sementes, diminuindo o potencial de infestação para as próximas safras.
Controle químico
A aplicação de herbicidas é o método mais utilizado para o controle de plantas daninhas no trigo. Contudo a eficiência deste método tem levado a uma grande dependência desses compostos químicos, ocorrendo praticamente a exclusão dos outros métodos. Alguns pontos importantes sobre a aplicação de herbicidas em trigo são os seguintes:
1.Identificar corretamente a espécie daninha a ser controlada. Até plantas do mesmo gênero podem ter sensibilidade diferenciada a um herbicida, como demonstram os resultados da Tabela 1.
2.Aplicar no estádio inicial de crescimento das ervas e da cultura.
3.Assegurar a aplicação na dose correta e sob condições ambientais favoráveis.
4.Seguir as instruções do rótulo do herbicida e dos adjuvantes.
5.Sempre utilizar equipamentos de proteção individual (EPI) ao preparar a calda e aplicar os agroquímicos.
Na Tabela 2 estão listados os principais herbicidas utilizados para controle de plantas daninhas na cultura do trigo. A Tabela 3, por sua vez, apresenta a eficiência dos herbicidas no controle das principais invasoras da cultura. De modo geral, o controle de dicotiledôneas é feito com relativa facilidade na cultura, e os herbicidas registrados com essa finalidade apresentam boa eficiência para a maioria das espécies daninhas de ”folhas largas”. Por outro lado, as infestações de gramíneas se constituem nos casos de solução mais difícil.
Controle de invasoras gramíneas em trigo
O azevém e a aveia preta têm se destacado como as gramíneas mais importantes que competem com o trigo. Vários motivos contribuem para isto: poucos herbicidas as controlam seletivamente quando infestam a cultura, são espécies bem adaptadas às condições de cultivo, além de ser amplamente cultivadas para cobertura de solo e pastoreio, facilitando sua disseminação. As conseqüências da elevada infestação dessas espécies são sentidas principalmente nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, e se traduzem por perdas de produtividade do trigo, aumento dos custos de produção e na interferência com o plano de rotação de culturas da propriedade. Em determinados locais, os produtores cultivam continuamente trigo em uma mesma área da propriedade, pois as demais se encontram infestadas com aveia-preta e azevém. O principal reflexo dessa prática é o aumento da ocorrência de doenças, do gasto com fungicidas e, consequentemente, a redução da produtividade do trigo.
A importância do planejamento da propriedade no manejo de azevém e aveia-preta
Planejar as atividades de modo a definir a área a ser cultivada com trigo na próxima safra possibilita manejar áreas com aveia preta ou azevém, no ano anterior, antes da formação das sementes, o que diminui a produção de sementes viáveis e reduz o banco de sementes. Entre o pleno florescimento e a fase de grão leitoso, sob condições adequadas de aplicação, a aveia preta é bem controlada com glyphosate, com doses variando entre 360 e 480 g/ha de equivalente ácido (e.a.), enquanto o azevém requer doses maiores, geralmente partindo de 720 g/ha e.a. Caso o azevém apresentar desuniformidade no desenvolvimento, a divisão da aplicação (com intervalo de 20 dias, por exemplo), tem maiores chances de sucesso. É importante lembrar que o uso de herbicidas totais logo antes da maturação fisiológica dos grãos pode reduzir o poder germinativo das sementes de aveia e azevém, não sendo esta uma prática recomendada ao produtor que desejar colher as sementes.
Manejo das áreas no período de entressafra outonal
Em algumas situações, o intervalo de tempo entre a colheita da cultura de verão e a semeadura do trigo é bastante amplo, permitindo que se implante um cultivo com finalidade de proteção do solo e ciclagem de nutrientes. O nabo forrageiro pode ser utilizado com essa finalidade. Estudos conduzidos pela Fundacep indicam que o cultivo dessa espécie reduziu a incidência de azevém em áreas de trigo cultivadas posteriormente. Em um experimento conduzido em área altamente infestada com azevém, um estudo amostrando 43 pontos na lavoura indicou que o nabo cultivado no outono reduziu em 34% o número de plantas e em 77% a biomassa do azevém que emergiu antes da semeadura do trigo2.
Antes da semeadura do trigo, contudo, as culturas de cobertura devem ser manejadas ou dessecadas e, dependendo da situação, podem ocorrer algumas particularidades, cujos procedimentos técnicos mais indicados estão descritos abaixo:
a) Nabo forrageiro (ou outra cobertura verde) uniformemente distribuído na área e no estágio de pleno florescimento, com azevém e/ou aveia já germinados: efetuar o manejo da cobertura (mecanicamente ou com herbicidas totais). Eliminar, posteriormente, o azevém e a aveia remanescentes (que não foram controlados pelo efeito ”guarda chuva” da cultura de cobertura) com herbicidas totais, em época o mais próxima possível da semeadura do trigo.
b) Cobertura outonal (nabo forrageiro) irregularmente distribuída na área, plantas no estágio vegetativo e reprodutivo, presença de azevém e aveia: pode-se efetuar a dessecação com glyphosate e metsulfuron-metil. Controlar plantas que escaparam ao manejo com herbicidas totais, o mais próximo possível da semeadura do trigo.
c) Cobertura outonal sem a presença de azevém ou aveia: pode-se efetuar a manejo químico ou mecânico (eficiente se a cobertura for nabo forrageiro ou crotalária juncea). Eventuais ”escapes” do nabo forrageiro podem ser controlados com herbicidas seletivos quando o trigo já estiver estabelecido (início do perfilhamento, por exemplo).
Manejo após a colheita da soja
Nas áreas com alta infestação de azevém ou aveia, uma opção de manejo visando diminuir a competição é a semeadura do trigo no final da época recomendada. Aguarda-se, desse modo, que boa parte das invasoras germine e, antes da semeadura do trigo a área é tratada com uma ou duas dessecações. Em se optando por duas aplicações, a segunda dessecação pode ser próxima à época de semeadura do trigo. Em pesquisas realizadas pela Fundacep, essa estratégia reduziu em 32% a presença de azevém na fase de elongação do trigo, facilitando o controle químico da planta daninha com herbicidas pós-emergentes. Lembramos, contudo, que não se deve ultrapassar a época limite de semeadura, que varia de acordo com a região de cultivo, e que alguns cultivares expressam seu máximo potencial produtivo quando a semeadura for realizada no início do período indicado, e não no seu final.
Novos herbicidas para controle de aveia preta e azevém em trigo
Dois herbicidas são as mais novas armas para controle de plantas daninhas gramíneas em trigo. Com aplicação em pós-emergência da cultura e das invasoras, se caracterizam pela seletividade e boa eficiência no controle de gramíneas. Iodosulfuron é o princípio ativo de Hussar (Bayer CropScience), herbicida inibidor de ALS, do grupo das sulfoniluréias, que controla azevém, picão-preto, nabiça e plantas de soja presentes na cultura do trigo. Outro herbicida relativamente novo é clodinafop-propargil (Topik, produzido pela Syngenta). Este graminicida (inibidor de ACCAse) tem sido avaliado por diversas instituições de pesquisa, e nos testes realizados pela Fundacep demonstrou controlar eficientemente a aveia-preta que se desenvolvia junto às áreas cultivadas com trigo. Ambos os herbicidas devem ser aplicados com adjuvante específico e, de fato, se constituem em uma evolução em relação às opções de controle até então existentes.
Plantas daninhas resistentes aos herbicidas
Em diversos locais do mundo várias plantas daninhas que infestam trigo se tornaram resistentes a herbicidas. No Brasil, a situação não é diferente, e já foram encontradas duas espécies infestantes comuns às lavouras de trigo do Sul do país resistentes aos principais produtos utilizados em seu controle ou manejo. Um biótipo de nabiça (Raphanus sativus) resistente aos herbicidas inibidores de ALS ocorre em diversas áreas do planalto médio do RS. Estudos conduzidos com essas plantas indicam que nesses locais, as principais alternativas para controle químico na pós-emergência do trigo são o bentazon e os herbicidas hormonais.
O caso mais preocupante - e que pode ter grande impacto no manejo de infestantes de trigo - foi a descoberta de um biótipo de azevém resistente ao glyphosate, encontrado na região de Vacaria, no planalto do Rio Grande do Sul. Plantas desse biótipo resistiram à ação das doses comumente utilizadas pelos produtores rurais nas operações de dessecação antecipando ao cultivo do trigo3. Há uma crescente preocupação quanto à dispersão desse biótipo entre as regiões produtoras, uma vez que o manejo do azevém com glyphosate antes da semeadura do trigo é uma técnica importante para reduzir a interferência dessa planta daninha na cultura. Nesse caso em especial, ao verificar plantas resistentes em sua propriedade, o produtor deve avisar a assistência técnica, prevenir a produção e disseminação das sementes e utilizar dessecantes com mecanismos de ação diferentes do glyphosate.
Interferência dos fatores ambientais na ação dos herbicidas4
Atualmente estão sendo conduzidas diversas pesquisas, e resultados de experimentos referentes à eficiência dos herbicidas sob condições ambientais adversas são conhecidos a longo tempo. Boa parte das pesquisas indica que a eficiência de determinado herbicida é obtida quando a aplicação for realizada sob determinadas condições de ambiente. Os aspectos citados abaixo são aqueles que provavelmente mais interferem nas aplicações realizadas na cultura do trigo durante a época de inverno.
Temperatura e umidade relativa do ar. São os fenômenos climáticos mais importantes na aplicação de herbicidas, pois afetam diretamente a duração das gotas aspergidas, a espessura e a hidratação da camada protetora que reveste as folhas. Recomenda-se que a aplicação de herbicidas seja feita com temperaturas entre 15 e 25ºC e com umidade relativa do ar acima de 55%. Boa parte das falhas de controle químico das plantas daninhas é oriunda da não observação desses dois componentes climáticos.
No período de inverno, podem ocorrer falhas de controle devido ao frio intenso, que reduz a velocidade de ação dos herbicidas e interfere no metabolismo vegetal, protegendo a planta do estresse oxidativo (geadas e, também, do efeito de alguns herbicidas). Em pesquisa realizada em Cruz Alta, RS, se verificou que a aplicação de glyphosate sob temperaturas 7ºC e 8,2ºC diminuiu em 9,7% e 11,6% a eficiência do herbicida sob aveia preta e nabo forrageiro, respectivamente, quando comparado à aplicação sob a temperatura próxima a 21,5ºC em ambas as espécies5.
Boa umidade no solo: Implica em maior atividade metabólica das plantas e conseqüentemente, melhor ação dos herbicidas. Recomenda-se não aplicar herbicidas em plantas estressadas por seca. É interessante lembrar que herbicidas aplicados diretamente ao solo geralmente dispensam a adição de surfactantes como óleos, espalhante-adesivos ou organo-silicones.
Orvalho. O orvalho é um fenômeno de ocorrência típica no inverno, e pode diluir a concentração do herbicida sobre a folha, diminuindo a velocidade de penetração, além de favorecer o escorrimento e perda de herbicida para o solo. Contudo, sua presença está associada à alta hidratação da cutícula que reveste as folhas e à velocidade lenta de evaporação das gotas contendo o herbicida. Enquanto o primeiro fator facilita a passagem dos ingredientes ativos para dentro do tecido das plantas, o segundo garante a absorção por um tempo mais longo, ao manter os herbicidas no meio líquido (e não cristalizados, caso a calda evaporasse rapidamente).
Nos resultados apresentados na Tabela 4, destaca-se o fato de que o orvalho somente prejudicou o efeito do herbicida na aplicação a 450 L/ha de calda. Observa-se, ainda, que glyphosate foi mais eficiente com as aplicações a 150 L/ha e 300 L/ha de volume de calda do que com 450 L/ha. Assim, sugere-se que, ao planejar as aplicações de herbicidas, não se considere a presença de orvalho como o fator limitante à aplicação em si. Em outras palavras, a aplicação em plantas com orvalho poderá (e provavelmente irá ser) mais eficiente do que aquela realizada sob alta temperatura e baixa umidade relativa do ar.
Considerações finais
Manejar adequadamente as áreas agrícolas para reduzir o efeito das plantas daninhas na cultura do trigo não é tarefa impossível. Talvez esse grau de dificuldade seja atribuído às tentativas de controle químico, nas altas infestações que emergem após a emergência da cultura, aliado ao mau uso dos herbicidas e à não observação de certos critérios para sua aplicação. As técnicas para diminuir a presença de invasoras e seu impacto nas culturas são conhecidas de longa data e amplamente discutidas e ensinadas nas Escolas de Agronomia, encontros científicos, treinamentos e livros que abordam o assunto. Os novos herbicidas chegam em momento oportuno, e preenchem uma importante lacuna no manejo de plantas daninhas na cultura do trigo. Contudo, é importante e necessário manejar as plantas daninhas de forma integrada, atacando-as de várias formas possíveis, planejar com antecedência as áreas da propriedade e usar a técnica certa na aplicação dos herbicidas. Esses fatores, juntos, farão a diferença na limpeza da lavoura e, consequentemente, no momento da colheita.
Notas do autor
1 Theisen, G; Bianchi, M. Eficiência de herbicidas para controle de ervilhaca. Informativo Fundacep. Ano XI, n.16, 2004.2 Theisen, G. Efeito da cobertura de nabo forrageiro cultivado após milho na emergência e vigor de azevém daninho em trigo. Resultados de pesquisa – Inverno 2003. Fundacep Fecotrigo, 2004. 3 VARGAS, L.; ROMAN, E.S.; RIZZARDI, M.A.; SILVA, V.C. Identificação de biótipos de azevém (Lolium multiflorum resistentes ao herbicida glyphosate em pomares de maçã. Planta Daninha. Viçosa, v.22 n.4, p.617-622, 2004.4 Mais informações: Theisen, G; Ruedel, J. Tecnologia de aplicação de Herbicidas: teoria e prática. Cruz Alta: Aldeia Norte Editora, 2004.5 Theisen, G. Influência da temperatura na eficiência de formulações de glyphosate na dessecação de aveia preta e nabo forrageiro. Resultados de Pesquisa – Inverno 2003. Fundacep Fecotrigo, 2004.6 KOGAN, M.; ZUNIGA, M. Dew and spray volume effect on glyphosate efficacy. Weed Technology. Lawrence, v.15, n.3, p.590-593, 2001.