Mauá da Serra Comemora Resultados dos 30 Anos do Plantio Direto na Palha


Autores:
Publicado em: 01/08/2004

Mauá da Serra comemora resultados dos 30 anos do Plantio Direto na Palha

Os produtores rurais de Mauá da Serra (Norte do Paraná), estão comemorando, este ano, 30 anos de implantação do Sistema de Plantio Direto no município. A data foi festejada com uma intensa programação entre os dias 13 e 16 de maio, durante a realização da tradicional festa do Milho, realizada há 9 anos no município.Não faltaram homenagens durante as festividades. Os organizadores do evento entregaram 34 comendas a todos os segmentos que colaboraram para a implantação e desenvolvimento da técnica no Paraná e no Brasil. Entre os homenageados estavam os agricultores pioneiros de Mauá da Serra, Yukimitsu Uemura e Toshiyuki Yamanaka; o pioneiro da técnica no Brasil Herbert Arnould Bartz; empresas das áreas de maquinários e implementos agrícolas e da indústria química, que trabalharam para o desenvolvimento de maquinários e herbicidas apropriados para o plantio direto.

Durante as comemorações também não faltaram lembranças das dificuldades enfrentadas pelos pioneiros do plantio direto. A intensa mecanização e exploração de sucessivas safras no sistema de plantio convencional começaram a mostrar seus efeitos danosos nos anos 70, em forma de grandes erosões capazes de inviabilizar o uso do solo do município em curto espaço de tempo. A situação desanimou muita gente, que preferiu vender ou simplesmente abandonar suas terras, partindo em busca de vida melhor. Outras, resolveram ficar e reinventar a forma de cultivar o solo.O plantio direto foi a solução encontrada para conter as erosões e o êxodo rural. Na programação das comemorações dos 30 anos do plantio direto foi inserido um Dia de Campo, quando o pesquisador da área de solos do Instituto Agronômico do Paraná Celso de Castro Filho demonstrou, com a ajuda de um simulador de chuva, os efeitos da água sobre um solo nu e sobre um solo com palha. Quem participou pôde verificar o quanto de terra é perdida num dia de intensa chuva. ”E quanto maior o manejo do solo, maior a perda”, disse o pesquisador.”Guardo ainda na memória lembranças de dias muito difíceis. Eu ainda era jovem, trabalhava nas terras com meus pais e irmãos e me lembro da tristeza dos dias de muita chuva. Junto com a água, víamos, da varanda de nossa casa, a terra correr embora, deixando para trás grandes erosões. Ficávamos ali, assistindo a tudo e sem poder fazer nada”, conta Sérgio Higashibara, produtor e coordenador da comissão das comemorações dos 30 anos de Plantio Direto na região de Mauá da Serra. A história do plantio direto naquela região começou em janeiro de 1974, quando alguns produtores visitaram a propriedade de Herbert Bartz, em Rolândia, que sofria com o mesmo problema, para conhecer a técnica de plantar sem remover a terra. O produtor Yukimitsu Uemura, hoje com 75 anos, era um deles. Naquela época, ele plantava soja e trigo. ”Mas a produtividade era baixa, ficava entre 50 e 60 sacas por alqueire e quando vinha a chuva era prejuízo certo, com a terra rodando para as baixadas e rios, não dando, muitas vezes, condições para replantio devido às dificuldades de movimentar o trator entre os sulcos da erosão”, relata. Logo que visitaram a propriedade de Bartz, perceberam que o plantio direto era a única solução para as terras da região de Mauá da Serra. ”Percebemos que a força da água, que levava nossas terras embora, era domada pela palha no solo”, lembra Higashibara.No início, sem herbicidas e maquinários apropriados, o trabalho era árduo. O mato tinha que ser tirado na enxada ou à mão; as máquinas não tinham agilidade e precisão. Eram necessárias muitas horas de trabalho por dia para cultivar a terra. O maquinário apresentava baixo rendimento no plantio, além de pedir manutenção constante. Em um dia de serviço, com cerca de 12 horas de trabalho, conseguia-se plantar apenas 10 hectares, em média.”Mas tudo valeu a pena”, complementa Carlos Tsuyoshi Kamiguchi, representante da segunda geração de produtores do plantio direto e membro da equipe de organização das comemorações. ”Hoje temos um solo recuperado, altamente produtivo, e nos orgulhamos de praticar uma agricultura sustentável”, diz.

”Eu nunca pensei que aquela região fosse mudar tanto”, complementa Herbert Bartz. Ele credita o sucesso também à tradição e disciplina da colônia japonesa na região, que acreditou no sistema e não mediu esforços para implantá-lo. ”É uma satisfação imensa ver o resultado do plantio direto na região de Mauá, que é hoje um modelo do sistema para todo o país”, comenta Bartz. Ele proferiu palestra sobre o sistema, dentro da programação das comemorações.O professor da Universidade Estadual de Londrina Ricardo Ralish também fez palestra sobre o plantio direto no mundo e no Brasil para os convidados das festividades. Segundo ele, a importância de se comemorar os 30 anos do plantio direto na região de Mauá da Serra é, principalmente, por se tratar de um trabalho coeso. ”A união em prol de um objetivo é que nos permite afirmar que os produtores dessa região estão realizando uma agricultura sustentável.”Mauá da Serra é considerado um pólo de referência do sistema tecnológico de plantio direto na palha no Brasil pela recuperação e manejo da matéria orgânica no solo.

Município tem sistema avançado

A qualidade do sistema plantio direto alcançado pelos produtores de Mauá da Serra está diretamente relacionada à capacidade que tiveram de recuperar a matéria orgânica do solo, garantindo a sustentabilidade da lavoura. Segundo o produtor rural Sérgio Kasutoshi Higashibara, a condição atual do solo proporciona maior possibilidade de a lavoura suportar veranicos e outras adversidades climáticas.

”Nesses 30 anos, chegamos a um estágio de plantio direto bastante avançado”, constata. Enquanto no Paraná o teor de matéria orgânica no solo fica na média dos 3%, na região de Mauá da Serra esse teor é de aproximadamente 5%, o mesmo que havia no solo da região norte do Paraná antes de sua colonização. O engenheiro agrônomo da Emater Nelson Harger diz que a matéria orgânica é considerada hoje a ”Deusa do Solo”. Segundo avalia, hoje os produtores de Mauá possuem uma ”poupança” de matéria orgânica que garante a sustentabilidade do sistema de plantio direto. O manejo é considerado tão importante no processo que, mesmo diante da possibilidade de grandes lucros com outras culturas, muitos produtores mantêm o cronograma de rotação de culturas programado para cada propriedade.Harger informa que a matéria orgânica propicia a melhor infiltração, manutenção de água e equilíbrio químico e biológico no solo. O plantio direto na palha, diz ele, garante a sustentabilidade ambiental, evitando erosões; a sustentabilidade social, devido à racionalidade da mão de obra e redução do êxodo rural; além da sustentabilidade econômica e tecnológica.

Novos desafios seduzem produtores

Depois de alcançarem uma produtividade que cobria os custos e dava algum lucro, nos anos 90, os produtores de Mauá da Serra se lembram que ficaram um pouco acomodados. Na época, a produtividade era de 50 sacas de soja por hectare.

Década de 1970

Última safra

Cultura

kg/ha

sc/ha

kg/ha

sc/ha

Soja

1.980

33

3.850

64

Milho

2.975

50

9.000

150

Trigo

1.750

29

4.000

58

Feijão

-----

----

2.100

35

A estagnação começava a dar sinais quando os produtores foram seduzidos por um novo desafio: aumentar a produtividade para 83 sacas de soja e trigo, e 165 sacas de milho por hectare. Para alcançar essas novas metas, criou-se, em 1997, o Grupo de Desenvolvimento de Tecnologias (GDT) de Mauá da Serra, formado pelos produtores. O GDT está sempre em busca das melhores tecnologias, testando-as através de ensaios e parcelões em áreas comerciais para viabilizar o sistema de produção como um todo, com retorno financeiro. Para tanto, conta com o respaldo técnico da Cooperativa Integrada, Sementes Mauá e da Associação Brasileira para Pesquisa do Potássio e do Fósforo (POTAFOS).Desde então, a história vem sendo construída dia-a-dia e a produtividade vem crescendo a cada safra. Em 2004, ano da comemoração dos 30 anos de plantio direto em Mauá da Serra, as médias apresentadas, comparando-as com as da década de 70, eram: soja produzia, na década de 70, 33 sacas por hectare, contra 64 sacas na última safra; o milho produzia 50 sacas, contra 150 na última safra; e o trigo produzia 29 sacas, contra 58 na última safra.

Importância econômica e social na região

A prática de plantio direto para o cultivo de cereais ocupa a totalidade das áreas da região de Mauá da Serra, exceto as áreas destinadas à exploração em regime de agricultura de subsistência.O plantio direto na região de Mauá da Serra abrange também os municípios de Faxinal, Marilândia do Sul e Tamarana. As áreas de plantio nesse sistema somam 87.622 hectares por ano, sendo cultivadas 34.150 ha com soja, 13.900 ha com milho, 3.410 ha com feijão das águas, 2.680 ha com feijão das secas, 22.700 ha com trigo, 9.202 ha com aveia branca, 1.300 ha com aveia preta, 1.750 ha com triticale, 3.100 ha com milho safrinha e 400 ha de soja safrinha (Fonte: Deral/2003), permitindo assim a manutenção de indústrias e cooperativas que sustentam a economia da região.Essa região, com o nível de desenvolvimento e incorporação de tecnologias cada vez mais adequados, assume hoje uma posição de destaque no Vale do Ivaí, em termos de produtividade de milho, e também elevou o município de Mauá da Serra entre os mais conhecidos como produtor de semente de soja e trigo do país pela qualidade alcançada.O plantio direto, além de garantir o sucesso das atividades agrícolas nos municípios e de ser amplamente difundido em todo o estado do Paraná e em todas as regiões brasileiras produtoras de grãos, é também responsável de forma eficiente pela conservação dos solos e da água das grandes bacias hidrográficas. Sobretudo, proporciona uma melhor harmonia ao sistema ambiental, permitindo assim a realização da Agricultura Sustentável.

Plantio direto é importante na geração de energia em Itaipu

Se não fosse o sistema de plantio direto, possivelmente o País passaria por sérios problemas no fornecimento de energia elétrica nos próximos anos, afetando a vida de milhões de consumidores.Exemplo disso é a hidrelétrica de Itaipu, um empreendimento binacional desenvolvido pelo Brasil e pelo Paraguai no Rio Paraná, com potência instalada da usina de 12.600 MW (megawatts). O reservatório da usina tem 1.350 km² e em toda sua extensão o problema de assoreamento, devido à erosão do solo nas propriedades, era uma constante. Agora, a hidrelétrica vem incentivando o uso do plantio direto nas propriedades para preservar o volume de água do reservatório. ”Esse sistema é uma ferramenta importante na proteção e no prolongamento da vida útil do reservatório”, diz o diretor-geral da Itaipu Binacional, Jorge Miguel Samek.Samek assegura que o plantio direto preserva a qualidade da água. ”Isso porque a quantidade de resíduos que vai para o reservatório é bem menor do que no sistema convencional.”

Museu preservará história do Plantio Direto em Mauá da Serra

A história da implantação e do desenvolvimento do Sistema de Plantio Direto na Palha no Brasil será preservada com a criação do museu do Plantio Direto, a ser instalado em Mauá da Serra e cuja pedra fundamental foi lançada durante as comemorações dos 30 anos de utilização da técnica no município. A iniciativa da obra é do Grupo de Produtores Rurais da Região de Mauá da Serra, em terras doadas pelo pioneiro do plantio direto na região, Yukimitsu Uemura.No museu ficarão expostos as primeiras máquinas e implementos agrícolas utilizados para o plantio – entre eles a Rotacaster -, a história da colonização de Mauá da Serra e, entre outros importantes objetos que mostram a evolução do sistema no Brasil, também estarão expostas fotos das primeiras áreas cultivadas sob o conceito do Plantio Direto. O objetivo da criação do museu é ajudar as futuras gerações a entenderem a importância do sistema para a preservação do meio ambiente e produtividade da terra, e preservar a história de forma mais fiel.