A derrocada cíclica dos preços dos grãos
Flávio GassenEng.-agr., Supervisor Técnico Cooplantio - E-mail: flavio@agri.com.br
SOJA
Nos meses de março e abril/2004 foram atingidos os picos dos preços da soja no mercado internacional, cerca de US$ 10 /bushel na média do período, mas com máximo de US$ 10,55 /bushel nos contratos de primeira posição em 22/março/2004 da Bolsa de Chicago (CBOT). Nas operações realizadas dois dias após (24/março/2004), os contratos com vencimento em agosto/2004 foram negociados por US$ 10,26/bushel e no dia 16/julho/2004 os contratos para o mesmo vencimento foram operados em US$ 7,05/bushel. Este é o momento em que são formadas as grandes fortunas e também profundas falências. Mas não há nenhuma novidade neste fato, pois já nos idos de 1977 as operações dos contratos com vencimento em julho, que foram negociados no pregão de maio do mesmo ano, atingiram picos de US$ 10,64 /bushel e pouco mais de um mês depois, na data de vencimento, por US$ 6,00 /bushel. No final de junho de 1988, os contratos com vencimento em julho atingiram US$ 10,99 /bushel e caíram para US$ 8,20 /bushel na data de vencimento, somente uma semana após. Outro exemplo ocorreu em 1973, onde os contratos para julho foram negociados por US$ 12,90 no início de junho e caíram abaixo de US$ 6,50 no início de julho, mas recuperando-se para US$ 10,25 na data de vencimento. Agora a China foi o instrumento que deflagrou a derrocada dos preços, mas sem surpresas, pois a mesma já anunciava que duas grandes esmagadoras estavam ameaçando interromper suas atividades devido aos prejuízos acumulados pelo elevado preço do grão.
Historicamente, a soja registra um comportamento cíclico de preços onde eleva-se até um patamar onde a economia não mais se propõe a pagar, formando uma linha de resistência. Conforme a figura 2, esta linha foi atingida nos meses de março e abril em aproximadamente US$ 22 /60kg nos contratos de primeira posição da Bolsa de Chicago. Na determinação desta linha foram deflacionados os preços praticados na CBOT utilizando o índice de preço ao consumidor dos EUA (CPI – consumer price index) que é uma aproximação da perda do valor da moeda norte-americana no mercado consumidor. Esta linha é um bom indicador da posição dos preços na configuração cíclica. O período atual e os próximos meses serão caracterizados pela expectativa da safra dos EUA e da China, que determinarão o comportamento dos preços para a safra brasileira. Segundo o relatório do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), a projeção da safra 2004/2005 deverá atingir 224,6 milhões de toneladas, representando aumento de 18,8% sobre a safra anterior que alcançou somente 189,1 milhões de toneladas. Se esta produção for atingida, não há nada mais certo do que a queda dos preços da soja ao patamar da média histórica que está em aproximadamente 11 dólares por saca (60 kg). No entanto, os preços poderiam cair ainda mais, aproximando-se de US$ 9 /60kg. Isto é fato, pois nesta projeção, assumindo que o consumo mundial para 2004/2005 alcance 210 milhões de toneladas, haverá um apreciável excedente de 47 milhões de toneladas, somando-se o estoque final da safra 2003/2004. Este cenário resulta numa taxa de uso do grão no mundo na ordem de 77,7%, o menor dos últimos 13 anos e forte fator de baixa nos preços do grão. Sem dúvida, isto somente ocorrerá se as condições para a safra dos EUA, Brasil e Argentina forem favoráveis, ou seja, 80 milhões de toneladas nos EUA, 66 no Brasil, 39 na Argentina e cerca de 40 nos demais países produtores. No entanto é mais fácil ocorrer uma redução nestas projeções do que um aumento, por isso, é comum considerarmos que os relatórios do USDA aumentam a expectativa de produção. Deve-se sempre lembrar que os levantamentos realizados pelos EUA são a referência mundial e para que mantenham sua credibilidade são conservadores. Assim, somente refletem redução na estimativa no momento que estes forem comprovados e, conseqüentemente, com relativo atraso quando comparado com empresas privadas.
O estoque final da safra 2003/2004 dos EUA é o mais baixo desde 1976/77 e foi um dos maiores responsáveis pela sustentação dos preços até meados de maio, com 2,88 milhões de toneladas, e elevando-se para 5,7 milhões de toneladas na projeção para o final de 2004/05. Os elevados preços da safra 1996/97 coincidiram com estoques de 3,51 milhões de toneladas e que foram rapidamente recuperados aos níveis de 5,39 e 9,47 milhões de toneladas nas safras seguintes, promovendo a queda dos preços abaixo de 10 dólares (60 kg). A produção total de oleaginosas para 2004/2005 deverá atingir o recorde de 379,1 milhões de toneladas, representados além da soja, pelo aumento da produção de girassol na Romênia, algodão na China e Índia, e canola no Canadá.
Na expectativa do USDA, a produtividade esperada nos EUA foi reduzida de 2,688 ton/ha para 2,681 no relatório de julho/2004. Na comparação entre as produtividades desde 1996 (figura 3), a safra atual apresenta-se com elevado percentual da área considerada boa a excelente, no entanto, a safra passada que representa o mais baixo desempenho no período, estava com condições melhores do que as atuais até o final de julho. Isto mostra o quanto o mercado ainda poderá surpreender.
MILHO
A produção mundial de milho projetada para 2004/05 pelo USDA está em 648,8 milhões de toneladas contra 665,1 milhões de toneladas no consumo, indicando que os estoques serão mantidos baixos, mas já apontando para uma pequena recuperação, já que o relatório de maio constava 66,8 milhões de toneladas e o atual com 75,9 milhões de toneladas. Apesar desta ligeira recuperação, a relação estoque final/consumo esperada é de 11,4%, pouco superior a 10,1% de maio mas muito inferior aos níveis de 24 a 32% registrados entre as safras 1991/92 e 2001/2002. Por outro lado, os preços são influenciados por vários fatores e a relação estoque/consumo nem sempre é um bom indicador. A facilidade e a segurança para a comercialização internacional de grãos proporcionada pela Organização Mundial do Comércio tem avançado a cada dia e proporciona a redução dos estoques de alimentos sem o risco de desabastecimento, portanto, os modelos de previsão de preços estão sendo e devem ser ajustados continuamente.
Na figura 4 está a linha de resistência estabelecida pelo mercado em relação aos preços deflacionados pelo IGP-M sobre os preços pagos ao produtor do Paraná, indicando um patamar de aproximadamente R$ 21 /60 kg como o máximo tolerado pela economia. No final de 2002 e início de 2003, a elevação acima da linha foi gerada pela distorção cambial onde a taxa cambial nominal atingiu 3,8 contra 2,8 do câmbio real (ou de paridade). Com a devida correção, os preços daquele período seriam limitados pela linha de resistência que aponta o máximo que a economia se propõe a pagar pelo grão. Na edição anterior da revista Plantio Direto, esta discussão foi realizada sobre os preços pagos ao produtor do RS. Sempre que os preços atingem a linha de resistência, é recomendável vender o grão e aplicar em qualquer outro ativo de menor volatilidade para eliminar o risco de perdas que ocorrem no período seguinte, exemplificado pela figura 4.Nos EUA, o incremento da área de milho foi de 2,92% e de 1,97% na expectativa de produtividade, representando 9,094 ton/ha num país que plantou aproximadamente 32,8 milhões de ha. Do total da comercialização internacional do cereal, projetado em 78,26 milhões de ton, somente os EUA esperam exportar 53 milhões, representando mais de 68% de todo o grão transportado entre países. Somente pela produtividade média acima de 9 ton/ha em 32 milhões de ha pode-se visualizar a importância da cultura para os norte-americanos.
TRIGO
O estoque mundial de trigo registra aumento pela primeira vez desde a safra 1999/2000, resultado da boa safra dos EUA, China, Romênia e Rússia. Isso se deve à projeção de aumento na produção mundial de 550,5 para 598 milhões de toneladas da safra 2003/04 para 2004/05. Por outro lado, o trigo, como o milho, é uma das culturas que mais apresenta variabilidade na produtividade devido a sua sensibilidade ao ambiente e poderá ocorrer redução nestes números. A relação estoque final pelo consumo mundial para 2004/05 está em 22,2%, igual ao da safra anterior, mas inferior ao mais baixo nível registrado nos últimos 13 anos que foi de 24,9% na safra 1995/96 que, por sua vez, coincidiu com preços nominais ao redor de US$ 15 (60kg) pagos ao produtor do Paraná. A baixa relação estoque/consumo é um dos indicadores de sustentação dos preços mas não garante um comportamento de alta como o verificado em 1996, mas poderá ocorrer se houver qualquer problema na safra do trigo de primavera que está em pleno desenvolvimento.
Na figura 7, os preços pagos ao produtor do Paraná deflacionados pelo IGP-M apresentam o movimento cíclico de curto prazo gerado pela sazonalidade da safra brasileira, onde normalmente nota-se queda de aproximadamente R$ 5,00 (60kg) quando inicia a pressão de oferta gerada pela safra sul-americana. O pico registrado no final de 2002 e início de 2003 nos preços em R$, contrapondo-se aos dolarizados, foi gerada pela distorção cambial já citada no milho e que não está ocorrendo no período atual, pois a taxa cambial nominal está ligeiramente abaixo da taxa de paridade. Este gráfico é uma orientação sobre a variação que poderá ocorrer se as condições mantiverem-se como as atuais, mas sempre teremos pressão especulativa sobre condições anormais, como a possibilidade de redução na projeção da safra mundial.
Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, nº 82 – edição julho/agosto de 2004. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.