Cenário de safra de soja recorde nos EUA
Flávio GassenEng.-agr., Supervisor Técnico Cooplantio - E-mail: flavio@agri.com.br
SOJA
O mercado da soja continua com pressão de alta, registrando média de US$ 10,06/bushel (US$ 22,18/60kg) na primeira quinzena de maio/2004 para os contratos de primeira posição na Bolsa de Chicago (CBOT). No passado recente, o pico dos preços da soja ocorreu na safra 1996/97, atingindo US$ 8,70/bushel em maio de 1997 e a partir desta data acumulou perdas de 21% nos cinco meses seguintes até a marca de US$ 6,87 em outubro/97 (figura 3). Preços excessivamente elevados como os da safra atual estimulam o investimento e plantio na cultura nos EUA para 2004/05 que já apresenta intenção de plantio de 80,54 milhões de ha, aumento de 2,7% sobre a área da safra anterior. Mais significativo que o aumento de área, está a projeção de 2.688 kg/ha no rendimento, o mais elevado da história do país. Considerando a área de 80,54 milhões de ha com esta produtividade, a produção esperada é de 80,7 milhões de toneladas. Combinando esta produção com cerca de 60 milhões de toneladas do Brasil e 35 milhões de toneladas da Argentina, a produção mundial poderá atingir 212 milhões de toneladas, contra 190,05 da safra 2003/04 (figura 2). Em condição de clima normal este cenário é plenamente possível e haverá elevação na posição do estoque dos EUA e mundial. O estoque inicial dos EUA para a safra 2004/05 é de 3,13 milhões de toneladas, o menor desde 1977, mas com a expectativa da próxima safra, o estoque final está projetado em 5,17 milhões de toneladas, retornando à normalidade.
Até o momento o plantio da soja nos EUA está com desempenho superior à média dos últimos cincos anos e estabelecendo condição favorável a cultura. O aumento de 2,7% na área dos EUA não está ocorrendo sobre a área do milho, mas sim sobre a área do trigo de primavera que é semeada em maio nos estados do norte.
Os meses de junho/julho/agosto são caracterizados pela especulação sobre o clima nos EUA, deixando o mercado nervoso. Com o clima favorável e estabelecendo-se a expectativa de atingir a produção esperada, haverá inevitável queda das cotações do grão. A safra dos EUA terá capacidade de suprir o déficit nos seus estoques e levando a taxa de uso mundial do grão para níveis normais.
No Brasil, a produção divulgada pela CONAB aponta para 50,2 milhões de toneladas para a safra 2003/04, representando quebra de aproximadamente 12% em relação ao esperado. Apesar do aumento de 14,3% na área cultivada sobre a safra anterior, o surto de ferrugem asiática no cerrado e estiagem nos estados do sul promoveram redução de 15,6% na produtividade.
Considerando os elevados preços atuais e possibilidade de sua manutenção se a safra dos EUA não atingir o esperado, é possível projetar aumento de 10% na área de soja do Brasil para a safra 2004/05. Assim sendo, a área poderá atingir 23,6 milhões de ha que, combinada com a produtividade da safra 2002/03, considerada normal, a produção poderá atingir 66 milhões de toneladas. Se isto ocorrer a produção mundial para a safra 2004/05 alcançaria quase 220 milhões de toneladas.
Este cenário combinado com o consumo de 205 milhões de toneladas promoverá um estoque final ao redor de 40 milhões de toneladas para 2004/05 e conseqüente forte pressão de baixa nos preços para a colheita brasileira. Esta pressão de baixa poderá levar as cotações para 10 dólares a saca.
Sem dúvida alguma o comportamento cíclico da produção continuará e retornarão os preços baixos, cedo ou tarde. Vale ressaltar o cuidado com a produção e comercialização para os próximos anos, pois já não se admite uma lavoura de soja sem programar as aplicações de fungicida para as doenças de final de ciclo e, principalmente ferrugem.
MILHO
O milho é o grão de maior importância no abastecimento mundial e registra aumento de quase 13 milhões de toneladas no consumo ao ano. No período de 1996/97 a 2002/03 a produção manteve-se estabilizada e os estoques dos países foram reduzidos para atender a crescente demanda, promovendo a recuperação dos preços na safra 2003/04. A estimativa de produção desta safra é de 614,3 milhões de toneladas e a projeção para 2004/05 atinge 642,6 milhões de toneladas, contra consumo de 662,7 milhões de toneladas, segundo o relatório de maio/2004 do USDA (figura 4). O fraco desempenho da produção nos últimos anos provocou forte redução no estoque mundial de 191,3 milhões de toneladas na safra 1999/00 para 66,8 na projeção para 2004/05. Em relação aos estoques de segurança, historicamente o grão mantido em estoque representava aproximadamente 27% do consumo, já nos últimos anos está ocorrendo drástica redução deste índice, com 13,4% na safra 2003/04 e projeção de somente 10,1% para 2004/05 (figura 1).
A manutenção de somente 10% em estoque de todo o milho consumido no mundo torna o abastecimento dependente de clima favorável à produção. O comércio internacional estimado para 2003/04 é de 77,26 milhões de toneladas e para 2004/05 está projetado em 77,74. Somente os EUA esperam exportar 53 milhões de toneladas, representando cerca de 68% da comercialização internacional. Isto posto, é possível notar a dependência que o abastecimento mundial possui sobre os EUA e disso resulta a grande influência deste sobre o mercado. A área de milho dos EUA está apresentando aumento de somente 0,38%, totalizando 32 milhões de ha e produção projetada em 264,8 milhões de toneladas considerando produtividade de 9.094 kg/ha. Apesar da significativa valorização da soja sobre o milho, o produtor norte-americano não substituiu a área do cereal pela oleaginosa, pois aos preços atuais e produtividade de 9 ton/ha, o milho remunera melhor do que a soja que possui produtividade média de 2,7 ton/ha nos EUA.
Na produção brasileira, a CONAB aponta redução de 10% em relação a safra 2002/03, passando de 47,4 para 42,7 milhões de toneladas. O declínio maior foi registrado no milho safrinha que atingiu 12,8 milhões de toneladas na safra anterior e agora alcançou somente 9,7. Combinando a estimativa de consumo do grão que é de 40,48 milhões de toneladas, a exportação de 5 milhões de toneladas e o estoque inicial de 6,563 milhões de toneladas, resulta o estoque final de 3,957 milhões de toneladas para 2003/04. Considerando que este estoque final representa 8,7% do consumo e que nível menor do que este somente foi registrado na safra 2001/02 (2,7%), haverá pressão de alta nos preços até o final do ano.
Por outro lado, na análise das séries de preços deflacionados visando identificar o patamar máximo pago pelo mercado, a linha de resistência de R$ 21,00/60kg (RS) foi atingida em várias oportunidades desde 1994 e manteve-se limitado neste patamar (figura 5). Extrapolando para outros estados do país, pode-se utilizar os mesmos períodos encontrados no RS e fixar os preços regionais deflacionados e considerá-los máximos. Os valores superiores registrados nos meses de nov/2002 a jan/2003 foram causados pela forte desvalorização cambial naquele período e são desconsiderados nesta análise, pois a taxa cambial atual está muito próxima ao câmbio real (3,21 em abril/2004). Se os preços internacionais não aumentarem e a taxa cambial for mantida estável entre 3,1 e 3,2, o preço máximo tolerado pela economia deverá ser limitado pela linha de resistência da figura 5.
A pressão sazonal sobre o milho estimula o aumento dos preços para o segundo semestre e com pico nos meses de setembro/novembro. Conforme estes fatos, é razoável a afirmação de que os preços do milho estão próximos ao teto tolerado pelo mercado e existem fatores de sustentação até o final do ano.
TRIGO
O trigo está posicionado como o segundo em importância na alimentação da população do planeta e o consumo para 2004/05 está projetado em 594 milhões de toneladas. O crescimento anual do mercado do grão é de 4,4 milhões de toneladas, representando 1/3 do verificado no milho e a produção manteve-se em pleno declínio desde 1997/98, onde atingiu 610 milhões de toneladas e para 2003/04 está estimada em 549,6. Com a forte redução na produção ocorrida nos últimos anos, a relação estoque/consumo do grão projetada para 2004/05 é a menor dos últimos 10 anos e está 5 pontos percentuais abaixo da registrada no ano de 1996 (figura 1) em que os preços atingiram quase 15 dólares/60 kg no Paraná. Esta relação é importante pois é um indicador da capacidade de suprir a demanda caso ocorra algum problema na produção. Até o momento o potencial de rendimento nas áreas de trigo de inverno nos EUA e China está normal, mas nos países integrantes da União Européia, Leste Europeu e formados pela ex-União Soviética estão com área significativa em condição ruim. Isto poderá provocar a redução na projeção da safra 2004/05 e reduzir ainda mais o estoque mundial, configurando-se o ciclo de 6,5 a 8,5 anos entre picos de preços que deveria ocorrer em 2004/05.
Segundo a CONAB, a produção nacional da safra 2003/04 atingiu 5,898 milhões de toneladas, superando ligeiramente 50% a necessidade gerada pelo consumo e exportação. A elevação da qualidade do grão tornou o Brasil exportador e poderá alcançar a marca de 1,3 milhão de toneladas até o encerramento do ano/safra em agosto/2004. A conquista do mercado internacional é fundamental para estabelecer uma opção de comercialização para o excedente dos estados do sul, pois o frete para o transporte e abastecimento aos estados do norte/nordeste tornam o grão pouco competitivo em relação ao importado dos EUA.