A Cultura do Girassol


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Publicado em: 01/06/2004

A cultura do girassol (Helianthus annuus L.) em Mato Grosso do Sul: uma alternativa para o outono-inverno no Sistema Plantio Direto

João Carlos HecklerEng. Agrôn., M.SC., Embrapa Agropecuária Oeste, Caixa Postal 661, 79804-970 Dourados, MS.E-mail: heckler@cpao.embrapa.br

Os Sistemas de Produção de Grãos (SPG) da região Oeste do Brasil, em particular os do Estado de Mato Grosso do Sul, apresentam alguns problemas, dentre eles a falta de culturas alternativas para o cultivo de outono-inverno. A diversificação de espécies nos atuais SPG tem estimulado o setor agropecuário, por motivos diversos, tais como: necessidade de integrar a agricultura com a pecuária, visando à melhoria das pastagens e dos solos degradados. Segundo PONS & GONÇALVES (1978), a rotação de culturas é uma das práticas mais eficientes de utilização da terra, não apenas do ponto de vista econômico, mas também pela melhoria que pode proporcionar ao solo. A rotação de culturas é muito importante para o uso do SPD. Para tanto, é indispensável que no planejamento do SPD tenha-se uma diversificação de espécies para o sucesso do sistema de produção.

Em Mato Grosso do Sul, no período de outono-inverno, os atuais sistemas de produção de grãos restringem-se quase que, exclusivamente, ao trigo, à aveia preta e ao milho safrinha. Em estudos realizados na Embrapa Agropecuária Oeste, a cultura do girassol tem demonstrado bons rendimentos de grãos, quando semeada após a colheita da soja ou do milho.

O girassol é uma espécie produtora de grãos, de fácil adaptabilidade, que apesar de não possuir tradição de cultivo, como a soja e o milho, produz óleo com propriedades organolépticas de excelente qualidade industrial e nutricional, sendo o óleo comestível o subproduto mais importante; além de servir como suplemento na alimentação de animais, o girassol poderá num futuro próximo produzir o ”biodiesel”, que provavelmente será um excelente combustível para uso em motores estacionários, máquinas agrícolas e demais veículos automotores e com a grande vantagem de não poluir o ambiente. Assim sendo, o girassol poderá ser incluído no sistema de sucessão de culturas logo após as espécies de verão, tais como a soja e o milho (PELEGRINI, 1985, CASTRO et al., 1996). O seu cultivo após a retirada da cultura de verão, com semeadura a partir de março, pode ser uma opção viável para a produção de silagem nas regiões Sudeste e Centro-Oeste do País (GONÇALVES et al., 1996). Numa mesma espécie existem diferentes genótipos que, por sua vez, comportam-se de maneira diferenciada em relação a outros, tanto na produtividade de grãos como em outras características agronômicas, quando cultivados em diferentes regiões. SALTON et al., (1998), afirmam que existe resposta diferenciada entre cultivares exploradas no Sistema Plantio Direto, em comparação ao sistema convencional. Analisando a cultura do girassol como uma possível espécie componente do sistema de rotação de culturas, em plantio direto, pode-se afirmar que possui algumas características importantes e necessárias para integrar tais sistemas como, por exemplo, é uma espécie com hábitos diferenciados, participando na reciclagem de nutrientes do solo, reduzindo a incidência de pragas, doenças e plantas daninhas, originárias de restos culturais de cultivos anteriores. Afora estas características possui um sistema radicular pivotante, o qual facilita a busca de água e nutrientes para as plantas ao longo do seu ciclo, garantindo seu desenvolvimento em momentos críticos, ou seja, em períodos prolongados de falta de chuvas. Também, o sistema radicular do girassol proporciona melhoria na estrutura do solo, descompactando a camada superficial em locais em que o plantio direto vem sendo praticado, por muitos anos. As raízes das plantas do girassol também possuem uma particularidade muito importante, podendo funcionar como transportadoras de nutrientes, trazendo-os de camadas mais profundas para a superfície do solo.

Quanto à formação de palha, característica importante para o sistema plantio direto, o girassol após sua senescência, não produz grandes quantidades de matéria seca, devido às características fenotípicas da própria planta e a rápida mineralização da palha nas condições edafoclimáticas da região oeste do Brasil.

A Embrapa Agropecuária Oeste, ao longo dos anos vem realizando pesquisas com o girassol, com o objetivo de inseri-lo nos atuais sistemas de produção. Verificou-se que a primeira quinzena do mês de março é a época ideal para o seu cultivo, desde que se tenha umidade suficiente no solo, para sua emergência.

Com o objetivo de avaliar o potencial produtivo de genótipos de girassol no outono-inverno, em Sistema Plantio Direto, foi conduzido no ano de 2003 um experimento na área experimental da Embrapa Agropecuária Oeste, localizada em Dourados, Mato Grosso do Sul.

O ensaio de girassol foi instalado após a colheita da soja, no Sistema Plantio Direto. O solo, classificado como Latossolo Vermelho distroférrico, por ocasião da semeadura recebeu como adubação de manutenção, 350 kg ha-1 da fórmula 5-30-15 e 1,2 kg de boro. Quando 75% das plantas da área útil encontravam-se no início da antese, estádio 4 (SIDDIQUI et al., 1975) foram aplicados 80 kg ha-1 de uréia em cobertura.

Tabela 1. Rendimento de grãos e outras características de genótipos de girassol no Ensaio Final de 2° Ano de Girassol 2003. Embrapa Agropecuária Oeste, Dourados, MS. Ano 2003.

Tratamentos

Rendimentode grãos(kg ha-1)**

Peso de1000 (g)

Nº de plantascolhidas

Floresc.médio (dias)

Ciclo veget.(dias)

Estaturade plantas (cm)

M 734*

1.728a

57

34

57

114

1,64

V 80798

1.718a

51

36

57

114

1,78

Helio 250

1.709a

50

36

57

114

1,68

ACA 872

1.685ab

49

33

57

114

1,62

Agrobel 960

1.641ab

49

32

54

106

1,50

V 90064

1.638ab

48

35

57

114

1,69

ACA 884

1.481ab

48

34

54

106

1,90

Helio 251

1.463ab

51

35

67

122

1,69

ACA 885

1.443ab

50

34

65

120

1,68

Nutrissol 01

1.421ab

54

36

62

120

1,85

Catissol 01

1.309bc

54

35

54

106

1,76

Embrapa 122*

900c

57

29

41

100

1,38

Média

1.519

52

34

57

112

1,68

* Testemunhas C.V.(%)= 15,31Médias seguidas da mesma letra na coluna não diferem estatisticamente entre si (Duncan, 5%)** Tratamentos com 13% de umidade

O experimento constou de doze tratamentos, utilizando os seguintes genótipos: M 734, EMBRAPA 122, AGROBEL 960, ACA 884, ACA 885, ACA 872, HELIO 250, HELIO 251, V 80798, V 90064, NUTRISSOL 01 e CATISSOL 01, que foram avaliados pelo delineamento experimental de blocos ao acaso, com quatro repetições. Os dados foram submetidos à análise de variância e as médias de rendimento de grãos foram comparadas pelo teste de Duncan, 5% de probabilidade. Nas avaliações das parcelas considerou-se as duas fileiras centrais, com 5,00 e espaçadas de 0,80m, perfazendo área útil de 8,00m2. As médias de rendimento dos primeiros dez tratamentos não diferenciaram-se entre si (Tabela 1). Os genótipos M 734, V 80798 e HELIO 250 apresentaram valores de rendimento acima de 1.700 kg ha-1. O híbrido M 734 e a variedade EMBRAPA 122 apresentaram os maiores valores em peso de 1000 aquênios. A média de estatura das plantas foi de 1,68m, não havendo acamamento. A variedade EMBRAPA 122 foi o genótipo mais precoce com 100 dias da emergência à colheita e o mais tardio foi o HELIO 251, com 122 dias. Não houve incidência de doenças a ponto de influenciar negativamente os rendimentos de grãos dos tratamentos.

Referências Bibliográficas

CASTRO, C.; CASTIGLIONI, V. B. R.; BALLA, A. Cultura do girassol: tecnologia de produção. Londrina: EMBRAPA-CNPSo, 1996. 19 p. (EMBRAPA-CNPSo. Documentos, 67).

GONÇALVES, L. C.; SILVA, F. F. da; CORREA, C. E. S.; SAMPAIO, I. B. M.; RODRIGUEZ, N. M.; VIDAL, A. Produtividade e teor de matéria seca de girassol (Helianthus annuus L.) cultivado em diferentes épocas do ano e colhido em diferentes estádios vegetativo. In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 33., 1996, Fortaleza. Anais... Fortaleza: SBZ, 1996. v. 2, p. 377-379.

PELEGRINI, B. Girassol: uma planta solar que das Américas conquistou o mundo. São Paulo: Icone, 1985. 117 p.

PONS, A. L.; GONÇALVES, J. L. C. Alguns fundamentos da rotação de culturas. Ipagro Informa, Porto Alegre, n. 20, p. 50-54, 1978.

SALTON, J. C.; HERNANI, L. C.; FONTES, C. Z. (Org.). Sistema Plantio Direto: o produtor pergunta, a Embrapa responde. Brasília: EMBRAPA-SPI; Dourados: EMBRAPA-CPAO, 1998. 248 p. (EMBRAPA-SPI. Coleção 500 Perguntas 500 Respostas).

SIDDIQUI, M. Q.; BROWN, J. F.; ALLEN, S. J. Growth stages of sunflower and intensity indices for white blister and rust. Plant Disease Reporter, St. Paul, v. 59, n. 1, p. 7-11, 1975.

Dados para referências bibliográficas: Revista Plantio Direto, edição nº 81, maio/junho de 2004. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.