Ocorrência Inicial em Milho e Soja (Pragas)


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Publicado em: 01/08/2004

Ocorrência inicial em milho e soja

Dirceu N. GassenGerente Técnico da Cooplantio - Porto Alegre-RS - E-mal: dirceu@agri.com.brO manejo de pragas em milho e soja teve grandes contribuições da pesquisa no Brasil. Iniciou com o estabelecimento índices de danos para controle, tabelas de seletividade de inseticidas, controle biológico e culminando com o uso de Baculovirus para o controle de lagartas.

Na bibliografia brasileira são citadas mais de uma centena de espécies de insetos associada ao milho ou à soja. Menos de uma dezena dessas espécies atingem o nível de praga. A manutenção da maioria das espécies em equilíbrio ou em populações abaixo do nível de dano econômico é atribuída ao efeito de controle biológico natural. Destacando a importância de se adotar estratégias de manejo para médio e longo prazos e impedir a erupção de populações de pragas secundárias.

A diferença no dano de pragas iniciais em milho e soja está associada à população de plantas, a cobertura vegetal anterior à semeadura e a ação específica da praga sobre soja ou milho.

O dano será mais intenso nas culturas com baixa população de sementes como a do milho. Cada semente de milho perdida num m2, corresponde a 20 %. Em soja, com 40 sementes/m2, cada unidade corresponde a 2,5 %. A diferença também está na maior capacidade de compensação de falhas na população de plantas de soja, e mínima compensação em milho.

Cinco espigas de milho com peso médio de 250 grama de grãos por espiga correspondem à produção de 1,25 kg de grãos/m2, 12,5 t/ha ou 208 sacos/ha. Portanto, garantir a germinação uniforme e impedir danos as plântulas é fundamental para iniciar a construção de um elevado potencial de produção de milho.

Em soja a população de plantas é maior e os danos mais severos ocorrem depois da germinação.

Nesse trabalho serão descritos aspectos relacionados com as principais espécies de insetos que podem atingir o nível de praga e estratégias de controle na fase inicial de desenvolvimento de plantas de milho e de soja.

Pragas na germinação

As pragas que podem atacar as sementes na fase de germinação estão presentes na lavoura no momento da semeadura. Destacam-se corós (Diloboderus e Phyllophaga), larva-angorá (Astylus sp.), larva-arame (Conoderus sp.), piolho-de-cobra (Julus sp.), gorgulho-do-solo (Pantomorus sp.), entre outras pragas.

Em milho é necessário fazer a proteção de sementes e de plântulas e semear com o objetivo de garantir a germinação de todas as sementes e a distribuição uniforme de plantas.

Em soja sugere-se examinar a lavoura antes da semeadura para identificar a ocorrência de pragas com potencial de danos. O histórico de danos em anos anteriores é importante para tomar a decisão de tratamento de sementes com inseticidas.

O complexo de pragas que ataca as plantas na fase de germinação pode ser controlado com o uso de inseticidas no tratamento de sementes.

Pragas em plântulas

A ocorrência de pragas na fase de plântula está diretamente associada à fauna da cultura anterior.

Em milho semeado sobre áreas de azevém pode ocorrer a broca-do-azevém (Listronotus bonariensis), sobre aveia a lagarta-da-aveia (Pseudaletia spp.), sobre língua-de-vaca a lagarta-rosca (Agrotis ipsilon), sobre ervilhaca e em cornichão os percevejos (Dichelops spp.) e sobre pastagens e áreas de pousio as cigarrinhas (Deois spp.), os grilos, os gafanhotos e os trips.

Em soja, a fase de desenvolvimento inicial, até um mês depois da semeadura, é a de intenso crescimento de raízes, que dará sustentação para o desenvolvimento posterior da planta. A perda de folhas nessa fase resultará em plantas mais fracas e menor nodulação, com menor crescimento vegetativo e maior suscetibilidade ao ataque de patógenos. É importante proteger as folhas iniciais da soja para o estabelecimento e plantas mais vigorosas.

As pragas que ocorrem depois da germinação são de mais difícil controle via tratamento de sementes. A eficácia de inseticidas está associada ao tipo de produto para cada grupo de pragas.

Grillo-marrom

O grilo-marrom (Anurogryllus muticus) é a praga de plântulas mais disseminada no sul do Brasil. O inseto completa o ciclo biológico em um ano, vive em galerias no solo, causa maior intensidade de dano na primavera, na fase de germinação da soja. No período entre outubro e dezembro ocorre a oviposição e o desenvolvimento das ninfas. Em cada galeria podem ser encontrados mais de 100 ovos ou ninfas de grilos.

A amostragem para a determinação da população de grilos deve ser feita no outono e inverno, identificando montículos de terra, resultado da construção das galerias. A atividade de cavar galerias ocorre logo depois de chuvas, com solo úmido. O grilo habita a mesma galeria, causando danos até o fim do ano quando produz a prole. A raspagem do montículo de solo permite a identificação de dois orifícios de saída, característicos do grilo.

O controle de grilo pode ser obtido com a aplicação de inseticidas na parte aérea de plantas. O inseticida fipronil mata e protege as plantas contra o grilo. Inseticidas piretróides tem efeito razoável na proteção das plantas até uma semana depois da aplicação. Os inseticidas fosforados são ineficientes para controle de grilos.

O cultivo de nabo-forrageiro entre a cultura de verão e a semeadura de cereais de inverno ou para cobertura vegetal de inverno cria ambiente de sombra e umidade desfavorável para o grilo. A praga se desenvolve melhor em áreas sob pastejo ou sob pousio, sem vegetação exuberante no inverno.

Vaquinhas

As vaquinhas (Diabrotica speciosa, Megascelis satrapa, Maecolaspis joliveti, Diphaulaca volkameria e Cerotoma sp.) desenvolvem populações de larvas em gramíneas de inverno e primavera. A dessecação das plantas nas lavouras para a semeadura de soja, resulta em ambiente desfavorável para a sobrevivência das vaquinhas adultas, que emigram para as bordas com capoeiras e matas onde se protegem. Com o desenvolvimento das plantas de soja as vaquinhas voltam a infestar as lavouras, com maior intensidade nas bordas, dando a impressão de que as pragas se criaram nos refúgios.

O controle de vaquinhas com inseticidas pode ser feito no tratamento de sementes ou na pulverização aérea. A aplicação aérea protege as plantas por uma semana, podendo ocorrer a reinfestação da lavoura.

O torrãozinho (Aracanthus mourei) causa danos semelhantes aos de vaquinhas. É um gorgulho de tamanho pequeno (5 mm) com o corpo coberto de solo, conferindo camuflagem perfeita com o ambiente. À noite alimenta-se das folhas unifolioladas e primeiras folhas desenvolvidas, recortando as bordas. Causa danos severos em bordas de lavouras de soja.

Em milho a vaquinha (Diabrotica speciosa) faz a postura em plântulas e se desenvolve em raízes adventícias, na fase entre 35 e 50 dias depois da semeadura, causando o tombamento das plantas. Para o controle de larvas da vaquinha em milho é necessário aplicar produtos no sulco de semeadura com o objetivo de buscar persistência maior do que a de tratamentos de sementes convencionais.

A larva de Diabrotica speciosa também desenvolve sobre sementes e plântulas de soja ou milho, quando semeado sobre gramíneas infestadas. A semeadura feita imediatamente depois da dessecação resulta na migração das larvas para as plantas de milho ou soja em germinação. Nesse caso o tratamento de sementes com inseticidas ou intervalo maior entre a dessecação e a semeadura protegem as plantas contra o dano das larvas.

Lagartas cortadoras de plântulas

As lagartas cortadoras de plântulas desenvolvem na cultura anterior ou sobre plantas daninhas, causando danos depois da germinação.

A lagarta-rosca (Agrotis ipsilon), a lagarta-militar (Spodoptera frugiperda),lagarta-do-trigo (Pseudaletia sequax) e a lagarta-do-nabo (Peridroma saucea) são as mais freqüentes nas lavouras e pela aparência geral do corpo causam confusão na identificação.

É importante destacar que as lagartas podem atacar o milho e a soja e, em geral, estão presentes na lavoura no momento da semeadura. A dessecação antecipada, aumentando o intervalo entre a aplicação do herbicida e a semeadura, em geral, é suficiente para cortar o ciclo biológico das lagartas, reduzindo a população da praga na fase de plântula de milho ou de soja.

Alguns inseticidas carbamatos controlam a lagarta-do-trigo por se alimentar das folhas a partir da extremidade distal. As lagartas-cortadoras, que cortam a base das plântulas, são de controle mais difícil com inseticidas aplicados na semente.

A pulverização aérea é eficiente em áreas com menor cobertura vegetal, pois, em geral a lagarta-rosca se mantém sob restos culturais e na base das plantas não se expondo ao inseticida aplicado na parte aérea.

Para o manejo das lagartas-cortadoras é importante combinar a dessecação antecipada com o tratamento de sementes ou a aplicação aérea de inseticidas na germinação das plantas cultivadas. A mistura de inseticidas com herbicidas na dessecação pode ser ineficiente pela localização da praga junto à superfície do solo e pelo período, relativamente, longo até a emergência das plantas cultivas. Nesse período poderia desenvolver nova geração da praga.

Tamanduá da soja

O tamanduá-da-soja (Sternechus subsignatus) é nativo desde a Argentina até os trópicos brasileiros. A soja encaixa perfeitamente com o ciclo biológico da praga. O inseto completa o ciclo e um ano e os adultos nascem a partir de meados de novembro e até dezembro. Nesse período se alimentam avidamente de plântulas de soja, causando danos severos, com a necessidade de ressemeadura e perdas no rendimento de grãos.

Os adultos do tamanduá-da-soja causam danos severos, raspando e estraçalhando plântulas.

A estiagem em fevereiro e março de 2004, no Sul do Brasil, determinou o corte da população de larvas e, em conseqüência, haverá redução acentuada na população de adultos que nasceriam na germinação da próxima cultura, em novembro e dezembro. Com essa situação se projeta pouco dano de tamanduá-da-soja na próxima safra e populações reduzidas, também na safra seguinte.

A ocorrência de populações de larvas e pupas pode ser constatada com amostragem nos meses de outono, inverno e primavera.

O tratamento de sementes com inseticida é um método eficiente de proteção de plântulas de soja. O limite está no período de persistência de inseticidas em torno de três semanas. O período entre a semeadura de soja no fim do mês de outubro, com o nascimento de adultos do tamanduá até meados de dezembro é muito longo para garantir a proteção. Com a semeadura feita a partir de meados de novembro o tratamento de sementes é eficiente para o período em que os adultos ainda podem nascer do solo.

A aplicação de inseticidas na parte aérea é eficiente para o controle dos adultos emergidos. A limitação está no período de persistência de inseticidas, inferior a uma semana. Os besouros nascem de câmaras pupais no solo, estimulados por umidade de chuvas. Os adultos emergem no primeiro e segundo dias depois de chuvas. Se houver estiagem ou solo seco os adultos permanecem no solo até a primeira chuva. Como os adultos nascem durante um período de um mês a partir de meados de novembro, podem ser necessárias várias aplicações de inseticidas na parte aérea para controle da praga.

A estratégia mais eficiente de controle é a semeadura de milho nas áreas infestadas com larvas de tamanduá na cultura da soja anterior. Além disso, é importante semear soja ou feijão nas bordas das lavouras de milho, com tratamento de sementes para controle do tamanduá adulto, que emigra das áreas cultivadas com milho. Nessas bordas podem ser feitas aplicações aéreas para impedir a disseminação para outras áreas de soja, aumentando a população da praga nos anos seguintes. Como a praga tem ciclo biológico de um ano é importante interromper o ciclo de aumento da população da praga na região. Portanto é importante combinar a rotação de soja com milho e controlar o tamanduá adulto nas bordas dessas áreas para reduzir a população da praga.

Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, nº 82 – edição julho/agosto de 2004. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.