Expectativa de volatilidade nos preços da soja, milho e trigo para 2004
Flávio GassenEng.-agr., mestrando em economia/UFRGS , Supervisor Técnico Cooplantio - e-mail: flavio@agri.com.br
SOJA
O período especulativo sobre a soja nos EUA encerrou-se com queda na sua produção e conseqüente redução na projeção da oferta mundial. Em julho/2003, o Departamento de Agricultura dos EUA – USDA, apontava para uma produção de 207,5 milhões de toneladas contra 201,5 projetados no relatório de novembro. As sucessivas reduções até a última projeção geraram forte pressão de alta no mercado internacional (Figura 1), principalmente porque ficará abaixo da projeção de 202,6 milhões de toneladas, referente ao consumo, e com conseqüente queda na relação estoque/consumo mundial que está em níveis elevados (Figura 2).
Este movimento causa aflição no mercado, pois sabe-se que a resposta aos preços será forte nos países produtores do hemisfério sul, principalmente Brasil e Argentina. A relação estoque/consumo mundial no patamar de 18% indica um tom especulativo aos preços atuais e pode tornar o mercado muito volátil no decorrer da safra sul-americana. A decisão do produtor entre soja e milho para 2003/2004, que está sendo plantado neste momento, depende dos preços de paridade entre os mesmos e já atingiu 2,4 soja/milho nos preços médios de 2003 (Figura 3). Considerando paridade mensal, novembro/2003 já atingiu 3,05 soja/milho no Paraná. Paridade acima de 3 somente havia ocorrido em 5 ocasiões desde 1975: abril/1977 (3,84), setembro/1987 (3,10), junho/1988 (3,01), fevereiro/1999 (3,09) e maio/2001 (3,05), onde o patamar de 3 apresenta-se como limite tolerado pelo mercado.
Historicamente, a relação de neutralidade entre a decisão de plantar soja ou milho está em cerca de duas sacas de milho para uma saca de soja. Na figura 3 esta demonstrada a relação de causalidade entre a paridade dos preços do soja/milho com a variação na área plantada da safra seguinte. A linha base (0%) na variação de área considera sua taxa de aumento normal no decorrer dos anos, estimada por equação multivariada, sendo que os percentuais acima e abaixo desta linha base demonstram a variação fora da normalidade que, por sua vez, seria neutra na pressão sobre os preços. É visível o comportamento cíclico de 3 a 6 anos entre os picos de paridade entre soja/milho e invariável queda nesta relação no decorrer da comercialização da safra. Este fato não está relacionado diretamente com a queda do preço da soja, mas combinada com a valorização do milho, pois este ficou em segundo plano nas prioridades do produtor e sua oferta é contraída. Segundo a projeção da CONAB para a safra 2003/04, a soja ocuparia uma área de 20,394 milhões de ha, no entanto, ao ser considerado o efeito da paridade soja/milho, a área deveria atingir quase 22 milhões de ha, com cerca de 7% de aumento em relação à curva neutra, como está demonstrada na figura 3. Notem que este aumento não é nada absurdo ao observarmos os momentos em que isto ocorreu desde 1975 (seta azul).
A maior dúvida está nos preços para o período de safra, principalmente abril. Na figura 4 foi realizada uma análise da transmissão dos preços da soja durante a colheita nos EUA (outubro de cada ano), para abril do ano seguinte que caracteriza o período em que são estabelecidos os preços. Deste 1975 (total de 28 anos), em 10 ocorrências houve queda nas cotações da Bolsa de Chicago (contratos de 1a. posição), mas com declínio leve (elipse azul com ângulo indicando queda). Por outro lado, em 18 ocorrências houve aumento nas cotações e em alguns casos com variação significativa (elipse vermelha com ângulo indicando aumento). Desta análise gráfica, deve-se salientar que as cotações de outubro 2003 estão num patamar elevado e que isto ocorreu somente em 5 oportunidades desde 1975 e que a relação estoque/consumo mundial também esta elevada, deixando o mercado apreensivo. Em nenhum ano houve queda significativa na transmissão das cotações de outubro para abril do ano seguinte, quando os preços estavam no pico cíclico de outubro.
Resumindo, pela transmissão dos preços é razoável esperar que os mesmos sejam mantidos até a safra, no entanto, a continuidade da relação estoque/consumo mundial elevada e a forte pressão de aumento da produção sul-americana promoverá volatilidade nos preços para a colheita em 2004.
MILHO
Da mesma forma que foi analisada a evolução da área da soja, em posição oposta temos a projeção do plantio de milho que deverá ceder terreno para a oleaginosa. Segundo a CONAB, a produção de milho para 2003/04 deverá atingir cerca de 44 milhões de toneladas, contra 47,6 da safra anterior. Não há outra forma de ocorrer o que está por vir, pois a demanda do milho é crescente e a relação de paridade milho/soja é desfavorável. Referente ao suprimento mundial, a relação estoque/consumo continua caindo e atingiu 12,1% no relatório de novembro/2003 do USDA (Figura 2). Mesmo considerando que a redução dos estoques é racional numa época de comércio internacional facilitado, principalmente com a China na OMC, estes patamares estão num limiar nervoso e nota-se sensível recuperação dos preços desde meados de 2000. É importante salientar que a relação de paridade milho/soja influencia não somente o Brasil, mas a resposta ao estímulo de produção será global e deveremos sentir a continuidade dos movimentos cíclicos.
Na figura 6 é mostrado o túnel (linha tracejada superior e inferior) de queda dos preços reais (deflacionado pelo inflação sobre o dólar) desde 1994, onde aparecem os limites de rentabilidade que o mercado nacional tolera sobre o milho, resultando numa variação de aproximadamente 33% sobre o valor real. No entanto, este túnel que indica a entrada e saída do mercado doméstico como comprador é alterado conforme a pressão internacional. Deve-se salientar que a queda nos preços reais (deflacionados) não estão restritos ao milho, sendo comportamento normal nas commodities que possuem resposta no aumento da produtividade, ocorrendo também na soja, trigo, arroz etc.
No gráfico do milho (Figuras 5 e 6) pode-se notar que há um cenário apontando positivamente se os preços internacionais responderem aos baixos estoques e desestímulo à produção nos países produtores do hemisfério sul.
Se isto ocorrer, será salientado o comportamento bianual dos preços do milho no mercado nacional (Figura 7). Como a próxima safra será colhida em 2004, ano par, novamente seremos vítimas do movimento de ”manada” na produção. Ao considerarmos os preços até novembro/2003, o milho do Paraná registrou ganho médio de US$ 1,03/sc nos anos pares em relação aos ímpares numa análise desde 1994. Este ganho médio representa 20% e foi gerado pela queda de somente 8% na produção nacional. No cálculo da elasticidade-preço da produção do milho, no período de 1975 a 2003 foi obtido o multiplicador de -0,78, ou seja, para cada unidade percentual de aumento na produção acima da taxa de crescimento neutra, ocorreu 0,78% de queda nos preços, e vice-versa. Já no período de 1994 a 2003, este multiplicador foi de -1,2 (20%), indicando que os mecanismos de estabilização de preços pelo controle da produção está menos eficiente. Isto justifica os pagamentos contra-cíclicos realizados pelos norte-americanos aos seus produtores visando minimizar o ”efeito manada”.
Na série de 1994 a 2003 do Paraná, os preços mais elevados dos anos ímpares são equivalentes aos mais baixos dos anos pares. A ausência de eficientes mecanismos contra-cíclicos na produção do milho promove ineficiência econômica partindo da lavoura, passando pela indústria e chegando na alocação de recursos públicos para a agricultura.
TRIGO
O efeito da geada sobre o trigo não foi tão significativo quanto se esperava e a CONAB estima a safra em 5,1 milhões de toneladas contra demanda de 10,1 milhões de toneladas. O relatório de novembro/2003 do USDA apontou nova queda nas projeções da safra mundial 2003/04, com redução de 565,77 milhões de toneladas da safra anterior para 548,5 milhões de toneladas da presente safra. O estoque final está projetado em 126,3 milhões de toneladas, representando 21,6% em relação ao consumo (Figura 2). No relatório de julho/2003, o USDA projetava o estoque em 140,29 milhões de toneladas e redução para 126,31 em novembro. Acompanhando inversamente a relação estoque/consumo mundial, os preços internacionais estão recuperando-se desde a safra 1999/2000 e com cenário de alta para a 2004 (figura 8).
No mercado interno, a taxa cambial é decisiva na internalização das cotações internacionais e foi responsável pela reclamação dos triticultores ao comercializarem a safra 2003. Ao tentarmos localizar uma taxa cambial adequada, deve-se partir do cálculo da taxa cambial de paridade, ou real, para que seja estabelecida uma referência. Ao contrário do que o senso comum considera adequado, a taxa cambial atual de aproximadamente 2,95 R$/US$ não está excessivamente apreciada (valorizada), pois coincide com a taxa cambial real, ademais, o Brasil continua estabelecendo recordes nas exportações indicando que a economia exportadora ainda suporta este câmbio. Se a taxa inflacionária continuar com o ritmo atual, é razoável esperarmos uma taxa cambial de aproximadamente 3,1 R$/US$ em março ao considerarmos o câmbio real. No entanto, como instrumento de política cambial poderá ser interessante depreciar a moeda acima de 3,1 para que as exportações de soja resultem em maior renda ao produtor na moeda nacional e aumentar a competitividade do produto, além da dependência da conjuntura macroeconômica interna e externa. Sendo assim, a figura 9 tem somente a finalidade de mostrar uma referência de paridade.
Dados para referências bibliográficas: Revista Plantio Direto nº 78, novembro/dezembro de 2003