Produzindo palha e pasto na época de seca no Cerrado
Daniel de Castro Rodrigues1 & Anderson Lange21Engenheiro-agrônomo, M.S. em Ciência Animal e Pastagem (ESALQ-USP), Piracicaba, São Paulo.E-mail: dcrodrig@esalq.usp.br. 2Engenheiro-agrônomo, Doutorando, Centro Energia Nuclear na Agricultura (CENA-USP), Piracicaba, São Paulo.E-mail: alange@cena.usp.br. 1. Introdução
A competitividade dos sistemas agrícolas de produção leva o produtor a investir em tecnologias e gerenciar suas propriedades, tratando-as como empresas agrícolas. Não é novidade que os sistemas de produção de leite e de carne explorados de forma extensiva estão entrando em colapso, e, sendo substituídos por atividades onde o aporte de tecnologia tem permitido maior lucro e competitividade no mercado globalizado.
Em algumas regiões do Cerrado, áreas já estabelecidas com pastagens têm sido consideradas ideais para o avanço da agricultura e, gradativamente, estão sendo substituídas por lavouras de cana-de-açúcar, milho, algodão e soja. Isto acontece principalmente pelo descaso que muitos produtores tem com as pastagens que, durante anos de exploração sem reposição alguma, de forma extensiva, tornam-se degradadas e improdutivas, levando a queda nos índices zootécnicos do rebanho e liquidez da atividade. Ou seja, a pastagem não é tratada como uma cultura comercial, como se na mesma não houvesse a necessidade correções ou adubações no decorrer dos anos.
Uma alternativa que tem despertado interesse e possibilita alavancar os sistemas de produção animal é a integração lavoura-pecuária. A integração tem sido motivo de discussão entre técnicos e produtores e, já têm mostrado resultados promissores no campo.
Neste contexto, sabe-se que uma das maiores dificuldades encontradas pelos agricultores da região do Cerrado que optaram pelo uso do sistema de semeadura direta tem sido a formação de palha sobre o solo após a retirada da cultura de verão. Este problema deve-se principalmente pela ausência de chuvas no período que segue a colheita da cultura de verão, pela pouca adaptabilidade e reduzido número de espécies destinadas a esta prática. Neste intuito, a integração tem trazido resultados importantes como os que seguem:
Descompactação das camadas superficiais do solo, permitindo maior infiltração de água e aprofundamento das raízes;
Melhora da fertilidade do solo pelo uso de corretivos e fertilizantes;
Lucro extra para o produtor com a venda de grãos e reforma dos pastos a custo reduzido;
Acúmulo de biomassa (pastagem) para o período de entressafra (seca), que acontece após a colheita da cultura de verão;
Aumento da produção e da produtividade do rebanho, que tem a seu dispor forragem de qualidade no período seco do ano;
Aumento da capacidade suporte das pastagens e redução no uso de suplementos (farelos) para os animais;
Maiores produções de carne, leite e bezerros, uma vez que será disponibilizado alimento (pasto) de melhor qualidade para os animais;
Formação de cobertura vegetal (palha) para a semeadura direta da próxima safra;
Aumento dos teores de matéria orgânica com todos os seus benefícios ao solo.
Deve-se ainda ter em mente que a chave para o sucesso de um empresário rural é, além estar constantemente atualizado com as novas tecnologias, diversificar sua produção, pois o mercado é instável. Desta forma, o pecuarista pode utilizar o sistema de integração para reformar pastagens ou, um agricultor pode também utilizar a técnica da integração para produzir palha e, dentro de suas possibilidades, alimentar um rebanho na seca, quando houver alta disponibilidade de pasto, fruto da cultura escolhida para produzir palha. Ou seja, as duas atividades podem complementar-se e, com isto aumentar a renda tanto do pecuarista como do agricultor.
A semeadura direta é a ferramenta perfeita para viabilizar a integração, baixando os custos, reduzindo a necessidade de máquinas e mão-de-obra, e conseqüentemente de capital mobilizado, tornando mais fácil a semeadura nos momentos decisivos, além de diminuir o uso de agrotóxicos.
O assunto aqui abordado trata de uma experiência de campo bem sucedida com resultados promissores, onde objetivos como a produção de palha para cobrir o solo e abundância de pasto no período de seca, quando comparada a áreas adjacentes, tornaram-se realidade, mesmo nas condições de ausência de chuva que prevalecem na região neste período.
O procedimento adotado consiste na semeadura conjunta de uma cultura anual produtora de grãos com a gramínea forrageira de interesse. As culturas mais indicadas para o consórcio são o milho, sorgo e arroz, sendo as gramíneas do gênero Braquiária as que mais se adaptaram ao sistema para produção de pasto e palha. O consórcio da pastagem com milho, sorgo ou arroz, é um tanto quanto simples, porém o pecuarista, que geralmente possui pouca experiência no cultivo de espécies produtoras de grãos, deve ter atenção redobrada às etapas da integração. Havendo dificuldades para iniciar o processo, o mesmo pode associar-se a agricultores especializados, através de arrendamento de áreas ou parcerias onde o uso racional da terra é o objetivo comum e sempre que possível, consultar o engenheiro agrônomo que possua conhecimentos em relação a este tipo de manejo.
1.1. Preparo do solo
A integração lavoura-pecuária tem como premissa a sustentabilidade dos sistemas de produção (pecuária e agricultura) deste modo, o produtor que optar por tal sistema de manejo em sua propriedade deve consultar um especialista e elaborar um plano detalhado de condução do sistema em sua propriedade. Este plano requer uma divisão dos pastos da propriedade em diversas glebas e, instalar o sistema de integração gradualmente, reformando ano a ano os pastos, até atingir toda a área. Neste sentido, a análise do solo nas camadas de 0-20 e 20-40 cm é primordial para conhecer a fertilidade do solo, a disponibilidade de Ca e toxidez de Al em profundidade. Estas, se detectadas, devem ser corrigidas pela aplicação de calcário o mais profundo possível e, se necessário, pela aplicação do gesso agrícola que elevará os teores de Ca e S em profundidade, o que possibilitará o aprofundamento do sistema radicular das culturas instaladas (pasto ou grãos), conferindo resistência aos veranicos e ao déficit hídrico que ocorre na região. É bom lembrar que quando a amostra de terra for enviada ao laboratório credenciado, deve ser requerida a análise completa de macro e micronutrientes, além da análise textural (aplicação do gesso requer tal análise), pois este conjunto de informações facilitará o profissional capacitado a diagnosticar o estado atual da fertilidade do solo e assim recomendar corretivos e fertilizantes, com base nos teores do solo. Cabe salientar que as culturas de grãos a serem implantadas requerem, na maioria das vezes, a aplicação de micronutrientes como B e Zn, entre outros.
Sabe-se que uma das características dos solos do Cerrado é a baixa disponibilidade de fósforo (P) e a alta capacidade de fixação do mesmo. Deste modo, deve-se construir a fertilidade do solo. Elevar os teores de P a níveis adequados numa única aplicação, no momento da abertura da área requer altos investimentos. Por outro lado, convencer um pecuarista introduzir o sistema de integração e realizar tal procedimento no primeiro ano é inviável. Desta forma sugere-se a correção gradual dos teores de P. Após análise do solo, estabeleceu-se que doses menores que 100 kg ha-1 de P2O5 podem ser aplicadas no sulco de semeadura, sem a necessidade da fosfatagem corretiva prévia a semeadura (Sousa et al, 2004). Caso haja a necessidade da fosfatagem corretiva, a mesma pode ser realizada aplicando-se a dose recomendada para correção parceladamente, durante alguns anos (3-5), de modo a elevar os teores de P de forma menos onerosa ao produtor. Ou seja, aplicar a dose de P necessária à manutenção da cultura anual mais a parcela da dose da adubação de correção.
O produtor deve ter em mente que o solo é a base de todo o sistema, e investir na melhoria das características químicas e físicas do mesmo trará resultados positivos a curto e em longo prazo. Corrigido o solo, após aração e gradagem, os preparativos para a semeadura são os convencionais (Figura 1). O preparo convencional do solo deve ser realizado somente no primeiro ano de cultivo, e após a primeira colheita adota-se o sistema de semeadura direta, rotacionando pasto e grãos na área, ou após elevar a fertilidade, perenizar a pastagem.
1.2. Semeadura
É nesse ponto que o produtor deve ficar atento. Uma semeadura bem feita, com estande ideal garante, em grande parte, o sucesso da integração. Nota-se em muitas propriedades, principalmente para os pecuaristas ”iniciantes” nos sistemas de integração, um certo descaso com essa parte que é fundamental do processo. Detalhes como uso de semeadoras sem manutenção, desreguladas, sementes de baixa qualidade (tanto da cultura anual como da pastagem), ausência do tratamento das sementes (inseticidas e fungicidas), dentre outros podem prejudicar a funcionalidade do sistema e desestimular o produtor a adoção desta nova tecnologia. Cada cultura (milho, arroz, soja, sorgo) tem sua peculiaridade no consórcio, e não há receita a ser seguida.
1.3. Culturas indicadas
De maneira geral, pode-se consorciar o capim com a maioria das culturas comerciais produtoras de grãos. No entanto, cuidados especiais com a escolha do cultivar devem ser tomados. Características como porte da planta, altura de inserção da espiga (milho), ciclo da cultura, exigência em fertilidade do solo, dentre outras devem ser avaliados por um técnico com experiência no processo. Mesmo no caso do uso de herbicidas para o controle do capim (sub-doses), deve haver uma análise prévia, consultando a existência ou não de herbicidas seletivos para a cultura de grãos a ser instalada.
2. Resultados de campo
Os resultados aqui apresentados referem-se a um trabalho de integração lavoura-pecuária realizado na fazenda Santa Clara, no estado de Goiás, município de Uruana. Na região, a principal atividade é a pecuária de corte extensiva. Observa-se ainda que poucos produtores investem em reformas de pastagens, fato este comprovado pelo estado das mesmas no período da seca (baixa capacidade suporte, gado magro ao final da seca e pastagem degradada).
A propriedade, no ano 2000, caracterizava-se por pastagens degradadas, baixos índices zootécnicos e criação extensiva de vacas nelore para a produção de bezerros (atividade de cria). O solo do local é um Latossolo vermelho distrófico, textura média (350 g kg-1 de argila), apresentando, no início dos trabalhos de integração, a seguinte composição química para camada de 0-0,2 m (Quadro 1).
Quadro 1. Composição química de um Latossolo no estabelecimento de um sistema de integração lavoura-pecuária, em Uruana-GO.
Mat. Orgânica
P Mehli.
K
Ca
Mg
Al
H+Al
Sat. base
--- g kg-1 ---
pH(CaCl2)
mg dm-3
-------------- cmolc dm-3 -------------
----- % -----
13,0
4,4
2,9
0,2
1,4
0,5
0,2
3,6
35
Como se trata de um solo de baixa fertilidade natural, característico do Cerrado brasileiro, no processo de integração, após a análise de solo, foi realizada calagem de acordo com as necessidades e implantadas as culturas de interesse.
2.1. Milho e Sorgo
O milho é uma dos cereais mais indicados para a consorciação, principalmente devido ao grande número de herbicidas seletivos para a cultura o que facilita o controle do capim diminuindo assim a competição entre milho-pasto. Nesse caso, o produtor deve ficar atento para eventuais problemas na colheita devido à agressividade das gramíneas do gênero braquiária, que em períodos de crescimento relativamente longos (ciclo do milho) adquirem altura elevada dificultando a colheita. Nesse caso, o uso de sub-doses de herbicidas e adubação de cobertura em momento estratégico é indicado. É importante ressaltar que o objetivo deste consórcio não é somente a obtenção de uma boa pastagem para o gado no período da seca, mas também palha residual para cobrir o solo para a próxima safra (figura 2). Para o estabelecimento da cultura do milho foram utilizados 350 kg ha-1 da fórmula 04-30-10 e na cobertura nitrogenada aplicados 70 kg ha-1 de N como sulfato de amônio. A espaçamento entre as plantas de milho foi de 0,9 m. A semente do capim foi misturada ao adubo (04-30-10) e após a semeadura do milho, repassou-se a semeadora semeando uma mistura de semente de Brachiaria brizantha cv. Marandu e superfosfato triplo na entrelinha do milho. Após as plantas de milho atingirem altura entre 0,2-0,3 m foi realizado o controle das plantas invasoras com uma mistura de herbicidas pós-emergentes em uma dosagem que controlou as invasoras de folha larga e apenas reduziu o crescimento das plantas de brachiaria diminuindo a competição e facilitando posteriormente a colheita.
Para a cultura do sorgo, o controle do pasto com herbicida não é recomendado (faltam herbicidas seletivos para o sorgo) sendo que o consórcio é mais indicado quando o produtor pretende produzir silagem. Para o estabelecimento da cultura do sorgo foram utilizados 350 kg ha-1 da fórmula 04-30-10 e na cobertura nitrogenada aplicados 60 kg ha-1 de N como sulfato de amônio. O espaçamento entre linhas foi de 0,7 m (10-12 plantas m-1). A semente do capim foi misturado ao adubo 04-30-10 e também semeada na entrelinha do sorgo misturada ao superfosfato triplo. Na fazenda Santa Clara, no ano de 2003, mesmo com a baixa fertilidade do solo, obteve-se produções de até 36 toneladas de massa verde de sorgo por hectare (figura 3).
O sistema de integração quando bem manejado pode proporcionar ao produtor rural diversificação da renda, além de oferecer cobertura do solo no período de entressafra e pasto para gado, mesmo após o corte da cultura para ensilagem (figura 4). Além disso, existe um adicional da reforma da pastagem a custo reduzido, com alimentação para o gado na seca.
2.2. Arroz
Em muitos casos a cultura do arroz tem sido usada com sucesso na abertura de áreas para posterior implantação da cultura da soja na região do Cerrado. De fato este cereal comporta-se muito bem em solos novos, onde a fertilidade ainda não atingiu níveis elevados. Outro fator que colabora para uma boa produtividade do arroz em áreas novas é a forma de disponibilização do N, oriundo da decomposição da matéria orgânica presente no solo.
A melhor maneira de se consorciar arroz-pastagem vai depender de diversas características da propriedade (máquinas e equipamentos, tipo de solo) e do cultivar escolhido para se semear (porte, ciclo, competição, etc). Para o estabelecimento da cultura do arroz (cultivar Talento) foram utilizados 400 kg ha-1 da fórmula 04-30-10 e, na cobertura nitrogenada aplicou-se 50 kg ha-1 de N na forma de sulfato de amônio, o espaçamento entre plantas foi de 0,17 m com uma densidade de semeadura de 40-50 plantas m-1. Após as plantas de arroz atingirem altura de 0,2 m, o capim Marandu foi semeado nas entrelinhas com espaçamento de 0,35 m entre linhas (figura 5). Para isso, utilizou-se uma mistura de superfosfato triplo e sementes de Marandu. A adubação nitrogenada foi antecipada visando favorecer o crescimento e desenvolvimento do arroz. Nesse sistema obteve-se produtividade de 3.000 kg ha-1 de arroz e pasto verde para produzir carne na entressafra.
Além de todos os benefícios acima citados, deve-se considerar que o solo é um meio vivo, onde se encontram diversos organismos que podem ser prejudicados pelo estresse imposto. A cobertura permanente do solo é o modo mais eficiente de reduzir as condições adversas provocadas pela ação antrópica. O sistema de integração ou apenas a semeadura da gramínea como planta de cobertura na entrelinha da cultura principal em momento adequado traz diversos benefícios como: cobertura permanente do solo, diminui as perdas de umidade para o meio, redução do risco de erosão no início das chuvas (figura 6), melhores condições à biota do solo, pela redução das oscilações de temperatura e umidade e principalmente, pela ausência de revolvimento.
3. Considerações Finais
A dificuldades dos pecuaristas em manter suas pastagens e rebanhos produtivos é sobretudo, função dos sistemas de exploração pouco tecnificados e carentes de informações atualizadas, característica de muitas propriedades. Nos últimos anos, o sistema agropecuário passou por mudanças tecnológicas surpreendentes. Nesse sentido o uso de insumos, investimentos em recuperação e conservação do solo, agricultura de precisão, melhoramento genético animal e vegetal, dietas balanceadas na engorda de bovinos, dentre outras, tornou o país um dos maiores produtores de cereais e carne bovina do mundo.
Apesar de em 2003 o Brasil ter alcançado o posto de maior exportador mundial de carne bovina, superando Austrália e EUA, esse crescimento foi em grande parte, devido abertura de novas áreas para as pastagens (crescimento horizontal). Ao contrário, a agricultura tem crescido verticalmente ou seja, tendo aumentos em produção e produtividade. A integração das duas atividades torna-se, desse modo, interessante para ambos lados do segmento agrícola. O pecuarista se beneficia da maior produtividade de suas pastagens, redução do uso de suplementos, aumento da capacidade de suporte dos pastos e melhora nos índices zootécnicos. O agricultor diminuindo os problemas com erosão do solo, produzindo palha para a semeadura direta, aumentando os teores de matéria orgânica do solo, e tendo como conseqüência, maior CTC, complexação do Al tóxico, além dos diversos benefícios que as pastagens trazem (maior aeração e infliltração de água no solo) quebra de ciclo de pragas e doenças e uso racional da terra.
Bibliografia
SOUSA, D.M.G.; LOBATO, E.& REIEN, T.A. Adubação com fósforo. In: SOUSA, D.M.G. & LOBATO, E. (Ed.). Cerrado: Correção do solo e adubação. 2 ed. Brasília, DF. Embrapa Informação Tecnológica, p. 147-168, 2004.
Dados para referências bibliográficas:
Revista Plantio Direto , edição nº 83 – Setembro/Outubro de 2004. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.