Coberturas Vegetais e o Plantio Direto do Algodoeiro nos Cerrados


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Publicado em: 01/12/2003

Coberturas vegetais e o plantio direto do algodoeiro nos cerrados

Luís Eduardo Pacifici RangelPesquisador M.Sc., Embrapa Algodão - Primavera do Leste, MT. E-mail: rangel@cnpa.embrapa.brA expansão da cultura do algodoeiro nos cerrados ocorreu nos últimos dez anos. Especialmente nos Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, o aumento da área se deu em função de problemas fitossanitários na cultura da soja. A introdução do algodoeiro foi, inicialmente uma alternativa para a rotação de culturas e passou de uma estratégia de manejo para monocultura, em muitas das situações. O Estado do Mato Grosso, por exemplo, passou nos últimos dez anos de produtor inexpressivo para o principal produtor de pluma do Brasil com mais de 50% da produção nacional. Com o crescimento da importância da cultura, vem também a necessidade de incrementos de novas técnicas de manejo que a transformem em uma atividade lucrativa, mas também sustentável, tanto no aspecto econômico como ambiental. O sistema plantio direto (SPD), por ser um sistema conservacionista, pode contribuir para a sustentabilidade do cultivo do algodoeiro nos cerrados.

O principal entrave para a adoção do SPD do algodoeiro nos cerrados é o mito da necessidade de revolvimento do solo por implementos pesados como subsoladores grades e arados. Estes implementos são usados em procedimentos de destruição de soqueiras, para o controle fitossanitário, e preparo do solo, uma vez que o algodoeiro é uma planta muito sensível à compactação.

O SPD se caracteriza pelo cultivo em terreno coberto por palha e/ou plantas em desenvolvimento, em ausência de preparo de solo, por tempo indeterminado e programas de rotação de culturas.

Um dos maiores problemas para uma adoção eficiente do SPD nos cerrados é a cobertura do solo. É consenso que com a alta umidade e as altas temperaturas há uma forte decomposição da palhada no solo. A estiagem no período do inverno também dificulta o cultivo de espécies produtoras de palha. Para que este problema fosse resolvido fomentando principalmente a cultura do algodoeiro, elaborou-se um projeto financiado pelo Fundo de Apoio a cultura do Algodão (FACUAL) no qual foram testados 19 tratamentos com espécies vegetais e combinações de espécies para avaliar sua eficiência como cobertura do solo em Sistema de Plantio Direto do Algodoeiro.

A produção de matéria seca das espécies e dos consórcios variou entre as regiões do Estado. A região do médio norte, onde se situa o município de Sorriso apresentou produção de matéria seca (MS) maior em determinadas espécies como no consórcio Milheto + Crotalária enquanto no município de Campo Verde região sul do Estado a maior produção de MS ficou com Braquiária e o Capim Pé-de-Galinha (Figura 1).

Todas as espécies foram semeadas na mesma época, no início do período das chuvas (outubro) e dessecadas quimicamente com herbicidas não seletivos antes da semeadura do algodoeiro (dezembro). As espécies proporcionaram diferentes eficiências de cobertura do solo e conseqüentemente de infestação de plantas daninhas. Observamos que as espécies que proporcionaram melhores notas de cobertura do solo inibiram com mais eficiência as plantas daninhas na lavoura conduzida em ambos os locais, Campo Verde e Sorriso (Figura 2).

O algodoeiro cultivado nos diferentes tratamentos não apresentou diferenças quanto a produtividade e qualidade da pluma produzida. No entanto, com a necessidade de redução de custos de produção da cultura a inibição de plantas daninhas é um fator de muita importância.

Atualmente o milheto (Pennisetum glaucum) é a espécie mais utilizada para formação de palhada nos cerrados, porém é possível adotar outras espécies de coberturas para o plantio do algodoeiro, que produzam boa quantidade de MS e diminuam os impactos do alto fluxo de máquinas e implementos utilizados durante todo o ciclo da cultura em campo. As espécies que apresentaram maior potencial são a Braquiária e o Capim Pé-de-Galinha. É possível ainda, com a utilização de novas espécies a adoção de técnicas como a integração lavoura pecuária bem representada pelo Sistema Santa Fé. Os consórcios com milheto e leguminosas como guandú e crotalária não apresentaram resultados diferentes estatisticamente do que a espécie cultivada isoladamente.

Estes resultados mostram que existem opções para trabalhar o algodão de uma forma mais sustentável, porém ainda há muita resistência dos produtores e técnicos envolvidos com a cotonicultura que relutam em adotá-las em nome da rentabilidade. Fazendas com modelos de rentabilidade e sustentabilidade, como é o caso da SLC Agrícola (MS e GO), demonstram o bom uso da tecnologia aliando estes dois fatores. Tecnologia para lavouras econômicas e sustentáveis estão disponíveis e cada vez mais aprimoradas pela pesquisa. Fica a critério dos produtores escolher a melhor forma de usá-la.