Estratégias de manejo visando o aumento de competitividade e sustentabilidade na produção
Valmir MenezesEngenheiro-agrônomo, Instituto Rio-Grandense do Arroz,Caixa Postal 29, 94930-030, Cachoeirinha, RS. E-mail: irgafito@via-rs.com.br
Na safra 2003/04, foram implantados pelo Instituto Riograndense do Arroz (IRGA) 282 lavouras de ”Projeto Dez” em uma área de 11.819 ha em diferentes municípios da região arrozeira do Rio Grande do Sul. O objetivo do trabalho é obter alta produtividade na cultura do arroz, com o menor custo de produção e impacto ambiental possível. Esses objetivos são vitais para que os rizicultores gaúchos tenham capacidade de competitividade frente aos demais produtores de arroz de outras partes do Brasil e do mercado externo.
Pode-se afirmar que os resultados foram muito bons. Várias lavouras produziram mais de 10 t ha-1. Quatro lavouras produziram mais de 11 t ha-1. A de maior produtividade foi uma lavoura de Uruguaiana de 52 ha, cultivar BR-IRGA 410, que produziu 11.6 t ha-1. A segunda maior produtividade foi de uma lavoura de 87 ha, município de São Borja, cultivar BR-IRGA 409, que produziu 11,5 t ha-1.
Estes resultados evidenciam duas coisas importantes. Em primeiro lugar, estes bons resultados foram obtidos com cultivares que já estão no mercado há mais de 25 anos. Portanto, não há limitantes, em termos de cultivares, para que seja dado o salto de produtividade. Embora novos cultivares com maior potencial de produtividade, qualidade de grãos e estabilidade de produção serão sempre bem-vindas. Materiais que superem alguns estresses causados pelo ambiente, principalmente, com ciclo mais longo e tolerância ao frio na fase vegetativa, contribuirão em muito para alargar a época de semeadura e tornar a produção de arroz no Estado menos vulnerável às variáveis de ambiente.
Em segundo lugar, à medida que se produz 9, 10 e até 11 t ha-1, fica evidente que já se dispõe de tecnologia para produzir mais do que é produzido em termos médios na lavoura de arroz irrigado do RS. No entanto, cabe uma pergunta: nas lavouras que atingiram altas produtividades foram feitas coisas extraordinárias? Na verdade não. Os produtores fizeram coisas simples extraordinariamente bem feitas. Eles adotaram as recomendações propostas pelo ”Projeto Dez”.
Os pontos chaves desta tecnologia são: semeadura na época certa para que as plantas possam dispor da maior radiação solar possível na fase reprodutiva; controle precoce de plantas daninhas (3-4 folhas); irrigação também precoce, antes de iniciar o estádio de perfilhamento para que as plantas de arroz disponham das condições favoráveis do alagamento do solo para a cultura desde cedo; nutrição suficiente e equilibrada para atingir estes patamares de produtividade. Cabe um destaque especial para o momento da aplicação da uréia. Recomenda-se que 2/3 ou mais da uréia seja aplicada no seco antes da irrigação. O restante da uréia deve ser aplicado na oitava folha do colmo principal das plantas de arroz. Não esquecer que a adequação da área como drenagem, aplainamento, entaipamento antecipado, ect, é importante para semeadura na melhor época e o estabelecimento de um estande uniforme de plântulas em toda a lavoura e, é o começo da implantação de uma lavoura ”Dez”.
Entretanto, cabe salientar que nem todos os produtores que participaram do ”Projeto Dez” obtiveram produtividade alta. Estas diferenças entre os resultados obtidos devem-se entre em primeiro lugar a que o grau de adoção não se de dá mesma maneira entre os produtores. A adoção parcial da tecnologia leva a que os produtores também obtenham resultados parciais. Em agricultura não basta fazer algumas coisas certas. Para que alcance os melhores resultados é necessário que todas coisas sejam bem executadas. O que limitará o sucesso será aquilo que não foi feito ou foi executado de forma parcial. Outro fator que pode explicar a diferença entre resultados é o tempo de adesão ao Programa. Geralmente, os melhores resultados só são obtidos após duas ou três safras. De um modo geral, a lavoura necessita corrigir muitos fatores de base que interferem negativamente na implantação e desenvolvimento da cultura. Outro fator importante a ser conquistado é a equipe de trabalho. Se cada um não fizer sua parte os resultados não serão obtidos ou demorarão mais do que seria necessário.
Altas produtividades são um objetivo alcançável em muitas áreas. Entretanto, os produtores que desejam atingi-las precisam ser pacientes, devem dar um passo de cada vez. Não queiram atingir o limite em curto período. A maioria daqueles que atingiram esse objetivo, o fizeram com muita experimentação e também com alguns fracassos durante a jornada.
E vale a pena aumentar a produtividade? Esta é uma pergunta muito freqüente por alguns produtores. No mundo globalizado, mesmo aqueles setores da economia agrícola que estão voltados para o mercado interno, como a produção de arroz, sofrem com interferências das políticas adotadas por outros países, tanto no que diz respeito à compra de insumos como da concorrência através da entrada de produtos, muitas vezes com preços subsidiados. Por esta razão, se os orizicultores querem continuar na sua atividade necessitam buscar competitividade similar à obtida pelos países que atuam neste mercado. Além disso, o setor arrozeiro tem que ter a capacidade de competir com os outros setores agropecuários. Por exemplo, nas últimas duas safras os investimentos nas culturas da soja e do algodão são mais atrativos que o cultivo de ”arroz de sequeiro” na Região Centro Oeste do Brasil.
Com as constantes crises vividas pela orizicultura, nitidamente nas duas últimas décadas, os agricultores buscaram reduzir custos como uma forma de aumentarem a competitividade. Esta estratégia, para aqueles que não estavam com os custos ajustados, teve algum sucesso. No entanto, reajustados os custos de produção o que fazer para aumentar a competitividade da lavoura? Certamente, a melhor saída não será a redução de insumos que impliquem em menor produtividade. Também, não será a semeadura de grandes áreas com produtividades baixas. Os produtores com os melhores retornos econômicos, independentes de grandes, pequenos ou médios, são aqueles que estão com os custos ajustados e que tem uma produtividade alta. A análise dos itens do custo de produção do IRGA da safra passada revela que 60 a 70% dos itens deste custo não variam em função da produtividade (IRGA, 2002). Por exemplo, os custos com irrigação, herbicidas, sementes, combustíveis não são maiores se a produtividade for 5 ou 8 t ha-1. Pelo contrário, se forem utilizadas as recomendações da pesquisa é possível reduzir os custos destes itens. Pelas recomendações da pesquisa do IRGA, para incrementar a produtividade, o único item que teria o custo aumentado seria o de adubação. Outros itens que têm os custos ampliados são decorrentes da maior produção, tais como: custo de colheita, transporte, secagem, impostos e taxas.
Dados para referências bibliográficas:
Revista Plantio Direto , edição nº 83 – Setembro/Outubro de 2004. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.