Aplicação de Fungicidas (Tecnologia)


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Publicado em: 01/04/2004

Aplicação de fungicidas: conceitos básicos para o controle de doenças na soja

Ulisses R. AntuniassiDoutor em Agronomia, Professor Adjunto, FCA/UNESP, Caixa Postal 237, 18603-970, Botucatu/SP. ulisses@fca.unesp.br

Introdução

A evolução e a popularização das práticas modernas de gerenciamento, com a busca por menores custos, maior eficiência e redução do impacto ambiental está mudando o perfil tecnológico da aplicação de defensivos no Brasil. Em contraste com os padrões de alto volume de calda e baixa tecnologia empregada nas décadas passadas, os agricultores dispõem atualmente de técnicas avançadas, como pontas antideriva, aplicação em baixo volume, assistência de ar, entre outros.

Entretanto, a grande preocupação atual com a ferrugem da soja tem chamado a atenção do setor agrícola para a necessidade de se utilizar as técnicas de aplicação mais adequadas, já que os programas de controle para esta doença são bastante exigentes em termos técnicos, havendo muitos relatos de falhas de controle justamente por eventuais descuidos com relação a aplicação.

Tecnologia para aplicação de fungicidas: conceitos básicos

Em termos gerais, o sucesso da aplicação e o resultado do controle estão diretamente ligados aos seguintes fatores: seleção das pontas, ajuste do volume de calda, parâmetros operacionais, condições ambientais favoráveis e o momento correto da aplicação. Ainda, todo o processo deve considerar as recomendações agronômicas relativas a cada produto utilizado.

A definição de parâmetros como tamanho de gotas e volume de aplicação depende diretamente da relação alvo/defensivo. A tendência de utilização de gotas grandes visando a redução do risco de perdas (deriva, evaporação, etc) pode ser prejudicial para a eficiência do tratamento, em função destas gotas proporcionarem menor cobertura dos alvos de aplicação, quando comparada às gotas mais finas.

Os produtos sistêmicos podem ser aplicados com menor densidade de gotas, permitindo o uso de gotas maiores. Isto facilita a adoção de técnicas para a redução de deriva, melhorando a segurança da aplicação e aumentando a eficiência operacional das mesmas. Se usadas de maneira correta, gotas grandes geralmente oferecem bom nível de depósito (quantidade ou volume de defensivo depositado nos alvos), apesar de não proporcionar as melhores condições de cobertura. Um exemplo neste sentido pode ser encontrado no trabalho de Boller et al. (2002a), onde não houve diferença na produtividade entre tratamentos com gotas de maior ou menor DMV, quando da aplicação de um fungicida de ação sistêmica em soja.

Para os produtos de contato, o uso de gotas menores e/ou maior volume de calda é necessário, devido a maior dependência desta técnica com relação à cobertura dos alvos. Como exemplo, se o alvo da aplicação inclui a parte interna ou inferior das plantas, é necessária uma boa penetração da nuvem de gotas e, para tanto, devem ser usadas gotas pequenas.

Tabela 1. Classificação do tamanho das gotas de acordo com o seu DMV

DMV (micrometros)

Classificação do tamanho das gotas

<100

muito fina

101-200

fina

201-300

média

301-425

grossa

>425

muito grossa

O tamanho das gotas, classificado segundo o seu diâmetro mediano volumétrico - DMV (Tabela 1), influencia diretamente a capacidade de cobertura do alvo (Figura 1) e a penetração na massa da folhas.

O tamanho adequado das gotas possui a importância fundamental para a deposição do defensivo sobre o alvo e para a minimização de perdas ou deriva. Cada tipo de ponta produz um espectro de tamanho de gotas, que depende da pressão de operação. Gotas finas ou gotas grossas possuem habilidades diferentes para cada situação de pulverização, como ilustra a Tabela 2.

Tabela 2. Comportamento de parâmetros da pulverização segundo o tamanho de gotas

Gotas finas

Gotas grossas

Risco de evaporação

Elevado

Baixo

Sensibilidade ao vento

Elevada

Baixa

Cobertura do alvo

Boa

Ruim

Penetração na massa vegetal

Boa

Ruim

Velocidade de deposição

Baixa

Elevada

A definição do volume de calda (Tabela 3) depende do tipo de alvo a ser atingido, da cobertura necessária, da forma de ação do defensivo e da técnica de aplicação, dentre outros fatores.

Tabela 3. Classificação do volume de pulverização (L/ha)

Classe

Culturas anuais (L/ha)

Alto volume

>600

Médio volume

200-600

Baixo volume

50-200

Muito baixo volume

5-50

Ultra baixo volume

<5

Fonte: Matthews, 2000

Existe uma tendência de diminuição do volume das pulverizações, objetivando o aumento da capacidade operacional dos pulverizadores (número de hectares tratados por hora). No entanto, sempre haverá um certo conflito entre a necessidade de otimização operacional, os requerimentos de qualidade da aplicação e a necessidade de minimização do risco de perdas e deriva. Neste sentido, diversos trabalhos mostram que para o controle de doenças na cultura da soja a opção por volumes maiores pode ser benéfica para o sistema. Um exemplo é o trabalho de Boller et al. (2002b), onde a elevação do volume de calda de 75 para 200 L/ha na aplicação de fungicidas propiciou aumento de produtividade da ordem de 500 kg/ha.

Em geral, as aplicações de volume muito pequeno acabam sendo realizadas com gotas muito finas, o que aumenta o risco de perdas, principalmente por evaporação ou deriva. Assim, recomenda-se que as aplicações em volumes muito baixos ou ultra baixos sejam realizadas com metodologias de controle da evaporação das gotas, como a utilização de óleo na preparação da calda, por exemplo.

Um outro parâmetro importante para o resultado de uma pulverização é a densidade de gotas (expressa em gotas/cm2). A eficiência de uma maior ou menor densidade de gotas está ligada à forma de ação do defensivo (sistêmico, de contato, etc.). A Tabela 4 mostra a densidade mínima necessária para cada tipo de aplicação.

Tabela 4. Densidade de gotas necessária para uma ação eficiente de defensivos

Produto

Gotas/cm2

Inseticidas

20 a 30

Herbicidas pré-emergentes

20 a 30

Herbicidas Pós-emergentes

30 a 40

Fungicidas sistêmico

30 a 50

Fungicidas de contato

>70

Fonte: Matthews, 2000

Em termos gerais, o simples entendimento das relações entre os fatores facilita o gerenciamento da tecnologia de aplicação. A cobertura é diretamente proporcional ao volume de aplicação, à taxa de recuperação da calda nas plantas e ao fator de espalhamento das gotas no alvo. De maneira análoga, a cobertura é inversamente proporcional à quantidade de área a ser tratada e ao diâmetro das gotas. Como exemplo, ações que produzam aumento de volume de calda, aumento da taxa de recuperação (redução de perdas) ou aumento do fator de espalhamento (uso de surfactante) determinarão melhoria da cobertura. Já aplicações em culturas com grande área foliar e uso de gotas grandes reduzirão a cobertura obtida. Para todos estes raciocínios, inverso é verdadeiro.

Condições climáticas

Além do volume de calda, um outro parâmetro fundamental para o sucesso do tratamento é a adequação da tecnologia de aplicação às condições climáticas. Para a maioria dos casos, deve-se evitar aplicações com umidade relativa inferior a 50% e temperatura ambiente maior que 30oC. No caso do vento, o ideal é que as aplicações sejam realizadas com vento entre 3 e 10 km/h. Ausência de vento também pode ser prejudicial, pois as gotas muito finas podem ficar suspensas no ar devido a estabilidade atmosférica, sendo dispersas até centenas de quilômetros do local de aplicação. Muitas vezes, somente serão removidas da atmosfera pela ação da chuva.

A temperatura do ar é afetada pela pressão atmosférica e decresce com a altitude. O solo é aquecido durante o dia e incrementa a temperatura do ar próximo a superfície rapidamente, proporcionando um movimento ascendente da massa de ar. Este movimento convectivo da massa de ar pode ocasionar deriva no caso da pulverização de gotas finas a muito finas. Esta é uma característica muito importante para as aplicações aéreas, notadamente no caso dos sistemas de baixo volume.

Em geral, a aplicação em condições climáticas menos favoráveis deve ser evitada. Porém, quando isso for inevitável, alguns cuidados precisam ser tomados. No caso de aplicações em que a cobertura do alvo não é um parâmetro muito crítico (por exemplo, produtos sistêmicos), a opção pode ser pelo uso de gotas maiores. Para tratamentos onde uma boa cobertura é fundamental, o aumento do tamanho de gotas precisa ser acompanhado de um aumento do volume aplicado, de forma a garantir a cobertura necessária. Entretanto, deve-se observar as relações entre o tamanho das gotas e o tipo e posição do alvo, pois gotas maiores sempre terão dificuldades de penetração na massa de folhas.

Como exemplo desta estratégia, uma determinada aplicação poderia ser iniciada pela manhã, em condições climáticas mais favoráveis, aplicando-se gotas mais finas e volume mais baixo. Ao longo do dia, se as condições climáticas se tornarem menos favoráveis, os bicos poderiam ser trocados para permitir a aplicação de gotas maiores, tomando-se o cuidado de aumentar o volume de calda para garantir boa cobertura. Em muitos casos, este tipo de ação pode aumentar o tempo disponível para a aplicação sem elevar demais o risco de deriva e evaporação. Por outro lado, o processo de tomada de decisão deve sempre levar em consideração que a aplicação em condições favoráveis tende a resultar em melhores produtividades. Como exemplos, os trabalhos de Boller et al. (2003) e Bonini & Balardin (2002) obtiveram melhores resultados com aplicações realizadas pela manhã ou à tarde, quando comparadas a aplicações realizadas no meio do dia.

Outros fatores climáticos que também requerem atenção no momento do planejamento das aplicações são a chuva e o orvalho (este principalmente para as aplicações noturnas). No caso da chuva, recomenda-se bastante cuidado na observação do intervalo mínimo de tempo entre a aplicação e a ocorrência da chuva, visando permitir o tempo mínimo para a ação dos produtos. No caso do orvalho, a presença de água nas folhas quando das aplicações noturnas (madrugada) e/ou no início da manhã pode causar interferência. Neste caso, problemas de escorrimento podem ocorrer devido a ação do surfactante da calda sobre o orvalho. Entretanto, existem situações, dependendo da técnica e do tipo de defensivo, em que a ação do orvalho pode ser benéfica, como no caso dos fungicidas. Deve-se, porém, estar atento à possibilidade de ocorrer escorrimento em todas a situações em que o orvalho estiver presente.

O vento também é um dos fatores que causam deriva, pois pode carregar gotas de maneira direta para as áreas vizinhas. Da mesma maneira, a estabilidade da atmosfera e as inversões dificultam o movimento descendente das gotas menores, facilitando seu carregamento lateral.

Sistemas para redução de deriva, melhoria da deposição e cobertura dos alvos

Uma das opções para o controle dos processos de perdas nas aplicações terrestres são as pontas anti-deriva. Apesar da ação eficiente em muitos casos, estas pontas não são recomendados para 100% das aplicações. Um exemplo é o controle baseado em aplicações de produtos de contato, os quais necessitam boa cobertura e boa penetração. Não é possível garantir estas características quando se usa gotas muito grandes. Ao contrário, é necessário o uso de gotas finas, e a solução pode ser mesmo o uso de pontas convencionais. Para este tipo de aplicação, a melhor prática para evitar deriva é fazer aplicações somente com condições climáticas favoráveis.

Outra possibilidade é a utilização de barras com assistência de ar, pois o fluxo de ar gerado carrega as gotas pequenas para dentro da massa de folhas, reduzindo o risco de deriva e melhorando o desempenho em termos de cobertura e penetração das gotas. Entretanto, é necessário critério na utilização desta tecnologia pois o excesso de ar com relação ao volume de folhas pode causar aumento das perdas por deposição de produto no solo.

A aplicação eletrostática é uma tecnologia que vem sendo bastante discutida como ferramenta para redução do volume aplicado e para melhoria do desempenho dos sistemas de aplicação terrestre. Em termos básicos, o sistema carrega eletricamente as gotas aplicadas, causando um efeito de atração entre as gotas e as plantas. Dados apresentados por Souza et al. (2002) mostram que o sistema proporcionou aumento e uniformização dos depósitos de herbicidas em plantas daninhas, para aplicações em pós-emergência inicial. Por outro lado, até o momento não foram publicados dados científicos no Brasil que permitam uma análise do desempenho em todas as condições de trabalho, incluindo os diferentes estágios de desenvolvimento das culturas, como no caso da aplicação de fungicidas.

Aplicação terrestre x aérea

Em termos técnicos, a escolha da forma de aplicação (terrestre ou aérea) está mais ligada a aspectos operacionais e econômicos do que ao potencial de eficiência de cada sistema. Como exemplo, Bonini et al. (2002) não obtiveram diferenças significativas na produtividade de soja quando da utilização de diferentes técnicas de aplicação terrestre e aérea para o controle de doenças na soja.

Na escolha do tipo de aplicação, é mais importante a garantia de que o trabalho seja feito de maneira adequada, considerando-se critérios técnicos corretos, do que o próprio tipo de equipamento escolhido. Em muitos casos, a decisão entre o uso de aplicação aérea ou terrestre dependerá de fatores como disponibilidade do prestador do serviço, área mínima para contratação, urgência na realização do controle fitossanitário, condições climáticas, custo de aplicação e preço dos serviços terceirizados.

A decisão gerencial da escolha de um dos tipos de aplicação deve levar em conta, ainda, que cada sistema apresenta seus pontos críticos. No caso a aplicação terrestre, por exemplo, nas épocas de grande quantidade de chuva a atividade depende do restabelecimento das condições de trafegabilidade, enquanto no caso da aplicação aérea a aeronave pode iniciar a aplicação muito antes, pelo fato de não depender das condições de umidade do solo. Por outro lado, pode-se dizer que a aplicação aérea é uma atividade muito mais crítica, que depende sobremaneira da habilidade e conhecimento do piloto e dos técnicos envolvidos, quando comparada a aplicação terrestre.

Do ponto de vista operacional e econômico, a viabilidade atual da aplicação aérea está fortemente ligada às técnicas que permitem a redução de volumes, o que amplifica o rendimento das aeronaves e reduz os custos. Neste sentido, algumas técnicas vem sendo difundidas, como a aplicação em baixo volume com óleo na calda e a aplicação eletrostática.

A técnica denominada BVO - Baixo Volume Oleoso (Monteiro, 2003) tem sido bastante difundida principalmente no centro-oeste brasileiro, usando como princípio a formação de uma emulsão na calda de pulverização (mistura do óleo à água). Este processo faz com que o óleo proteja as gotas menores contra o risco de evaporação. As aeronaves que aplicam neste sistema usam atomizadores rotativos de disco, os quais possibilitam a obtenção de gotas menores e um espectro mais homogêneo. Neste caso, mesmo com a aplicação de gotas muito finas, o risco de evaporação é bastante reduzido.

Segundo Monteiro (2003), o sucesso de uma aplicação em BVO depende de diversos fatores, destacando-se:

a) cuidados na preparação da calda: a seqüência de mistura dos produtos deve ser respeitada (1o emulsificante, 2o óleo de soja degomado, 3o defensivo, 4o água) e a agitação deve ser intensa;

b) aplicação em condições climáticas adequadas: as aplicações devem ser obrigatoriamente realizadas em condições de vento entre 3 e 10 km/h, com temperatura inferior a 32oC. Por se tratar de uma técnica que utiliza óleo para evitar a evaporação, não há problemas em realizar a aplicação em condições de baixa umidade relativa;

c) uso do tamanho correto das gotas: através do atomizador rotativo, ajustar gotas entre 150 e 180 micrômetros.

Ainda segundo o autor, cuidados especiais devem ser adotados para produtos de baixa dosagem, para que a mistura na calda seja homogênea.

Apesar desta técnica estar bastante difundida no centro-oeste, são poucas as informações publicadas com dados sobre seu desempenho biológico em nível de campo. Segundo Monteiro (2003), numa comparação de controle de ferrugem da soja entre o BVO e a aplicação aérea convencional com 30 L/ha, o sistema com óleo propiciou produtividade de 6 a 13 % superior.

O sistema eletrostático também se apresenta como opção para aplicações com volume reduzido, buscando a melhoria do desempenho operacional e econômico dos sistemas de aplicação aérea. Devido ao carregamento das gotas de pulverização com cargas elétricas, ocorre o efeito de atração entre as gotas e as plantas, melhorando o desempenho da pulverização. Apesar de não haver dados de pesquisa publicados para aplicações em soja, alguns resultados começam a ser apresentados para a cultura do arroz, o que pode dar uma idéia do seu desempenho potencial. Segundo Schröder (2002), os resultados de campo nas áreas de arroz na região sul do país têm mostrado controle semelhante ou superior aos sistemas convencionais, com vantagens no aumento de produtividade das aeronaves. Segundo o autor, a redução de 30 para 10 L/ha ajuda a diminuir o tempo necessário para o tratamento das lavouras, oferecendo a possibilidade de maior intervalo de tempo para as aplicações. Ainda, esta maior produtividade possibilita que a aplicação possa ser feita em horários mais adequados em termos de condições climáticas, ajudando a melhorar o desempenho biológico do sistema. Por fim, cita o autor que mesmo as aplicações realizadas em condições climáticas menos favoráveis obtiveram resultados satisfatórios, o que sugere a possibilidade de vantagens no tempo disponível para realizar as aplicações.

Considerações finais

A demanda atual por informações sobre tecnologia de aplicação é muito grande, notadamente em função da ferrugem da soja. O aparecimento desta doença, cujo controle é muito dependente do sucesso da pulverização, acabou se transformando numa abertura para a discussão das reais condições técnicas dos sistemas de aplicação no Brasil. Assim, as bases tecnológicas para o processo de decisão gerencial, principalmente na escolha dos parâmetros de trabalho com pulverizadores, se tornou assunto de fundamental importância. Por esta razão, deve ser amplamente discutido para que se possa definir claramente as recomendações técnicas no controle químico desta doença.

Literatura Consultada

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Dados para referências bibliográficas: Revista Plantio Direto, edição nº 80, março/abril de 2004. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.