Mulching Vertical: tecnica de manejo de enxurradas em Sistema Plantio Direto
José Eloir Denardin1; Rainoldo Alberto Kochhann1; Afrânio Almir Righes21 Eng.-Agr., Pesquisador, Embrapa Trigo, Passo Fundo, RS; E-mail: denardin@cnpt.embrapa.br; rainoldo@cnpt.embrapa.br2 Eng.-Agr., Professor, Universidade Federal de Santa Maria - UFSM e Universidade Franciscana – UNIFRA, Santa Maria, RS; e-mail: righes@smail.ufsm.brIntrodução
A região de clima subtropical úmido do Brasil, situada ao sul do paralelo 24° de latitude sul, apresenta expressiva propensão à degradação estrutural do solo em decorrência da elevada freqüência com que os solos se mantêm com umidade acima do índice de friabilidade no período de estabelecimento das culturas (Denardin et al., 2001). A magnitude desse problema se estende em cerca de 13 milhões de hectares, que é a área cultivada com culturas anuais nessa região do país (IBGE, 2003), da qual, na atualidade, estima-se que 75% são manejados sob sistema plantio direto.
Nessa região, a explosão agrícola ocorrida a partir dos anos sessenta desencadeou a adoção de sistemas de manejo de solo e de culturas que contemplavam intensa mobilização da camada arável. Esses sistemas provocaram redução do nível de matéria orgânica do solo, desestabilização de agregados e, conseqüentemente, degradação da estrutura do solo, com expressivo reflexo na redução da taxa de infiltração de água (Denardin, 1992; Barcelos et al., 1999; Spera et al., 2002; Spera et al., 2003). Nos Latossolos dessa região, por exemplo, a taxa de infiltração de água no solo, que era superior a 180 mm/h na floresta natural, foi drasticamente reduzida a valores da ordem de 8 mm/h em lavouras manejadas sob preparo convencional (Eltz 1987). A resultante dessa alteração estrutural do solo passou a manifestar-se em intenso processo erosivo, com perdas médias de solo superiores a 20 t/ha/ano. Para contornar essa situação, práticas conservacionistas, como terraceamento e semeadura em contorno, passaram a ser adotadas de forma geral porém, sem solução efetiva do problema instalado.
Com a adoção do sistema plantio direto, as perdas de solo por erosão foram drasticamente reduzidas, basicamente, pelo efeito da cobertura de solo (Lopes et al. 1987). Em decorrência dessa percepção, suportada por manifestações de caráter empírico de que o sistema plantio direto prescindia de práticas conservacionistas para o manejo de enxurrada (Martin, 1985), o terraceamento passou a ser desfeito e a semeadura passou a ser realizada paralelamente ao maior comprimento da gleba, independentemente do sentido do declive do terreno (Denardin et al., 1998). Contudo, a cobertura permanente do solo e a consolidação e estabilização da estrutura do solo, otimizadas pelo sistema plantio direto, não propiciaram condição suficiente para disciplinar a enxurrada e controlar satisfatoriamente a erosão hídrica.
Erosão em Sistema Plantio Direto
A erosão hídrica do solo é o resultado da interação entre os fatores potencial erosivo da chuva, suscetibilidade do solo à erosão, comprimento do declive, declividade do terreno, manejo de solo, de culturas e de restos culturais e práticas mecânicas conservacionistas complementares. O fator potencial erosivo da chuva e as características topográficas da área, comprimento do declive e declividade do terreno constituem o componente energético capaz de produzir erosão, e os fatores suscetibilidade do solo à erosão, manejo de solo, de culturas e de restos culturais e práticas mecânicas conservacionistas complementares constituem o componente dissipador de energia. A erosão hídrica, assim interpretada, é efetivamente o trabalho mecânico resultante da ação da energia incidente sobre determinada superfície de terra que foi apenas parcialmente dissipada.
Embora o manejo de solo, de culturas e de restos culturais sejam fatores altamente eficazes na dissipação da energia capaz de desencadear o processo erosivo, há limites críticos em que essa eficácia é quebrada, permitindo, dessa forma, a ocorrência de erosão. Mantendo-se constantes todos os fatores relacionados à erosão hídrica e aumentando-se apenas o comprimento do declive, tanto o fluxo quanto a velocidade da enxurrada produzida por determinada chuva irão aumentar, elevando, assim, os riscos de erosão hídrica.
A cobertura permanente do solo e a consolidação e estabilização da estrutura do solo, observadas no sistema plantio direto, nem sempre propiciam condições suficientes para o adequado controle da erosão hídrica (Denardin et al. 2003). A cobertura de solo, com plantas vivas ou com resíduos de plantas, possui potencial para reduzir em até 100 % a energia erosiva das gotas de chuva, contudo, não apresenta essa mesma eficácia para dissipar a energia erosiva da enxurrada que flui na superfície do solo. A partir de determinado comprimento de declive, as culturas e/ou os restos culturais, bem como o solo, terão seus potenciais de dissipação de energia superados, permitindo a flutuação e o transporte de resíduos e o sulcamento do solo por baixo desses resíduos. Portanto, qualquer prática conservacionista complementar capaz de manter o comprimento do declive dentro de limites em que a cobertura de solo não perca eficácia na dissipação da energia incidente, automaticamente, estará contribuindo para minimizar o processo de erosão hídrica.
O processo de erosão hídrica em lavouras manejadas sob sistema plantio direto vem assumindo relevância, fundamentalmente, em áreas em que as características topográficas induzem à enxurrada energia erosiva superior à resistência imposta pela cobertura vegetal e pelo solo. Assim, no sistema plantio direto, a enxurrada, além de apresentar potencial para desencadear erosão hídrica, indubitavelmente constitui veículo de transporte de solutos aos mananciais de superfície, representando risco ao equilíbrio do ambiente (Tabela 1).
A segmentação de declives, por terraços, cordões vegetados, taipas de pedra, canais divergentes, faixas de retenção etc., constitui tecnologia tradicional para amenizar problemas dessa natureza. Assim, objetivando contribuir para esse elenco de práticas conservacionistas, indicadas para os Latossolos da região de clima subtropical úmido do Brasil, a parceria constituída pela Universidade Federal de Santa Maria, Embrapa Trigo, Emater/RS e Semeato S.A. Indústria e Comércio está em fase final de desenvolvimento da técnica mulching vertical.
O mulching vertical
O mulching vertical, fundamentado no aumento da taxa de infiltração de água no solo, é constituído por sulcos com dimensões de 7,5 a 9,5 cm de largura por 40 cm de profundidade, dispostos em nível, ou seja, perpendicularmente ao declive do terreno, e preenchidos com palha (Figura 1). Essas dimensões são decorrentes das características do equipamento empregado para a construção dos sulcos - Valetadora rotativa VS 640, marca Semeato (Figura 2).
Em decorrência do atual estágio do estudo, a indicação do mulching vertical está sendo limitada a solos bem drenados e a áreas específicas de lavouras manejadas sob sistema plantio direto com declives propensos à concentração de enxurrada e/ou com problemas evidentes de erosão (Figura 3).
O afastamento horizontal ou vertical entre os sulcos é determinado pelo método da estimativa da enxurrada máxima esperada, a partir de modelos matemáticos de predição de chuvas intensas (Pfafstetter, 1957; Denardin e Freitas, 1982). Os sulcos são preenchidos com palha disponível na propriedade rural ou no mercado regional.
O comprimento de cada sulco componente do mulching vertical é limitado pela amplitude da bacia de contribuição para a formação da enxurrada que constitui a origem do problema de erosão hídrica instalado (Figura 4).
Antes da implementação do mulching vertical, é indicado que a área da lavoura com os problemas evidentes de erosão, seja sistematizada para eliminar sulcos de erosão presentes (Figura 5).
Avaliações da eficiência do mulching vertical para o manejo de enxurrada, em um solo Podzólico Vermelho Amarelo, em Santa Maria, RS, evidenciaram que a adoção dessa técnica conservacionista reduziu em 52% a taxa do escoamento superficial (Nishijima e Righes, 1987). Nesse mesmo estudo, foi observado que a implementação do mulching vertical contribuiu para reduzir em 77% as perdas médias de matéria orgânica presente nos sedimentos carreados pela enxurrada (Dotto e Righes, 1989).
Em Passo Fundo, em solo Latossolo Vermelho Escuro, manejado sob sistema plantio direto, estudos relativos a esse potencial indicaram que o mulching vertical, além de retardar, consideravelmente, o tempo de início da enxurrada, reduziu, em até 54%, a intensidade do deflúvio superficial, quando chuvas de 111 mm/h foram simuladas em parcelas experimentais com 22 m de comprimento. Para chuvas de intensidade inferior a 70 mm/h, o mulching vertical, com espaçamentos de até 10 m, proporcionou controle total da enxurrada (Herbes et al., 2004). Esses resultados inferem que o mulching vertical apresenta potencial para integrar o elenco de técnicas conservacionistas indicadas para o manejo de enxurrada, em lavouras conduzidas sob sistema plantio direto, demandando, no entanto, de validação em escala de lavoura para transforma-se em tecnologia-solução pronta para uso.
Considerando a adoção do sistema plantio direto em mais de 75% da área agrícola da região de clima subtropical úmido do Brasil, da qual 40%, aproximadamente, denotam presença de erosão hídrica em conseqüência do abandono de práticas conservacionistas de manejo de enxurrada, o mulching vertical poderá se constituir em tecnologia eficaz para controle de erosão hídrica no sistema plantio direto e assumir posição de destaque altamente sintonizada com os anseios de uma agricultura irrepreensível.
Referências bibliográficas
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Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição nº 85, janeiro/fevereiro de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo.