Pesquisadores Alertam para a Importância do Monitoramento da Ferrugem da Soja (Doenças)


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Publicado em: 01/12/2003

Pesquisadores alertam para a importância do monitoramento da ferrugem da soja

Cláudia Vieira Godoy e José Tadashi YorinoriPesquisadores da Embrapa Soja - Londrina-PR - E-mail: godoy@cnpso.embrapa.br - tadashi@cnpso.embrapa.brA ferrugem asiática da soja, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, identificada no Brasil em maio de 2001, tornou-se o foco atual quando o assunto é doenças de soja. Sua eficiente forma de disseminação pelo vento fez com que fosse identificada em aproximadamente 90% das regiões produtoras na safra 2002/03, ocasionando perdas de 400 mil toneladas só no Oeste da Bahia (Figura 1).

Os primeiros sintomas da ferrugem se iniciam pela parte de baixo da planta e aparecem como minúsculas pontuações mais escuras que o tecido sadio da folha. No início da infecção a folha permanece verde, dificultando sua identificação quando a lavoura é observada de forma superficial. Para se identificar a doença no início deve ser realizado um monitoramento cuidadoso, coletando diversas folhas da parte inferior da planta e observando-se contra a luz a presença de pontuações escuras. Outro fator que dificulta a identificação precoce da ferrugem na lavoura são as outras doenças que ocorrem e podem causar sintomas semelhantes. Na safra 2002/03 a doença que mais confundiu o agricultor e a assistência técnica foi a mancha parda, causada pelo fungo Septoria glycines. A mancha parda é uma das primeiras doenças que aparecem na lavoura, ainda no estádio vegetativo, principalmente em áreas onde não é utilizada rotação de culturas, uma vez que esse fungo pode sobreviver de uma safra para outra em restos de cultura. Essa doença não requer medidas de controle adicionais quando aparece nesse estádio da cultura, uma vez que a soja apresenta uma tolerância a desfolha no estádio vegetativo. A diferenciação dessa doença com a ferrugem é feita unicamente pela observação das saliências semelhante a uma ferida (bolha), no verso da folha, que correspondem à estrutura de frutificação da ferrugem (urédia). Outra doença que causou confusão na identificação da ferrugem foi à pústula bacteriana, identificada no Rio Grande do Sul por pesquisadores da Embrapa trigo, nas variedades de soja transgênica.

O principal dano ocasionado pela ferrugem é a desfolha precoce, que impede a completa formação dos grãos, com conseqüente redução da produtividade e da qualidade. O nível de dano que a doença pode ocasionar é bastante dependente do momento em que ela incide na cultura, sendo mais severo quanto mais cedo forem observados os primeiros sintomas. Na safra 2002/03 a ferrugem foi observada, geralmente, após o florescimento, no entanto, sabe-se que a planta é suscetível durante todo o seu desenvolvimento, a partir da emergência. O fungo causador da ferrugem pode ter um ciclo a cada 6 a 10 dias, apresentando vários ciclos dentro de um único ciclo da soja. Esse rápido tempo de geração, associado a uma grande quantidade de estruturas reprodutivas produzidas e eficiente disseminação, faz com que a doença seja agressiva para a cultura.

As condições climáticas são determinantes para a ocorrência de epidemias, sendo necessários um período de molhamento foliar mínimo de 6 horas e ideal a partir de 10 horas para que ocorra infecção, podendo esse molhamento ser na forma de orvalho ou chuva. O molhamento foliar deve estar associado a temperaturas mais amenas, variando entre 18 a 26oC. Essas condições são favoráveis para que se estabeleça o processo inicial de infecção do fungo e quanto maior o número de dias com condições favoráveis mais infecções podem ocorrer e, desta forma desencadear o processo epidêmico (Figura 2).

A resposta das variedades à doença também influencia o dano final. Na safra 2002/03 foi realizado o acompanhamento do progresso da doença em Londrina, PR, em 18 cultivares comerciais de soja, semeadas lado a lado, em duas épocas de semeadura (novembro e dezembro). Na semeadura de novembro, a doença apareceu no estádio de início da formação da semente (R5), ocorrendo maior diferenciação na severidade final dos cultivares, sendo possível observar resistência em alguns materiais. No entanto, na semeadura de dezembro, quando a doença foi constatada no estádio de início da formação da vagem (R3) a severidade final foi bastante semelhante para as diferentes cultivares.

A resistência completa, caracterizada por lesões de hipersensibilidade do tipo RB, identificadas nas variedades BRS 134, BRSMS Bacuri, CS 201, FT-17, FT-2, IAC PL 1, KIS 601 e OCEPAR 7, em condições controladas de casa-de-vegetação no inverno de 2002, mostrou sua vulnerabilidade já ao final da safra de 2003, onde isolados provenientes do Mato Grosso conseguiram vencer essa resistência, sendo esse isolado caracterizado como uma nova raça do fungo. A existência de raças ocorre devido à variabilidade genética do fungo, sendo essa uma das principais dificuldades em qualquer programa de desenvolvimento de cultivares resistentes. O mapeamento da distribuição das raças nas diferentes regiões do Brasil ainda não foi realizado, podendo as variedades inicialmente selecionadas como resistentes permanecerem como tal no Sul do país. A estratégia do programa de melhoramento é utilizar todos os genes disponíveis (atualmente pelo menos dois) e suas possíveis combinações, junto com outras fontes de tolerância ou de resistência horizontal, na obtenção de variedades resistentes a essa doença.

