Problemas com semeadura sob plantio direto
Dirceu N. GassenGerente Técnico da Cooplantio - Porto Alegre-RS - E-mal: dirceu@agri.com.br
As lavouras cultivadas em grande escala como a soja, o milho, o arroz, o feijão, o algodão e os cereais de inverno apresentam ciclo de desenvolvimento entre a semeadura e a colheita, de modo geral, entre quatro e cinco meses.
As fases de desenvolvimento de plantas e de construção do potencial de produção são distintas e, cada uma delas, de curta duração. A primeira fase é a da germinação. A semente necessita absorver água e oxigênio, tendo a reserva de nutrientes para o desenvolvimento inicial de raízes e as primeiras folhas. Essa fase, em geral é de duas semanas.
A partir do fim das reservas da semente a planta se desenvolve a partir de nutrientes extraídos do solo e de elaborados pela fotossíntese. No período entre 15 e 35 dias depois da semeadura, a planta concentra energias no desenvolvimento de raízes.
A fase de maior crescimento de raízes é a base mais importante para a construção do potencial de produção. O sistema radicular bem desenvolvido permite a sobrevivência das plantas em condições adversas de clima e maior tolerância às doenças que se estabelecem sob estresse das plantas.
A qualidade da semeadura é a chave para condições favoráveis à germinação (usar toda a energia das reservas para raízes e desenvolvimento inicial) e para ambiente de desenvolvimento do sistema radicular.
Na terceira fase, entre 35 e 70 dias depois da semeadura as plantas constroem a maior parte da biomassa, chegando ao início da fase de floração.
A partir da fase de floração cessa o crescimento vegetativo e inicia a transferência de elementos armazenados na estrutura da planta para o enchimento de grãos.
Os períodos de definição da plântula e do sistema radicular são relativamente curtos, cada um dura em torno de duas semanas. A germinação e o desenvolvimento de raízes estão diretamente relacionados com a qualidade de semeadura.
Ambientes de solo compactado, sulco espelhado e excesso de fertilizantes no sulco, logo abaixo da semente, dificultarão o contato da semente com o solo para a absorção de água e o desenvolvimento de raízes. Quando chegar à fase de intenso crescimento vegetativo a base de absorção de nutrientes estará comprometida, reduzindo o potencial de produção.
O potencial genético de produção das sementes é muito superior aos rendimentos obtidos nas lavouras. A diferença das lavouras de alto rendimento está diretamente relacionada com o pleno desenvolvimento de raízes das plantas.
Nas lavouras sob plantio direto constatam-se problemas maiores com os equipamentos de preparação de sulco de semeadura (o leito para a semente e desenvolvimento de raízes), a velocidade elevada de semeadura, a falta de compreensão do tratorista para as necessidades fisiológicas das sementes e raízes, o excesso de nutrientes no sulco de semeadura e o plantio sob condições de solos encharcados.
Na mente dos operadores de semeadoras de plantio direto predomina a lógica da semeadura em solo arado e gradeado (desestruturado). O plantio direto exige menor velocidade de deslocamento das máquinas, melhor preparação do sulco de semeadura para posicionamento das sementes e melhor fechamento do sulco.
A preparação do ambiente para o crescimento de raízes e a germinação é todo feito em uma operação, a semeadura.
Se houver descuido na semeadura haverá comprometimento irreversível no processo de desenvolvimento das plantas até a colheita.
Os problemas mais freqüentes estão associados ao período muito curto entre a dessecação e a semeadura. As plantas de cobertura de solo ainda estão verdes e as raízes mantém torrões de solos agrupados. Isso dificulta o contato da semente com a terra e a absorção de água.
A semeadura sob condições de solo muito úmido resulta em paredes do sulco adensadas (espelhadas). Nessa situação e com fertilizantes posicionados no fundo do sulco, o desenvolvimento de raízes é muito prejudicado. As raízes em contato direto com fertilizantes de elevado índice salino, como o potássio e o nitrogênio, podem sofrer dano físico, facilitando a penetração de patógenos.
O sulco exageradamente aberto com a formação de torrões resulta em rápido déficit de água sob sol intenso, e temperaturas elevadas (acima de 50°C), prejudicando a germinação, o desenvolvimento de raízes e a sobrevivência de bactérias fixadoras de nutrientes.
Com chuvas torrenciais, os sulcos de semeadura exageradamente abertos podem resultar em compactação de solo sobre as sementes e também na concentração de herbicidas por escorrimento, limitando o desenvolvimento de raízes.
O desgaste de ponteiras do sulcador, discos e demais partes que entram em contado com o solo, por abrasividade, é outra dificuldade na preparação adequada do sulco de semeadura.
Na Austrália as peças de semeadoras com maior desgaste são cobertas com placas ou ligas de tungstênio, mais resistentes ao desgaste por abrasividade do solo.
Desenvolver ferramentas mais eficientes na preparação de sulco para germinação e crescimento adequado de raízes é o desafio maior para as indústrias de semeadoras.
Para o agricultor é fundamental adotar práticas mais eficientes de dessecação antecipada, semeadura em períodos quando o solo está em condições ideais e velocidade menor ou adequada para evitar a abertura exagerada de sulcos.
O ideal é fazer a semeadura sob condições de solo friável, com preparação mais profunda do sulco, posicionamento da semente próximo à superfície e melhor fechamento possível da camada superficial. O que poderia ser denominado de semeadura invisível. É necessário diferenciar o plantio direto com qualidade da simples semeadura sem arar ou gradear o solo.
Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto nº 82, julho/agosto de 2004. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.