Esperando a Meia (Mercado)


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Publicado em: 01/04/2005

Esperando a meia-noite no mercado de grãos

Flávio GassenEng.-agr., Supervisor Técnico CooplantioE-mail: flavio@agri.com.br

A humanidade impõe sobre todas as suas atividades um movimento que mostra-se recorrente e repete-se formando o já conhecido ciclo econômico. Todas as economias mundiais rendem-se a este movimento que pode variar na sua freqüência e amplitude, levando a períodos de crescimento e outros de relaxamento ou até de recessão. Considerando alguns componentes da atividade econômica, o impacto do crescimento de um país e sua taxa de juros apresenta diferentes efeitos sobre títulos, ações, commodities e câmbio, promovendo períodos favoráveis a cada um destes componentes em momento diferentes do ciclo. Como a atividade econômica demonstra, em última instância, o desempenho de uma nação, que a evolução do conhecimento sempre cria cenários modificados no presente, quando comparado com o passado, conclui-se que não existem dois ciclos idênticos. No entanto, o desempenho relativo dos componentes da economia obedecem a um padrão que tende a se repetir.

A expressão ”esperando a meia-noite” é uma alusão do ciclo econômico ao movimento do período de 24 horas, onde a posição da meia-noite seria aquela onde estaria o máximo ganho no valor de um investimento e a posição das seis horas seria aquela de menor ganho. Objetivando a otimização dos negócios, espera-se à ”meia-noite” para realizar lucro.De modo geral, quando o ciclo econômico de um país atingir sua posição mais baixa (seis horas), é o desempenho dos títulos que apresentam melhor resultado do que os demais ativos financeiros, em função das elevadas taxas juros da economia. No movimento natural da economia, inicia-se a queda dos juros e conseqüente valorização do mercado de ações. Assim que a economia volta a crescer, surge a pressão inflacionária e necessidade de aumentar a taxa de juros, onde os preços dos títulos então caem e o das ações continuam em alta. Quando a economia atinge seu ponto máximo de expansão, coincidindo com taxa inflacionária elevada, os imóveis e as commodities demonstram melhor desempenho. Para controlar o ritmo inflacionário, surge a necessidade de elevadas taxas de juros que elevam novamente os títulos à posição de melhor investimento.

As commodities agrícolas, principalmente a soja, apresentam-se ajustadas a este relógio do investimento, pois, juntamente com os demais grãos e insumos, possui estreita relação à taxa cambial que, por sua vez, também comporta-se ciclicamente. Como exemplo, pode-se citar a atual elevada taxa de juro que está atraindo substancial investimento internacional e promove a valorização da moeda nacional, resultando na conversão desfavorável dos grãos que apresentam paridade internacional. No caso dos produtos agrícolas, há alguns agravantes neste relógio virtual, que está relacionado com a dinâmica da oferta/demanda cujo ciclo é particular a cada produto e ainda apresenta forte dependência das condições naturais à produção e que não seguem a racionalidade do investimento.

SOJA

A estimativa do USDA sobre a produção brasileira foi de 63 milhões de toneladas no relatório de fevereiro, com pequena redução sobre as expectativas iniciais que atingiram 64,5 milhões de toneladas. Segundo a Conab, a produção deveria atingir 61,4 milhões de toneladas no segundo levantamento realizado em dezembro/2004, sem redução gerada pela estiagem no sul. Se esta for considerada, chega-se numa projeção de aproximadamente 56 milhões de toneladas, supondo-se somente a queda de rendimento de 10% no PR, 30% em SC e 40% no RS. Assumindo uma redução de 7 milhões de toneladas em relação aos dados do USDA, onde a projeção para a produção mundial deveria atingir 228,6 milhões de toneladas, agora a expectativa estaria na ordem de 221,6 milhões de toneladas e o estoque final poderia ser corrigido para aproximadamente 55 milhões de toneladas, abaixo dos 61,4 milhões de toneladas do relatório de fevereiro, mas o estoque final/consumo estaria em 26,8%, seis pontos percentuais acima dos 20,4% da safra anterior e evitaria pressão de alta muito significativa.

Na ótica do consumo, a China aumentou sua projeção para a safra 2005/06, passando de 38,935 para 40,035 milhões de toneladas, pressionando positivamente as importações que foram incrementadas em 1,8 milhões de toneladas (de 20,2 para 22). Como a expectativa de importação supera a redução no consumo, a relação estoque final/demanda do país subiu de 6 para 7,1%. O fator relevante no aumento do consumo tem sua origem na expectativa da produção de frango e decorrente demanda maior de farelo de soja.

A estiagem no sul do Brasil promoveu a elevação das cotações dos contratos de primeira posição da Bolsa de Chicago de USS 4,99 /bushel no dia 4/fev para USS 5,35/bushel somente 10 dias após. Mesmo com a redução da safra brasileira e da Argentina, os estoques mundiais continuarão muito elevados e com dimensão suficiente para manter os preços na média histórica. Então porquê ocorre este aumento dos preços em cenário de estoque desfavorável? Inicialmente, a China está mostrando maior necessidade da oleaginosa para 2005/06 e estão mantendo a demanda aquecida pelo grão norte-americano, há indefinição sobre a dimensão da produção sul-americana e, com os preços baixos, também existem prospecções sobre redução da safra dos EUA para 2005/06. Sem dúvida, com a relação de preços soja/milho, desfavorável para o primeiro, é razoável a manutenção ou até mesmo um declínio na área a ser plantada no hemisfério norte. A presença da ferrugem asiática poderá estimular o produtor a investir mais em milho, mas além desta moléstia que está estreando em solo norte-americano, há um grupo de climatologistas alertando sobre a possibilidade de condições de estiagem em algumas regiões, levando a um certo pessimismo sobre a projeção do rendimento para a próxima safra. Sem dúvida, estes fatores podem representar pressão de alta no ciclo de preços.

MILHO

A produção mundial de milho projetada para 2004/05 foi elevada para 701,8 milhões de toneladas e o consumo manteve-se praticamente igual ao do mês anterior, segundo o USDA, em 682,22 milhões de toneladas. Assim, o ponto de inflexão dos estoques mundiais manteve-se em 97,7 milhões de toneladas, ou seja patamar mais baixo dos últimos anos e agora está previsto em 117,3 milhões de toneladas, ou seja cerca de 19,6 milhões de toneladas acima e próximo ao limite superior da variação encontrada historicamente entre patamares baixos que geram pressão de alta e patamares elevados que geram conseqüente pressão de baixa, cujo ciclo de curto prazo é de 2 anos. Assim posto, seria razoável afirmar que, atingindo a produção esperada, poderia iniciar novo ciclo de baixa nos preços internacionais do milho. No entanto, a figura 5 indica que o mercado já absorveu grande parte de baixa dos preços do cereal, onde somente na Argentina os preços do grão despencaram de um patamar de 7 dólares/60kg em abril/2004 para 4,75 dólares em fevereiro/2005 e nos portos do Golfo dos EUA o declínio foi de amplitude semelhante, inclusive foi a maior queda desde 1996 (figura 5).

No Brasil, os preços mostram início de recuperação desde janeiro e com possibilidade de aclive se a expectativa de forte redução da área do milho-safrinha for confirmada. Os baixos preços em R$ decorrentes da moeda nacional muito valorizada e a estiagem nos estados do sul serão responsáveis pelo declínio da área. Já na primeira safra, o rendimento está sendo prejudicado e haverá redução da oferta do grão que poderá ser, inclusive, inferior ao do ano anterior. Por outro lado, os preços estão entre 5 e 8 dólares/saca nos estados do sul, considerado um valor razoável. No entanto, estes atingiram a linha de suporte considerando o valor do grão na economia interna (deflacionado pelo IGP-M na figura 6). Sendo assim, pode-se afirmar que a partir de agora há um cenário de recuperação, assumindo que a taxa cambial não continue num processo de valorização. Se, por outro lado, a moeda nacional continuar se valorizando, é razoável que os preços mantenham resistência na sua ascensão.

TRIGO

O mercado internacional do trigo atingiu uma posição de suporte em janeiro, como normalmente ocorre nos ciclos de médio prazo, ou seja, em janeiro de 2000, 2002 e 2005, ilustrada pelos preços da Argentina (figura 7). A produção mundial projetada para 2004/05 está em 622,19 milhões de toneladas, muito acima das 552,8 milhões de toneladas de 2003/04. No entanto, apesar deste forte aumento na produção, o estoque previsto pelo USDA está na marca de 145,4 milhões de toneladas para 2004/05, representando 23,9% na relação estoque final/consumo mundial. Considerando que os patamares do estoque em relação ao consumo não serão mais tão elevados como nos tempos passados, que alcançava a faixa de 30 a 35%, a marca projetada para 2004/05 ainda seria fator de sustentação. No entanto, o forte declínio registrado nos preços da Argentina devem-se a excelente safra mundial, que superou as expectativas e gerou forte pressão de baixa.

No Brasil, o declínio dos preços praticados pelo produtorb paranaense atingiram uma posição inferior à linha de suporte estabelecida na série histórica deflacionada pelo IGP-M (figura 8). Assumindo que no período de safra ocorre pressão de baixa na ordem de 5 reais/60kg, o atual acentuado declínio de 10 reais/60kg foi resultado da combinação com a valorização cambial da moeda nacional. Numa situação onde a taxa cambial nominal acompanha a taxa real (ou de paridade), ou seja, corrigida pela inflação, seria razoável afirmar que o preço do trigo poderia recuperar-se e atingir a marca de 25 reais/60kg, da mesma maneira que ocorreu em várias oportunidades no passado (figura 8). No entanto, segundo a CONAB, o estoque final brasileiro para 2004/05 será elevado e mostrará resistência.

Dados estatísticos da China obtidos da Shanghai JC Intelligence Co., Ltd. – www. jcichina.com

Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, nº 86, março/abril de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo.