Sobressemeadura com sementes de milheto revestidas no Triângulo Mineiro-MG: estudo preliminar
Dr. Waldo A. R. Lara CabezasNúcleo de Solos – ICIAG/UFU Uberlândia – MG - e-mail: waldolar@triang.com.br
Atualmente em áreas extensas do Cerrado não é possível semear culturas de inverno em sucessão à cultura principal no Sistema Plantio Direto, devido à restrição hídrica no outono-inverno. Considerando que os produtores incentivados pelo preço da soja fazem monocultivo de dois a quatro anos numa mesma área e que há insucesso no plantio em sucessão, pode-se verificar uma situação difícil para a manutenção e sustentabilidade do plantio direto na região. Portanto, o manejo passa a ser fundamental para reverter esse cenário.
O Sistema Santa Fé, (milho consorciado com baquiaria, e outras alternativas a serem estudadas) idealizado e levado à prática por pesquisadores da Embrapa CNPAF, junto ao produtor Ricardo Merola, em sua fazenda localizada em Santa Helena de Goiás-GO, e a sobressemeadura (semeadura aérea da cultura de inverno com a cultura de verão ainda em pé), são alternativas concretas que podem modificar a falta de cobertura no período de seca (outono-inverno), nessas regiões do cerrado.
Sabe-se que a permanente cobertura do solo, com restos culturais e plantas vivas ao longo do ano, é a única forma de viabilizar o SPD. O aumento gradativo da matéria orgânica do solo e, por conseqüência, de sua fertilidade, com menor utilização de insumos, viabilizam técnica, econômica e socialmente este sistema de produção.
Na figura 1 podem ser vistos os resultados de produção de massa de matéria seca (MMS) produzida por algumas das espécies que germinaram, semeadas em sucessão à cultura de milho (safra 2000/2001), num ensaio em rede, realizado em conjunto com a Embrapa Cerrados e a Associação de Plantio Direto no Cerrado (APDC).
As espécies foram semeadas em Latossolo Vermelho ácrico típico fase cerrado, muito argiloso (710 g kg-1) com 42 g kg-1 de MO para a profundidade de 0 a 10 cm, no final de março de 2001. O valor cultural dessas espécies foi superior a 80 %, com exceção das leguminosas mucuna preta e Crotalária juncea, que avaliadas sem escarificação, apresentaram valores inferiores a 35 %. Somente o sorgo (forrageiro e granífero) foi mais expressivo em termos de produção de MMS (entre três e quatro t ha-1). O resto das culturas produziu MMS inferior a duas t ha-1. Isto mostra, junto a resultados de outros ensaios realizados na região, que a prática de semear em sucessão à cultura principal, não contribui para estabilizar o SPD. A própria resteva do milho de verão, deixa em torno de seis a oito t ha-1 de MMS.
Com base nesses e em resultados de anos anteriores, na safra 2002/2003 na fazenda Mandaguarí Agropecuária, Indianópolis-MG, foi instalado um ensaio de sobressemeadura simulada de milheto var. BN-2 (valor cultural 85 %), no estádio de sete a oito folhas do milho, por aplicação manual na entrelinha do milho híbrido 30K 75. O híbrido foi semeado em 20/12/2002 (tardiamente por problemas de disponibilidade de maquinário), numa população de 75.000 plantas por ha, espaçamento de 0,75 m, sendo efetuada como adubação de base, 200 kg ha-1 de MAP e 650 kg ha-1 do formulado 16:00:26 como cobertura. O milheto foi sobressemeado 43 dias após a semeadura do milho (sete a oito folhas), na dose de 40 kg ha-1 apresentando a distribuição mostrada na figura 2.
Foram instalados quatro tratamentos de sobressemeadura de milheto, com e sem revestimento, em três épocas (última semana de janeiro, fevereiro e março): sem revestimento (controle), revestimento somente com o polímero, com o polímero + Zn e Mn e com o polímero + Zn, Mn, Mo e Co, denominados a seguir como T, P1, P2 e P3, respectivamente. Os tratamentos foram instalados em esquema de blocos casualizados com quatro repetições e a avaliação das médias de produção de MMS (kg ha-1) do milheto, foi feita em esquema fatorial 4 x 3 (4 formas de revestimento da semente, em três épocas de semeadura). Cada parcela foi de 4 m de comprimento (distância da entrelinha) x 0,75 m de largura = 3,0 m2.
Cabe salientar que devido à semeadura tardia do milho (sendo novembro a época mais provável na região), a planta estava em estádio precoce do ciclo quando os tratamentos de sobresemeadura foram instalados. Numa situação normal, o milho estaria num estádio mais avançado, e portanto, o milheto sobressemeado teria sido menos afetado pelo sombreamento do milho, alcançado maior produção de MMS.
O revestimento das sementes foi efetuado pela empresa IBRA - Divisão Nutrição de Plantas de Campinas, SP, sob a responsabilidade do Sr. Roberto Parducci Camargo. Retornadas as sementes revestidas, apresentaram valor cultural médio de 41,3 %. Houve, portanto, uma queda do valor em relação à semente não revestida, devido ao percentual de germinação. A causa principal seria devido ao aumento do teor de umidade na semente, o que estaria acelerando seu metabolismo, afetando seu potencial germinativo. Não pode ser descartado ainda, o tipo de embalagem e armazenamento das sementes até sua semeadura como fatores que afetaram a germinação. Isto será motivo de próximos estudos a serem desenvolvidos para viabilizar o processo. A dose de semente aplicada levou em consideração o valor cultural determinado e o peso adicional do revestimento, em relação ao peso da semente ”in natura”.
Foi efetuado acompanhamento da pluviosidade após a primeira sobressemeadura (25/01/2003), e durante o ciclo da cultura de milho até a colheita e a produtividade de grãos (milho) corrigindo-se a umidade para 130 g kg-1.
Na figura 3, pode-se observar a semente revestida e o efeito após a aplicação de água, indicando uma clara formação de um gel ao seu redor, o que viria a protege-la de uma eventual condição adversa depois de efetuada sua aplicação em superfície.
Na figura 4 nota-se a pluviosidade ocorrida imediatamente após a primeira época de sobressemeadura (janeiro de 2003). A ocorrência de chuvas logo após a sobressemeadura, é de grande importância para o sucesso da germinação, nessa condição.
Doze dias após a primeira sobressemeadura (7/02/2003), foi constatado visualmente o efeito dos revestimentos das sementes na germinação, como ilustrado na figura 5. A figura mostra que qualitativamente houve maior germinação com os tratamentos P2 e P3, quando o revestimento foi acompanhado de micronutrientes. Em relação aos tratamentos sem revestimento e somente com o polímero houve maior sucesso na germinação muito provavelmente, devido à presença de micronutrientes aliado ao polímero de hidratação da semente.
Observa-se na figura 6, a produção de MMS de milheto sobressemeado em janeiro, fevereiro e março de 2003 sob os tratamentos de revestimento. Após 133 dias de sobressemeado o milheto, em janeiro de 2003 (8/05/2003), os resultados mostram que a maior produção de MMS (2.378 kg ha-1) foi obtida na sobressemeadura efetuada em janeiro e no tratamento mais completo, quanto à adição de micronutrientes. Para o mesmo tratamento de revestimento com sobressemeadura em fevereiro e março houve uma queda substantiva da MMS devido muito provavelmente às condições hídricas depois de efetuada a sobressemeadura. De fato, as pluviosidades acumuladas nos meses de janeiro, fevereiro e março de 2003 foram respectivamente de 612, 177 e 448 mm, existindo, portanto, veranico no mês de fevereiro, o que deve ter afetado a germinação. Independente dos tratamentos de revestimento, a figura 6 mostra que a melhor época para todos os tratamentos foi janeiro, visto o acúmulo de água de chuva registrado nos meses posterior a fevereiro e março.
A produtividade média de grãos colhidos em 13/05/2003 foi de 6.243 kg ha-1, mostrando o efeito da semeadura efetuada tardiamente.
Estes resultados preliminares efetuados com revestimento da semente, sobressemeada mostram o potencial de se viabilizar esta prática para as regiões de cerrado, que apresentam marcante déficit hídrico na estação da seca (outono-inverno), afetando seriamente a cobertura do solo e a possibilidade de adicionar renda ao produtor em termos de grãos, ou para pastejo animal na época da seca. Tomando as palavras citadas por Yamada (2003), referindo-se a Dario M. Hiromoto da Fundação MT, Rondonópolis-MT: ”grande parte do plantio direto ainda é feita de qualquer jeito”. Está claro que a cabeça do produtor (mudança de mentalidade, nova filosofia de produção de alimentos) não acompanha a mudança de práticas do SPD, muito atrativas em termos econômicos (poupança de energia fóssil, humana e conservação de maquinário). Existe ainda um abismo entre a profissionalização do produtor (entender os benefícios técnicos do sistema) e a ânsia de lucro, assim como falta maior dinâmica entre o levantamento de demandas (gargalos) e a resposta por parte da pesquisa a essas demandas.
Referência bibliográfica
YAMADA, T. Falta muita palha no plantio direto. Informações Agronômicas Nº 102, p. 20, junho/2003
Dados para Referências Bibliográficas: Revista Plantio Direto, nº 79, Janeiro/Fevereiro de 2004. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.