Análises e tendências para 2005
Paulo Etchichury & Pryscilla PaivaSOMAR Meteorologia - São Paulo (SP) – E-mail: paulo@met.com.br
Mais uma vez o clima foi fator determinante para o desenvolvimento das lavouras de verão do Brasil. Neste ano, o problema de escassez de chuva se concentra sobre o Rio Grande do Sul e parte de Santa Catarina.
Além do verão seco, o problema de abastecimento de água e dos níveis baixos dos rios e barragens no Rio Grande do Sul se deve principalmente ao fato de que o ano de 2004, no geral, foi um ano seco também. Na primavera passada, algumas chuvas favoreceram a implantação das principais lavouras de verão, no entanto, estas chuvas foram insuficientes para recuperar o déficit hídrico acumulado ao longo de 2004. Por isso, no verão, que é um período normalmente de menos chuva e exatamente quando aumenta a demanda de água, é natural que surjam estes problemas.
Embora haja uma certa dramaticidade devido às perdas nas lavouras e a falta de água até para o consumo da população, é preciso lembrar que as chuvas do Rio Grande do Sul estão ocorrendo em seu ciclo normal, já que o verão está associado à um período de estiagens. A expectativa da presença de um episódio de El Niño durante o verão era a esperança para amenizar este quadro, porque o fenômeno contribui, em tese, para a ocorrência de chuvas no Sul do Brasil. Porém, conforme foi amplamente divulgado, o El Niño deste ano é de fraca intensidade e, portanto, insuficiente para impedir a ocorrência de estiagens regionalizadas.
Mesmo sem poder precisar a real influência do El Niño deste ano, é possível afirmar que em outros Estados e regiões, o fenômeno pode estar colaborando um pouco mais. Diferente do verão passado, desta vez o Paraná, Mato Grosso do Sul, oeste de São Paulo e parte de Santa Catarina, tiveram as chuvas mais regulares no mês de janeiro.
Porém, em fevereiro, o problema da estiagem se agravou ainda mais e passou a preocupar também os agricultores do Paraná e do Mato Grosso do Sul. Duas frentes frias causaram boas chuvas sobre o Uruguai, que igualmente sofre com uma estiagem prolongada, mas passaram praticamente sem causar chuvas sobre o Sul do Brasil. Inclusive, essas frentes frias causaram boas chuvas sobre a Região Nordeste do Brasil, especialmente na Bahia.
Projeções para 2005: vem aí uma La Niña
O cenário climático das condições oceânicas e atmosféricas em escala global novamente volta a mudar ao longo de 2005. De acordo com o modelo climático híbrido oceano atmosfera do NWS/NCEP/NOAA (Figura 1), o ano começa com o Oceano Pacífico equatorial apresentando uma condição de um El Niño de fraca intensidade que, segundo os modelos de previsão climática, entre abril e maio deve se enfraquecer totalmente.
A partir de junho e para o segundo semestre de 2005, o oceano Pacífico deve inverter a condição da temperatura da superfície e entrar em uma fase de resfriamento das águas, ou seja, com indicação de um possível novo episódio de La Niña (por enquanto de intensidade fraca). Na figura 1, a La Niña está representada pela área no tom azul sobre o Oceano Pacífico equatorial, próxima da costa oeste da América do Sul (norte do Chile, Perú e Equador) e se estende até o Pacífico Central. O fenômeno La Niña está associado com uma condição climática desfavorável para a ocorrência de chuvas sobre o Sul do Brasil. Os últimos episódios de La Niña ocorreram em 1995-1996 e 1998-2001 e tiveram intensidade fraca e moderada, respectivamente.
A importância dada ao comportamento dos Oceanos se deve a um componente do sistema climático da terra, representado pela interação entre a superfície dos oceanos e a baixa atmosfera adjacente a ele. Os processos de troca de energia e umidade entre eles determinam o comportamento do clima e as alterações destes processos podem afetar o clima regional e global. O El Niño representa o aquecimento anormal das águas superficiais e sub-superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, enquanto a La Niña representa o resfriamento das águas.
Diante dessas condições em escala global, podemos fazer as seguintes projeções do comportamento médio do clima para o restante de 2005 nas diferentes regiões do Brasil:
REGIÃO SUL
Os modelos de previsão climática continuam indicando para o final do verão e parte do outono uma condição de chuvas ligeiramente abaixo das médias climatológicas. Porém, não significa necessariamente que a estiagem verificada em fevereiro continue nas mesmas proporções. Nesse período, uma recuperação gradual das chuvas é esperada e as frentes frias voltam a ser um pouco mais intensas sobre o Sul do Brasil, pois a partir de abril coincide com o período em que as chuvas diminuem sobre o Sudeste e Centro-Oeste.
O final do outono e durante o inverno será um período de transição climática, marcando o final do El Niño e ao que tudo indica o início de um episódio de La Niña. Nenhum dos fenômenos influenciará diretamente no comportamento do clima, com isso a condição média de cada região deve prevalecer, ou seja, para o próximo inverno sobre o Sul do Brasil não há previsão de grandes e duradouras anomalias climáticas.
Já para o segundo semestre de 2005, os agricultores devem ficar atentos, pois caso se confirme a La Niña, teremos um cenário desfavorável para chuvas regulares sobre a Região. No entanto, vale ressaltar que as chuvas obedecem aos seus ciclos e devem diminuir substancialmente à partir de novembro, culminando em um verão com menor volume de chuva e elevado risco de estiagens mais prolongadas, a exemplo do que ocorreu nos verões de 1995-96 e 1998-99-2000.
REGIÕES SUDESTE E CENTRO-OESTE
Essas regiões apresentam um comportamento do clima muito semelhante, com o regime de chuvas e temperaturas bem definido. O verão se caracteriza como o período chuvoso e quente, o inverno é frio e seco, enquanto o outono e a primavera se caracterizam como períodos de transição.
Para o próximo outono sobre o Sudeste e Centro-Oeste do Brasil, tanto em relação ao comportamento da chuva como da temperatura, deve prevalecer a condição média de clima e comum para a época do ano, sem previsão de grandes anomalias climáticas. Durante março e abril, deve ocorrer uma diminuição gradual da intensidade e freqüência das chuvas, culminando num período seco a partir de maio e durante o inverno. Isso significa que o outono deste ano não será tão chuvoso como foi o outono do ano passado.
A La Niña não tem uma influência direta no regime de chuvas do verão do Sudeste e do Centro-Oeste, exceto sobre o sul do Mato Grosso do Sul e oeste de São Paulo que em anos de La Niña durante o verão passam por períodos de estiagem. No entanto, a primavera e outono de anos de La Niña ficam com as chuvas abaixo da média em praticamente todo o Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. Portanto, caso se confirme a La Niña prevista para o segundo semestre, teremos um possível período de chuvas irregulares na próxima primavera e um retardamento do início e regularização das chuvas de verão.
REGIÃO NORDESTE
As chuvas deste verão têm sido irregulares sobre o Nordeste do Brasil, mesmo assim, em função das chuvas observadas em fevereiro e início de março, as regiões produtoras de soja, algodão e feijão foram beneficiadas. As chuvas nessa região tendem a diminuir gradualmente a partir de março, entrando no período seco a partir de maio. Porém, para a parte norte da Região Nordeste, que tem o seu período de chuvas entre fevereiro e maio, conhecido regionalmente como o ”inverno” do Sertão e Agreste Nordestino, este ano deve ter chuvas abaixo da média climatológica para o período, além de chuvas irregulares e mal distribuídas, como é típico do clima do semi-árido.
A La Niña prevista para o segundo semestre de 2005 não deixa de ser uma boa notícia para o Nordeste do Brasil, no entanto, ainda não é garantia de boas chuvas para a Região. Isso porque diferente do El Niño que está associado com escassez de chuva, a La Niña não necessariamente está correlacionada com excesso de chuva. Em anos de La Niña, as chuvas sobre o Nordeste do Brasil dependem de outros fatores, sobretudo das condições do Oceano Atlântico.
Dados para referências Bilbiográficas:Revista Plantio Direto, edição 86, março abril de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo.