Agricultura — Uma Atividade de Investimentos a Longo Prazo


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Publicado em: 01/04/2004

Agricultura: uma atividade de investimentos a longo prazo

Nesta edição, escolhemos três produtores da região de Não-Me-Toque/RS para falar um pouco de sua história com o plantio direto na palha. Eles exploram a atividade agrícola numa mesma região, em tamanho de propriedades diferentes, mas partilharam no passado das mesmas dificuldades de implantação do sistema e enfrentam, no momento, dificuldades semelhantes diante de situações que testam diariamente suas convicções: possibilidade de ganho a longo prazo x lucro imediato.

Volmir Breancini

Volmir Breancini cultiva junto com os três irmãos 112 hectares, na localidade de Bom Sucesso, em Não-Me-Toque/RS. A propriedade pertence a família desde 1947, é gerida atualmente pelos quatro irmãos, que tomam as decisões de forma conjunta. Enquanto Volmir conclui seus estudos o trabalho na lavoura é conduzido pelos irmãos Edemar e Gilberto e a parte administrativa da propriedade é feita por Judite, uma das irmãs de Volmir.

Segundo ele, o plantio direto na propriedade foi iniciado em 1986, quando a família comprou uma plantadeira. ”A máquina não era adequada, tivemos que fazer uma adaptação no segundo ano. Começamos numa pequena área, algo em torno de 10 a 15% do total e partir de 1990 atingimos 100% sob plantio direto”, comenta.

O motivo apontado para a adoção do plantio direto foi a percepção de que o solo estava cada vez mais pobre com o processo de erosão que se acentuava, havendo a necessidade de fazer correção pesada a cada três anos. ”Percebemos que estávamos caminhando para uma agricultura insustentável e fomos buscar informações sobre esse sistema que começava a ser implantado na região e que já estava estabelecido em outro estado” conta Volmir.

O objetivo era controlar a erosão, mas com o passar do tempo Breancini percebeu que os benefícios do sistema também eram outros. Ele cita como exemplo a diminuição na utilização de insumos e o aumento das produtividades. ”Foi assim que percebemos que estávamos no caminho certo, os rios não estavam mais sendo assoriados, pois nosso solo não era levado embora pela água da chuva. Agora estamos fazendo uma agricultura mais sustentável”, afirma.

Segundo Volmir, a família cultiva no verão soja e milho, mas não segue uma rotação de culturas ideal para a manutenção do plantio direto. ”Não estamos mantendo o percentual da área recomendado com milho em função do mercado. O preço da soja está mais atrativo, mas sabemos que isso não é correto, pois é necessário manter um plano de rotação com milho para que o sistema plantio direto se viabilize” comenta Breancini.

Há, por parte de Volmir, o reconhecimento da importância da rotação de culturas para o controle de pragas e doenças e também para o aumento da fertilidade do solo no sistema plantio direto.

Quanto a soja transgênica, Volmir Breancini posiciona-se favorável a tecnologia, embora não a considere a ”salvação da lavoura”. ”A soja transgênica é uma ferramenta, que facilita a vida do produtor, pois representa comodidade dentro da propriedade. Hoje o agricultor colhe e planta na seqüência, preocupando-se com herbicida somente após o estabelecimento da cultura, com isso o manejo de plantas daninhas é bem mais simples”, explica.

Volmir comenta que em 2003 a produtividade da soja transgênica foi superior a convencional que teve uma média de 48 sacos por hectare enquanto a transgênica atingiu até 70 sacos/hectare, fechando a média final da propriedade em 64 sacos.

No inverno são cultivados na propriedade trigo, cevada e aveia para cobertura e para pastagem. Isso significa 50 a 60 hectares de trigo e 10 a 15 hectares com cevada.

A família possui áreas impróprias para a agricultura mecanizada que são destinadas a pecuária leiteira sem fins comerciais, pois segundo Volmir, não compensa investimentos nessa atividade e nem mesmo destinar áreas adequadas para a prática agrícola à exploração da pecuária.

Para Volmir, o plantio direto em pequenas propriedades é fundamental. ”No momento que o agricultor deixa o solo, que é seu maior patrimônio, degradar, exaurir, ele não terá condições de recuperá-lo, sendo praticamente excluído da atividade. O plantio direto é o caminho para o pequeno produtor permanecer na atividade de forma sustentável”, complementa.

A família Breancini é associada da Cooperativa Cotrijal desde o início da década de 70, e Volmir considera fundamental a parceria entre o associado e a cooperativa, pois é através dela que os produtores têm acesso às inovações tecnológicas. ”Recebemos informações através de dias de campo, cursos e palestras realizados pela cooperativa”.

Quanto a evolução do plantio direto na região, Volmir Breancini considera muito importante a atuação da Cotrijal, pois foi através dela que as inovações relacionadas ao sistema chegaram até o produtor desde o início. ”A Cotrijal foi decisiva na viabilização do plantio direto em sua área de atuação. Outra instituição de extrema importância no processo de adoção foi a Fundacep, de Cruz Alta, que desenvolveu pesquisas e possibilitou o acesso dos produtores aos resultados”, avalia Volmir.

Confirmando a importância da Cotrijal na capacitação do produtor, Breancini comenta que os eventos promovidos pela cooperativa são importantes para o desenvolvimento das propriedades como um todo. ”Dentro do possível sempre participamos das promoções da Cotrijal, pois é uma forma de nos manter atualizados”.

O departamento técnico da cooperativa desempenha papel importante no relacionamento da instituição com o associado. A parceria entre técnicos e produtores é muito valorizada. ”Sempre que há dúvidas, nós consultamos os agrônomos e somos imediatamente atendidos”, salienta Volmir.

Além de movimentar a economia regional a Expodireto Cotrijal é uma vitrine tecnológica que viabiliza o acesso dos produtores a informações, a produtos e serviços destinados ao setor primário. Para Breancini a feira traz para perto do produtor o que há de mais atual. ”É um privilégio termos em nossa região um evento com essa dimensão. Durante a Expodireto Cotrijal, nós produtores, temos condições de conhecer o que há de melhor, mesmo não tendo acesso a muitos avanços tecnológicos por serem muito caros, podemos concentrar a atenção em itens que influenciam diretamente nossa atividade como sementes, fertilizantes, agroquímicos e informações junto às instituições de pesquisa”, finaliza Volmir.

Norberto Willig

Norberto Willig é produtor rural na localidade de Costa do Colorado, no município de Não-Me-Toque, sempre desenvolveu atividades ligadas a lavoura e foi um dos pioneiros na adoção do plantio direto na região onde está situada sua propriedade. Atualmente planta uma área de 183 hectares. Soja, milho, trigo e cevada são as principais culturas presentes no planejamento de campo de Norberto Willig. Ele iniciou o plantio direto há 13 anos. A implantação do sistema ocorreu, como experiência, numa pequena parcela, mas a partir do terceiro ano o plantio direto ocupou 100% da área.

Willig comenta que sentiu dificuldades quando iniciou o plantio direto em sua propriedade na questão das máquinas. As plantadeiras eram adaptações dos modelos destinados ao plantio convencional, mesmo assim, ele considerou mais fácil plantar direto sobre a palha. O plantio direto significou mudanças drásticas na forma de conduzir as propriedades, mas acima de tudo se caracterizou pela mudança na forma de relacionamento com a lavoura. ”No plantio direto é necessário perceber a propriedade com um conjunto de práticas interativas”, afirma Norberto.

Quando questionado sobre os motivos que o levaram a adotar o plantio direto, o produtor diz que a questão de custos foi um fator decisivo para a escolha da nova técnica, a conservação do solo também foi importante. ”A erosão não era tão comum, mas haviam casos nos arredores e isso também motivou a adoção”, comenta.

Segundo Norberto foi possível notar, no decorrer dos anos, um aumento na produtividade, que foi imediatamente associado a melhoria das condições do solo em termos de fertilidade. Na última safra a média na colheita da soja foi de 56 sacos/hectare, 140 de milho, no trigo a média foi de 48 sacos e cevada 65 sacos/hectare. Willig faz ainda safrinha de feijão, uma cultura pouco comum na região. Apesar da diversidade de cultivos em sua propriedade Norberto Willig admite que a rotação não está sendo realizada de forma adequada. ”A área com milho deveria ser maior, mas com os preços assim tão baixos, fomos diminuindo o plantio dessa cultura” explica. Willig comenta que não se trata apenas do milho estar com valor de mercado baixo e custos de produção elevados, mas também pelo fato da soja estar com um ótimo preço e custos de produção bastante reduzidos. Segundo ele, esse desequilíbrio prejudica a disposição do agricultor em fazer rotação. ”No momento que houver uma aproximação das margens de lucro entre as duas culturas, com certeza os produtores voltarão a ocupar 1/3 de suas área com o milho. Há momentos que temos que abandonar as regras em função de questões econômicas, pois antes de qualquer coisa precisamos ser viáveis”, afirma.

Outro motivo para a ampliação da área de soja foi o plantio de variedades transgênicas, que tem um custo de produção inferior, fazendo a diferença entre as duas culturas aumentar ainda mais. ”Este ano ainda plantei soja convencional, mas no próximo ano será 100% da área com soja transgênica”, afirma Norberto Willig.

Lori, a esposa de Norberto Willig é Líder de Núcleo da Cooperativa Cotrijal e participa de todas as atividades na propriedade da família, na compra, venda ou na própria lavoura, ela colabora disponibilizando seu trabalho, fato que não é comum na região. ”Se eu não participasse de tudo seria necessário contratar mais um funcionário, e não temos volume de trabalho que justifique mais uma pessoa na propriedade”, comenta. Lori acumula funções porque mesmo participando do trabalho na propriedade não deixou de cuidar da casa e das duas filhas do casal.

A cooperativa é considerada pelo produtor Norberto Willig uma instituição importante, pois é através dela que os agricultores avançam tecnicamente e conseguem se fortalecer. ”A Cotrijal é nossa segunda casa, pois convivemos com o corpo técnico da cooperativa todos os dias e são eles, os agrônomos, que nos assessoram na resolução dos problemas dentro da propriedade” complementa.

Norberto Willig vê a Expodireto Cotrijal como um evento importante não só para os agricultores da região, mas para todos os envolvidos com o setor primário. ”É um local que possibilita o acesso dos produtores aos avanços tecnológicos e deve ser aproveitado como uma oportunidade de atualização e aperfeiçoamento dos conhecimentos aplicáveis na propriedade”, concluiu.

Alexandre Wiedtheuper

Alexandre é o filho mais novo de Valdemar Wiedtheuper, produtor associado da Cooperativa Cotrijal. Formado em agronomia, é responsável pela parte técnica da propriedade, as demais atividades são de responsabilidade do cunhado e do pai. Segundo Alexandre, as decisões macro são tomadas em conjunto, ficando a palavra final com o seu pai, que sempre esteve ligado à atividade agrícola.

Valdemar Wiedtheuper tornou-se produtor rural em 1966, quando adquiriu, em sociedade com o seu patrão, uma área de 12 hectares, as demais áreas foram adquiridas individualmente com o passar do tempo. Comprovando que os tempos mudaram, Alexandre conta que seu pai conseguiu comprar grande parte da área cultivada pela família fazendo o pagamento utilizando recursos da colheita do trigo, ele salienta que hoje essa prática é inviável.

A família Wiedtheuper cultiva 1.130 hectares, divididos em áreas menores localizadas, em grande parte, no Município de Não-Me-Toque/RS. O plantio direto está implantado nas propriedades da família desde 1994 e, atualmente, ocupa 100% da área. Alexandre cita como principal motivo para adoção do plantio direto a contenção da erosão do solo, que naquela época era um fantasma que rondava as propriedades da região. ”Quando ameaçava chuva, todos ficavam preocupados com o resultado na lavoura”, comenta.

As primeiras tentativas de implantação do sistema aconteceram em 1992, numa pequena área e com a utilização de máquinas adaptadas. ”Nesta época os resultados não foram muito bons, pois predominou a dificuldade com o plantio, que era realizado com equipamentos inadequados à nova tecnologia”, explica Alexandre. Somente a partir de 1994 foi possível estabelecer a prática do plantio direto de forma eficiente, através da aquisição de máquinas e busca de informações. ”Reconheço que fizemos muita coisa errada no início, com o passar do tempo percebemos que deveríamos ter começado de forma diferente, mas a experiência propiciou o sucesso do plantio direto que hoje ocupa 100% de nossas terras”.

No período de 1997 a 2001, a família teve uma breve experiência com integração agricultura-pecuária direcionada a produção de leite, chegando a produzir 1.700 litros/dia. Utilizavam pequenas áreas para pastoreio, de outros locais apenas era retirada a palha para silagem. Segundo Alexandre, não houveram problemas de compactação, mas o cuidado com o manejo era constante. ”Procurávamos tirar o gado sempre em tempo hábil para que a área se recuperasse. A retirada do gado acontecia no mês de outubro, após cobrir o solo novamente, fazíamos o plantio”, conta.

Segundo ele, em anos mais secos ocorreram problemas de compactação do solo com o pisoteio, nas áreas em que isso acontecia as plantadeiras tinham dificuldades para trabalhar. ”Com o manejo adequado foi possível conduzir a atividade, mas as áreas utilizadas para o pastoreio nunca foram tão boas quanto as que não tinham pisoteio do gado”, afirma Alexandre.

No último ano a produtividade média da propriedade da família Wiedtheuper foi de 56 sacos/hectare na soja. Neste ano, a projeção é que esta média suba em relação a 2003. No milho a média foi de 118 sacos/hectare. O trigo é implantado em toda a área, por isso o plantio começa cedo, ou fora de época, como afirma Alexandre. A produtividade da cultura foi de 42 sacos/hectare. ”Iniciamos o plantio o mais cedo possível para ganhar tempo, mas isso tem ocasionado perdas em função da geada. Na verdade, plantamos trigo não pensando em obter lucro com a cultura, mas para garantir a diminuição do custo de implantação da lavoura de soja, pois o adubo do ano é colocado no trigo e também para garantir palha sobre o solo” comenta Wiedtheuper.

Quanto a prática da rotação de culturas Alexandre afirma que em seu planejamento procura respeitar a cota de 1/3 da área com milho anualmente, porém neste ano a área destinada a cultura do milho ficou menor em relação a anos anteriores, isso ocorreu em função da soja que está com um valor de mercado maior e custos de produção mais baixos. ”Com o preço da soja e com a facilidade de cultivo da variedade transgênica, nos sentimos tentados a cobrir toda área com a cultura, mas tenho consciência que é um ganho momentâneo e que a rotação garante a produtividade da soja a longo prazo”.

Apesar da formação em agronomia Alexandre utiliza os serviços de assistência técnica da Cooperativa Cotrijal, pois considera importante a interação entre o produtor e os técnicos que estão habilitados a trazer para dentro das propriedades as novidades existentes no mercado.

Para Alexandre a Expodireto Cotrijal é uma referência em termos de organização e hoje projeta a região e o estado ao nível nacional. ”Quem sabe explorar a feira tem muito retorno, pois as novas tecnologias em produtos e serviços e as informações técnicas de instituições de pesquisa, estão disponíveis ao produtor, bastando apenas que ele saiba aproveitar e busque respostas para suas perguntas” finaliza.

Dados para referência bibliográfica: Revista Plantio Direto, edição nº 80, março/abril de 2004. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS