Julus hesperus (Pragas - piolho-de-cobra)


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Publicado em: 01/10/2004

”Julus hesperus” um inimigo potencial para cultura da Soja

Otávio Nakano1 & José Antonio Annes Marinho21Professor Doutor Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiros – ESALQ, SPE-mail - onakano@esalq.usp.br 2Engenheiro Agrônomo, Registro de produtos FMC Agricultural ProductsE-mail - jose_annes@fmc.com

A diversidade e evolução de espécies como pragas reais, potenciais ou emergentes e a amplitude geográfica onde se cultiva soja e se adota o sistema de plantio direto, bem como o crescimento do cultivo de safrinhas no Brasil, somados às dificuldades inerentes ao estudo e ao controle de novas pragas, exigem racionalização de esforços e investimentos crescentes e regionalizados. Um dos grandes desafios é a solução dos problemas em plantio direto sem necessidade de abandonar o sistema, que tem proporcionado muitos benefícios à agricultura brasileira.

A crescente expansão da área plantada de soja traz à tona um problema para o produtor: a incidência de pragas de solo. No Cerrado do Mato Grosso, Goiás, Maranhão e Piauí, por exemplo, encontram-se pragas como a lagarta elasmo (Elasmopalpus lignosellus), o percevejo-castanho (Atarsocoris braquiariae), entre outras. Pragas que em passado recente eram consideradas secundárias e devido à expansão das áreas de soja no Brasil, tornaram-se importantes economicamente.

A presença de ”pragas emergentes” está se tornando mais comum em lavouras de soja no Brasil. O piolho-de-cobra (Julus hesperus), larvas de corós (Phyllophaga cuyabana) e grilos (Anurogryllus muticus), dentre outras, têm exigido esforços concentrados para o controle, principalmente em lavouras onde se adota o sistema de plantio direto. Na região Sul o desenvolvimento do piolho-de-cobra (Julus hesperus), praga que surge devido à abundância de cobertura morta (palhada) e ausência de revolvimento de solo, tem sido um problema nas lavouras.

Os piolhos-de-cobra são denominados diplópodes por apresentarem dois pares de pernas em cada segmento do corpo, as fêmeas podem ovipositar mais de 200 ovos. A presença do piolho-de-cobra causa preocupação principalmente pela época de ataque, que acontece no inicio do estabelecimento da cultura da soja, e também, em função do aumento da incidência da praga que se espalha em várias regiões produtoras, principalmente no Oeste e Norte do Paraná e no Estado do Mato Grosso do Sul. As perdas causadas pelos piolhos-de-cobra estão associadas aos períodos de seca, causando reboleiras nas lavouras, podendo chegar a danos severos de 40% na redução de estande, com necessidade, muitas vezes, de replante das áreas afetadas. Nas lavouras de plantio direto, a praga se concentra no sulco de semeadura em função do solo descompactado que facilita a penetração e a proteção contra fatores adversos; outro fato importante é que esta praga alimenta-se muitas vezes à noite dificultando ainda mais o controle com inseticidas aplicados em área total.

Como o piolho-de-cobra ataca principalmente as sementes, causando redução no estande da lavoura, a solução para o seu controle está no tratamento de sementes antes do plantio. Algumas observações já realizadas estabelecem que o numero de 5 piolhos-de-cobra/m já causam prejuízo na cultura da soja (Lopes, 2002).

Alguns resultados de pesquisa mostram que o tratamento de sementes é uma ferramenta importante para o sucesso e manutenção do estande contra pragas de solo como o piolho-de-cobra (Julus hesperus) tabela 1. (Fonte: Ivan Cruz, 2003)

Tabela 1. Número de plantas estabelecidas de soja com sementes tratadas com diferentes inseticidas, 2003.

Dose/100 kg

Número de plantas/parcela

Tratamentos

semente

R1

R2

R3

R4

Média*

%

Testemunha

161

155

157

149

155,50b

100,0

Carbosulfan

1000 ml

192

174

168

181

178,75a

114,9

Thiametoxan

100g

175

166

162

169,50a

109,0

* Media submetidas ao teste de Duncan a 5%

Os resultados da Tabela 1 mostram que nos testes realizados, o tratamento de sementes resultou em 9% e 14,9% de plantas a mais em relação à testemunha, a avaliação aconteceu 20 dias após a germinação. Com este cálculo matemático simples, é possível verificar os benefícios do tratamento de sementes como por exemplo: em 1 hectare temos 22.222 metros de fileiras de soja. Com os tratamentos de sementes, média de dois tratamentos, obtém-se 17,4 plantas/m. Diante disso, com a multiplicação: 22.222/metros x 17,4 plantas/m = 386.600 plantas/ha. Já na testemunha, aplicando os mesmos cálculos os resultados foram de 344.450 plantas/ha, ou seja, 42.150 plantas/ha a menos onde a semente não foi tratada com inseticida.

A Tabela 2 apresenta a produtividade em grãos/ha. Os resultados mostram que os tratamentos com Carbosulfan e Thiametoxan, tiveram incremento de produção na ordem de 477,5 kg/ha e 326,2 kg/ha de grãos, respectivamente, o que em sacas de 60 kg equivale a 7,95 e 5,43 sacas/ha a mais com sementes tratadas em relação às sementes não tratadas, o que demonstra a importância da proteção de estande, que em anos anteriores não era utilizado e hoje é uma ferramenta importante no manejo de pragas-de-solo na cultura da soja.

Tabela 2. Rendimento de grãos com diferentes inseticidas no tratamento sementes na cultura da soja, 2003.

Dose/100 kg

Rendimento de grãos/ha

Tratamentos

semente

R1

R2

R3

R4

Média

Testemunha

2370

2530

2600

2450

2487,5b

Carbosulfan

1000 ml

2950

3030

2940

2965,0a

Thiametoxan

100g

2640

2890

2765

2960

2813,75a

* Médias submetidas ao teste de Duncan 5%

Atualmente o número de produtos registrados para controle pragas-de-solo é muito pequeno. Existem somente três ingredientes ativos registrados no Brasil que estão dispostos na Tabela 3.

Tabela 3. Produtos que possuem registro para controle de piolho-de-cobra (Julus hesperus).

Ingrediente Ativo

Marca comercial

Dose P.C.100 kgde semente***

Custo tratamento sementesem sacas de soja/ha**

Carbosulfan*

Fenix

0,8 L

0,59

Thiometoxan

Cruiser 700 WS

50 g

1,08

Fipronil

Standak

100 ml

1,10

* único produto com registro no MAPA para Julus hesperus – (Piolho-de-cobra)** custo saca de soja R$ 34,50 (média) Estados - Brasil. Fonte Carlos Cogo, Outubro, 2004.*** Doses usuais de campo.

A indústria de agroquímicos oferece opções para o controle de pragas-de-solo que atacam a cultura da soja, através do tratamento de sementes ou tratamento no sulco de semeadura com produtos em formulações granuladas e líquidas que atendem as necessidades dos produtores.

Sabe-se que a cultura da soja tem importante papel no agronegócio brasileiro, principalmente em função das exportações que crescem a cada ano, mostrando um horizonte promissor para a agricultura do país. Isto fica evidente quando se observa a presença de tecnologia nas propriedades rurais, através do profissionalismo do agricultor brasileiro, nos cuidados com manejo de pragas, doenças e plantas daninhas, na adoção do plantio direto, e na responsabilidade com questões relacionadas à segurança, ao meio ambiente e ao uso correto de agroquímicos.

Literatura Consultada

LOPES, M.C. Piolho de cobra (Julus spp.). In: Cooperativa Central Agropecuária de desenvolvimento Tecnológico e Econômico – COODETEC/BAYER CropScience. Pragas emergentes em soja. COODETEC/BAYER CropScience, 2002, p.05-06 (Encontro Técnico 1).EMBRAPA. Recomendações técnicas para a cultura da soja no Paraná. Londrina: EMBRAPA-CNPSo/OCEPAR, 2000.FNP Redução na lucratividade exige atenção. In: NAKAMAE, I.J.; PASTRELLO, C.P. [ed.] Agrianual 99: Anuário da agricultura brasileira. São Paulo: Editora Argos Comunicação. P.448-483, 1999.Revista Panorama Rural, volume 4, P.26-27, 2004.

Dados para Referências Bibliográficas:Revista Plantio Direto edição nº 83, Novembro/Dezembro de 2004. Aldeia Norte Editora - Passo Fundo - RS