Encontros e desencontros
O primeiro semestre do ano na área agrícola também se caracteriza pela quantidade de eventos, encontros, simpósios, congressos, seminários, cursos, dias de campo e qualquer outro nome que possa ser dado para a reunião de produtores, pesquisadores, estudantes e/ou técnicos que necessitam saber mais, buscar alternativas e debater questões ligadas à sua atividade.Em certa ocasião um técnico comentou: ”o mundo vai acabar em eventos”. Ao contrário do que possa parecer não foi reclamação e sim uma constatação. Muitas vezes o público desse imenso número de programações gostaria de participar de grande parte delas, mas sabemos que é impossível.Na questão volume, é interessante comentar que durante os últimos meses temos tido contato com o histórico do plantio direto do Rio Grande do Sul e o que chamou atenção foi o fato de que não aconteciam, ou eram escassos antes do plantio direto, os eventos com formato que permitissem a participação dos agricultores.Bom ou mau sinal?No início os encontros sinalizavam que tínhamos muito para aprender, dúvidas para esclarecer e questionamentos sobre a técnica. Mas isso ainda é realidade hoje, pois o sistema tem como principal característica ser um processo de aprendizagem contínua e dinâmica, sendo essa é uma das razões do grande volume de eventos na área. As demandas existentes subsidiam a necessidade dos encontros, de troca de experiências e tantos meios de favorecer a interação entre produtores e técnicos nos diversos níveis.Por isso consideramos corajosa e oportuna a iniciativa do Engenheiro Agrônomo Dirceu Gassen que no título de sua palestra durante o Ciclo de Debates Técnicos Sobre Plantio Direto, ocorrido no mês de julho em Passo Fundo, utilizou a palavra ”problemas”. Isso nos ajuda a derrubar tabus e parar de buscar sinônimos para o termo. Se existem problemas também há soluções e alternativas. E não quer dizer que os ”problemas” sejam necessariamente do plantio direto, podem ser uma resposta ao manejo inadequado.É inegável que o dinamismo do Sistema Plantio Direto qualificou técnicamente a agricultura e deve continuar motivando trabalhos de pesquisa em todas as áreas da agronomia. Se os problemas existem a pergunta é: eles são resultado dos anos de plantio direto ou da forma como ele está sendo feito? Simplesmente deixar um pouco de palha sobre a superfície do solo não pode ser considerado plantio direto.Após a participação nos eventos será que o dever de casa está sendo cumprido? Nota-se um entusiasmo evidente no encerramento de qualquer encontro. Os participantes saem motivados e com a sensação de que as dúvidas estão sanadas e, além disso, consideram-se comprometidos com a realização de um trabalho de qualidade na próxima safra. Por que há então desencontros entre o que se ouve (se aprende) e o que se faz dentro da propriedade? Os desencontros são cada vez mais freqüentes e a coerência se faz necessária no momento de organizar uma programação direcionada a produtores e técnicos. Buscar demandas reais de cada área pode ser uma forma de evitar a realização de encontros com desencontros de interesses.
Juliane Borges