Na ausência momentânea de cultivares resistentes, medidas de manejo como a utilização de cultivares de ciclo precoce e semeaduras no início da época recomendada, além de monitoramento constante da lavoura associado ao controle químico com fungicidas tem sido recomendados para diminuir os danos que essa doença pode causar.

O fungo causador da ferrugem só sobrevive e se multiplica em plantas vivas. A entressafra serve para diminuir a quantidade do fungo presente no ambiente e, desta forma os primeiros plantios estão sujeitos a uma menor quantidade de fungo no ar. Por essa razão, os plantios realizados mais cedo estarão sujeitos a uma menor pressão da doença e servirão para multiplicar o fungo para os plantios realizados mais tarde. Na safra 2001/02 e 2002/03, os ataques foram mais severos principalmente nos plantios mais tardios. Na safra 2002/03 a doença foi observada, inicialmente, a partir do final de janeiro no Brasil. Para a safra 2003/04, o plantio de soja irrigada no Mato Grosso, Maranhão, Tocantins e Bahia na entressafra serviu para uma continuidade de inóculo da ferrugem havendo já ocorrências de ferrugem em plantios antecipados da safra 2003/04 em alguns municípios de Mato Grosso (fonte: Fundação MT). Como a ocorrência da doença depende de condições climáticas favoráveis pode ser que seu desenvolvimento, no início da safra já em curso, seja limitado pelas altas temperaturas, mas é importante que o agricultor fique alerta para a maior pressão da doença em função da sobrevivência do fungo na entressafra nos plantios irrigados. Na ausência desses plantios, a sobrevivência do fungo de uma safra para outra pode ocorrer em hospedeiros alternativos, pois P. pachyrhizi infecta 95 espécies de plantas em mais de 42 gêneros.

O controle químico, embora aumente o custo de produção, viabiliza o cultivo da soja na presença da ferrugem, evitando perdas de produtividade. Para a safra 2003/04 novos princípios ativos foram registrados para o controle da ferrugem, pertencendo ao grupo dos triazóis e das estrobilurinas, formulados sozinhos ou em misturas prontas. A eficiência do controle depende não só do princípio ativo escolhido, como também, do momento da aplicação, em relação ao nível de infecção, observadas as condições ideais de ambiente e da tecnologia de aplicação.

O monitoramento da doença e sua identificação nos estádios iniciais são essenciais para um controle eficiente, devendo ser realizada a vistoria freqüente da lavoura. A Tabela 1 apresenta os fungicidas registrados para controle, citados na publicação Tecnologias de Produção de Soja - Região Central do Brasil 2004, disponível no site http://www.cnpso. embrapa.br/html/ pubonline.htm. Alguns produtos são indicados somente como protetores e outros também como curativos. Deve-se considerar que a doença se inicia pelas folhas inferiores da planta, devendo o monitoramento sempre ser realizado a partir do terço inferior das plantas. O número e a necessidade das re-aplicações vão ser determinados pelo estádio em que for identificada a doença na lavoura e pelo residual dos produtos.

Tabela 1. Fungicidas e doses registradas para o controle de ferrugem da soja (Phakopsora pachyrhizi)

Dose/ha

Protetor

Curativo

Nome comum

Nome comercial

g de i.a.1/ha

p.c.2/ha

0-1% inc.

até 5% inc.

Azoxystrobin

Priori

50

0,20 L

*

Difenoconazole

Score 250 CE

50

0,20 L

*

Epoxiconazole + Pyraclostrobin

Opera

25 + 66,5

0,50 L

*

Fluquinconazole

Palisade

62,5

0,25 kg

*

Flutriafol

Impact 125 SC

50-75

0,40-0,60 L

*

Tebuconazole

Orius 250 CE

100

0,40 L

*

Tebuconazole

Folicur 200 CE

100

0,50 L

*

Tetraconazole

Domark 100 CE

50

0,50 L

*

Fonte: XXV Reunião de Pesquisa de Soja da Região Central do Brasil, Uberaba – MG, 2003A empresa detentora é responsável pelas informações de eficiência dos produtos1i.a. = ingrediente ativo2p.c. = produto comercial3adicionar Nimbus 0,5% v./v. aplicação via pulverizador tratorizado ou 0,5 L/ha via aérea4adicionar 250 ml/há de óleo mineral ou vegetal

O monitoramento das lavouras é recomendado a partir da emissão das primeiras folhas no estádio vegetativo, uma vez que a doença pode ocorrer em qualquer estádio da cultura. Uma vez detectada a ferrugem na região o monitoramento deve ser intensificado e quase diário, principalmente nas semeaduras mais tardias. A aplicação do fungicida deve ser feita preventivamente ou após os sintomas iniciais da doença na lavoura e/ou na região, uma vez que o fungo se dissemina facilmente pelo vento. A decisão sobre o momento da aplicação (preventivo ou no início da infecção) depende da capacidade operacional, das condições climáticas predominantes, da idade das plantas e da situação (severidade) da ferrugem na vizinhança ou na região.

Embora a ferrugem seja considerada uma doença altamente agressiva para a cultura da soja, seu controle pode ocorrer de forma eficiente caso seja identificada no início da infecção. A observação de sintomas em uma região deve ser divulgada para que todos produtores fiquem alertas e iniciem o controle evitando redução de produtividade.