Nonô Pereira leva sua experiência ao Continente Europeu
Nos primeiros meses de 2004, Manoel Henrique Pereira participou de duas jornadas com o objetivo de levar ao Continente Europeu um pouco de sua experiência com o plantio direto na palha. Realizando uma maratona de palestras, visitou a França, Espanha, Portugal, Itália e também a Tunísia. Nas viagens Nonô conferiu o estágio de desenvolvimento do sistema nesses países e a receptividade dos agricultores à nova forma de produzir alimentos.
Percorrendo países importantes da Europa, Nonô foi o Dom Quixote do Plantio Direto, não muito diferente do personagem de Miguel de Cervantes, caracterizado na literatura como um sonhador idealista. Nonô Pereira ”cavalgou” em trens de alta velocidade, aviões e carros, levando seu conhecimento sobre a forma de fazer uma agricultura mais racional. Os Moinhos são, nessa história, as mentes relutantes em aceitar mudanças cada vez mais necessárias em regiões onde os produtores são praticamente sustentados pelos subsídios e por isso não ”ouvem” os lamentos de seus solos.
Poucos países possuem uma cultura tão facilmente reconhecível quanto à Espanha. Na terra de García Lorca, Picasso, Miró, Salvador Dalí e Gaudí, poetas, escritores, pintores e arquitetos que são apenas exemplos de inúmeros nomes na história das artes da Espanha, Nonô Pereira iniciou sua jornada pela Europa.
A agricultura ocupa 54% do solo e produz 3% da riqueza da Espanha, país onde Nonô Pereira iniciou seu roteiro, mais precisamente na cidade de La Coruña, situada na Região da Galícia. Realizando palestras e visitando o campo, Nonô conheceu propriedades que desenvolvem o plantio direto, onde, segundo ele, é possível encontrar áreas com até 10 anos de PD. ”O clima é semelhante ao Sul do Brasil, úmido e fresco. A Galícia é formada por pequenas propriedades, que possuem em média 21 hectares, com muita pecuária de leite e grãos como cevada e trigo no inverno e milho, canola e girassol, no verão”, comenta Nonô. Ele explica que a Galícia é diferente das demais regiões da Espanha em função do clima que favorece o cultivo de grãos. ”La Coruña possui solos férteis e propriedades tecnificadas. Lembra a região de Carambeí-PR, pois os agricultores moram nas fazendas que possuem casas muito bonitas e confortáveis”.
O segundo ponto na viagem de Nonô foi a cidade de Palência, na região de Castela-Leão, onde ele encontrou uma condição diferente para o plantio direto. Localizada quase ao centro da Espanha, formada por solos pobres com alto teor de areia e um clima com regime de chuvas totalmente diferente de La Coruña, pois em Palência acontecem longos períodos de estiagem.
Segundo Nonô Pereira, as reuniões na Espanha foram muito produtivas e prestigiadas, algumas chegando a contar com 200 participantes, entre produtores, técnicos e pesquisadores, ”muitos deles já haviam visitado minha propriedade no Brasil, estavam todos muito entusiasmados e conscientes da técnica”, afirmou.
De Palência Manoel Henrique Pereira passou rapidamente por Madri partindo em seguida para a França, onde realizou apenas duas palestras na região de Lyon, antes de continuar seu roteiro que também contemplava a Tunísia, país onde acontecia o 2º Congresso Nacional de Plantio Direto. ”Para mim foi interessante, pois não tinha nenhuma informação sobre a Tunísia e nem mesmo sobre os motivos que os levaram a adotar o sistema”. O evento que Manoel Henrique Pereira participou aconteceu em Tabarca, cidade litorânea. ”Nessa viagem percebi a importância do plantio direto para a Tunísia, pois visualizei solos de topografia ondulada, com uso intenso de mecanização, excesso de preparo do solo e um processo violento de erosão em decorrência das chuvas”, comentou Nonô.
O trigo é base da alimentação da população na Tunísia e os agricultores dedicam-se praticamente a essa cultura, enfrentando até 300 mm de chuva na época do plantio. ”Na viagem percebi a importância do plantio direto para a contenção da erosão, estabilidade da umidade no solo e diminuição da velocidade de evaporação durante o período seco”. Segundo Nonô, os solos da Tunísia começaram a ser explorados para agricultura pelos romanos, há dois mil anos. ”Em dois mil anos não mudou muita coisa, planta-se morro abaixo deixando a chuva lavar, isso comprova que são solos extraordinários, pois ainda conservam um pouco da fertilidade natural” reforçou.
Antes de encerrar a primeira jornada e retornar ao Brasil, Nonô Pereira ainda fez duas palestras na França, junto com seu anfitrião na Europa Didier Mealares, da Empresa Semillas Lage, que distribui os produtos da Semeato na França, Espanha e Portugal.
A Segunda maratona
O segundo circuito de palestras sobre plantio direto de Nonô Pereira concentrou-se na França, país conhecido como o ”Gigante Verde” da União Européia, onde podem ser encontrados todos os tipos de clima e agricultura existentes no Continente e cujo povo possui identidade cultura e senso de nacionalidade muito fortes. ”Nessa ocasião, cheguei em Paris, fui descendo pelo leste até o sul e depois subi novamente para oeste quase chegando ao norte. Em cinco dias realizei cinco apresentações, participei de cinco dias de campo fazendo cinco viagens, pois as palestras aconteceram em locais diferentes. Nesse roteiro utilizei como meio de transporte o TGV, que é um trem de grande velocidade, metrô, trem urbano e principalmente carro, foi uma maratona”.
A França possui uma dimensão agrícola diferente dos demais países da CEE (Comunidade Econômica Européia). A área destinada à agricultura é de aproximadamente 33 milhões de hectares, o que corresponde a 60% do território. São, de forma geral, médias propriedades rurais, raramente encontra-se uma propriedade de grande porte, com mais de 500 hectares. A média nacional é de 42 hectares, embora nas regiões destinadas a grandes culturas (grãos) seja comum encontrar unidades produtivas ocupando em torno de 200 a 300 ha. O processo de arrendamento é bastante comum na França, chegando a 66%, o que torna possível o cultivo de até mil hectares por um único agricultor, sendo que desses, apenas 300 ha são próprios.
Segundo Nonô, é possível notar que os franceses estão mais interessados no plantio direto em função das experiências de sucesso com a manutenção da palha na superfície do solo. Outra razão, e talvez a mais forte, do interesse pelo sistema, é a previsão de retirada dos subsídios governamentais, que atualmente são abundantes, não só na França, mas na Espanha, Portugal e outros países da CEE. Nonô comenta que os agricultores franceses prevêem, no mínimo, a diminuição dessa ajuda e todos têm consciência que terão que produzir melhor e de forma mais eficiente.
A previsão de mudanças na Política Agrícola Comum da União Européia levou Nonô Pereira a constatar que a erosão não é o único motivo para adoção do plantio direto na França, o fator econômico do sistema em toda a cadeia de produção, envolvendo a depreciação de máquinas, consumo de combustível, hora/homem e hora/máquina, é o que impulsiona o desenvolvimento do plantio direto. ”Na Europa tudo é muito caro, quase quatro vezes o valor que pagamos aqui. Por isso é possível perceber que os agricultores estão sobrevivendo em função do subsídio, pois com o custo de vida que eles têm, seria muito difícil a permanência na atividade sem ajuda do governo”.
Segundo Manoel Henrique Pereira, na França os subsídios são direcionados ao aumento da produtividade nas propriedades e não para facilitar a aquisição de máquinas, porém, como os produtores têm bons rendimentos conseguem comprar máquinas pelo valor de mercado. ”É possível chegar na propriedade de um agricultor que planta apenas 100 hectares e encontrar seis tratores, uma BMW para uso próprio e mais uma Mercedez para a esposa. O padrão econômico do agricultor francês é muito bom” reforça Nonô.
Descrédito e excesso de incentivos: obstáculos para o plantio direto europeu
Na segunda viagem pela Europa no início de 2004, Nonô também visitou a Itália e teve uma recepção diferente, ”notei que os italianos estão encarando o plantio direto com descrédito, chegando quase a tratá-lo com deboche. Estão claramente com preguiça e sem vontade de mudar, pelo menos nas regiões onde estive esse comportamento ficou evidente”. Para Nonô, os motivos da acomodação dos agricultores italianos são os incentivos governamentais e a manutenção das produtividades sem ações para conservação dos solos. ”Como o italiano fala muito e alto, quase agredindo ao falar, acaba assustando os desavisados. Eles não dão oportunidade ao debate saudável destinado a esclarecer dúvidas sobre o plantio direto. Então, nessas ocasiões, opta-se por ouvir abandonando a tentativa de mobilizá-los ou convencê-los. Acredito que a crise que os outros países da Europa estão prevendo chegará na Itália também e, quando a ”água bater no queixo”, eles terão que tomar alguma atitude. Ficou claro que os agricultores italianos ainda estão muito ligados a prática da mecanização e por isso vai ser difícil mudar suas mentalidades”, comenta Nonô.
Em Portugal, Nonô Pereira palestrou na cidade de Beja, segundo ele, o português é um pouco resistente, mas não tanto quanto o italiano. No país existem diversos incentivos para a agricultura que é responsável por 17% do PIB e o plantio direto é umas das práticas agrícolas que recebem bonificações governamentais. ”O agricultor português que compra uma máquina nova para plantio direto tem 50% do valor subsidiado e somente os outros 50% são de sua responsabilidade. Há recursos para pagar os produtores que deixam a palha sem queimar, tem bonificação para quem faz adubação verde, bonificação para quem faz plantio direto e para a prática da rotação de culturas. Existe, portanto, um leque de incentivos para quem faz uma agricultura diferente da estabelecida no país. Hoje quem queima a palha responde a processo criminal. Para o agricultor português é possível perguntar: por que ele não faz plantio direto, tamanho os incentivos disponíveis?”, salienta Nonô.
”Nessas jornadas de início de ano, quando fiquei longe do meu país, tive condições de perceber que em todo lugar há alguém com vontade de mudar e mudar para o plantio direto. Porém, os motivos da mudança são diferentes, de país para país, de região para região. Eles mudam em função do clima, topografia, economia, condições de solo, formação das raças e da cultura de cada povo. Para mim, foi um grande incentivo notar nas reuniões que participei, a presença de jovens agricultores, moças e rapazes na faixa de 20 a 25 anos que estudam e participam da administração das propriedades. Foi para eles que direcionei minha mensagem, para que tomem a decisão de mudar e fazer um trabalho consciente e eficiente com o objetivo de melhorar a agricultura de seus países”, finalizou Manoel Henrique Pereira.