O preço dos grãos se aproxima da linha de suporte
Flávio GassenEngenheiro-agrônomo, Supervisor Técnico Cooplantio - E-mail: flavio@agri.com.br
SOJA
A sensibilidade da economia internacional em relação a disponibilidade dos grãos está alterando-se progressivamente em busca da maior eficiência e redução dos estoques. O custo do alimento estocado é muito elevado e apresenta grande influência na eficiência econômica de uma nação. Assim, como há uma busca global no aumento da competitividade, a relação estoque/demanda de qualquer país tem apresentado fraca relação com a pressão nos preços internos. Como exemplo pode ser citada a relação estoque/demanda da China que atingiu cerca 55% na safra 95/96 e a partir de 2001/02 tem se mantido no patamar de 8%, muito próximo dos níveis brasileiros e dos EUA. Em tempos de paz no comércio internacional, o estoque de segurança de um país abaixo de 10% é razoável e ajustado conforme sua capacidade de comercialização e distribuição doméstica. Assumindo-se que após a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) a relação estoque/demanda neutra nos preços seria uma aproximação da média de 2001/02 a 2004/05, esta seria de 9,4%. Conforme a Shanghai JCI Co., a projeção para 2004/05 da relação estoque/demanda do país está em 8,9%, portanto abaixo de 9,4%. No entanto, a relação neutra deveria registrar pequenas reduções no decorrer do tempo, após o forte ajuste ocorrido de 1994/95 a 2001/02 (figura 1). O comportamento de redução nos estoques está ocorrendo em todos os países e refletindo na somatória mundial. Por outro lado, os relatórios do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) apontam aumentos dos estoques de soja desde a safra 96/97, onde atingiu 14,4 milhões de toneladas, e a projeção atual para 2004/05 está em 51,5 milhões de toneladas. Este aumento seria natural e proporcional ao crescimento do consumo, no entanto, o ano comercial considerado pelos EUA para o hemisfério norte é de setembro a agosto e para o Brasil e Argentina de outubro a setembro. A concentração da colheita da China e EUA está em setembro e outubro, coincidindo com os dois primeiros meses do ano comercial e resultando numa contabilidade ajustada para o cálculo do estoque final em agosto do ano seguinte, pois os dez meses após a colheita seriam destinados à demanda. Já para o Brasil e Argentina a pequena alteração para outubro-setembro mantém uma distorção significativa na estimativa dos estoques em função da colheita estar concentrada nos meses de março e abril. Esta distorção está baseada na forte diferença das taxas de crescimento da produção de soja entre estas duas regiões, ou seja, na participação sobre a produção mundial.
Enquanto o grupo EUA e China registraram taxa de crescimento da produção de soja na ordem de 1,35% a.a. desde 93/94, o grupo do Brasil e Argentina superaram a taxa de 11% a.a. no mesmo período. Devido a esta diferença, o Brasil e Argentina ultrapassaram a produção total dos EUA e China em 2003/04 e o método de cálculo do USDA está inflando artificialmente o estoque final mundial em função desta ausência de proporcionalidade. Na figura 1 está um ajuste da relação estoque final/consumo mundial de soja onde a projeção de 24,7% dos dados originais do USDA são reduzidos para 16,7%. A linha ajustada considera a diferença no crescimento da participação do Brasil e Argentina na produção mundial e mostra-se mais apropriada para explicar a alta dos preços desde 2001 (figura 3) e principalmente a forte elevação de 2003/04.
A relação estoque/consumo mundial de 16,7% foi obtida considerando produção de 77,18 milhões de toneladas nos EUA, 66 no Brasil, 39 na Argentina e 17,5 na China, conforme o relatório de setembro do USDA. Com dados não tão otimistas, ou seja, 77 milhões de toneladas nos EUA, 62 no Brasil, 37 na Argentina e 17 na China, a relação estoque final/consumo mundial para 2004/05 seria de 14% conforme a curva ajustada e haveria conseqüente sustentação nos preços.
Analisando a formação do ciclo de preços da soja (figura 3), os preços deflacionados dos contratos de 1a.pos. da bolsa de Chicago (CBOT) estão mantendo-se pouco acima da Linha de Suporte de longo prazo (LP), indicando que estão próximos da sustentação, mas o declínio acumulado desde abril já superou o acumulado da queda ocorrida em meados de 1997, onde também havia atingido a linha de resistência (LP). O cálculo sobre preços deflacionados é essencial na dedução do valor atual e na elaboração dos limites máximos e mínimos de variação dos preços e localização atual do seu comportamento em relação ao período passado. Sempre que o preço do grão atingir ou aproximar-se da linha de resistência é recomendada a comercialização e quando aproximar-se da linha de suporte, deve-se aguardar até a sua recuperação, conforme o modelo cíclico de cada grão ou custo oportunidade. Na linha dos preços pagos ao produtor do PR deflacionado pelo IGP-M é mostrada a grande variação do valor da soja em reais que supera a variabilidade em dólar. No cerne desta questão está a taxa cambial que agora é responsável por parte da queda dos preços no mercado interno, pois em dólares a média de setembro estava ao redor de 12 por 60 kg. Vale ressaltar que o câmbio real (ou de paridade) estava em aproximadamente 3,33 em setembro, contra 2,95 no nominal e provavelmente será mantido abaixo de 3 até o final do ano. Já no primeiro semestre de 2005 há indicativos de inversão do ciclo cambial que poderá manter-se acima do real, ou seja, acima de 3,5. Os preços atuais de US$ 12,00 /60kg estão acima da média histórica de cerca de 11/60kg e não há indicadores apontando para desvalorização cambial acima de 3 até o final do ano, salvo choques externos.
MILHO
A produção mundial de milho projetada para 2004/05 pelo USDA está em 664,5 milhões de toneladas contra consumo de 670,5 milhões de toneladas. Da mesma forma da soja, os países estão reduzindo os estoques de milho e a projeção para 04/05 aponta para 87,9 milhões de toneladas, representando 13,1% na relação estoque final/consumo mundial. A redução dos estoques está promovendo pressão de alta no mercado internacional no ciclo de médio prazo (figura 5), mas no curto prazo registrou forte queda desde maio nos contratos dos portos do Golfo do México/EUA, atingindo uma posição de suporte. Agora resta saber se o ciclo de médio prazo atingiu o pico em maio/2004 ou ainda está em ascensão. Do ponto de vista dos estoques internacionais e consumo maior do que a produção para a safra 2004/05, seria razoável um pico ainda superior para o final do primeiro semestre de 2005.
No mercado interno, após atingir a linha de resistência (MP) em abril/2004 (figura 4) seguida de queda, como ocorreu nos ciclos anteriores, os preços ainda não atingiram a linha de suporte. Os meses de outubro e novembro são caracterizados pela pressão de alta no milho e estão garantindo o suporte dos preços como ocorreu em 2003. Em função da estiagem na safra anterior, foi interrompido o ciclo bi-anual dos preços do grão com forte valorização e atingindo a linha de resistência no primeiro semestre/2004.
TRIGO
A produção mundial de trigo projetada para 2004/05 está em 610,6 milhões de toneladas, de acordo com o relatório de 10/setembro do USDA e o consumo em 600,6 milhões de toneladas. É a primeira oportunidade desde 1996 que a produção supera o consumo, apontando para pequena elevação nos estoques mundiais que estavam em pleno declínio desde 2001 (figura 2). No mercado interno, os preços acumularam perdas de 24% no PR, passando de 30 reais /60kg em junho para 22,7 em setembro. Na figura 6 é mostrada a linha de resistência de médio prazo (MP) onde a prolongação da curva cíclica coincide com os preços de junho e a linha de suporte coincide com a que registrada até o momento. Da ótica da pressão de baixa gerada pelo ciclo de curto prazo que é o da safra/entre-safra ou de 12 meses, os preços já estariam na linha de suporte. No entanto, parte desta queda deve-se à valorização cambial que passou de 3,17 para 2,87 e a colheita está somente no início. Assim, é possível queda para 20 reais por saca na colheita.
ARROZ
Segundo o Instituto Riograndense do Arroz (IRGA), o déficit hídrico na Fronteira-oeste do RS e conseqüente baixo nível de água das barragens para irrigação provocará queda de 8,6% área de arroz irrigado do estado do RS, passando de 1,040 milhão de ha para 950 mil ha. Apesar da expectativa de menor oferta para a próxima safra, a pressão de baixa do grão oriundo do Uruguai e Argentina é grande e já é responsável pela perda de 25% nos preços desde janeiro/2004 e de quase 29% em termos reais (figura 7). A restrição no aumento da produção poderá estimular um suporte acima do ocorrido na safra 1999, conforme linha de preços deflacionados pelo IGP-M da figura 7. Por outro lado, se continuar a entrada de grão dos países vizinhos que estão com excedentes, os preços cairiam para patamares de 25 reais/50kg. Este ciclo somente será interrompido com controle na oferta, pois a demanda do grão é de baixa elasticidade e com o câmbio valorizado sobre o de paridade as exportações tornam-se pouco atrativas e dependeriam de preços em reais baixos.
Dados para referências bibliográficas:
Revista Plantio Direto , edição nº 83 – Setembro/Outubro de 2004. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.