Indicadores de qualidade nas operações mecanizadas do plantio direto
Afonso Peche FilhoPesquisador do Centro de Engenharia e Automação/IAC E-mail: peche@iac.sp.gov.br
Atualmente é inegável a importância do Plantio Direto como sistema de produção para a agricultura brasileira; a cada ano ocorre um considerável aumento em áreas e também amplia o uso desta técnica para culturas como frutas, café, essências florestais e olerícolas.
A produção de grãos ainda é o carro chefe na adoção e desenvolvimento do plantio direto, o que pode ser comprovado pela ampla aceitação dos produtores, sendo consolidada como técnica usual ha vários anos em regiões como a dos Campos Gerais do Paraná, as áreas de produção de soja, milho e trigo do Rio Grande do Sul, o Vale do Paranapanema no Estado de São Paulo e mais recentemente as enormes glebas no Cerrado Central Brasileiro. Embora, nestas áreas a ocorrência da inovação tecnológica seja constante não é difícil encontrar lavouras mal conduzidas, com altos custos e, o que é pior, sendo altamente impactantes para o meio ambiente.
As questões ligadas à qualidade operacional são objetos de estudo em todos os setores econômicos, principalmente na indústria. Na agricultura, programas de melhoria de desempenho com base na filosofia da qualidade total já são uma realidade. Naturalmente, os setores administrativos são os mais trabalhados principalmente em função das semelhanças com as diretrizes administrativas de outros setores da economia. Nos setores operacionais as questões ligadas com qualidade são as mais específicas e mais complexas, sendo que estamos evoluindo rapidamente para consolidar estudos e casos de sucesso, com a avaliação do desempenho de máquinas e implementos nas diferentes etapas do sistema de produção.
Estudos sobre a qualidade das operações agrícolas, vem crescendo nos centros de pesquisa e nas universidades sendo que é possível estabelecer premissas básicas para subsidiar ações práticas, como monitoramento da qualidade operacional com base no Controle Estatístico do Processo (CEP), auditorias técnicas e sistemas de inspeção.
Um dos pontos fundamentais para buscar qualidade operacional e entender as atividades de monitoramento com base nas premissas do controle estatístico de qualidade, é definir parâmetros que possibilitem a coleta e o processamento de dados de forma que possam gerar subsídios para tomada de decisões acertadas.
Esses parâmetros são chamados de indicadores de qualidade e podem ser quantitativos ou subjetivos.
Indicadores de qualidade do tipo quantitativos são aqueles que o agricultor ou o engenheiro agrônomo pode medir, ou seja, indicadores cuja medida pode ser tomada em kg, em cm, em reais, em tempo, etc. A Figura 1 mostra em detalhe a régua perfurada desenvolvida no IAC para avaliação da percentagem de cobertura do solo após operações com manejo de fitomassa.
Indicadores de qualidade classificados como subjetivos são aqueles que podem ser observados através da avaliação sobre sua presença ou não, como é o caso de quebras, trincas, mal posicionamento, perdas, desperdícios, conforme se observa na Figura 2.
Estudos realizados no Centro de Engenharia e Automação do Instituto Agronômico de Campinas mostram que para cada operação agrícola é possível determinar suas características de desempenho mediante a análise de indicadores de qualidade em todo o ciclo operacional das culturas, é possível monitorar seus efeitos e diagnosticar a qualidade final de produção.
Na mecanização do plantio direto podemos elencar alguns indicadores operacionais que condicionam todas as possibilidades de sucesso para utilização otimizada das máquinas em etapas estratégicas.
Na mecanização da cobertura de solo podemos afirmar que os indicadores de qualidade são a uniformidade de picagem e a regularidade de ocorrência sobre a área, ou seja, para a rolagem (uso de rolo-facas), picagem (uso de picadores/roçadoras) e acamamento do material orgânico de superfície é fundamental que a operação produza fragmentos uniformes e constantes por toda a área; alta variabilidade de fragmentos ou alta variabilidade de cobertura comprometem a abertura de sulcos e cobertura de sementes pela semeadora, causando embuchamento e paradas desnecessárias.
Na aplicação de agrotóxicos para o controle químico de invasoras ou para o controle de pragas e doenças, os principais indicadores de qualidade operacional devem ser a vazão e pressão no momento de aplicação e também a eficiência da cobertura do produto sobre a área aplicada.
