Plantio direto: inovações técnicas
Márcio ScaléaEngenheiro-agrônomo da Monsanto, pesquisa o Sistema de Plantio Direto há quase 30 anos.E-mail: marcio.j.scalea@monsanto.com
A cada dia que passa, dentre os vários aspectos que caracterizam um bom plantio direto, ganha mais relevância o aspecto relacionado à obtenção de uma cobertura morta de qualidade. Uma boa palhada tem-se tornado importante pelo seu valor à lavoura e pela dificuldade que representa a sua obtenção em grande parte dos solos de Cerrado.
Conforme já tem sido levantado por muitos especialistas, pode-se afirmar que a grande maioria dos produtores do Cerrado faz um ”plantio sem preparo”, já que poucos se preocupam em produzir uma boa palhada, que é o ponto de partida para o plantio direto de qualidade. Esta dificuldade crônica em obter boas palhadas, todavia, está muito próximo de ser contornada com o advento de inovações técnicas que podem modificar este panorama no futuro, desde que o produtor médio se convença de que produzir palha não é custo, e sim investimento.
A falta de uma boa cobertura morta desemboca em sérios problemas para o plantio direto: excessiva proliferação de plantas daninhas e conseqüente aumento no custo de seu controle; deficiência no retorno de palha e matéria orgânica ao solo, levando-o a sofrer adensamento superficial; perda excessiva de umidade, pois a porosidade que facilita a infiltração da chuva também age como facilitadora da evaporação pela capilaridade etc.
A seguir estão algumas inovações com potencial de produzir mais e melhores coberturas mortas
Milho adensado
A simples redução do espaçamento entre linhas da cultura do milho, seja ela de verão ou de safrinha, já contribui para que a distribuição dos restos culturais após a colheita seja maior, com melhor distribuição espacial sobre o solo. Se considerarmos que o produtor que reduz o espaçamento geralmente o faz para melhorar a produtividade através do aumento da população de plantas por hectare, temos, então, um provável aumento da quantidade de palha produzida, com duplo benefício. Ainda, se considerarmos que um número crescente de produtores está fazendo uso do Sistema Santa Fé – ou similar, em que se procura consorciar o milho com algum capim, geralmente braquiária –, a redução do espaçamento do milho irá facilitar a formação do capim, se semeado junto com o adubo de plantio ou de cobertura, melhorando também a distribuição da palhada assim produzida.
Pelo que se tem visto no campo, os produtores estão optando por espaçamentos entre 50 e 60 cm, e há a possibilidade de uso da mesma plantadeira tanto para soja como para milho. A técnica otimiza o aproveitamento dos equipamentos e do tempo para adequá-los num momento crítico, como na época de plantio. Este espaçamento único para soja e milho traz também o benefício de um micro clima menos favorável à proliferação de doenças como a ferrugem da soja, alem de tornar mais fácil o trânsito de máquinas e pulverizadores para combater doenças, como a ferrugem e as de fim de ciclo.
Sistema Santa Fé
Como já citado, o Sistema Santa Fé, desenvolvido pela Embrapa Arroz e Feijão, é uma ferramenta muito valiosa no caminho da obtenção de boas palhadas. Para agricultores que já se preocupam em estabelecer um programa de Rotação de Culturas, fazendo o plantio de milho em rotação com a soja em porcentagens variáveis de suas terras, a consorciação de uma braquiária com a cultura do milho se apresenta uma excelente alternativa. Como o milho é colhido mais tarde e, logo após a colheita, o capim estabelecido se desenvolve muito rápido, uma ótima cobertura morta é gerada, que poderá ainda ser usada para pastejo. Da mesma forma, para as áreas em que se pretende explorar o milho safrinha, a consorciação com uma braquiária pode ser uma alternativa interessante, pois é conseguida uma produção de palha adicional junto ao milho que passa a ser uma excelente base para o plantio do próximo verão.
Tem sido usada a braquiária brizantha ou a ruziziensis, dependendo da situação e do sistema de semeadura. A brizantha precisa ser bem incorporada ao solo, prestando-se, então, para plantios junto com o adubo na semeadura ou em cobertura, sendo mais produtiva em matéria seca e resistindo melhor ao pisoteio por gado, mas exigindo doses maiores de Roundup para ser controlada. A ruziziensis dispensa incorporação profunda, e se desenvolve muito bem aplicada até a lanço, pura ou com o adubo. Produz um pouco menos de massa, mas, em compensação, é bastante sensível ao glifosato, sendo mais difícil de vir a praguejar uma terra, pois só produz semente uma vez ao ano.
Uso do correntão
Se, por um lado, o plantio de milheto pretende colaborar de forma definitiva para uma certa estabilidade do plantio direto no Cerrado, o método de semeadura adotado pela grande maioria dos produtores para esta cultura foi sempre questionado. Distribuir as sementes a lanço e depois incorporá-las com uma grade niveladora causava a impressão de um retrocesso. E isso foi demonstrado de forma bem clara pelo professor João Carlos de Moraes Sá, da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), ao fazer o balanço do carbono nestas operações: a biomassa produzida pelo milheto gerava uma quantidade de matéria orgânica menor do que aquela consumida pela gradagem que incorporou suas sementes. Foi um passo adiante e dois para trás. O mesmo professor tentou formas diferentes de se fazer a incorporação das sementes e uma delas foi o uso do correntão. Aquele mesmo correntão que derrubou muito cerrado, com algumas adaptações simples está se transformando numa grande inovação do Sistema de Plantio Direto, ao fazer a incorporação das sementes de culturas para cobertura morta sem os inconvenientes da grade e com um rendimento muito maior.
Braquiária: fonte de benefícios
O Sistema Santa Fé, com milho + braquiária, oferece um grande número de possibilidades no plantio direto, mas a semeadura de braquiárias após a cultura da soja, ou logo antes da sua colheita, na operação conhecida como sobressemeadura, permite oportunidades ainda maiores. Pela simplicidade, baixo custo e rapidez, a semeadura de braquiárias após a colheita da soja deverá ser, num futuro bem próximo, uma operação consagrada à produção de boas palhadas em quase todas as regiões do Cerrado. O grande gargalo, que era como incorporar as sementes sem usar uma grade, já foi solucionado com o uso do correntão, como foi dito acima. Por outro lado, a sobressemeadura de ruziziensis no momento em que a soja começa a ”lourar” promete ser outra revolução, já que essa espécie consegue se estabelecer mesmo com as sementes na superfície. A palhada de excelente qualidade, o hábito de vegetar, mesmo em plena estação seca com um mínimo de umidade, a reciclagem de nutrientes, o efeito supressivo para inóculos de muitas doenças, a supressão de outras plantas daninhas, tudo isso nos leva a crer do grande potencial das braquiárias como produtoras de palhada para o Plantio Direto.
Sorgos híbridos para produção de massa
Talvez esta seja a inovação mais recente, embora extremamente promissora. Ela se aplica não só ao Cerrado, mas a muitas outras regiões como parte do Paraná e de São Paulo, onde a temperatura limita o estabelecimento da cultura da aveia, por exemplo. Os híbridos de sorgo trazem a vantagem de sua grande precocidade, aliada à rusticidade e resistência à seca, possibilitando a produção de excelentes palhadas em menos de 30 dias. É um desempenho marcante, pois o milheto, que domina este segmento, até os 30 dias é muito lento em seu desenvolvimento e mormente, se houver alguma limitação de temperatura. O plantio das sementes do sorgo ”no pó”, já no fim da estação seca seria uma recomendação muito interessante, pois permitiria em poucos dias a dessecação e o plantio com boa palhada.
As inovações estão constantemente ocorrendo, o que é uma característica do Sistema de Plantio Direto, que a cada safra se reinventa e se reafirma, sempre no intuito de produzir sem degradar.
Dados para referências bibliográficas:
Revista Plantio Direto , edição nº 83 – Setembro/Outubro de 2004. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.