Mudanças na Cultura do Milho no Brasil e Perspectivas para 2004


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Publicado em: 01/02/2004

Mudanças na cultura do milho no Brasil e perspectivas para 2004

Daniel GlatDiretor Geral da Pioneer Brasil

Nos últimos anos, a cadeia produtiva do milho tem sofrido uma série de mudanças, que estão alterando as perspectivas do mercado. Entre estas, destacam-se três principais:

- Aumento da produtividade, fruto do maior uso de tecnologia: Atualmente, o Brasil planta uma menor área, se comparado há 20 anos atrás, e tem o dobro de produtividade! Esse aumento é decorrente da maior utilização de novas tecnologias pelos produtores de ponta, que acabam tomando o espaço daqueles menos tecnificados.

- Inserção no mercado mundial: O Brasil começa a firmar pé no mercado internacional, e isso “dolariza” o preço do produto interno, o que muitas vezes é favorável. Em médio prazo, o potencial de exportação do milho brasileiro deve aumentar muito, na medida em que a China passará de exportador a importador do produto (a China, que exportava em média 15 milhões de Ton de milho por ano, em 2003 exportou apenas 8 milhões e é previsto que será um importador de 10 a 15 milhões de toneladas). Além disso, os Estados Unidos, maior produtor e exportador mundial, terá seu próprio aumento de consumo interno, para suprir a produção de Etanol. Essa combinação de fatores abre uma grande oportunidade para o Brasil no mercado internacional de milho, já que, além dos EUA e da China, apenas a Argentina e o Brasil podem ser considerados potenciais exportadores de milho.

- Diminuição da área de verão e aumento da dependência da safrinha: A grande performance da soja nos últimos anos tem roubado área de milho verão consistentemente. A safrinha, que até pouco não representava muito na oferta anual de milho, em 2002/03 foi responsável por 25% do total da produção. Embora seja uma alternativa muito atraente para o produtor, o plantio de milho pós-soja precoce, sob condições climáticas favoráveis, acaba sendo uma prática muito perigosa, visto que o potencial da safrinha é mais limitado e os riscos climáticos são bem maiores do que a safra verão.

TENDÊNCIAS DA SAFRINHA EM 2004 E PERSPECTIVAS DO MERCADO

Para a safra 2003/04, a expectativa era de que a safrinha alcançasse novamente em torno de 25% do total esperado para o ano, ou seja, 11 a 12 milhões de toneladas. Por causa dessa expectativa e de uma boa safra de verão que começa a ser colhida agora, o mercado de milho se mostra estável, tendendo a diminuir em algumas regiões.

É neste aspecto que os produtores devem estar muito atentos agora: a safrinha de 2004 está começando da pior maneira possível, a tal ponto que já é possível prever-se quebras significativas de produção em relação aos 11/12 milhões esperados em 2004. Isso terá efeitos diretos no preço do milho no médio prazo!

Os principais problemas da safrinha 2004 até agora têm sido:

- Atraso do plantio: A época de plantio é fundamental para alcançar uma boa produtividade na safrinha. O grande desafio técnico é formar a produção antes do final das chuvas no Centro Oeste, no Paraná e no sul do Mato Grosso do Sul e, também, antes das geadas, caso essas venham a acorrer. O milho responde a acúmulos de calor, ou seja, o desenvolvimento da cultura se dá em função da temperatura média. Assim, no sul do Brasil, ou nas terras altas do Brasil Central, um atraso de muitos dias no plantio na primavera/verão representa poucos dias na maturação do milho, pois o acúmulo de calor é baixo no início da safra e aumenta durante todo o verão. Na safrinha, acontece o oposto, ou seja, alguns dias mais quentes no final do verão significam muitos dias de diferença no florescimento e na maturação. Por isso a antecipação do plantio e do desenvolvimento inicial da cultura é fator crucial para a safrinha. Infelizmente, o plantio da safrinha esse ano foi bastante atrasado em praticamente todas as regiões produtoras.

- Diminuição da área: Devido ao grande atraso no plantio, é certo que a área plantada seja bem inferior à sinalizada. Alguns movimentos de devolução de sementes já indicam claramente essa tendência. Nós, da Pioneer e demais empresas do setor sementeiro, estimamos a diminuição de área da safrinha de 2004, em relação a 2003, em torno de 15 a 20%, no mínimo.

- Diminuição de tecnologia: O atraso de plantio, entre outras desvantagens, geralmente gera um menor investimento em tecnologia, seja pelo uso de menos adubo no plantio e em cobertura, troca de híbridos mais tecnificados por híbridos mais baratos ou uso de população de plantas menores.

- Aumento do risco: Devido ao grande atraso do plantio, quando este ocorrer, será concentrado em poucos dias, o que acabará aumentando os riscos de que uma determinada ocorrência climática virá atingir a área total, pois as lavouras estarão todas numa mesma fase.

- Efeito clima: Enquanto na safrinha 2003 as precipitações e temperaturas ficaram bem acima da média histórica, a expectativa para 2004 é de um outono/inverno com precipitações e temperaturas normais ou ligeiramente abaixo da média histórica.

CONCLUSÃO

A combinação desses fatores deve levar a quebras significativas da produção de safrinha.

Nós, da Pioneer, estamos estimando uma produção de safrinha na faixa de 5 a 7 milhões de toneladas no máximo, comparado à produção de mais de 12 milhões na safrinha passada ou das 10 a 11 milhões de toneladas que alguns analistas ainda insistem em acreditar. Essa quebra, em torno de 6 milhões de toneladas, trará grande impacto no mercado e, com certeza, afetará positivamente o preço do milho .

Além disso, o estoque mundial é um dos mais baixos dos últimos anos e os preços internacionais estão em alta.

Por isso, achamos que a famosa curva “M” do milho vai continuar. Vimos os ótimos preços no final de 2002 e inicio de 2003 cederem durante o ano devido à produção do verão e, principalmente, à produção recorde da safrinha de 2003.

Acreditamos que há uma grande possibilidade de recuperação dos preços nos próximos meses, devido à quebra de expectativa de produção da safrinha. Em algumas praças do Rio Grande do Sul, essa recuperação já começou e muitos produtores já fizeram negócios com a indústria na faixa de R$ 20,00 o saco.

Assim, nossa sugestão é que os produtores não tenham pressa em comercializar o milho em praças onde os preços continuam baixos. Acreditamos que assim que o potencial de quebra da safrinha for contabilizado pelo mercado, os preços deverão começar a reagir em todas as praças, como já estão reagindo em algumas regiões do Rio Grande do Sul.