Previsão de neutralidade no outono-inverno de 2004
A Cooperativa Tritícola Mista Alto Jacuí – COTRIJAL, promoveu no dia 28 de abril o V Encontro Técnico e Perspectivas de Mercado de Cevada e Trigo. O evento reuniu 450 participantes e teve como principal objetivo antecipar informações para a safra de inverno. Foram palestrantes do evento Paulo Etchichury, da Somar Meteorologia, que falou sobre perspectivas climáticas do outono-inverno 2004; Eduardo Caierão, da AMBEV, que abordou a cevada como alternativa para o inverno; Fernando Martins e Leandro Pagliarini, da Cotrijal, que falaram respectivamente sobre aspectos técnicos de semeadura, adubação, escalonamento de cultivares e análise financeira entre trigo e cevada em propriedades de associados da cooperativa.O evento foi finalizado com a apresentação de Waldomiro Bochese, do Moinho Nordeste, que falou das perspectivas do mercado do trigo.A Revista Plantio Direto aproveitou a presença em Não-Me-Toque/RS do Meteorologista Paulo Etchichury, da Somar Meteorologia, de São Paulo para uma breve entrevista onde ele fala sobre as condições climáticas para o inverno de 2004.Revista Plantio Direto – Quais são as perspectivas climáticas para o inverno em 2004?
Paulo Etchichury - Para este inverno estamos projetando uma condição bem diferente a do ano passado, pois no momento estamos vivendo uma relativa neutralidade no ponto de vista da temperatura dos oceanos e atmosfera na grande escala, o que significa que não temos influência direta de nenhum fenômeno climático. É importante lembrar que em 2003, no final do outono e início do inverno, ainda tínhamos a influência do El Niño, que atuou durante o verão 2002/2003.
RPD - Quais são as conseqüências de um inverno com condições neutras?
Etchichury – Isto significa que em termos de Brasil, teremos um inverno com condições típicas de cada região, pois os últimos invernos foram atípicos, com temperaturas amenas para a estação, no geral mais quentes.
RPD – Quais são as expectativas para a região Sul em termos de clima?
Etchichury – As expectativas são de um inverno com maior incidência de massas de origem polar e, por conseqüência, uma maior incidência de geadas. É importante salientar que não há previsão de inverno extremamente rigoroso, pois não temos previsão de frios constantes. Ocorrerão ondas de frio mais intensas com episódios de geadas e também alguns períodos de temperaturas mais amenas. Teremos com certeza ondas de frio mais intensas que às ocorridas em 2003.
RPD - O que significa ondas de frio?
Etchichury - Ondas de frio significa que as frentes frias passam pela região antes das massas de ar de origem polar e, com isso, a projeção para o inverno no sul do Brasil, que sofreu durante o verão com períodos de escassez de chuvas e teve durante o outono uma gradual normalização terá, durante o inverno, frentes frias passando em direção ao sudeste trazendo chuvas para a região de forma regular não havendo, portanto, previsão de grandes anomalias climáticas. As chuvas terão ciclos normais e estarão associadas com as frentes frias, o que significa eventuais episódios de chuvas mais intensas, com duração de dois ou três dias, período em que as frentes atuam em determinada região. Esses períodos serão intercalados com períodos secos, que coincidem com as massas de ar polar sobre a região. Enfim, o inverno terá uma condição mais típica do sul do país.
RPD - Quais são as previsões para as outras regiões do Brasil?
Etchichury - A neutralidade climática citada anteriormente significa que as frentes frias estarão subindo e que as massas de ar chegarão até o Sudeste e Centro Oeste, levando um frio diferente de outros anos. O inverno nessas regiões será ligeiramente mais frio que em anos anteriores, mas também não há previsão de ser rigoroso, apenas deverá ocorrer a atuação de algumas massas de ar, o que aponta para um risco maior de geadas, mesmo que de forma isolada, nas regiões produtoras de café, fator de grande expectativa nessa época do ano na região sudeste. É bom lembrar que a última geada que provocou perdas nas lavouras de café em Minas Gerais, Alta Mogiana, Cerrado e Zona da Mata foi em 1994. Portanto, há dez anos não correm geadas fortes nessas regiões e este ano o risco para esse fenômeno é um pouco maior.
RPD – Como será o regime de chuvas para essas regiões?
Etchichury - Em termos de chuvas o Sudeste e Centro-Oeste vive seu período seco, apenas não tão seco como invernos anteriores. Porém é bom chamar a atenção de produtores de culturas irrigadas para a possibilidade de temperaturas mais baixas durante o inverno.
RPD – Há previsão de anomalias para o Nordeste do país?
Etchichury - Para o Nordeste, depois de um verão chuvoso, o inverno vai marcar um período seco fazendo com que as chuvas nesta região do Brasil, durante o inverno, sejam restritas a faixa leste, principalmente entre a Bahia e Pernambuco. Isso favorece a Zona da Mata que é uma região produtora de cana-de-açúcar e também o Nordeste da Bahia, que produz feijão. Portanto, segundo os modelos, teremos um período de chuvas dentro das características normais.
RPD – O que pode ser esperado para o segundo semestre do ano?
Etchichury - O inverno depois de alguns anos estará apresentando características típicas para cada região, sem a previsão de grandes anomalias. Porém, às mudanças em termos de clima estão previstas para o segundo semestre, pois até a metade de 2004 estaremos vivendo uma condição de neutralidade, mas a partir do mês de setembro há indicações de anomalias no Oceano Pacífico e Equatorial, quanto volta a fase de aquecimento, tornando possível mais uma vez, a formação do fenômeno El Niño.
RPD – Quais são as conseqüências do El Niño?
Etchichury – A presença do fenômeno traz como conseqüência condições climáticas diferentes do primeiro semestre do ano, com expectativas de chuvas acima da média, um risco para a fase final das culturas de inverno, e condições mais favoráveis para o milho e a soja. Para o arroz, em especial do Rio Grande do Sul, ano de El Niño requer um pouco mais de cuidado, pois podem ocorrer problemas de excesso de chuva no período de plantio e menor luminosidade durante o desenvolvimento da cultura. Portanto, confirmando o aquecimento do Oceano Pacífico, teremos uma condição propícia, durante a primavera e verão, para ocorrência de chuvas acima da média.
Para o Sudeste e Centro Oeste a conseqüência do El Niño é uma Primavera mais quente, com picos de calor nas duas regiões, ficando o regime de chuvas, normalmente, concentrado no verão. Essa condição provoca um atraso na instalação e na regularização do regime de chuvas, a exemplo do que aconteceu em 2002, quando as lavouras do Centro Oeste foram bastante prejudicadas no início, mas tendo um período de precipitações normais durante o ciclo das culturas. Para o Mato Grosso e Goiás que sofreram com muita chuva no verão passado, o fenômeno El Niño, de certa forma, reduz um pouco essa possibilidade em 2004.