A bolha da valorização dos preços da soja resistirá?
Flávio GassenEng.-agr., Supervisor Técnico Cooplantio - e-mail: flavio@agri.com.br
SOJA
A analogia da valorização da soja com o comportamento do mercado de ações formando ”bolhas” especulativas, que crescem até seu rompimento e posterior queda do seu valor até o patamar considerado justo pelo mercado, é razoável e com o grão ocorre ciclicamente. Considerando o último ciclo de preços da soja em dólar, que iniciou na safra 1996/97, os preços atuais nominais (PR) estão nos mesmos patamares do período entre o final de 1996 e início de 1998 (figura 2).
Ao assumir que a pressão de baixa sazonal gerada pela safra brasileira resulta numa redução de aproximadamente 20% sobre os preços até o final da colheita (setas vermelhas da figura 2), o nível atual de cerca de 43 reais deveria cair para 34,4 reais por saca (de 15 para 12 dólares). Entretanto, comparando com a alta de 1996, onde a taxa de uso mundial do grão estava 7,6 pontos percentuais acima da média (figura 3), as condições atuais são atípicas e há especulação sobre perdas geradas pela ferrugem asiática no Brasil e a estiagem que atingiu o sul do país, reduzindo a produtividade nacional e, assim, provavelmente mantendo os preços estáveis até a pressão de baixa gerada pela colheita dos EUA. O preço nominal médio de fevereiro/2004 pago ao produtor do PR estava nos mesmos patamares do ano anterior, no entanto, os preços dolarizados estavam 26% acima e as cotações dos contratos da Bolsa de Chicago (CBOT – Chicago Board of Trade) registraram alta de 49% (figura 2).
A cotação da soja em fevereiro/2004 atingiu o patamar mais elevado do mesmo mês desde 1975, conforme figura 2. A redução da produção da última safra dos EUA e conseqüente declínio na projeção da produção mundial para a safra 2003/04, promoveu a elevação da taxa de uso global do grão de 79,4% da safra 2002/03 para 81,4% na projeção para 2003/04, entretanto, apresenta-se num patamar confortável pois está abaixo de 82,6% que representa a média de 28 anos. Sendo assim, a forte pressão de alta registrada no grão nos últimos meses não foi gerada pela situação global do grão, mas com influência direta da posição dos estoques dos EUA.
Historicamente (figura 4), os preços pagos aos produtores norte-americanos apresentam estreita relação com a taxa de uso do grão (consumo doméstico e exportações), no entanto, a partir da safra 1998/99, os preços apresentaram evolução oposta à crescente taxa de uso do grão (95% para 2003/04), gerando uma discrepância que somente manteve os preços baixos até 2003 devido ao sentido inverso da evolução da taxa de uso em âmbito global (82,6% para 2003/04).
Com a alta dos preços, ocorrerá redução no uso do grão nos EUA para os próximos meses e, devido à limitada oferta, não restará outra alternativa ao país do que restringir as exportações. Os elevados preços estimularão a busca de alternativas ao óleo e proteína de soja, também a expectativa de forte aumento da produção sul-americana reduziria as exportações do complexo-soja dos EUA. Outro fator que levará à redução do consumo no país possui atributo independente do preço, relacionado a valorização do dólar e redução do rebanho nos EUA. O foco da gripe dos frangos detectado no país já provocou temporária interrupção nas exportações para alguns países asiáticos. Conforme a figura 4, o preço médio da safra 2003/04 já atingiu US$ 7,25 /bushel alcançando o nível de equilíbrio com a taxa de consumo de 95%.
Nos EUA, houve redução da área de soja nos últimos 3 anos, pressionada pela queda da produtividade no mesmo período que, por sinal, manteve-se estável nos últimos 10 anos. O milho, por outro lado, apresentou sucessivos aumentos de produtividade, registrando elevação na relação milho/soja nos últimos 14 anos de 3,09 (em 1993) para 3,66 (em 2002). Desde 1998, a produtividade do milho está 3,4 vezes acima da soja e em 2003 foi de 4,17 vezes. De 1975 a 2003, a produtividade do milho aumentou 54% e a da soja somente 30%. Já nos últimos 10 anos, o milho registrou aumento de 16% na produtividade e a soja somente 1,8%. Esta significativa diferença no crescimento da produtividade pressiona positivamente os preços da soja, pois essa é a única possibilidade de estimular o produtor a plantar a oleaginosa nos EUA e há necessidade de que a área aumente para a safra 2004/05. Portanto, somente com uma satisfatória safra sul-americana e condições favoráveis à safra 2004 dos EUA que os preços voltarão a cair. Esta é uma afirmação razoável para as condições atuais de elevada taxa de uso do grão nos EUA.
A dificuldade dos exportadores dos EUA em atender seus contratos, principalmente com a China, promoverá o cancelamento de alguns e a rolagem de outros para a safra 2004/2005. Esta é a oportunidade de aumentar a participação brasileira nas exportações mundiais e, segundo o USDA, a Argentina e Brasil aumentarão suas exportações em 8,8 milhões de toneladas em relação ao ano anterior, atingindo 38 milhões de toneladas do grão.
Se 24,5 milhões de toneladas serão exportados pelos EUA e se os estoques não podem ser reduzidos abaixo de 3,4 milhões de toneladas, restará somente 39,6 milhões de toneladas para o esmagamento doméstico no ano-safra 2003/04 (outubro 2003 a setembro 2004), representando redução de 10% em relação ao ano anterior. O declínio das exportações dos EUA promoverá o aceleramento do processamento e embarque da safra sul-americana para 2004. Conforme previsões do USDA, para o ano safra encerrando em setembro 2004, as exportações de farelo do Brasil e Argentina totalizarão 36 milhões de toneladas, contra 32,2 milhões de toneladas embarcadas no ano anterior.
Na última semana de fevereiro as empresas norte-americanas estavam oferecendo contratos a US$ 7,00 /bushel para entrega em outubro/novembro 2004 aos seus produtores, gerando movimento para a substituição de parte da área de milho por soja no plantio que inicia em maio.
O estímulo à produção elevará a área acima da taxa anual normal de aumento em todos os países produtores de soja, e nos EUA será a safra 2004/05 que apresentará maior taxa de aumento. Este comportamento da produção como resposta ao mercado é cíclico e no Brasil ocorreu a cada 4 a 5 anos. O crescimento anual normal (ou neutro) de área é proporcional ao incremento na demanda e também considera o avanço na participação do Brasil no mercado internacional. Foi em 1988 que ocorreu maior aumento de área sobre a taxa normal, que, por sua vez, é neutra nos preços, e este movimento cíclico será repetido novamente, mas 6 anos após, ou seja, 2004.
A maior área de soja plantada nos EUA foi em 2001, com 29,55 milhões de ha. Considerando que a cultura já passou por um período de retrocesso na área plantada, que é um indicador que atingiu um nível máximo com relação à eficiência econômica, principalmente em relação às taxas de crescimento da produtividade, é razoável afirmar que a partir do patamar de 30 milhões de ha, o crescimento ocorre em áreas não preferenciais e economicamente marginais pois a maior taxa de aumento da produtividade do milho torna esta cultura mais atrativa ao produtor. Já no Brasil, a grande vantagem comparativa está em algumas regiões do cerrado, principalmente no Mato Grosso que apresenta área preferencial a produção da soja, pois sua produtividade média é equivalente às melhores áreas do sul do país com largo histórico na cultura. Sendo assim, conclui-se que o Brasil ainda está aumentando sua área em escala e em condições preferenciais e não em marginais, ou substituição, como é o caso dos EUA, China, Índia e com menor severidade na Argentina.
MILHO
A safra brasileira de milho para 2003/04 esta projetada em 46,3 milhões de toneladas, segundo a CONAB, e em 42 milhões de toneladas segundo o USDA. A posição do USDA é mais conservadora e indica estoque final para o grão em somente 3,27 milhões de toneladas, contra 7,44 milhões de toneladas da CONAB. Como há expectativa de aumento na exportação de carne, com conseqüente aumento no consumo do grão, e redução na safrinha do PR devido à estiagem, a projeção da CONAB poderia ser considerada como limite máximo. Deve-se ressaltar que os estoques domésticos do grão não tem apresentado correlação com os preços e sim, a oferta total com forte participação pela pressão da produção da safra no ano corrente, levando a um comportamento bi-anual dos preços como resposta do estímulo ao plantio.
No entanto, este comportamento cíclico possui limites superiores e inferiores estabelecidos pelos preços internacionais e mostram uma tolerância de aproximadamente 26% de queda nos preços durante a safra em relação aos preços praticados nos portos do Golfo nos EUA, como sinalizado pelas setas vermelhas na figura 5. Em janeiro/2004, esta diferença já alcançou 22%, indicando que haverá a pressão natural de baixa na colheita, mas com limite próximo, e pressão de alta logo após, gerada pela diferença na paridade com os preços internacionais. Vale salientar, que os preços do grão no mercado nacional não apresentam vínculo direto com os internacionais, mas este estabelece os limites superiores e inferiores, permitindo que a variabilidade nos preços domésticos no curto prazo sejam muito superiores aos internacionais que, por sua vez, apresentam ciclo de longo prazo. Nos EUA, por outro lado, os preços praticados nos portos do Golfo apresentam estreita correlação com a taxa de uso do grão no país (figura 6), justificado pela posição de maior exportador mundial. Na projeção para 2003/04, os EUA estão com 91,3% de uso em relação a disponibilidade do grão, sendo o restante convertido em estoque. A taxa de uso mais elevada foi na safra 95/96, resultando no preço médio de US$ 3,20 /bushel (US$ 7,65/60kg). O suprimento total para a safra 2003/04 está projetado em 284,7 milhões de toneladas, sendo inferior ao da safra 1999/00 e resultando em um cenário delicado para o abastecimento doméstico, pois o consumo total é crescente e esperado que alcance 211,1 milhões de toneladas, sabendo-se que na safra 1999/00 foi de 192,5 milhões de toneladas. Disto tudo, conclui-se que os EUA manterá a exportação do grão em 51 milhões de toneladas, pouco superior aos 49,5 milhões de toneladas da safra 1999/00. A indisponibilidade dos EUA em aumentar significativamente as exportações é crucial para a elevação dos preços, pois a projeção para o consumo mundial do grão está em 644,6 milhões de toneladas e a produção em somente 609,1 milhões de toneladas, resultando na continuidade do declínio do estoque mundial que ocorre desde a safra 1998/99, onde representava 29,6% do consumo global e agora está em somente 10,4%.
TRIGO
O país obteve êxito ao atingir a meta de produzir mais de 50% do consumo previsto para a safra 2003/04 e agora busca a manutenção deste patamar e, se possível, elevar a participação da produção doméstica na capacidade de suprimento nacional. A expectativa sobre a produção mundial do grão para 2003/04 aponta para 551,8 milhões de toneladas (USDA, fev/2004), representando a continuidade do declínio observado desde a safra 1997/98 que atingiu 610 milhões de toneladas. O percentual de uso do total do grão disponível no planeta está projetado em 78,7%, superior ao pico registrado nos últimos 10 anos que atingiu 75,1%, e igual ao máximo desde a década de 60. Portanto, a atual relação estoque/demanda mundial ocorreu somente em uma oportunidade nos últimos 44 anos. A pressão de alta cíclica no mercado internacional é originada da diferença de 8,7 pontos percentuais acima da linha considerada neutra para a taxa de uso do grão que é de 70%. No entanto, a pressão sobre os preços resulta também das oportunidades ao investidor e expectativas sobre a capacidade de oferta para a safra seguinte. Quanto a este quesito, somente o aumento dos preços será suficiente para elevar a área de plantio nos EUA e Argentina.
Dados para referência bibliográfica: Revista Plantio Direto, edição nº 80, março/abril de 2004. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS