Principais doenças foliares
Ricardo Trezzi Casa1 & Erlei Melo Reis2 1Universidade do Estado de Santa Catarina – CAV/UDESC, Lages, SC;2Universidade de Passo Fundo – FAMV/UPF, Passo Fundo, RS1. Introdução
O potencial de rendimento do milho (Zea mays L.) pode ser afetado pela intensidade de algumas doenças foliares. Na Região Sul do Brasil as doenças predominantes são a ferrugem comum, a helmintosporiose comum, a mancha de feosféria e a mancha de diplodia macrospora. Na Região Sudeste e Centro-Oeste, além destas, a ferrugem polissora, a cercosporiose e o enfezamento vermelho também ocorrem com freqüência.
Os danos e as perdas causados pelas doenças foliares são decorrentes do mau funcionamento e da destruição dos tecidos fotossintéticos devido ao aumento do número e da área de lesões que podem determinar a necrose de parte ou de toda a folha. A necrose e a morte prematura da folha limitam a interceptação da radiação solar e translocação de fotossintatos ao desenvolvimento do grão.
De acordo com Pataky (1992), a folha da espiga e as folhas imediatamente acima e abaixo da espiga podem representar 33 a 40 % da área total da planta. Uma redução de 50 % da radiação incidente 15 dias antes e 15 dias depois do florescimento pode provocar uma redução de 40 a 50 % no rendimento de grãos (Fischer & Palmer, 1984). Segundo Fancelli (1988), uma destruição de 25 % da área foliar do milho em sua porção terminal, próximo ao florescimento, pode reduzir 32 % a produção.
A intensidade de doenças foliares depende muito da suscetibilidade do cultivar. No caso de manchas foliares, os maiores danos ocorrem nas áreas onde o milho é cultivado em plantio direto sob monocultura, pois a permanência dos restos culturais do milho sobre a superfície do solo beneficia a sobrevivência dos fungos. A situação pode se agravar em lavouras de milho safrinha, em anos com precipitação pluvial acima da normal, em áreas com baixa disponibilidade de nutrientes e com alta população de plantas.
No Quadro 1, estão listadas as principais doenças foliares do milho, como sobrevivem e se disseminam seus patógenos, as condições favoráveis a infecção e as principais estratégias de controle.
2. Doenças foliares do milho
A seguir serão descritas de forma resumida a ocorrência, sintomatologia, epidemiologia e controle de algumas doenças foliares do milho (Reis et al., 2004).
2.1 Ferrugem comum
A ferrugem comum ocorre em todas as regiões do Brasil, porém é mais freqüente na Região Sul, sobretudo nas semeaduras tardias e em anos com baixa precipitação pluvial. Os sintomas da ferrugem comum do milho manifestam-se na forma de pústulas, grandes, circulares a alongadas, pulverulenta, com o interior de coloração pardo-canela após romper a epiderme da folha. O fungo sobrevive entre estações de cultivo em plantas voluntárias de milho ou no milho safrinha. Os uredosporos produzidos nestas plantas são dispersos pelo vento à longa distância. Quando a atmosfera está saturada praticamente 100 % dos esporos germinam. O desenvolvimento da doença é favorecido por temperaturas moderadas, na faixa de 17 a 25oC. A principal estratégia de controle é o uso de cultivares resistentes ou tolerantes.
2.2 Ferrugem polissora
A doença é mais importante na Região Central do Brasil, podendo causar danos significativos no rendimento de grãos de híbridos suscetíveis. Os sintomas se manifestam na forma de pequenas pústulas, que podem medir de 0,2 a 2,0 mm de diâmetro, circulares, de cor laranja-vermelho, dispostas sobre as folhas e demais órgãos verdes (Figura 1). A doença é favorecida por ambiente com temperatura de 27 oC e alta umidade relativa do ar. Em geral, a ferrugem polissora é mais freqüente em regiões com baixa altitude, enquanto que a ferrugem comum tem maior ocorrência em localidades com maior altitude. No Brasil, o inóculo do fungo está relacionado às plantas voluntárias de milho, que podem ser encontradas todos os meses do ano nas regiões onde não ocorrem geadas. As medidas de controle se concentram no uso de cultivares resistentes ou tolerantes e na aplicação de fungicidas em ataques severos.
2.3 Cercosporiose
A cercosporiose é reconhecida como uma das doenças que mais reduções causa na produtividade de grãos de milho. A doença encontra-se difundida em quase todas as regiões aonde se cultiva o milho no Brasil. Os danos dependem principalmente da suscetibilidade do cultivar e do sistema de cultivo. A maior intensidade da doença ocorre em áreas de plantio direto e monocultura, se agravando em lavouras com excesso de irrigação ou em anos com precipitação pluvial acima da normal. Os sintomas típicos iniciam como lesões de aspecto oleoso ou encharcado, de forma alongada, paralelas as nervuras, a qual torna-se necrosada e delimitada em largura pelas nervuras (2 a 4 mm de largura por 1 a 7 cm de comprimento) (Figura 2). O fungo sobrevive principalmente nos restos culturais do milho. Também pode sobreviver parasitando plantas voluntárias de milho. Períodos prolongados de orvalho ou neblina e temperatura na faixa de 22 a 30°C favorecem a infecção do fungo. As principais medidas de controle são o uso de híbridos resistentes ou tolerantes, a rotação de culturas e aplicação de fungicidas nos órgãos aéreos.
2.4 Helmintosporiose comum
Dentre as helmintosporioses descritas no Brasil, a helmintosporiose comum é a mais freqüente e importante. Os danos ocorrem pela redução da área foliar fotossintética e pela predisposição das plantas ao ataque das podridões do colmo. Os sintomas manifestam-se como lesões alongadas, elípticas, predominantemente de cor cinza, às vezes, verde-acinzentadas ou pardas, com comprimento variando de 2,5 até 15 cm, desenvolvidas, inicialmente, nas folhas inferiores. O fungo sobrevive como micélio dormente e como conídios em restos culturais infectados. Temperatura na faixa de 17 a 27o C e orvalho de longa duração são requeridos para o desenvolvimento da doença. Os ciclos secundários da doença ocorrem com clima úmido, dentro e entre lavouras, pelos conídios produzidos abundantemente sobre as lesões. Além do milho o fungo ataca o sorgo, capim sudão, sorgo de alepo e teosinto. As medidas de controle envolvem o uso de cultivares resistentes ou tolerantes e a rotação de culturas.
2.5 Mancha de diplodia macrospora
A doença tem sido detectada freqüentemente nas lavouras de milho conduzidas em monocultura em praticamente todas as regiões do Brasil. Os sintomas iniciam com lesões pequenas, de forma irregular, de 1 a 3 cm de comprimento, de cor parda e apresentam um anel com tecido necrosado mais escuro sobre o ponto inicial de infecção. Também podem formar pequenas estrias avermelhadas ou pardas. Mais tarde tornam-se pardas, rodeadas com halo amarelo característico (Figura 3), estendem-se no sentido do comprimento total da folha, podendo dilacerar o tecido vegetal infectado. Sobre o tecido necrosado, são observados pequenos pontos negros, sub-epidérmicos, constituídos pelos picnídios do fungo. Sob clima úmido, com o auxílio de lupa de mão, podem ser observados os cirros longos extrudando do picnídio.O fungo sobrevive nos restos culturais infectados e nas sementes de milho. O vento e os respingos d’água são os principais agentes de dispersão dos conídios do fungo à curta distância. A disseminação à longa distância ocorre via semente infectada. A temperatura ótima para a germinação dos conídios está na faixa de 26 a 29 oC. As medidas de controle se concentram principalmente na rotação de culturas. O tratamento de semente, a adubação equilibrada e a redução da população de plantas também contribuem para minimizar os danos causados pela doença.
2.6 Mancha de feosféria ou mancha branca
A doença encontra-se distribuída em todas as regiões do Brasil, sendo que os maiores danos, são observados em regiões com altitude superior a 600 m, coincidindo com temperaturas altas e elevada precipitação pluvial. As lesões típicas são arredondadas, com 0,5 a 1,0 cm de diâmetro, inicialmente de coloração verde esmaecido ou cloróticas e, posteriormente, tornando-se de cor amarelo-palha a parda, com bordos constituídos por um anel bem definido de cor escura (Figura 4). Os sintomas se manifestam nas folhas basais, progredindo para as demais folhas superiores, a medida que avança o ciclo da cultura. Possivelmente este fungo deve sobreviver em sementes e na fase saprofítica nos restos culturais do milho. Entretanto, ainda não foi detectada a presença em semente e nada se sabe sobre hospedeiros secundários. As condições ótimas de temperatura e período de molhamento requerido para a infecção também não foram determinadas. Sabe-se que o desenvolvimento de epidemias é rápido, de tal forma que, em poucos dias, as folhas das plantas passam da condição de sadias para altamente afetadas. O controle concentra-se no uso de cultivares tolerantes.
2.7 Enfezamento vermelho
A doença vem causando danos em plantas de milho principalmente nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. A sua ocorrência e intensidade estão relacionadas com a presença da cigarrinha Dalbulus maidis a qual é responsável pela disseminação e inoculação do parasita nas plantas, um fitoplasma encontrado no floema das plantas infectadas. Os sintomas em plantas são caracterizados pela descoloração e avermelhamento ou arroxeamento da margem e do ápide das folhas. Ao se alimentar das plantas infectadas, a cigarrinha adquire o fitoplasma, alça vôo, e dissemina o patógeno para as plantas sadias. O período de aquisição e transmissão do parasita está em torno de 22 a 26 dias. Tal transmissão é do tipo persistente. As medidas de controle visam impedir que o vetor (cigarrinha) encontre o hospedeiro (milho). A escolha da época e alternância de semeadura contribui para este princípio de controle. O uso de cultivares tolerantes também tem sido eficiente para o controle da moléstia. O controle da cigarrinha pelo uso de inseticidas também constitui outra possibilidade de controle.
2.8 Outras doenças
No Brasil, outras doenças foliares também tem sido relatadas, porém com menor freqüência de ocorrência e severidade, tais como: helmintosporiose maidis e carbonum, mancha de curvularia, mancha pardo-escura ou fisoderma, ferrugem tropical, míldio e enfezamento pálido.
3. Controle químico de doenças do milho
O uso de fungicidas em milho têm-se restringido ao tratamento de sementes feito pela empresa produtora de semente ou pelo produtor e pela aplicação nos órgãos aéreos visando o controle de algumas doenças foliares. As doenças foliares alvo do controle químico na cultura do milho são a ferrugem polissora, a helmintosporiose comum e a cercosporiose. Entretanto, a ferrugem comum e a mancha de feosféria também merecem atenção. No Brasil, o critério utilizado para iniciar as aplicações normalmente se baseia no estádio de desenvolvimento da cultura ou no aparecimento dos primeiros sintomas. No entanto, nestas condições não se sabe exatamente se a doença está causando uma perda igual ao custo de controle. No caso da cercosporiose, na região do cinturão do milho, nos Estados Unidos, um dos critérios usado para iniciar a aplicação de fungicida é quando 50 % das plantas apresentar no mínimo duas lesões em qualquer uma das folhas Fe-2, Fe-1, Fe (folha da espiga), Fe +1 ou Fe +2. Trabalhos de quantificação de danos da cercosporiose, nos Estados Unidos (Nutter & Jenco, 1992) e no Brasil (Reis et al., 2004), geraram a função de dano da doença, que pode ser usada para o cálculo do limiar de dano econômico (LDE). Os fungicidas testados com melhor desempenho são os triazóis, benzimidazóis e estrubilurinas.
Referências Bibliográficas
FANCELLI, A.L. Influência do desfolhamento no desempenho de plantas e de sementes de milho (Zea mays L.). Piracicaba. ESALQ/USP. 172p. 1988 (Tese de Doutorado).FISCHER, K.S. & PALMER, F.E. Tropical maize. In: Goldsworthy, P.R. & Fisher, N.M. (ed.). The physiology of tropical field crops. Wiley. p.231-248. 1984.PATAKY, J.K. Relationships between yield of sweet corn and northern leaf blight caused by Exserohilum turcicum. Phytopathology 82:370-375. 1992.REIS, E.M., CASA, R.T., REIS, A.C.B. Manual de diagnose e controle de doenças do milho. 2ed. rev. atual. Lages: Graphel, 2004. 144p
Dados para referências bibliográficas:
Revista Plantio Direto, edição nº 85, janeiro/fevereiro de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo.