Expodireto Cotrijal
Leila Mertins e Mariliane Elisa CasselFotos: Foto Choks
Realizada de 15 a 19 de março a Expodireto Cotrijal contabilizou um volume total de negócios de R$ 230 milhões e um público superior a 140 mil pessoas durante os cinco dias de feira. ”Estamos felizes com os resultados”, disse o presidente da Cotrijal, Nei César Mânica. ”No lançamento do evento, tínhamos uma previsão de negócios no valor de R$ 250 milhões. Não alcançamos a previsão em termos financeiros, o resultado ficou equiparado ao do ano passado, possivelmente em virtude dos problemas climáticos, mas o resultado foi gratificante para todos os participantes”.
O público, que no ano passado foi de 122.850 pessoas, aumentou em 14 % na 5ª edição do evento. Os investimentos da Cotrijal na Expodireto, em 2004, foram de R$ 2,5 milhões. Outros indicadores apontam crescimento, a área de 78 hectares foi ampliada para 84 hectares; o número de expositores passou de 232 para 262; o número de colaboradores envolvidos na realização do evento, que em 2003 foi de 717, chegou a 762 este ano. Itens como limpeza e manutenção do parque, Espaço da Natureza Cotrijal e avaliação geral da Expodireto receberam 100% de aprovação. A média geral de satisfação do público teve índice de 99,54%. Outros itens que receberam pontuações próximas de 100% foram os sanitários, o restaurante e a dinâmica de máquinas.
Durante o evento o presidente Nei Mânica anunciou novidades para a Expodireto Cotrijal 2005. Quando a feira for aberta para sua 6ª edição, estarão construídos o Pavilhão Internacional, a Casa do Cooperativismo e a Casa da Cotrijal. Além disso, a Conferência Mercosul sobre Agronegócios incluirá uma rodada de negócios, com a participação de cooperativas do bloco econômico.
Eventos paralelos são sucesso
A 15ª edição do Fórum Nacional da Soja, que aconteceu no dia 16 de março no auditório principal do Parque da Expodireto Cotrijal, em Não-Me-Toque, contou com a presença de personalidades da agropecuária brasileira. Na programação do Fórum pode ser destacada a participação do Ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, do Secretário da Agricultura do Rio Grande do Sul Odacir Klein, do Embaixador Extraordinário da República Popular da China no Brasil Jiang Yuande, do Governador do Mato Grosso e produtor rural Blairo Maggi, entre outros.
Brasil será maior produtor agrícola em dez anos
O ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Roberto Rodrigues, que fez a conferência de abertura da 15ª edição do Fórum Nacional da Soja, na Expodireto Cotrijal, afirmou que o Brasil está no caminho de se tornar, em dez anos, campeão mundial da produção agrícola. Segundo ele, essa também é a tese defendida pela Unctad, organismo das Nações Unidas. Rodrigues analisou a cadeia do agronegócio no Brasil e afirmou que não existe no mundo exemplo tão formidável de incorporação de tecnologia. ”Aumentamos a área plantada em 24% nos últimos 14 anos e a produção física cresceu 126% no mesmo período”. Em cinco anos, desde 1994, quando a âncora cambial foi retirada, a produção brasileira saltou de 80 milhões para 130 milhões de toneladas de grãos.
O Ministro mostrou dados do agronegócio, que no ano passado concentrou 33% do PIB, 42% da exportação brasileira e 37 % dos empregos. ”É o maior negócio do país”, afirmou. Durante sua palestra Roberto Rodrigues apresentou a capa de uma edição recente da revista norte-americana News Week, com o título: ”O verdadeiro crescimento do Brasil: agora, os agricultores alimentam o mundo”. O ministro, porém, manifestou preocupação com o explosivo crescimento da produção, sem o correspondente crescimento do mercado. ”Se cresce e não tem mercado, a produção volta – e temos o que chamo de pororoca agrícola”. Ele recomendou uma nova etapa de ações voltadas para a comercialização, como o cuidado com a qualidade sanitária, ”Há países que não importam soja por causa da ferrugem”, novas tecnologias, ”Não há avanço sem tecnologia”, e com a infra-estrutura e logística. ”É uma das questões centrais. Tem que ter estrada, porto e armazenagem adequados”. No Brasil, disse o ministro, apenas 5% da capacidade de armazenagem está nas fazendas. ”Queremos dobrar esse número”.
Ele chamou a atenção também para outro apelo à agricultura, como fornecedora de biocombustível. ”O mundo inteiro depende de um combustível – o petróleo – que tem prazo para acabar, o que é uma insânia coletiva”. A agricultura pode produzir o combustível que substituirá o petróleo.
O Fórum Nacional da Soja foi classificado por vários participantes como o evento que ao longo do tempo acompanhou e discutiu o desenvolvimento da cultura da soja e do agronegócio. O secretário da Agricultura e Abastecimento do Rio Grande do Sul, Odacir Klein, lembrou que, nos 15 anos de realização do Fórum, a agricultura atravessou planos econômicos, se endividou, mas também incorporou tecnologia e cresceu. ”Agora, lutamos com a estiagem, que é um problema repetido”. E desafiou: ”Por que não pensar em encontrar alternativas como irrigação, novas variedades mais resistentes à seca, em lugar de simplesmente buscar recursos?”.
O mercado exige mais agressividade
O embaixador da China no Brasil, Jiang Yaunde, disse durante o Fórum Nacional da Soja que o Brasil é muito tímido nas relações comerciais com a China. ”Tem que ter mais agressividade”, aconselhou ele diante de uma platéia de técnicos, produtores, cooperativistas e autoridades ligadas ao agronegócio. Yuande falou sobre ”Perspectivas das relações comerciais Brasil-China”, mas não quis revelar quanto seu país comprará de soja no mercado internacional.
Yuande deu exemplos da falta de agressividade brasileira no mercado chinês. Disse que o café produzido aqui é muito bom, mas o consumidor chinês só conhece o café colombiano. A carne australiana ingressou há muitos anos no mercado chinês. ”Hoje, o Brasil já ultrapassou a produção da Austrália, mas a China só conhece o bife australiano”. Pouco antes da palestra, ele havia conversado com o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, convidando o Brasil a ser mais agressivo.
”A soja brasileira tem muito espaço no mercado chinês”, disse Yuande. No ano passado, dos 20 milhões de toneladas comprados no mercado internacional, 6,4 milhões eram de soja brasileira. Outros 8,3 milhões de toneladas foram adquiridos nos Estados Unidos e 5,9 milhões na Argentina. Este ano, a China deverá importar 2 milhões de toneladas de soja transgênica do Brasil.
Segundo o embaixador, as relações de cooperação entre os dois países vêm sendo diversificadas e ampliadas. Neste momento, há negociações em que o Brasil convida a China a participar da construção de uma malha de ferrovias no Nordeste e Norte do Brasil para facilitar o escoamento das safras de soja. Em troca, o Brasil fornecerá soja ao parceiro. O comércio entre os dois países aumentou nos últimos anos e a China já é o maior mercado asiático para o Brasil. A fábrica chinesa Gree, que investiu 20 milhões de dólares na construção de uma unidade de montagem de aparelhos de ar condicionado em Manaus, em 2001, investirá mais 5 milhões de dólares no mesmo setor. A Companhia Vale do Rio Doce e a Shangai Bao Steel, da China, têm um acordo de exploração conjunta de minério de ferro e firmaram um acordo de construção de uma usina siderúrgica no Brasil. Empresas brasileiras vão construir seis unidades de grupo-gerador de eletricidade para o projeto de Três Gargantas, na China, a maior obra hidráulica do mundo. Dois satélites de sensoriamento de recursos terrestres foram construídos em conjunto pelos dois países. Outros dois estão sendo construídos.
A China espera alcançar o PIB per capita de US$ 3 mil em 2020
No Brasil, Yuande fez um relato sobre as transformações de seu país. Ao longo dos últimos 26 anos, desde a aplicação de reformas e abertura ao exterior, a economia nacional cresce e a vida do povo melhora. Nesse período, o PIB registrou uma taxa de crescimento de anual de 9,4% e a renda per capita aumentou mais de sete vezes. Em 2002, mesmo com recessão mundial, o PIB teve crescimento de 8%, e no ano passado, apesar das restrições da Sars (pneumonia asiática), cresceu 9,1%. Em 2020, a China espera alcançar o PIB per capita de 3.000 dólares, bem acima dos 1.000 dólares atuais. ”A China concentrará todo o seu esforço na construção de uma sociedade modestamente abastecida em todos os sentidos, beneficiando mais de 1 bilhão de pessoas, para que tenhamos uma economia mais desenvolvida, democracia mais aperfeiçoada, ciência e tecnologia mais avançadas, cultura mais próspera, sociedade mais harmoniosa e a vida do povo mais cômoda”, afirmou.
Avanço da produção no Mato Grosso
Segundo Blairo Maggi, o potencial de crescimento da agropecuária no Mato Grosso é extraordinário. Em menos de um ano, a produção de grãos passou de 17 milhões de toneladas para 22 milhões. ”E a nossa intenção é fazer com que cresça 10% ao ano, até atingirmos 45 milhões de toneladas”, salientou, acrescentando que a confirmação dessa projeção depende basicamente do governo federal, que precisa investir nos meios de escoamento da produção.
Para amenizar esse, que é um o principal problema do estado, a saída encontrada pelo governador foi recorrer ao apoio dos produtores. ”Como não tínhamos condições financeiras de asfaltar as rodovias, fizemos uma parceria com nossos produtores: entramos com o projeto e o óleo diesel e eles concordaram em auxiliar com os recursos necessários para a implantação do asfalto”, explicou Blairo Maggi. Somente em 2003, foram asfaltados 509 quilômetros de rodovias no Mato Grosso e a intenção é chegar ao final de 2004 com 3.000 quilômetros asfaltados.
O problema hoje não é de produção, mas de escoamento, de estrada e de portos
O diretor da Associação Brasileira de Agribusiness (ABAG), Luiz Antônio Pinazza finalizou a 15ª edição do Fórum Nacional da Soja, em Não-Me-Toque com a palestra: ”As Oportunidade do Agronegócio Brasileiro-Mercado”. Durante sua apresentação ele disse que o setor tem potencial para crescer a um ritmo de 10% ao ano, quando olhados o potencial produtivo de grãos, a tecnologia e a gestão do setor, mas que este crescimento só se dará se houver maiores investimentos em infra-estrutura. ”O problema hoje não é de grãos, mas de escoamento, de estrada e de portos”, completou.
Pinazza destacou em sua análise que a produção de soja brasileira praticamente quadruplicou do início dos anos noventa aos dias atuais e que a cultura é a grande responsável pelo salto na produção nacional de cereais e oleaginosas, que saiu do patamar de 90 milhões de toneladas e hoje supera os 120 milhões. Mas como esse desempenho aconteceu num prazo relativamente curto, deixa exposto uma série de gargalos entre a produção e a comercialização.
Como grande ponto forte do país, apontou a capacidade técnica e de gestão nas unidades produtivas, onde o sucesso do plantio direto, uma prática de grandes benefícios para solo, é um dos seus pontos máximos. Reconheceu também que do ponto de vista comercial, o Brasil soube aproveitar as oportunidades de exportação para a China, a competitividade proporcionada pela Lei Kandir nos grãos e as doenças da vaca louca e da febre aftosa. Mas foi taxativo: ”Se as perspectivas continuam promissoras para o complexo soja, líder no ranking das exportações nacionais no agronegócio, desafios precisam ser superados principalmente na área de infraestrutura e logística. Para sustentar o ritmo de crescimento dos últimos anos, é urgente investimentos em estradas e portos”.
Pinazza lembrou que na área de biossegurança já se apuram avanços significativos e que a cada dia fica mais definido na sociedade a importância da biotecnologia. Ressaltou também que nas negociações internacionais, a articulação do governo com a iniciativa privada melhorou muito. ”Hoje, a qualidade da participação brasileira nos foruns da OMC, ALCA e MERCOSUL é bastante sensível”, destacou.
Sobre a postura mercadológica nacional explicou que as empresas e representantes do governo visitam e entabulam conversações nas principais regiões importadoras. ”A comunicação com a China, que já é segundo parceiro comercial, ocorre com grande frequência”, observou, destacando que o Brasil não está parado e no aguardo de uma ação de seus clientes. ”Sabe-se que o cenário é favorável e muitas estratégias bem concebidas estão em execução”, finalizou.
Brasil precisa vender melhor a imagem de seus produtos no exterior
O Brasil deveria aproveitar vitórias como as de Gustavo Kuerten para divulgar seus produtos no Exterior. A opinião é do francês Jean-Yves Carfantan, representante da Fesia-França no Mercosul, na Expodireto Cotrijal 2004. Para ele, o país precisa trabalhar a marca Brasil. ”Se isto não acontecer, o mercado não vai aumentar”, diz o francês, que identifica outros problemas: ”O Brasil tem a agropecuária mais competitiva do mundo, é o primeiro produtor mundial de café e laranja, o segundo de soja e carne de frango. Mas seu comércio exterior representa apenas 1% dos negócios mundiais.
Outros fatores são o custo logístico - o país deveria ter investido todos os anos até 4% do PIB em melhorias da infra-estrutura logística, diversificação da matriz de transportes – e a fraca coordenação entre algumas cadeias produtivas. ”Há insuficiência de pessoas formadas para conquistar mercados”. Por isso, segundo ele, o Brasil não consegue identificar novas armadilhas de protecionismo praticadas por mercados como o da União Européia.
A partir de 2003, o Brasil passou a contribuir para a mudança do mapa mundial da soja. A América do Sul torna-se a primeira região do planeta na produção do grão e o desafio do futuro será coordenar a cadeia. O mercado está se segmentando, com focos em qualidades diferentes de produtos e atender à segmentação exige rastreabilidade, segregação e identificação dos produtos. ”Isto será necessário para a competitividade”, concluiu Jean-Yves.
Espaço da Família Rural foi uma das novidades
”A Expodireto Cotrijal mostra o talento e a competência de quem tem visão de um mundo agrícola diferente: de rentabilidade e de negócios”. A afirmação é do presidente da Emater/RS-Ascar, Caio Tibério da Rocha, que esteve prestigiando a abertura oficial da quinta edição da Expodireto, na manhã do 15 de março. Ele disse que a Expodireto é uma cidade do agronegócio montada em Não-Me-Toque. A Emater participa do evento desde a sua primeira edição e, segundo o presidente da Instituição, tem seu trabalho coroado em 2004, com a inauguração do Espaço da Família Rural.
Voltado especialmente à família rural, a casa é dotada de uma cozinha industrial, miniauditório e salão de exposições. ”Nesse local serão efetivadas as ações amplas na área da extensão rural e da assistência técnica”, salientou Caio Rocha, acrescentando que o Espaço da Família Rural não será utilizado apenas durante a Expodireto Cotrijal, mas servirá como centro de treinamento e capacitação das famílias rurais durante o ano todo.
Na cozinha do Espaço da Família Rural, durante os cinco dias do evento, foram desenvolvidas oficinas. No primeiro dia, as extensionistas da Emater trabalharam a questão do milho na alimentação. Durante a semana foram realizadas oficinas sobre hortifrutigranjeiros, soja na alimentação, plantas medicinais e peixes. Além da aula prática, os participantes tiveram acesso a material explicativo.
O trabalho na cozinha está interligado com as demais atividades apresentadas pela Emater/RS-Ascar na Expodireto. Todos os temas das oficinas foram demonstrados no campo, através das onze parcelas demonstrativas pertencentes a Emater. O objetivo foi apresentar alternativas e valorizar o que é produzido no meio rural.
Ecossistemas Ameaçados
A exposição ”Banhados - Ecossistemas Ameaçados”, organizada pela Fundação Zoobotânica, de Porto Alegre, no Espaço da Natureza Cotrijal, localizado dentro do parque da Expodireto Cotrijal, foi visitado por mais de 2.000 estudantes de escolas municipais, estaduais e particulares da região em que a cooperativa atua. No local os estudantes obtiveram informações sobre a importância dos banhados para a sustentabilidade dos ecossistemas.
A mostra ocupou dois pisos da Casa do Meio Ambiente e é uma das maiores já apresentadas pela Fundação Zoobotânica. Pela primeira vez organizada no interior do estado, ela foi dividida em dois momentos. Com textos, fotos e vídeos, o primeiro momento mostrou em micro-cenários os cinco principais ecossistemas gaúchos - campos, mata Atlântica, floresta estacional, mata de araucárias e o ecossistema planície costeira, cada um deles mostrando flora e fauna. O segundo, um grande cenário de cerca de 240 m2 que evidencia como são os banhados e qual sua importância. Estavam dispostas neste ambiente plantas vivas - entre 1.000 e 1.500 mudas de pequeno e médio porte - e muitos animais taxidermizados, típicos de banhado.
Depois de conhecer a exposição e obter informações sobre o objetivo do Espaço da Natureza Cotrijal, os estudantes encontravam, do lado de fora, uma área reservada à apresentação da logística de recebimento de embalagens de agrotóxicos da Cotrijal. Lá, estavam disponíveis números e dados referentes ao trabalho desenvolvido pela cooperativa nesta área e os equipamentos necessários a um bom manejo das embalagens.
O bom-humor também faz parte da programação. No encerramento da visita, os estudantes acompanhavam uma apresentação da troupe de atores da Companhia de Teatro da Universidade de Passo Fundo, que com alegria mostram a importância dos banhados e da preservação da natureza como um todo.
Para a bióloga Márcia Vieira, que coordena o Espaço da Natureza Cotrijal, a criança é o segmento mais sensível a mudanças e através dela pode-se trabalhar inclusive o adulto. Ela destaca que é possível produzir sem destruir e que esse trabalho de conscientização da Cotrijal vai ser cada vez mais intensificado.
A professora de Ciências da Escola Municipal Santo Antônio, de Não-Me-Toque, Luciana Viau dos Santos, diz que a demonstração prática da importância dos banhados para a preservação de todos os ecossistemas é a ferramenta ideal de conscientização. ”Conscientizar através de exemplos: esse é o caminho”, garante.
Daiane dos Santos, de apenas 10 anos, é estudante da Escola Municipal Alfredo Scherer, de Carazinho-RS, afirmou que com a visita ao Espaço da Natureza Cotrijal, durante a Expodireto Cotrijal 2004, tornou-a apta à conscientizar outras pessoas sobre a importância dos banhados para o equilíbrio ambiental.