Para onde vamos?
Esta é a primeira edição da Revista Plantio Direto em 2004 e como não poderia deixar de ser, pois inicio de ano propicia às reflexões, uma pergunta ficou ”martelando” e levou-nos a dividir com os leitores essa preocupação/provocação de ano novo.
O Brasil planta na palha há mais de trinta anos, atingiu 20 milhões de hectares sob o sistema, mas o plantio direto ainda tem muito para crescer. Nosso país concentra 20% da área agricultável do mundo e isso significa mais de 500 milhões de hectares. Como fazer o sistema ampliar sua abrangência enfrentando a grande diversidade de solos e climas existentes? O plantio direto do Paraná não é o mesmo do Rio Grande do Sul ou da Região do Cerrado. É necessário vários tipos de plantio direto nesse país continente? Os fundamentos do sistema são os mesmos para qualquer região, mas a técnica é diferente e são os produtores que buscam e descobrem com maior agilidade a forma de manejar tantas diferenças. Muitas vezes as descobertas ”dentro da porteira” não são as mais adequadas, mas suprem necessidades urgentes de quem deseja cobrir o solo com palha, e mais tarde servem de base para investigações aprofundadas.
Os vários ”plantis diretos” são um desafio para a pesquisa, para as empresas que desenvolvem produtos e serviços direcionados ao sistema. Mesmo os veículos de comunicação, como é o caso da Revista Plantio Direto, têm limitações, principalmente de espaço, para atender as demandas do universo de produtores que plantam na palha há anos ou estão apenas começando o plantio direto em suas propriedades. Temos que trabalhar do geral para o específico, do norte ao sul, do plantio à colheita, do pioneiro ao iniciante. É um grande desafio.
Mesmo assim festejamos cada hectare que se soma aos milhões que o Brasil contabilizou em 30 anos. Para que possamos ampliar a área sob o sistema e superar as dificuldades de cada realidade regional é necessário parceria. Somando forças descobrimos que tudo fica mais fácil. Com tanta tecnologia disponível e inúmeras pessoas capacitadas nas instituições de pesquisa, nas empresas e no campo, é possível avançar com o plantio direto ultrapassando as barreiras levantadas pelas diferenças encontradas em cada região agrícola do país. Se o plantio direto é um sistema, então suas partes devem estar coordenadas entre si. Produtor, técnico, fornecedor, pesquisador, associações são elos de uma corrente que gera (ou deveria gerar) informações de forma interativa.
O plantio direto está estabelecido? Será que já podemos ficar tranqüilos e deixar a natureza seguir seu curso? Plantar na palha é saber deixar o espírito investigativo fluir, pois essa não é uma forma estática de fazer agricultura. Quem faz plantio direto não apenas constata o acontecido, mas questiona por quê aconteceu e busca respostas, do contrário fica mais confortável voltar atrás diante do primeiro obstáculo.
Estamos na fase em que o plantio direto apresenta dois extremos: de um lado, os que já estão plantando na palha há 10, 20 ou 30 anos e têm necessidades específicas. De outro, os que iniciam agora e precisam resgatar os princípios básicos de implantação do sistema, adaptando a técnica a sua realidade. Por isso a pergunta: para onde vamos? Para onde vão todos os envolvidos com o desenvolvimento do plantio direto no Brasil. Quais são nossas metas?
Juliane Borges