A agricultura não é uma atividade simplista
Gelson Mello de Lima é engenheiro agrônomo, atua na Cooperativa Tritícola Mista Alto Jacuí há 15 anos onde, atualmente, exerce o cargo de Gerente da Unidade de Grãos. A Cotrijal abrange uma área de aproximadamente 160 mil hectares e possui 4.500 produtores associados. Nesta entrevista Gelson comenta o histórico e situação atual do plantio direto na área de abrangência da cooperativa e também, fala do papel da Expodireto Cotrijal, feira agrodinâmica realizada anualmente em Não-Me-Toque, na qualificação dos produtores da região.
Revista Plantio Direto – Como foi o início da adoção do plantio direto entre os associados da cooperativa e na região de Não-Me-Toque?
Gelson Lima – A primeira fase de adoção do plantio direto em nossa região foi marcada pelo fracasso. Isso ocorreu em torno de 1970. Após as primeiras experiências que não deram resultado, houve um período de inércia, foi o abandono da prática.
No principio a idéia central do plantio direto era o controle da erosão. Os produtores viam o sistema como solução para esse problema específico. As dificuldades foram surgindo em função do modelo de sistema de produção vigente na época, que tinha como base a dobradinha trigo-soja. Somada a essa questão, havia a ausência de respostas por parte da pesquisa, que não apresentava alternativas ou soluções para as dificuldades naturais que os produtores sentiam quanto a adoção da nova tecnologia. A questão das máquinas, também foi um entrave para o estabelecimento do plantio direto, mas o ”Tendão de Aquiles” do sistema, foi a questão do controle de invasoras nas lavouras. Esses fatores conspiraram para que o agricultor desanimasse e não prosseguisse na tentativa de adotar o plantio direto na palha aqui na região.
RPD – Quando ocorreu a retomada do plantio direto e por que a segunda fase foi mais produtiva?
Gelson Lima - Em 1985 tivemos no Rio Grande do Sul a retomada do plantio direto, foi uma fase diferente que nos impulsionou para o estágio atual, quando contabilizamos 100% da área sob o sistema. Por que nesta ocasião funcionou? Funcionou porque a técnica foi retomada dentro de outra perspectiva. O desejo de combater a erosão permanecia, mas nesta fase também foi introduzida a idéia de conservação do solo. O plantio direto foi retomado dentro de um conceito mais amplo que envolvia rotação de culturas e a cobertura permanente das lavouras. Foi neste estágio que técnicos e agricultores passaram a utilizar o termo ”sistema” para se referir ao plantio direto. Quando os produtores aderiram a essa forma de fazer agricultura, foi possível obter um substrato diferente que viabilizou o plantio na palha.
Porém, para combater a erosão e continuar com uma agricultura que tivesse sustentação ao longo do tempo, foi necessário garantir também produtividade. Então, o controle da erosão passou a ser o meio e não o fim. O produtor tinha que controlar a erosão como forma de permanecer na atividade. Através do plantio direto ele teve condições de produzir e ao mesmo tempo conservar e melhorar seu solo.
RPD – Nesta fase a questão econômica tornou-se mais evidente?
Gelson Lima – A questão econômica fez com que os agricultores buscassem um sistema de produção mais adequado a viabilização do plantio direto. O planejamento da lavoura passou a contemplar espécies formadoras de palha e a rotação de culturas foi adotada pelos agricultores. Esse procedimento criou no solo um ambiente favorável ao desenvolvimento da vida, através do aumento da matéria orgânica, que era uma das grandes dificuldades do plantio convencional.
RPD – Como se caracteriza o solo das propriedades na região?
Gelson Lima – Os solos da região são na maioria profundos, de constituição excelente e com boa drenagem. Isso permitiu que se fizesse muita coisa errada e por longo tempo. Mesmo assim, o solo continuou externando, de forma satisfatória, o potencial de produção das culturas implantadas.
Os produtores perceberam que com o plantio direto seria possível construir a fertilidade do solo, mas para isso foi necessária a adoção da rotação de culturas de forma sistemática e, eventualmente, a realização de correções químicas, mas o mais importante foi a alteração do referencial da prática agrícola por um modelo completamente diferente.
RPD – Houve a fase de explosão, quando todos os envolvidos com ao setor agrícola ”adotaram” o plantio direto de alguma forma. Como isso repercutiu na região?
Gelson Lima – Houve um período em que a pesquisa passou a gerar informações, os resultados começaram a aparecer, a forma como os agroquímicos chegavam ao produtor e sua forma de utilização também foi alterada para um modelo mais técnico e com acompanhamento profissional, houve um estreitamento das relações entre pesquisa e extensão e também entre a extensão e o produtor.
Isso possibilitou que partíssemos do ponto zero e atingíssemos 100% da área sob plantio direto, com aumento de produtividade e ganhos reais para o agricultor, e a pesquisa percebeu isso.
RPD – Qual foi o papel da pesquisa na solidificação do sistema plantio direto?
Gelson Lima – A partir da segunda fase do plantio direto no Estado, a pesquisa desenvolveu uma série de trabalhos que não deixaram dúvidas quanto a superioridade do plantio direto. Através de trabalhos científicos foi possível comprovar para o produtor que um sistema bem conduzido, que contemplasse rentabilidade, rotação de culturas, preservação do solo através de um processo que permitisse crescimento e renda, as dificuldades eram eliminadas ao longo do tempo.
No processo de solidificação do PD, considero fundamental a comparação realizada por pesquisadores entre os dois sistemas, pois os agricultores ainda tinham a lembrança da primeira fase, repleta de dificuldades e com fracasso como resultado final. Naquela época muitos diziam que preferiam um plantio direito ao plantio direto, mas com o tempo isso foi superado, porque os trabalhos de pesquisa mostraram que nas principais culturas o plantio direto apresentava resultados superiores ao convencional.
A Fundacep, de Cruz Alta, realizou um trabalho de 9 anos comparando os dois sistemas, com e sem rotação, lado a lado, onde a única diferença foram as práticas adotadas e isso não deixou dúvidas que a rentabilidade do plantio direto é maior.
RPD – Os produtores perceberam os benefícios do plantio direto?
Gelson Lima – Como no plantio direto há uma redução de 40% na utilização de máquinas resultando numa demanda menor de hps/hectare e por conseqüência ocorre economia de combustível a menor necessidade de força e um ambiente mais limpo, os produtores perceberam de forma imediata os benefícios do sistema.
Se imaginarmos um trator trabalhando 24 horas por dia, como era comum no convencional, arando, subsolando, gradeando, o tempo todo, em altas temperaturas, exposto a ação da poeira formada com o trabalho de preparo do solo, a vida útil dos componentes dessa máquina eram bem menores e isso também é custo. Com o plantio direto também houve redução de 50% no uso de combustível nas propriedades. Não temos dúvidas que foram esses dados que direcionaram a adoção do plantio direto em 100% da área de abrangência da Cooperativa Cotrijal.
Ainda, se tomarmos como exemplo as áreas que não eram aproveitadas para agricultura devido a presença de vossorocas, erosão, alta declividade e que, através do plantio direto foram incorporadas às áreas de produção novamente, o ganho foi imenso. Na região tivemos entre 10 e 15% de áreas incorporadas a produção depois do plantio direto, áreas que no convencional não eram consideradas aptas para o plantio.
RPD – Qual é a preocupação no momento?
Gelson Lima – Já não se discute se o sistema plantio direto é melhor, o que nos preocupa é o avanço da cultura da soja e a diminuição das áreas com milho, por razões de mercado e custos de produção. Com a soja transgênica o custo de implantação da cultura ficou mais baixo, complicando a situação do plantio direto quanto a rotação de culturas.
RPD – Quais são os fatores que favorecem a cultura da soja na região?
Gelson Lima – Na verdade não é um favorecimento local, isto ocorre em todas as regiões agrícolas do país.
Sempre tivemos dificuldades climáticas nas lavouras da região no período de uso de herbicidas. Normalmente há temperaturas altas, umidades relativas baixas e velocidade de ventos que desfavorecem a aplicação. Se numa condição assim tivermos um número muito grande de invasoras, com períodos diferentes de estabelecimento e estágios de emergência, é complicado fazer o controle. Antes o produtor utilizava uma mistura grande de produtos, com custos elevados e mesmo assim não obtinha o resultado esperado. Como na maioria das vezes ele aguardava a emergência de grande parte das ervas para fazer o controle apenas uma vez, havia grande competição das invasoras com a cultura. Hoje essa competição não é percebida pelo produtor porque ele faz o controle com produto barato e com versatilidade de aplicação.
Os custos de produção do milho, que é a cultura que disputa espaço com a soja durante o verão, permanecem nos mesmos patamares, sem falar na questão de mercado. O produtor vendeu milho a R$ 12,00, pensamos que era uma condição excepcional, de momento. Então o produtor reagiu, voltou a plantar aumentando a área e acabou vendendo o produto a R$ 8,00, quase a metade do preço do ano anterior. Só não vendeu mais barato porque as cooperativas promoveram a exportação do milho, que era uma coisa inconcebível, pois somos historicamente importadores da cultura.
RPD – Este pode ser considerado um momento de alerta?
Gelson Lima – Permanecendo os fatores de mercado favorável à soja, que é um produto com liquidez acentuada, custos de produção mais baixos e rendimento alto, o milho torna-se uma cultura de risco, pois seu custo de implantação é maior, com dificuldades de comercialização e valor de mercado reduzido.
Portanto, se o produtor não perceber o plantio direto como um sistema através do qual é possível evitar a erosão, conservar e melhorar a qualidade do solo, aumentar a produtividade e diminuir custos, temos o risco eminente de voltarmos a fazer a dobradinha trigo-soja, o que não dá condições para a continuidade do plantio direto.
Temos, portanto, preocupação quanto ao comportamento dos produtores, que na ânsia de aproveitar a condição favorável da soja, podem estar comprometendo o plantio direto já estabelecido em suas propriedades.
RPD – O que o Departamento Técnico da Cotrijal recomenda aos associados?
Gelson Lima - O DETEC da cooperativa busca estabelecer entre os associados um sistema de produção que contemple, todo ano, no mínimo 1/3 de milho na propriedade, mas muitos produtores não estão aplicando essa orientação em suas lavouras. Temos certeza de que para a região, a lavoura de verão deveria ser composta por 50% soja e 50% milho, pois a soja plantada na área onde havia milho responde muito melhor, isso deve ser quantificado antes do produtor decidir.
Infelizmente constatamos que isso não ocorre, pois hoje temos apenas 18% da área com milho, numa região que tradicionalmente adota tecnologias e segue recomendações técnicas. Estamos numa encruzilhada, pois em áreas onde o percentual de milho ainda é menor, como fazer para manter um sistema de produção que comprovadamente é melhor? O principal combustível do plantio direto é a palha, que é obtida através da rotação de culturas. Portando, se essa situação percebida nas lavouras da região tiver continuidade, podemos ter o comprometimento do plantio direto.
Acreditamos ser necessário uma reorganização dos agentes da cadeia de produção, para que o milho resgate o seu valor de mercado, para que a diferença em comparação com a soja não seja tão aguda.
Infelizmente o produtor não considerou que a alta produção da soja também está atrelada ao conjunto de práticas adotadas na propriedade em anos anteriores, entre elas o plantio direto na palha. Não se pode creditar todos os benefícios da produção de soja as variedades transgênicas.
RPD – Qual é o perfil da agricultura e do agricultor hoje?
Gelson Lima - Hoje temos uma agricultura competitiva e por isso precisamos de um produtor competitivo, que busque informação, que use tecnologia. Um produtor menos informado pode acreditar que é tudo muito simples, e na verdade não é. A agricultura é uma atividade extremamente complexa, que exige interação entre ambiente-planta-homem. Se o produtor acreditar que é auto-suficiente, que não precisa mais da pesquisa, que não necessita de informação, de assistência técnica, que não precisa trocar informação com o vizinho, teremos uma agricultura estagnada e sem futuro.
É por isso que o agronegócio é a bola da vez. A agricultura foi e é nossa vocação, é ela que mantém a balança comercial e dá sustentação a outros segmentos da economia. Hoje, até setores que antes ignoravam a agricultura assumem o discurso favorável ao agronegócio. Isso é bom, pois com maior volume de debates em torno do assunto é possível formar opiniões críticas. A nossa preocupação é com aqueles que efetivamente fazem o agronegócio, principalmente os agricultores, que são originadores de matéria prima, de grãos e da carne. É importante que eles não tenham a ilusão que esse bom momento será eterno e que agricultura é uma atividade simples, pois nem sempre teremos facilidades climáticas, custos de produção baixos e reserva de fertilidade para queimar. Esses acontecimentos são cíclicos, passageiros e esgotáveis.
RPD – Uma receita de sucesso.
Gelson Lima - O sucesso da atividade não é garantido por uma prática isolada, o conjunto de ações, a história de cada agricultor, como ele percebe a agricultura, como ele interage com a atividade, é o que garante o sucesso ou o fracasso. A prática isolada serve apenas para a resolução de um problema imediato. Os produtores bem sucedidos são aqueles que tem uma trajetória que contempla um conjunto de práticas dentro da propriedade. Por exemplo, o agricultor que é bem sucedido no plantio de milho, não acredita que seu sucesso deve-se somente ao híbrido, ao herbicida ou fertilizantes utilizados, ele sabe que o sucesso é reflexo das práticas utilizadas na propriedade como um todo, muitas delas antes do plantio: o planejamento da lavoura, a revisão da máquina, a regulagem do equipamento e a época de semeadura, ou seja, uma série de fatores que dependem da coordenação do homem. O produtor de sucesso faz sua caminhada analisando todos os fatores e buscando informação. Hoje a informação está disponível em grande volume, mas a maior dificuldade consiste em acessar a que é de fato pertinente.
RPD – O que significa a Expodireto Cotrijal neste contexto?
Gelson Lima - Destaco a importância de um evento com as características da Expodireto Cotrijal, que concentra informações de qualidade num único local, bastando apenas que o produtor saiba buscá-la. As informações com origem, com o aval de instituições de pesquisa, originadas por empresas sérias, estão disponíveis no evento e com certeza fazem diferença no planejamento da atividade do produtor.
É nesse ponto que podemos reforçar a importância da Expodireto nesta fase otimista do agronegócio, pois é justamente em momentos de disponibilidade de recursos, e para alguns até de bundância, que nos preparamos para os momentos de dificuldade que com certeza virão. É nesse período, portanto, que o agricultor precisa se aproximar da informação, da tecnologia que foram os grandes aliados dos agricultores em fases difíceis.
Foi a incorporação de informação, de conhecimento, de tecnologia, de troca de experiência, o acesso a outras realidades, da filtragem de informação, adotando e descartando de acordo com a necessidade, que conduziu todos nós a este patamar.
Temos reforçado junto aos associados, em razão do volume e qualidade das informações que eles irão encontrar na Expodireto, a importância de planejamento da visita ao evento. O produtor deve concentrar sua atenção em áreas que são importantes para atividade que ele desenvolve, depois que as questões relacionadas ao seu negócio forem resolvidas ele pode destinar tempo ao passeio em outros setores da feira.
Então, o produtor deve reservar na agenda, cinco dias para visitar a Expodireto e ver tudo aquilo que está relacionado a sua atividade, seja com foco na produção de grãos, na produção animal ou uma associação das duas áreas. Nesses dias o produtor consegue ter contato com o que há de mais avançado no seu segmento. É fundamental que o produtor visite as instituições de pesquisa, as empresas privadas, que investem em pesquisa e desenvolvimento de produtos, para que ele saiba da existência e conheça técnicas e produtos já consagrados . É importante também que ele busque solução para as dificuldade sentidas dentro da propriedade, pois a feira é o ambiente ideal para essa busca. Assim, o produtor vai aumentar sua rentabilidade, vai crescer dentro de sua atividade, porque a competição é muito forte, é necessário ampliar a escala de produção, pois as margens de lucro estão cada vez mais reduzidas. Não percebemos, nesse momento, outra forma de contornar as dificuldades que nãoseja a incorporação de tecnologia, pois o produtor que adota as novas técnicas antes da maioria, estará sempre a frente através dos diferenciais agregados a sua produção.
RPD – Uma recomendação?
Gelson Lima - Podemos finalizar recomendando aos produtores que usem da forma mais eficiente possível as informações disponíveis nessa fase de abundância, para que estejam preparados para momentos de maior dificuldade. Não imaginamos a exploração da produção de grãos dentro do modelo adotado há muito tempo atrás. Porque agindo dessa forma, dificilmente teremos condições de colocar nossos produtos no mercado. A demanda do consumidor final é muito diferente daquela que tínhamos no passado. Imagine a Cooperativa comercializando soja, milho e trigo produzidos mediante a degradação dos solos, assoriamento de rios e barragens, contaminação das águas com fertilizantes e produtos químicos. Hoje o consumidor quer saber da origem do grão, que tipo de tecnologia foi adotada na sua produção e qual o reflexo disso no ambiente explorado, até mesmo o relacionamento do produtor com seus funcionários são elementos de análise para quem está adquirindo o produto.
Não temos dúvida que voltar no tempo em relação ao sistema de produção é inviabilizar a atividade. Nossa região não pode prescindir de uma produção forte, equilibrada, com visão de futuro e de crescimento.
Dados para referência bibliográfica: Revista Plantio Direto, edição nº 80, março/abril de 2004. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS