Cenário de estoques elevados e preços baixos para 2005
Flávio GassenEng.-agr., Supervisor Técnico Cooplantio - E-mail: flavio@agri.com.br
SOJA
A cultura da soja tem ocupado cada vez mais espaço na participação da alimentação mundial. Considerando que o consumo global dos principais grãos somados (arroz, milho, soja, trigo e forrageiras) registrou aumento de 1,61% ao ano, nos últimos 13 anos, a soja foi recordista com a marca de 5,13 % a.a. Esta taxa de crescimento é muito significativa, pois o milho atingiu somente 2,36% a.a., em seguida surge o arroz com 1,35% e por último o trigo com 0,84% a.a. Há uma clara substituição do trigo e do arroz, que ficaram abaixo da taxa da soma dos grãos e a soja é a vedete desta grande mudança. Se, de um lado o consumo mostra um futuro interessante para a oleaginosa, de outro, a taxa de aumento da produção supera esta marca e atinge 5,69% a.a. Sem dúvida é um alento para o consumidor, mas temerário na ótica da produção que torna o mercado muito sensível ao excesso de oferta e seria gerador de um novo semi-ciclo de baixa nos preços.
Segundo o relatório de janeiro do USDA (Departamento de Agricultura dos EUA), a produção mundial da soja poderá atingir 230,8 milhões de toneladas para o ano comercial 2004/05 (set/2004 a ago/2005). Problema não haveria, se o consumo seguisse o aumento da oferta, no entanto, está previsto somente 208,3 milhões de toneladas de consumo, resultando, assim, num estoque final de 60,8 milhões de toneladas e recorde na relação estoque final/consumo mundial, com 29,2%, segundo o USDA (figura 1). Este índice é superestimado, pois considera como ano-comercial para o Brasil e Argentina o período de out-set, assumindo que ainda há estoques significativos no período de setembro a março, quando inicia a colheita no hemisfério sul. Assim, a relação estoque final/demanda brasileira, segundo a CONAB, está projetada em 10,3% para o ano safra 2004/05, muito abaixo dos 29,2% mundial e 40,3% para o Brasil, segundo o USDA, que é um absurdo. Se, por um lado é inferior ao previsto pelo USDA, por outro lado, está acima do registrado desde a safra 1996/97, que é preocupante e fator de baixa nos preços (figura 2). Muitos são os comentários sobre a alteração no equilíbrio global da produção de soja, que agora possui como principal safra mundial a oferta dos países latino-americanos somados. No entanto, até agora a produção brasileira e argentina era ofertada na entre-safra mundial, pois a safra principal estava com os EUA e China. A desvantagem da safra sul-americana apresentar o status de principal no âmbito global será apresentada com prêmio negativo. Conforme a figura 3, somente na safra 1995/96 não houve pressão de baixa nos preços internos ocasionados pelo prêmio negativo em relação às cotações da Bolsa de Chicago (CBOT), apesar do seu amento na maioria destes períodos (setas vermelhas). Assumindo como normal a pressão de baixa provocada pelo prêmio negativo e que há uma expectativa de grande oferta no mercado internacional, onde os preços deverão permanecer na linha de suporte abaixo de US$ 10,00 /60 kg (figura 4), há margem para queda ainda maior dos preços internos. A política cambial poderia tornar-se um fator de sustentação dos preços internos se este se aproximasse da taxa cambial de paridade (ou real) que está na ordem de 3,52 R$/US$ em janeiro/05, contra 2,70 R$/US$ nominal na média de janeiro/2005 (Ptax venda). De um lado está a desvalorização do dólar no mercado internacional, principalmente em relação ao Euro e, se for considerado este fato, seria razoável o câmbio real entre 3,3 e 3,4 elevando os preços das commodities no mercado interno.
De forma retroativa, os preços da soja mantiveram-se abaixo de US$ 9,00 /60 kg em 2001 (figura 4), com estoque final/consumo mundial em 17,8% e no Brasil em somente 0,5%, ou seja, um cenário mais positivo do que o atual. O fator mais importante naquele momento foi a distorção cambial, onde a taxa nominal estava em aproximadamente 2,0 R$/US$ e a taxa real na faixa de 3,2 a 3,3 R$/US$, tornando-se apreciado em 0,20 a 0,30. No momento atual a distorção é maior e, se esta não for corrigida, os preços poderão ficar abaixo de R$ 25,00 /60 kg.
Possível aumento no consumo mundial poderia surgir da China, no entanto, para o ano-comercial 2004/05 (out-set) está estimada em 37,845 milhões de toneladas e 38,935 milhões de toneladas para 2005/06, segundo Shanghai JCI Co. Ltd. Os chineses tem clara intenção de reduzir seus estoques e já apontam a projeção de 6% na relação estoque final/demanda do país para 2005/06 e na estimativa de 2004/05 está em 9,9%, abaixo dos 11,3% estimados no final de 2004 para o mesmo período.
MILHO
É a primeira vez que a produção mundial de milho supera o consumo desde 1999/00 e, assim, foi estabelecida uma nova linha de suporte na relação estoque final/consumo mundial do cereal, que está no patamar de 16%, ou mais precisamente em 15,1 % em 2003/04 e 16,8 % na projeção de 2004/05. Historicamente, a relação estoque final/consumo mundial mantinha-se entre 25 e 31%, onde o primeiro representava pressão de alta e o segundo como gerador de pressão de baixa no mercado internacional, mas agora esta relação foi reduzida para aproximadamente 16%. Estes são os novos tempos de baixos estoques em um mundo cada vez mais globalizado para reduzir custos relacionados à alimentação.
Segundo a Conab, a produção brasileira deverá atingir 43,1 milhões de toneladas, pouco superior aos 42,2 milhões de toneladas da safra anterior, mas suficiente se for considerado que há expectativa de redução na demanda de 44,9 para 43,7 milhões de toneladas, que é nada desejável.
A taxa cambial valorizada desfavorece as iniciativas de exportação do grão e somente sua depreciação poderá alterar significativamente a projeção de demanda e gerar pressão de alta nos preços internos. Independente da política cambial, a relação estoque final/demanda nacional do milho projetada para 2004/05 está em 8,9%, muito próximo ao da safra anterior (9,2%), mas dentro de uma condição de neutralidade em relação aos últimos cinco anos, ou seja, não resultará nem em pressão de alta, nem de baixa nos preços (figura 5). Por outro lado, os preços atuais já estão na linha de suporte em relação ao seu valor histórico no mercado (preço deflacionado pelo IGP-M), conforme figura 6. Considerando que a pressão de baixa gerada pela safra está começando e que o câmbio está muito valorizado em relação à taxa cambial de paridade, seria razoável um cenário semelhante ao ocorrido na safra 2001, onde os preços caíram para R$ 12,00 por saca aos preços de hoje (deflacionado pelo IGP-M), conforme figura 6.
Os baixos preços atuais desestimularam o plantio do milho, levando a redução de aproximadamente 7,5% na área do grão no estado do Paraná e de 9,3% abaixo da safra anterior na região Centro-Oeste. Redução que poderá ser acentuada na safrinha e diminuir a projeção do estoque nacional. No RS já há queda no rendimento devido a estiagem que assolou a região norte e noroeste. Considerando estes fatos, provavelmente haverá redução na projeção de oferta e recuperação nos preços logo após a pressão de baixa oriunda da colheita e câmbio apreciado.
TRIGO
Conforme os demais grãos, os preços do trigo também encontram-se na linha de suporte (figura 8) e não apresentam um cenário positivo se a taxa cambial continuar apreciada, principalmente com a projeção do estoque final de 1,58 milhões de toneladas para 2004/05, resultando na relação estoque final/demanda na ordem de 15,3%, ou seja, praticamente o dobro da registrada desde a safra 1996/97 (figura 7).
Se for considerada somente a relação estoque final/demanda nacional, seria razoável afirmar que com esta relação variando de 7 a 9% haveria manutenção dos preços na faixa de 20 a 25 reais/60 kg, conforme as figuras 7 e 8, ou seja, entre a linha de suporte e de resistência. A forte elevação dos preços no final de 2002 deve-se à desvalorização cambial combinada com a relação estoque final/demanda de 6 a 5,4%, totalmente oposto ao cenário atual.
Os preços FOB nos portos argentinos registraram forte queda desde abril de 2003, passando de 9,57 dólares/60kg para US$ 6,45 /60kg na média de janeiro/2005, contra US$ 7,30 pagos ao produtor paranaense e US$ 9,42 nos portos do Golfo dos EUA e US$ 7,45 pagos ao produtor dos EUA. Isto posto, indica que os preços praticados tanto na Argentina como no Brasil estão numa posição inferior aos dos norte-americanos, situação inversa à histórica.
Dados estatísticos da China obtidos da Shanghai JC Intelligence Co., Ltd. - www. jcichina.com
Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição nº 85, janeiro/fevereiro de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo.