Evolução da Agricultura
Celso FinckEng.Agro. Msc em Produção e Proteção de Plantas; Professor UEPG-PR, Agricultor, Diretor da CFINCK & Cia Ltda – Armazenagem Qualitativa - Email celsofinck @uol.com.Br - Fone (42) 224 7001
Em meados da década de 60, na época em que o país priorizava com maior ênfase o desenvolvimento industrial, a produção agrícola centralizada no café e na cana de açúcar, representaram 91% de nossas exportações, e hoje contribuem com pouco mais de 5% da pauta de produtos exportáveis.
Ao final deste ciclo por volta de 1965, o país encontrava-se numa séria crise de abastecimento, e para estimular a produção de alimentos, foi implantada a política com garantia de Preço Mínimo ao produtor, que na verdade tornou-se o preço máximo pago ao agricultor. Na sombria época do tempo do ”Plante que o João garante”, em uma área de 37.893,7ha alcançou-se uma produção de 57.899,6 milhões de ton. Nossos estoques cresceram quantitativamente, gerando excedentes boa parte adquiridos pelo governo, e iniciando-se um novo ciclo agro-industrial e de exportação consolidado com o desenvolvimento da soja
Novas mudanças na política nacional, por volta de 1990, diminuíram os incentivos destas políticas, e iniciando-se o cenário da fase da agricultura auto sustentável. O agricultor brasileiro novamente deu mostras de sua competência e capacidade de assimilação desta mudanças, conduzindo o sistema em constante crescimento de produtividade e em equilíbrio com o meio ambiente. Destaca-se neste período o acentuado desenvolvimento tecnológico, a expansão e consolidação da exploração agrícola utilizando a tecnologia do plantio direto. De 1990 a 2004, houve um crescimento de 23,7% da área plantada(46.905,8ha), e a produção agrícola deu um salto de 107,2% alcançando em 2003 produção superior a 119.967,9 milhões de toneladas.
Novo Ciclo: Produção Qualitativa
Plantar e Manter a qualidade não será mais uma questão de alcançar melhor preço, mas de estar e ser aceito no mercado.
O potencial de crescimento mostra que temos condição de alcançar uma produção de 350 milhões disponibilizando tão somente a área de crescimento diante do potencial tecnológico hoje desenvolvido, sem a necessidade de agressão ao meio ambiente e devastação de florestas, consolidando definitivamente os novos rumos do agronegócio. Entramos assim no novo ciclo da produção quantitativa e qualitativa, e o novo desafio a ser vencido pelo setor produtivo, será manter ou alcançar novos índices de produtividade e principalmente precisaremos saber conduzir estes estoques preservação e gestão da qualidade de forma a termos a qualquer momento um produto compatível com as atuais exigências dos mercados internos e principalmente de exportação.
Problemas com qualidade
Recentemente, nossa agropecuária, vem sofrendo reveses diante certos desacordos nos mercados internacionais e mesmo individualmente desencontros de qualidade diante das indústrias operantes no mercado interno.
Não são novos estes acontecimentos, pois em exportações de ração para perus a serem tratados na corte Inglesa, nosso produto contaminado por Aflatoxina exterminou as aves da rainha e nosso mercado desmoronou e nunca mais tivemos exportações do referido produto.
Nosso café dormindo em berço esplêndido da época dos Barões, não mereceu a devida preocupação em estudar o mercado e o crescimento dos concorrentes, até que outros países tomaram conta do mercado que hoje lutamos para reconquistar.
Mais recentemente, o Canadá por interesse no mercado de aviões levantou suspeita de no Brasil haver ocorrência da ”Vaca Louca”. Sem tradição no controle de qualidade, passamos dois meses provando ao mundo que isto era uma inverdade. Se tivéssemos tradição e conhecimento de mercado de qualidade, o blefe seria rebatido de imediato, não dando tempo aos Canadenses no seu intento de negociar aviões.
Outros exemplos como no caso da carne de frango quando uma comissão da União Européia veio ao Brasil analisar a presença do contaminante Nitrofuranos, e outras ocorrências vem mostrando como é o trato do negócios e o respeito pelo aspecto qualitativo nos mercados internacional, e mesmo nacional.
Caso da Soja
Agora, surge um novo fato com soja contaminada com grãos tratados com fungicidas.Outro descuido de quem não tem tradição no controle de qualidade. Não adianta discutirmos se estava dentro do padrão, ou se tem ou não efeito residual no produto industrializado. O fato é que sementes tratadas com fungicidas, não poderiam estar no meio de grãos destinados a qualquer mercado seja interno ou de exportação. A atual portaria ministerial da soja editada em junho de 2004, deveria servir apenas para contemporizar o problema na atual safra. Para safra seguinte, a tolerância deveria retornar a zero, com sérias restrições punitivas a quem viesse a fraudar esta restrição. O problema, o risco e a possibilidade de novas devoluções vão continuar, assim como outros fatores impeditivos já alertados, continuarão a rondar nossos produtos destinados a todos os mercados.
A ANEC, em julho de 2003 com os exportadores, divulgou uma lista de procedimentos a serem observados pelos exportadores de grãos para China e Japão. Na verdade tal relatório já relatava fatos e irregularidades constatadas e reclamadas pelos importadores tais como, falta de peso, terra, plantas daninhas, pragas quarentenárias, presença de insetos em soja e demais produtos, inclusive de residuais agrotóxicos nos produtos exportados.
Tradição e Perfomance em Qualidade
Observando estas ocorrências, verificamos que a visão da qualidade de nossos produtos, não deve estar restrita a fatos pontuais, ou seja, encaradas em cada novo acontecimento que venha surgir. Precisamos analisar todas as exigências dos mercados externos e ajustarmos nossa legislação a todo mercado interno, de forma principalmente a nos disciplinarmos com a prática da excelência em qualidade. Esta será a tônica dos novos mercados e da disciplina e atenção que deveremos aplicar na condução de nossos estoques.
A medida que nossa produção crescer, e nossa oferta se destacar nos mercados externos e internos, maior será o foco e o direcionamento de exigências, bem com nossa responsabilidade na gestão de qualidade. Ter qualidade não representará melhor preço como alguns esperam, mas sim, uma condição de estar e se manter operante no mercado. É com esta consciência que devemos iniciar amplo debate nos critérios de qualidade, e com este espirito que devemos conduzir o crescimento de nossa produção agrícola.
No mercado interno, as indústrias, que utilizam os produtos agrícolas para ração, industrialização ou alimentação humana, sentindo as exigências e a competitividade dos mercados consumidores, passaram a pressionar este sistema agrícola visando uma produção qualitativamente mais aprimorada. Contudo, esta expectativa de uma melhor comercialização tem sido frustrada no momento em que o produto ofertado não corresponde as exigências dos mercados internos ou de exportação, no que se refere aos aspectos da qualidade. Desta forma para atender as atuais exigências deste mercado seletivo, será preciso que o sistema de armazenagem interprete a qualidade gerada no campo, conhecendo melhor o produto que é confiado a sua guarda, entendendo também as expectativas do mercado consumidor, para então verificar onde está o limite ou o enquadramento de suas possibilidades operacionais.
Precisamos reverter o conceito e as informações que indicam o setor agrícola brasileiro de não haver uma tradição no controle da qualidade dos produtos. As perdas de qualidade, por vezes de difícil mensuração, avaliação e quantificação, traduzem no ato de ocorrência valores mais significativos do que as perdas físicas, e poderão em determinadas situações comprometer toda a cadeia produtiva.