Na semeadura alguns importantes indicadores de qualidade são: a eficiência de corte da palha pelo disco ou rompedor de solo, dosagem e posicionamento do fertilizante, dosagem e posicionamento da semente e o fechamento e a abertura do sulco. A qualidade de corte da palha é um fator norteador de todo processo de funcionamento da semeadura, pois dele depende as condições de atrito da roda motriz bem como a atuação dos posicionadores (sulcadores) de fertilizantes e de sementes e, dos mecanismos cobridores. Um eficiente corte de palha pode ser analisado pelo grau de afastamento de palha que o disco ou o rompedor (facão) (Figura 3) provocou, como também pelo número de ocorrências de embuchamento e de paradas.
Com relação à qualidade da fertilização, pode-se avaliar a regularidade de dosagem bem como a regularidade do posicionamento do fertilizante que sempre deve ficar abaixo e ao lado da semente, normalmente 2 a 3 cm abaixo e 2 a 3 cm posicionado ao lado da linha de sementes. A regularidade da quantidade de sementes viáveis, posição delas no solo e distribuição ao longo da linha de plantio são os parâmetros que qualificam o processo da colocação das sementes no solo realizado pela unidade semeadora. Por fim, a qualidade de desempenho da roda compactadora pode ser medida pela constância ou não (regularidade) da presença de sementes descobertas ou sulco mal fechado (indicadores subjetivos).
Para a operação de adubação de cobertura os parâmetros selecionados como indicadores são também a eficiência do disco de corte de palha e a regularidade de vazão e distribuição do fertilizante ao longo da linha.
Para a colheita de grãos, os principais indicadores de qualidade operacional são os parâmetros norteadores do controle de perdas, a picagem e distribuição da palha resultante da trilha. É inquestionável que para avaliar a qualidade da operação de colheita utilizemos a determinação de quantidade de grãos perdidos pela plataforma e ao mesmo tempo, determinamos as quantidades de grãos perdidos pela ação operacional de elementos componentes do sistema interno da máquina, que são os mecanismos de trilha, separação e limpeza. Também é fundamental na avaliação da qualidade operacional da colheita que se levante parâmetros indicadores do desempenho do picador/esparramador de palhas, que são a regularidade de picagem medida pelo comprimento dos fragmentos e pela uniformidade da deposição da palha que é medida pela percentagem de cobertura do solo (Figura 4).
A qualidade do sistema de mecanização como um todo pode ser avaliado pelos efeitos causados pelo tráfego de máquinas ao longo de todo o ciclo operacional de produção, que podem ser medidos através de indicadores de compactação do solo cujo parâmetro mais popular é a determinação da variabilidade espacial da resistência a penetração, indicador este, que pode ser obtido com o uso de aparelhos denominados penetrômetros que são populares e disponíveis em todo mercado de equipamentos de medição.
No Quadro 1, verifica-se resumidamente o conjunto de indicadores propostos pelo Centro de Engenharia e Automação do IAC para avaliar a qualidade operacional da mecanização no plantio direto.
Quadro 1. Principais Indicadores de Qualidade Operacional para Plantio Direto sugeridos pelo Centro de Engenharia e Automação do IAC
OPERAÇÃO
INDICADORES DE QUALIDADE
1. Manejo da cobertura orgânica
- picagem uniforme *fragmentos uniformes- deposição regular *baixa variabilidade no tipo e quantidade de fragmentos
2. Aplicação de produtos fitossanitários
- regularidade da vazão nos bicos de acordo com o produto- regularidade da pressão de acordo com o produto- uniformidade de cobertura
3. Semeadura
- eficiência de corte da palha- regularidade na dosagem de fertilizante- posicionamento do fertilizante- regularidade na dosagem de sementes- posicionamento da semente- regularidade no fechamento e cobertura do solo
4. Adubação de cobertura
- eficiência de corte da palha- regularidade na dosagem de fertilizante- posicionamento do fertilizante
5. Colheita
- perdas de corte da palha- perdas no sistema interno- picagem uniforme *fragmentos uniformes- deposição uniforme da palha *baixa variabilidade no tipo e quantidade de fragmentos
6. Ciclo operacional
- variabilidade da compactação do solo *resistência a penetração *índice de cone
Podemos concluir que a popularização do uso de controle de qualidade nas operações agrícolas é uma questão de tempo e com o advento da agricultura de precisão as análises de desempenho ou performance operacional deverão nortear todas as estratégias e táticas para viabilizar altas produções agrícolas com qualidade e competitividade, contribuindo para a perenidade produtiva dos solos tropicais.
Dados para referências bibliográficas: Revista Plantio Direto nº 78, novembro/dezembro de 2003.