A expansão da soja na Argentina
No final de 2004 produtores gaúchos visitaram a Argentina e conheceram a agricultura da região do pampa úmido, suas vantagens e pontos frágeis. De um lado fertilidade dos solos, clima, terceirização e biotecnologia e do outro monocultura, arrendamentos e taxas de retenção, fatores que equilibram perdas e ganhos na balança da atividade agrícola do país.
Planícies, planaltos, serras, deserto e gelo fazem parte da paisagem Argentina. O relevo se constitui de enormes contrastes oferecidos das planícies orientais a cordilheira dos Andes. No centro do país localiza-se a região pampeana, que se estende pela Província de Buenos Aires, nordeste da Província de La Pampa, sul de Córdoba e de Santa Fé, com intensa exploração agrícola e pecuária.
Atrás do Brasil e do México, a Argentina é a terceira maior economia da América Latina. Sua força econômica está concentrada na região da Bacia do Prata, onde vive 75% da população e onde estão instaladas as principais empresas. O país se destaca pela produção agrícola, sendo o pampa úmido o centro agropecuário argentino. Nessa região as principais culturas são a soja, trigo, milho. Já no pampa seco, ao oeste, concentra-se a fruticultura e a produção de vinho. Ao norte estão as culturas de menor expressão econômica como a cana-de-açúcar, o algodão e o arroz.
Deserto verde
A soja é o primeiro produto da pauta de exportação da Argentina e as lavouras da oleaginosa se expandem a cada ano, diminuindo a atividade pecuária e outros cultivos tradicionais como milho, trigo e batata. A quase monocultura preocupa técnicos e governo, pois alterações no mercado do grão ou mesmo nas condições das lavouras através do clima, doenças ou pragas, podem afetar de forma significativa a economia do país.
Segundo a Secretaria de Agricultura argentina, 98% da produção de soja é exportada para consumo humano em países asiáticos e para alimentação animal na Europa. O chamado ”complexo soja”, que inclui grão, farelo e óleo, é responsável hoje por quase um quarto das exportações argentinas.
Apesar das perspectivas do valor do produto no mercado internacional não ficar acima de US$ 10,00 para 2005, a área com a leguminosa na próxima safra será apenas 1% menor que a anterior, ou seja, 14,2 milhões de hectares, pois a soja ainda é a cultura que oferece maior rentabilidade ao produtor argentino. O incremento na área do milho atingiu 12% em relação à safra 2003/04, totalizando quase 3,5 milhões de ha, com o aumento mais significativo na região ao sul da província de Santa Fé e nas províncias de Entre Ríos, Córdoba, Chaco, Santiago del Estero e Tucumán. O trigo argentino ocupará 6,24 milhões de hectares, crescendo 3,3% em relação ao período anterior, com projeção de produção superior a 15 milhões de toneladas.
Segundo a Federación Agraria Argentina, dos 100 mil pequenos e médios agricultores associados, 95% se voltaram para a cultura da soja nos últimos anos. Até mesmo regiões como a do Chaco, tradicionalmente produtora de algodão, agora cobre seus campos com o verde da leguminosa.
O contínuo aumento da área plantada com soja no país deve-se, segundo especialistas, a rápida difusão do uso de sementes de variedades transgênicas e ao plantio direto, pois ambas as tecnologias permitem maior agilidade nas operações realizadas à campo e maior rentabilidade das lavouras através da redução de custos.
Como conseqüência do avanço da sojicultura, em uma década a atividade pecuária diminuiu 35% na Província de Buenos Aires. Segundo técnicos do INTA (Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária) a soja começou a ser cultivada na Argentina há 30 anos, no centro da região do pampa úmido, e já na década de 1990 mais de 50% dessa região já estava plantada com a leguminosa.
Nos últimos sete anos foram extintas cerca de 17 mil propriedades produtoras de leite basicamente pela expansão da soja, elevando o volume de importação do produto do vizinho Uruguai. Situação semelhante para o cultivo da batata, algodão e gado de corte que cederam espaço ao avanço do grão destinado à exportação, devido a sua liquidez no mercado internacional, o que está causando a chamada ”soja-dependência”.
Arrendamentos e rotação
Estimativas apontam que ao norte da Província de Buenos Aires 50 a 60% da superfície é explorada sob contratos de arrendamento, em sua maioria de apenas um ano, houve, em razão disso, a rápida expansão da soja, uma cultura de baixo custo de produção com rentabilidade ampliada através do uso de tecnologia RR e plantio direto. Por essa razão os contratos foram fixados tomando como base a oleaginosa. O cenário estabelecido prejudica a inclusão do milho na rotação, pois é um risco muito grande para os produtores argentinos incluir a cultura no planejamento de suas campanhas tendo os contratos fixados em quintais (quintales em espanhol) de soja (1 qq = 100 kg), normalmente entre 14-16 quintais/ha. Percebe-se que a soja tornou-se uma moeda paralela ao peso, pois todos os custos são projetados em cima dos valores do grão.
Mesmo sabendo que a inclusão do milho garante um rendimento de 3 a 5 quintais na soja que segue a rotação, o produtor diante dos contratos anuais que podem impedi-lo de voltar a cultivar a mesma área e fazer uso do benefício do aumento da produção, acaba deixando o milho fora de seu planejamento de lavoura dando sustentação ao monocultivo da soja.
Uma revolução
A Argentina possui uma superfície cultivável de 30 milhões de hectares e vive uma revolução agrícola silenciosa. No país, mudanças no padrão de produção são evidentes, o aumento do tamanho das propriedades em função dos arrendamentos, a terceirização das atividades de lavoura (frentes de trabalho), uso de biotecnologia e armazenagem na propriedade, são exemplos dos elementos que formam o novo cenário do campo. A tecnologia mudou a imagem do agricultor, a agricultura gera empregos, mas é terceirizada, quem suava trabalhando as terras agora é dono do maquinário e presta serviços. Essa nova forma de produzir também tem seus custos ampliados, o valor do arrendamento e a retenção de 23,5% do total das exportações de soja, óleos vegetais e farinhas, elevam os custos de produção deixando o agricultor com margens bastante reduzidas.
Silo-Bolsa: alternativade armazenagem
A utilização do silo-bolsa como alternativa para armazenagem de grãos na Argentina teve início em 1998 quando problemas com alagamento das estradas rurais impossibilitaram a colheita e transporte da produção. Posteriormente seu uso foi massificado pela incerteza econômica do país quando os produtores optaram por armazenar os grãos em silos-bolsa temendo a quebra de acópios (cerealistas que recebem e armazenam grãos) e cooperativas. Na campanha 2003/2004 cerca de 15% da produção foi armazenada neste sistema no país.
Isso reflete nos cuidados com a conservação do solo, pois não há preocupação com a manutenção da fertilidade, com a reposição de nutrientes ou com rotação de culturas, pois, segundo especialistas, para manter a produtividade atual dos solos argentinos, na próxima década a aplicação de fertilizantes necessita, pelo menos, ser duplicada. Mas com contratos de arrendamento anuais e sem a certeza que estará cultivando as mesmas áreas na próxima campanha, o agricultor argentino não investe na lavoura. Por quanto tempo os solos do país se manterão produtivos?
Essa questão foi levantada pelos agricultores gaúchos, associados da Cotrijal, cooperativa da região do Alto Jacuí, no Planalto do Rio Grande do Sul, que no mês de dezembro de 2004 visitaram a Argentina, mais precisamente o pampa úmido, fazendo parte de mais uma edição do Agrotur Syngenta. O grupo de 39 pessoas teve acesso a informações sobre a agricultura nacional e regional, visitou propriedades, áreas de pesquisa, cooperativa, empresas e também teve contato com pesquisadores e produtores argentinos, oportunizando o intercâmbio de conhecimento técnico e prático entre os dois países.
Condições privilegiadas
O clima temperado, sem alterações bruscas de temperatura foi citado pelos participantes do Agrotur como um dos fatores que garantem o sucesso da agricultura no país, o inverno argentino apresenta temperaturas entre 10 e 12 °C e o verão entre 23 e 25°C. O volume pluviométrico é de 350 a 400 mm distribuídos durante todo o ciclo da cultura. Já no Rio Grande do Sul, a média ultrapassa os 1.000 mm. As condições de clima e temperatura ainda favorecem as culturas de inverno no aspecto de sanidade. Outra opinião unânime foi a riqueza dos solos que possui elevados índices de matéria orgânica. O contato direto com produtores locais possibilitou aos participantes obter informações sobre a realidade da agricultura Argentina, que sofre com os altos custos de produção, contratos de arrendamento, com taxas de retenção e com a ameaça da ferrugem-asiática, doença que foi o centro das atenções da pesquisa e dos agricultores no final de 2004.
O roteiro do Agrotur iniciou na cidade de Venado Tuerto, na Província de Santa Fé, onde Daniel Damen e Miguel Jové, pesquisadores do INTA, apresentaram aos associados e técnicos da Cotrijal um panorama da agricultura na Argentina. Ainda foram visitados a estação de pesquisa da Syngenta, em Santa Isabel e a Cooperativa de Villa Cañas. Em Carlos Casares, a três horas e meia da capital Argentina, o grupo conheceu as atividades da Agropecuária Los Grobo, da família Gropocopatel, que trabalha com produção agrícola, comercialização de insumos e grãos e também pecuária de corte. A Los Grobo foi a primeira empresa do setor a receber a certificação de ISO 9001 na Argentina, contemplando os segmentos de produção agropecuária e comercialização de grãos.
O Grupo cultiva mais de 70 mil hectares no país, sendo que 35% da área com soja, 25% com trigo e o restante com milho e girassol, comercializa 400 mil toneladas de grãos, insumos para 100 mil hectares, além de 10 mil cabeças de gado de corte que também fazem parte das atividades do grupo e representam 7% do faturamento anual de US$ 100 milhões.
Segundo Miguel Jové, um dos pesquisadores do INTA de Venado Tuerto que recebeu o grupo do Agrotur, o arrendamento, uma das características do modelo de produção argentino compreende 80% das terras cultiváveis no país e seu custo gira em torno de 23-27 sacos de soja/ha. O tamanho médio das empresas agrícolas na região é de 75 hectares, as pequenas propriedades possuem cerca de 50 ha e tendem a desaparecer, sendo absorvidas pelas de maior porte, como as médias que possuem de 50 a 500 ha e correspondem a 80% do total e pelas consideradas grandes, com mais de 500 ha. De acordo com o pesquisador, houve nos últimos anos forte variação no preço das terras preferenciais ao cultivo, o custo passou de US$ 3.000 para US$ 6.500/ha devido à alta demanda. Em função do sistema de produção que contempla arrendamento das áreas e terceirização dos serviços, a agricultura tem atraído investidores de outros segmentos que identificaram a atividade como uma opção rentável.
Para o vice-presidente da Cooperativa Cotrijal, Jairo Kohlrausch, a viagem possibilitou aos produtores conhecer e avaliar a agricultura argentina de forma crítica e com base em informações concretas. Para ele, considerando que 60% da produção agrícola do país está nas mãos de profissionais e investidores de outras áreas, revela que o agricultor argentino não possui representatividade e, por isso perde a força. Sílvio Biasuz, Gerente de Distribuição Aliança da Syngenta, afirma que o mais importante em programas como esse é reunir informações e comparar o próprio desempenho em relação aos concorrentes, buscando superá-los. Para o representante técnico de vendas da Syngenta, Luciano Marquetti dos Santos, que acompanhou o grupo de produtores da Cotrijal, conhecer mais sobre um concorrente como a Argentina permite a elaboração de estratégias para que o produtor brasileiro seja mais competitivo.
Plantio Direto na Argentina
Os produtores argentinos começaram a utilizar o plantio direto na década de 1980 e em 1989 fundaram a AAPRESID (Associação de Produtores de Siembra Directa). Nesse período a área sob o sistema era de três mil hectares divididos entre os 23 produtores fundadores. Na safra 2003/2004 foram plantados 16 milhões de hectares em plantio direto, mais de 50% da área agrícola Argentina e a produção passou de 30 para 70 milhões de toneladas/ano.Segundo Victor Trucco, presidente honorário da AAPRESID, o plantio direto mudou a classificação dos solos argentinos, anteriormente considerados: ”aráveis” ou ”não aráveis”. Propriedades tidas como não produtivas em função dos solos ”não aráveis”, hoje apresentam grandes produções porque passaram a ser ”sembrables” (aptas para plantio).