Sistema de pulverização de arrasto opção para aumentar o rendimento da operação
José Fernando Schlosser1; Valmir Werner2; Marcelo Prado Lima da Silva3;Eder Dornelles Pinheiro3; Eduardo Guimarães de Sousa41 Professor Doutor, Diretor do NEMA/CCR da UFSM, e-mail: schlosse@ccr.ufsm.br2 Eng.-Agr. Mestrando em Engenharia Agrícola pela UFSM, e-mail valmirw@yahoo.com.br3 Acadêmicos Curso de Agronomia da UFSM, 4 Eng.-Agr. M.Sc. Engenharia de Vendas AGCO
Introdução
O Núcleo de Ensaios de Máquinas Agrícolas (NEMA) da Universidade Federal de Santa Maria, tem como um de seus objetivos, trabalhar com ensaios e avaliações de máquinas agrícolas. Esses ensaios, normalmente, são encomendados por empresas fabricantes de máquinas que buscam informações sobre seus produtos, tanto no que se refere à adequação dos mesmos às normas internacionais (ASAE, ISO) como também à qualidade dos trabalhos realizados pelos mesmos. Assim sendo, o NEMA ensaiou um equipamento comercialmente denominado de Sistema de Pulverização de Arrasto e Alto Rendimento (SPAR), o qual é fabricado no município de Não-Me-Toque, RS. Para essa avaliação foram necessárias algumas adaptações metodológicas das normas ASAE e ISO, devido às características bastante particulares desse equipamento. O SPAR pode ser mais uma alternativa, no que se refere à tecnologia de aplicação, como forma de aumentar o rendimento operacional de um conjunto trator mais pulverizador durante a aplicação de produtos fitossanitários.
O sistema SPAR (Figura 1) consiste de um conjunto de pontas (bicos) de pulverização, que durante as aplicações direcionam o jato para cima e para trás, fixadas em uma mangueira flexível que vai sendo arrastada, utilizando como suporte o dossel de plantas. Diferente da barra do pulverizador, onde as pontas aplicam os produtos verticalmente de cima para baixo. Este sistema (conjunto de pontas) é ligado a uma linha de cabos flexíveis que nas extremidades vai acoplado a dois tratores, com um ou dois pulverizadores, que se deslocam paralelamente entre si. Em equipamentos de largura igual ou superior a 60 metros recomenda-se usar dois pulverizadores, sendo que cada um alimentará a metade do sistema.
As avaliações como a caracterização do espécime, dimensões do conjunto e os testes estáticos de funcionamento foram realizadas no Campus Universitário da Universidade Federal de Santa Maria. Já os ensaios de campo, na propriedade do produtor Carlos Boherz, no município de Jarí, região central do estado do Rio Grande do Sul, onde se avaliou o equipamento nas culturas de aveia preta, soja, milho, sorgo e campo nativo.
2. Características do Sistema de Pulverização de Arrasto
O sistema de pulverização de arrasto SPAR trata-se de um conjunto de cabos de aço, mangueiras e bicos de pulverização utilizados como acessório nos pulverizadores de barras, no lugar das barras. O sistema apresenta acoplamento rápido que permite trabalhar também com as barras na realização de pequenos arremates. Além disso, o equipamento é adaptável a qualquer pulverizador desde que sua bomba tenha vazão suficiente para a largura de trabalho e para a quantidade de pontas de aplicação utilizadas.
Na Tabela 1 se encontram as especificações técnicas do sistema quanto aos comprimentos e pesos aproximados.
Tabela 1. Especificações técnicas do Sistema de Pulverização de Arrasto
Modelos
SPAR 20
SPAR 25
SPAR 30
SPAR 40
SPAR 50
Comprimento total (m)
20
25
30
40
50
Peso aproximado (kg)
39
48
35
74
95
Além das especificações da Tabela 1, o fabricante fornece equipamentos com tamanhos múltiplos podendo-se chegar em até 120 metros de largura de trabalho.
3. O SPAR e os danos às culturas
Ao verificar-se, num primeiro momento, a forma como o sistema SPAR trabalha apoiando-se sobre o dossel de plantas durante as aplicações, imediatamente se supõe que o mesmo causa elevados danos às culturas. Em nosso estudo técnico procuramos mensurar esses ”possíveis” danos desenvolvendo uma metodologia específica.
Nos locais de aplicação realizou-se uma determinação prévia, em área conhecida, da situação das culturas antes das aplicações retornando-se ao mesmo local para reamostragens imediatamente após a utilização do equipamento (Figura 3). Os possíveis danos foram identificados conforme a característica da planta principal em análise e seu estádio de desenvolvimento. Dessa forma, após a realização de diferentes testes nas culturas citadas pode-se concluir que:
a) O sistema de pulverização de arrasto pode ser utilizado sem restrições quanto a danos mecânicos para quaisquer tipos de aplicações nos estágios reprodutivos de gramíneas de inverno;
b) O SPAR pode ser utilizado na cultura da soja, nos estágios vegetativo (V5) e reprodutivo (R3 e R5.1) com um baixo nível de dano, desde que, estas lavouras apresentem um bom estande de plantas quando da realização das aplicações. A exceção ocorre em estandes ”abertos” onde podem ocorrer quebras das últimas plantas da linha de semeadura. Além disso, observou-se a queda de flores e vagens no estágio R5.1 o que, no entanto, não influenciou no rendimento final da cultura e,
c) O Sistema SPAR pode ser utilizado em culturas como o sorgo e o milho nos estágios iniciais (sem internódios expostos). Em estádios posteriores verificou-se elevada quebra de plantas (danos).
No que se refere aos danos mecânicos causados às culturas, não podemos nos esquecer que o sistema SPAR apresenta como vantagem larguras de trabalho de até 100 metros, reduzindo o número de passagens do trator na cultura e, conseqüentemente, os danos mecânicos.
4. Capacidade Operacional
Com o intuito de determinar a capacidade operacional do sistema SPAR, que nada mais é do que a relação da quantidade de área trabalhada em um determinado período de tempo, buscou-se trabalhar em distintas situações e realidades, que devem ser consideradas no momento das comparações. Para tanto se buscou quantificar os tempos operativos dos conjuntos, que foram tomados e registrados manualmente com cronômetro e planilhas de campo. A planilha de tempos foi classificada em três tipos distintos:
a) Tempo efetivo: tempo real de aplicação da calda sobre a lavoura (sistema acionado);
b) Tempo de manobra: tempo sem aplicação durante as manobras nas cabeceiras ou desviando obstáculos diversos e,
c) Tempo de reabastecimento: quando o conjunto estava repondo, no depósito, a água e o produto. Este tempo foi tomado desde o final da aplicação, quando se desligava o sistema, até o reinício da mesma quando novamente a calda era pulverizada.
Para a determinação das capacidades reais registrou-se também a largura efetiva de trabalho e a velocidade real de deslocamento dos conjuntos, para ao final, se obter os tempos operativos, as eficiências e os rendimentos operacionais.
De posse das informações coletadas em diferentes situações de lavoura, produtos aplicados, tamanhos de pulverizador, conclui-se que:
1) Nas condições do ensaio o sistema SPAR apresentou Capacidade de Campo Operacional em torno de 15 ha.h1, sendo em média 100% superior a Capacidade de Campo operacional da aplicação com um pulverizador equipado com barras normais;
2) O Rendimento de Campo Efetivo do equipamento SPAR aumenta bastante nas aplicações em áreas maiores e,
3) É importante que o agricultor disponha de um sistema de reabastecimento do pulverizador na lavoura para atingir maior rendimento de campo efetivo.
Deve ser destacado ainda que, nas condições de lavoura, é aconselhado trabalhar com o equipamento sempre que possível em linha reta, pois podem ocorrer problemas de fitotoxicidade em culturas, por excesso de dosagem, próximo ao trator que ficar na parte interna do giro porque este trator terá que reduzir a velocidade. Desta forma, recomenda-se a aplicação de maneira semelhante ao croqui da Figura 4.
Nesta Figura, as áreas em verde deveriam ser aplicadas com o pulverizador de barras normal, o que pode ser feito com facilidade após o desacoplamento do sistema. Em Laranja e amarelo estão destacados o sentido de deslocamento com o sistema SPAR.
5. Penetração do produto em plantas com grande massa foliar
Uma das perguntas que deve ser feita quando se fala em tecnologia de aplicação é como o equipamento aplica o produto sobre o alvo desejado, principalmente quando se trata de uma cultura com grande massa foliar. Nesse trabalho realizou-se uma comparação entre um pulverizador de barras aplicando 150 L.ha-1; o sistema SPAR com 100 e 150L.ha-1 e um avião Ipanema aplicando 20 e 30 L.ha-1, todos aplicando um fungicida na soja (cultivar RS-10). Utilizou-se a metodologia de cartões hidro-sensíveis no meio do dossel, posicionados numa altura de 30 e 60 cm do solo (Tabela 2).
Tabela 2. Diâmetro médio volumétrico, Coeficiente de variação do diâmetro de gotas e densidade de gotas nos cartões hidro sensíveis
Equipamentos
Volumeaplicado(L/ha)
Altura doscartões(cm)
DMV
CV dodiâmetro
Densidadede gotas (gotas/cm2)
Avião
20
60
67,96
31,25
76,29
30
58,82
33,20
17,17
Spar
100
30
58,82
37,06
151,07
60
67,96
35,80
469,68
150
30
81,32
44,91
310,37
60
102,80
43,56
507,45
Pulverizador
150
30
85,71
45,24
121,20
de barras
60
85,71
42,53
494,74
A Tabela 2 nos mostra que a densidade de deposição de gotas do sistema SPAR e do pulverizador de barras foi bem superior ao avião o que pode ser explicado em parte pela grande diferença nos volumes de calda aplicados. Comparando-se as densidades de aplicação somente entre o pulverizador e o sistema Spar, verifica-se que nos volumes de 150 L.ha-1 os dois equipamentos se assemelham bastante na parte superior do dossel de plantas (60cm). Porém, no interior do dossel verifica-se um melhor alcance do sistema SPAR, que atingiu valores de 310,37 (gotas.cm-2) contra 121,20 (gotas.cm-2) para o pulverizador de barras. Isto nos indica claramente uma melhor eficiência de aplicação dos produtos na parte inferior do dossel pelo sistema SPAR.
Devemos destacar também que na utilização do SPAR com 100 L.ha-1, obteve-se a densidade de gotas muito semelhante ao pulverizador de barras com 150 L.ha-1. Isso permite reduzir o volume de calda no SPAR obtendo praticamente a mesma qualidade de aplicação, aumentando em muito o rendimento operacional do sistema.
Tabela 3. Produtividade da soja para os diferentes sistemas de mecanização utilizados na aplicação de fungicida na soja
Produtividade da soja
Tratamento
Média
Diferença %
Teste de Tukey 5%*
Pulv. de barras 150 L
3068.538
13.67
b
SPAR 150 L
3055.857
13.20
b
SPAR 100 L
3042.587
12.71
b
Avião 30 L
2996.492
11.00
ab
Avião 20 L
2936.755
8,79
ab
Testemunha
2699.562
0.00
a
* Os tratamentos seguidos de mesma letra não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade de erro
Conforme se observa na Tabela 3, os resultados de produtividade da soja realizando aplicações de fungicidas com os três sistemas, o melhor tratamento foi à aplicação do fungicida utilizando-se o pulverizador de barras que não diferenciou significativamente com o sistema SPAR nos dois volumes de aplicação utilizados (100 e 150 L.ha-1) e com o avião nos dois volumes de aplicação (20 e 30 L.ha-1). No entanto, utilizando-se o SPAR com 100 L.ha-1 obtemos praticamente a mesma produtividade com a vantagem de aumentar em muito o rendimento operacional, visto que precisamos uma quantidade de calda bem inferior. Isso possibilita realizar as aplicações utilizando as melhores horas do dia. Analisando a Figura 5, observa-se que é possível se obter diferenças de até 7% na produtividade somente aplicando o fungicida na melhor hora do dia, o que pode ser mais facilmente conseguido trabalhando com volumes menores.
O pior tratamento foi a testemunha, o que nos permite concluir que os equipamentos utilizados na aplicação dos fungicidas foram eficientes tendo atingido aumentos na produtividade de 8,79% a 13,67%.
Bibliografia consultada
BONINI, Jorge Vítor; Tecnologia de aplicação de fungicidas na cultura da soja. Santa Maria, UFSM, Dissertação de Mestrado, 2003.
Dados para referências bibliográficas: Revista Plantio Direto nº 78, novembro/dezembro de 2003. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.