Tratamento de Sementes com Fungicidas


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Publicado em: 01/04/2005

Tratamento de sementes com fungicidas

Ricardo Trezzi Casa1 & Erlei Melo Reis21Universidade do Estado de Santa Catarina, CAV/UDESC, Lages, SC, a2rtc@cav.udesc.br;2Universidade de Passo Fundo, FAMV/UPF, Passo Fundo, RS, erleireis@tpo.com.br

Introdução

Por que tratar as sementes de trigo, cevada e aveia? Quais as vantagens do tratamento de semente com fungicidas ? Essas duas perguntas freqüentemente são feitas pelos produtores antes do início da semeadura. Em muitas situações a assistência técnica não possui uma resposta com base científica e econômica relacionada a ocorrência e intensidade de algumas doenças para justificar a adoção desta prática, e assim grande parte dos produtores deixa de usar uma das principais estratégias de controle de doenças.

Conseqüência epidemiológica da semente infectada

Muitos patógenos causadores de doenças em trigo, cevada e aveia, servem-se das sementes como abrigo à sobrevivência e mecanismo de disseminação. Após a colheita, alguns fungos fitopatogênicos sobrevivem na forma de micélio no endosperma, tegumento ou embrião das sementes. Com o armazenamento das sementes infectadas os fungos podem permanecer viáveis até a semeadura da safra seguinte. A semeadura sem o tratamento com fungicida faz com que os fungos sejam transmitidos para os órgãos radiculares e/ou aéreos das plântulas. Em muitas lavouras são detectadas as primeiras manchas foliares logo após a emergência da plântula, demonstrando que as sementes infectadas estão diretamente envolvida na continuidade do ciclo biológico dos fungos de uma geração do hospedeiro para a outra (semeadura-colheita-semeadura). Salienta-se assim que as semente infectadas podem disseminar os fungos a longas distâncias (lavouras, municípios, estados, países, continentes), sendo responsável pela introdução destes nas lavouras de rotação de culturas ou de primeiro ano de cultivo. Dessa forma, o teste de sanidade de sementes, feito em laboratórios oficiais credenciados ao Ministério da Agricultura, assume papel fundamental no manejo integrado de doenças dos cereais de inverno, pois fornece informações sobre qual espécie de fungo está associado à semente e sua incidência, bastando ao agrônomo escolher o fungicida ou mistura e a dose. Os fungicidas, em geral, os mais eficientes, apresentam especificidade à Gênero ou à Famílias de fungos.

Fungos transmitidos pela semente

Os principais fungos fitopatogênicos associados e transmitidos pela semente de trigo, cevada e aveia constam no quadro 1.

A transmissão dos fungos das sementes para os órgãos aéreos e/ou radiculares tem sido quantificada. Durante o processo de germinação da semente o micélio do fungo que se encontra no interior da semente reassume o seu crescimento, estimulado pela umidade do solo que é responsável pela hidratação da semente. O micélio do fungo passa a crescer do interior à superfície da semente. Ao crescer sobre a semente o fungo acaba alcançando o coleóptilo e a coleorriza. Os fungos que parasitam as raízes, como Bipolaris sorokiniana e Fusarium graminearum, passam a infectar as raízes seminais e o entre-nó subcoronal (mesocótilo) das plântulas. Os fungos que parasitam os órgãos aéreos (B. sorokiniana, Drechslera tritici-repentis, Pyricularia grisea, Septoria nodorum) crescem no coleóptilo atingindo a superfície do solo. Na presença de umidade e luz os patógenos podem produzir frutificações na extremidade dos coleóptilos, liberando inóculo que pode ser disseminado pelo vento, respingo ou insetos para folhas da própria planta ou de plantas vizinhas. O micélio do fungo pode também passar do coleóptilo à bainha da primeira folha, onde causará a infecção, podendo levar a morte prematura das folhas basais. Neste caso, os tecidos mortos tornam-se importante fonte de inóculo para os ciclos secundários da doença. Em outra situação o micélio, que cresce superficialmente no coleóptilo, pode penetrá-lo, atravessando-o e infectando a plúmula em seu interior. Assim, quando a plúmula emerge apresenta lesões no limbo foliar. Nesse caso, a transmissão do patógeno é sintomática. Sobre as lesões o patógeno tende a esporular, produzindo inóculo para o início do ciclo secundário da doença. O carvão do trigo, causado por Ustilago tritici, encontra-se como micélio dormente no embrião de sementes armazenadas. Quando a semente é hidratada, durante a germinação, o micélio cresce no meristema apical e infecta o primórdio floral nos primeiros estádios de desenvolvimento das plantas, quando já ocorre a diferenciação da espiga. Quando a espiga emerge, no final do emborrachamento, mostra os sinais e sintomas característicos da doença (carvão). O mesmo processo ocorre com o carvão da cevada e da aveia.

Tratamento com fungicida

O tratamento de semente com fungicida tem como objetivos: a) erradicar os fungos associados à semente evitando a transmissão para a plântula; b) proteger a planta jovem do ataque de fungos na parte aérea (exemplo oídio e ferrugem). No último caso o resultado somente é obtido com o uso de fungicidas sistêmicos.

A escolha do fungicida, mistura e dose, deve ser feita com base na incidência da(s) espécie(s) na semente analisada em laboratório oficial de patologia de semente e de acordo com a reação do cultivar em relação ao oídio e a ferrugem. No caso do trigo, os fungicidas sistêmicos triadimenol, difenoconazole, triticonazole e flutriafol apresentam bom controle de B. sorokiniana, assim como os fungicidas protetores guazatina e iprodiona. De modo geral, esses produtos também controlam D. tritici-repentis. O fungo S. nodorum dificilmente é detectado nos testes de sanidade, porém, seu controle pode ser feito pelo uso de fungicida do grupo dos benzimidazóis. O fungo S. nodorum não é controlado por iprodiona, sendo uma opção para controle a mistura da iprodiona com o tiram. O fungo F. graminearum somente é controlado por fungicidas benzimidazóis, sendo o mais eficaz o carbendazim. No caso de U. tritici, mesmo não sendo detectado no teste sanidade, as sementes produzidas em lavouras onde ocorreu carvão devem ser tratadas com fungicidas sistêmicos como o triadimenol e carboxim que apresentam especificidade no controle desse fungo. Em cultivares suscetíveis ao oídio recomenda-se o tratamento de semente com fungicida sistêmico, sendo o triadimenol o fungicida que confere maior proteção das plantas após a emergência.

Qualidade do tratamento

Além da escolha do fungicida a qualidade do tratamento também interfere na eficácia de controle. Diversos trabalhos tem demonstrado que a cobertura da superfície da semente de cereais de inverno com fungicida é uma tarefa difícil e que a eficácia do tratamento depende da qualidade da cobertura. Quando se empregam formulações líquidas de fungicidas a eficácia é maior do que se forem utilizadas formulações pó seco. Quando se agrega o fungicida na proporção de 2,0 L de água para 100 kg de sementes se obtém os melhores controles. Porém, se essa semente for tratada poderá ter a germinação prejudicada, pois essa quantidade pode servir de estímulo e quebrar a dormência do embrião. Uma solução seria o uso de veículos não aquosos, sendo uma das substâncias mais promissoras o propilenoglicol.

Dados para referências Bilbiográficas:Revista Plantio Direto, edição 86, março abril de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo.