Potencial de Rendimento da Soja


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Publicado em: 01/08/2004

Potencial de rendimento da soja

José Antonio Costa e André Luis ThomasProfessores do Departamento de Plantas de Lavoura, FA/UFRGS. jamc@ufrgs.br e andrethomas@hotmail.com.

O potencial de rendimento representa a expressão da interação entre o genótipo e o ambiente. As condições ambientais impõe restrições ao potencial genético das variedades, e o que elas conseguem expressar é o potencial produtivo do local, na estação de crescimento considerada.

Como o rendimento depende em parte do manejo e das condições locais de ambiente, tres medidas de rendimento regional são importantes. O rendimento médio que reflete o sucesso do produtor em lidar com as várias certezas e incertezas que determinam a produção, e o emprego médio de tecnologia. Alguns agricultores obtém rendimentos elevados com regularidade. Eles produzem acima do rendimento médio e fornecem uma medida do rendimento que pode ser alcançado pela aplicação da melhor tecnologia disponível. Rendimentos recordes e rendimentos máximos, obtidos através de modelos, são importantes na definição, não somente no progresso no melhoramento e no manejo, mas também na visualização das diferenças entre o que é alcançado e o que pode ser possível.

As razões porque os rendimentos médios são menores do que aqueles possíveis de serem atingidos, muitas vezes são facilmente explicáveis pela população inadequada de plantas ou baixa fertilidade. Outras vezes, o rendimento é influenciado por um complexo de fatores, entre o quais se incluem as condições meteorológicas, a fertilidade do solo, as pressões negativas devido a doenças, insetos e plantas daninhas, preço dos insumos e dos produtos, capacidade do agricultor e sorte. Devido a limitações de mão-de-obra e de máquinas, por exemplo, é quase inevitável que algumas lavouras, em determinada região, sejam semeadas muito cedo ou muito tarde. A época de semeadura ótima varia com as condições meteorológicas e, como conseqüência, a cada ano, sendo difícil fazer previsões.

A identificação de fatores que contribuem para a lacuna existente entre o rendimento atual e o rendimento possível de ser atingido em uma determinada região, embora difícil e, em muitos casos, até impossível, pode servir como base para a melhoria do manejo. Para produzir altos rendimentos, as condições meteorológicas, o preparo técnico do agricultor e muitos outros quesitos devem ser favoráveis. O potencial de rendimento serve para estabelecer metas realistas de rendimento a serem alcançadas. As maneira usadas para quantificar o potencial de rendimento incluem: (1) cálculos teóricos baseados na eficiência de uso da radiação; (2) rendimentos obtidos em parcelas experimentais, bem manejadas, com os estresses bioticos e abioticos bem controlados; (3) estimativas feitas com modelos de simulação dos processo determinantes do rendimento e (4) estimativas através de monitoramento de áreas cultivadas, com o mapeamento de plantas.

A Tabela 1 mostra os rendimentos obtidos em experimentação com soja no mundo, sendo o valor máximo encontrado em literatura, de 7400 kg/ha (123 sacos de 60 kg/ha). Dados obtidos no Rio Grande do Sul (Tabela 2), revelam o rendimento máximo já obtido de 6233 kg/ha (104 sacos/ha).

Tabela 1. Rendimento experimental de soja (kg.ha-1)

Local

Rendimento

Fonte

USA

3590

Wells (1993)

USA - Ohio

6256

Cooper et al. (1991)

----

7400

Tanaka (1983) citado por Pereira (1989)

USA - Iowa

5340

Garcia e Hanway (1976)

Brasil - RS

6233

Costa et al. (1998)

USA - Illinois

4485

Johnston et al (1969)

Tabela 2. Rendimento experimental de soja (kg.ha-1) no Rio Grande do Sul.

Local

Rendimento

Fonte

Júlio de Castilhos

4075

Hilgert et al. (1993)

Cruz Alta

4404

Tragnago et al. (1993)

Santo Augusto

4456

Hilgert et al. (1993)

Passo Fundo

4448

Bertagnolli e Bonato (1993)

Guaíba

5415

Queiroz (1975)

Eldorado do Sul

6233

Costa et al.(1998)

Manejar lavouras para a obtenção de rendimentos elevados, só é possível através do conhecimento de como a soja cresce e se desenvolve, através da determinação dos estádios de desenvolvimento, com uma escala apropriada. É necessário o conhecimento de quando os componentes do rendimento são determinados durante o ciclo, para detectar os estádios críticos, para que se possa (1) interpretar e predizer o efeito de variações no ambiente ou no manejo e (2) otimizar o manejo para maximizar a resposta à aplicação de insumos.

Mapeamento

O mapeamento de plantas é um método empregado para a análise morfológica da distribuição da frutificação das plantas de soja. Comumente é realizado na maturação (R8), pela coleta de número adequado de amostras para a representação de uma comunidade de plantas. Pode ser utilizado para representar uma parcela experimental ou uma lavoura.

Estes mapas de plantas tem sido usados para determinação de quais locais de frutificação são mais importantes para o rendimento. Este levantamento pode ser feito para mostrar diferenças ou semelhanças em relação ao hábito de crescimento, distribuição vertical dos frutos, no perfil das plantas, como topo, região mediana e parte inferior do dossel, ou em caule e ramos ou, ainda, os dados podem ser coletados e separados por caule, ramos primários e ramos secundários; e determinar o efeito de práticas de manejo no rendimento.

Quando realizado na maturação, o mapeamento pode se tornar uma ferramenta poderosa de manejo, pela documentação e entendimento da resposta morfológica da soja ao ambiente. No entanto, sua aplicação é limitada, pois o conhecimento gerado pelos resultados só poderão ser incorporados na safra seguinte, objetivando a modificação do manejo para alcançar o potencial de rendimento

Monitoramento

De muito maior utilidade, a curto e longo prazo, é utilizar o mapeamento seqüencial da área cultivada, originando o monitoramento durante o ciclo de desenvolvimento da cultura. É um método não destrutivo e bastante eclético, podendo ser repetido, nas mesmas plantas, quantas vezes forem necessárias ou desejáveis, durante o ciclo. Possibilita a avaliação metódica e a descrição morfológica de uma comunidade de plantas de soja, quanto ao vigor, crescimento, desenvolvimento e frutificação ao longo do ciclo. Permite detectar problemas como infestação de pragas, fertilidade do solo, deficiência hídrica e outras situações limitantes do potencial de rendimento.

O monitoramento é uma ferramenta poderosa para a avaliação de áreas cultivadas com soja, de forma criteriosa, sistemática e tecnicamente correta, utilizando os dados levantados como indicativo para a tomada de decisões de manejo, bem como na mensuração de efeitos de tratamentos experimentais. Para os produtores esta metodologia pode ajudar no entendimento de como a soja responde às opções de manejo, objetivando a obtenção de rendimentos elevados, bem como, pode ajudar na quantificação da variabilidade espacial e temporal nas áreas cultivadas, proporcionado benefícios ao sistema, pelo melhor entendimento do efeito favorável da rotação de culturas e da integração lavoura-pecuária.

Graças a determinação do potencial de rendimento através do monitoramento, é possível estabelecer metas realistas de rendimento em cada região, propriedades e mesmo para glebas distintas dentro de áreas maiores.

Com base nos dados obtidos, pode-se tomar decisões que irão influenciar o rendimento atual da lavoura, como cobertura de solo, irrigação, controle de pragas, aplicação de inoculante em cobertura, tratamento químico da parte aérea, para preservação da área foliar fotossinteticamente ativa, controle de doenças de final de ciclo, bem como àquelas que vão determinar o desempenho futuro da área, como a inoculação da(s) cultura(s) antecessora(s), análise de solo – em mais de uma profundidade – incluindo micronutrientes, correção de características químicas do solo em profundidade, uso de sementes de qualidade, de cultivares adaptadas com alto potencial de rendimento, tratamento de sementes, inoculação anual, adoção de espaçamentos menores entre fileiras, exame das raizes, verificação da existência de camadas compactadas, avaliação da quantidade e qualidade da nodulação, análise foliar, estimativa do rendimento e preservação do potencial.

O monitoramento identifica e registra a estatura da planta, o número de nós no caule, número de ramos, comprimento dos ramos e número de nós nos ramos, nós férteis no caule e nos ramos, acúmulo de matéria seca no caule e nos ramos, produção e retenção de flores, legumes e grãos no caule e nos ramos.

Efetuado de maneira sistemática na lavoura, através da amostragem seqüencial de plantas, ajuda a identificar problemas a tempo de corrigi-los. Para isso, deve começar nos estádios vegetativos. Para que o monitoramento tenha qualidade e atinja suas finalidades, é necessário o domínio do conhecimento de como a planta de soja cresce e se desenvolve e, através de amostragens representativas, generalizar para a comunidade de plantas de áreas experimentais ou de lavoura.

Monitoramento nos estádios vegetativos

O mapeamento de plantas, se usado desde o início do crescimento, no período vegetativo ou pré-floração, oportuniza o conhecimento de como a cultura esta se desenvolvendo, dando ao sojicultor a flexibilidade de aplicar opções de manejo disponíveis, capazes de dar a soja as melhores oportunidades de alcançar o potencial de rendimento.

No período vegetativo, sugere-se de uma a quatro amostragens, aos 10, 20, 30 e 40 dias após a emergência, objetivando determinar a população de plantas, a nodulação, o vigor das plantas e o potencial de rendimento da lavoura, o grau de estresse ocorrido e a necessidade de aplicação de, por exemplo, irrigação, e, se não tiver sido feito, o tratamento químico e inoculação das sementes no ano seguinte. Nesta etapa é determinada a estatura das plantas, o número de nós no caule, o número e a matéria seca dos nódulos, a área foliar, a matéria seca das folhas, a matéria seca total das plantas.

No caso de se decidir por apenas uma amostragem, sugere-se que a mesma seja feita aos 30 dias após a emergência. Deve-se, nessa ocasião, dar especial atenção a quantidade e qualidade da nodulação.

Monitoramento nos estádios reprodutivos

O período reprodutivo, abrange a floração, o desenvolvimento dos legumes, o desenvolvimento dos grãos e a maturação. Cada uma dessas etapas é constituída por dois estádios.

O mapeamento pode ser feito em cada um dos estádios reprodutivos ou em apenas alguns, dependendo dos objetivos. Para demonstração do método, vamos mostrar as determinações em R2 (floração plena), R5 (início do enchimento de grãos) e R8 (maturação). Na floração plena (R2) o objetivo é quantificar o desenvolvimento e vigor das plantas, o surgimento de ramos e flores, determinar a matéria seca das folhas, caule e ramos, acumulada pelas plantas até este estádio. Determinar parâmetros fisiológicos e o potencial de rendimento com base no número de flores.

Em R5, início de enchimento de grãos, se procura determinar o vigor das plantas pelo crescimento do caule e ramos e do acúmulo de matéria seca, bem como pelos parâmetros fisiológicos. As plantas devem estar em condições de, através das folhas fazendo fotossíntese, fornecer as reservas necessárias para o enchimento dos grãos. Verifica-se quantitativa e qualitativamente a nodulação das raízes. Com o número de flores e legumes, calcular o potencial de rendimento neste estádio de desenvolvimento

O mapeamento final, na maturação (R8), concluindo o monitoramento, tem como objetivo fazer estimativa do rendimento, utilizando a população de plantas e pelos demais componentes do rendimento. Pelo percentual de fertilidade de nós, legumes e grãos, pode-se determinar a diferença entre o rendimento obtido e o potencial de rendimento calculado.

O mapeamento é uma poderosa ferramenta de manejo. É de grande utilidade, também, na documentação e entendimento das respostas morfológicas da soja ao ambiente.

O mapeamento seqüencial, que é o monitoramento, permite registrar em tempo real o diálogo entre as plantas e as situações potencialmente limitantes do ambiente de cultivo. As Figuras 1 e 2 mostram, respectivamente, como dois fatores de produção importantes, água e fertilidade do solo, influem no potencial e rendimento final da soja.

Ações de manejo para maximizar o potencial de rendimento

A seguir são arroladas algumas sugestões de iniciativas de manejo que objetivam aproximar o rendimento real do potencial de rendimento. Obviamente não existe a intenção de esgotar as ações possíveis de serem adotadas, nem se espera que as mesmas sejam adotadas conjuntamente, mesmo porque, algumas delas, para mostrar seus efeitos positivos, requerem algum tempo de adoção.

Ações antecedentes à instalação da lavoura.

- Adoção de plantio direto de qualidade;

- Inoculação da cultura antecessora;

- Uso de semente de qualidade;

- Uso de insumos de qualidade;

- Escolha de cultivares adaptadas e de potencial de rendimento comprovado;

Ações na instalação da lavoura.

- Utilizar equipamentos com precisão na profundidade de colocação das sementes e na distância adequada entre elas na fileira. Isto resultará em uniformidade das plantas na lavoura o que aumenta as chances de obtenção de rendimento elevado;

- Inoculação com produto de qualidade e em maior quantidade;

- Usar a quantidade de adubo necessária para a obtenção do rendimento almejado;

- Semeadura na época recomendada preferencial, para melhor aproveitamento da radiação incidente, nos períodos críticos;

- Usar espaçamento entre fileiras e população de plantas que tem apresentado acréscimo de rendimento;

Ações durante o período de pré-floração.

- Manutenção da integralidade e funcionalidade da área foliar, através do controle eficiente de pragas e doenças;

- Controle eficiente de plantas daninhas;

- Avaliação quantitativa e qualitativa da nodulação, para que as plantas disponham de nitrogênio suficiente para o vigor e manutenção do potencial de rendimento;

Ações durante o período reprodutivo.

- Produção e fixação do maior número possível de flores;

- Produção e fixação do maior número possível de legumes;

- Produção e viabilização do maior número possível de grãos;

- Alcançar o potencial de cada estrutura;

- Maximizar a duração da fixação simbiótica de nitrogênio para potencializar a manutenção das estruturas reprodutivas;

- Usar irrigação, se disponível e econômica;

- Controle de doenças foliares, para manutenção da atividade fotossintética nos períodos críticos, pela preservação e prolongamento da duração da área foliar;

Ações para a próxima safra

O mapeamento sistemático para o monitoramento das áreas permitirá:

- o registro do histórico das áreas, com a identificação de fatores de estresse que causam redução do potencial de rendimento;

- a identificação de cultivares com melhor adaptação e maior potencial de rendimento nestas áreas;

- planejar alternativas de manejo para que o rendimento real se aproxime do potencial de rendimento;

Considerações finais

A disponibilidade hídrica no solo é o fator ambiental primário limitante para alcançar rendimentos elevados.

A deficiência de umidade durante o período vegetativo resulta em redução da atividade fotossintética e, como conseqüência, da fixação de nitrogênio e do metabolismo da planta, se refletindo em menor crescimento e portanto, plantas com menor vigor. Plantas vigorosas, com metabolismo intenso, exsudam maior quantidade de substâncias de melhor qualidade, que serão liberadas para a solução do solo e que vão influir favoravelmente na micro, meso e macro fauna e flora que habitam o ambiente rizosférico. Este ambiente qualificado influenciará o metabolismo das plantas, formando um ciclo de enriquecimento do ambiente de produção. Estes ciclos se repetirão ao longo da estação de crescimento, qualificando cada vez mais o ambiente produtivo, dando lugar ao surgimento de condições favoráveis para a expressão do potencial de rendimento das cultivares.

Durante o período reprodutivo, a falta de quantidade adequada de água no solo provoca a diminuição da atividade simbiótica e, como conseqüência, queda de flores, de legumes, abortamento de grãos, grãos de menor tamanho, de menor densidade e com teores de óleo e proteína diminuídos. O resultado final será a redução do rendimento e da qualidade da matéria prima produzida.

Duas são as maneiras possíveis de aumentar a disponibilidade de água para a soja. Uma é por meio da irrigação, que se constitui em uma prática onerosa e nem sempre possível de ser utilizada, principalmente pela competição do uso da água na agricultura com destinações mais nobres desta riqueza natural. A outra maneira é pela conservação, no solo, da maior parte possível da precipitação, o que pode ser feito de forma racional e benéfica com o plantio direto.

Para finalizar, fica a idéia que o manejo racional da lavoura de soja se constitui de um conjunto interminável de interações favoráveis, o que se torna um facilitador para a expressão do potencial, aproximando o rendimento real do potencial de rendimento.

Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, nº 82 – edição julho/agosto de 2004. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.