O Carbono Orgânico na Agricultura — Oportunidade para Recuperação Ambiental


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Publicado em: 01/10/2003

O Carbono Orgânico na agricultura: oportunidades para recuperação ambiental

Carlos Gustavo TornquistEngenheiro Agrônomo, M.Sc., doutorando em Manejo de Solos PPGSolos - Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail: carlos.tornquist@ufrgs.br*O texto é uma síntese das idéias apresentadas e de alguns trabalhos recentes publicados pelo Dr. Rattan Lal.

O carbono orgânico constitui a espinha dorsal da matéria orgânica dos solos - composta por 56% de C orgânico (o resto é O, H, N, P, S, Ca, etc.). Quando vemos o atributo matéria orgânica nas análises de solo, na verdade temos ali o resultado de uma análise de C multiplicada por aproximadamente 1,72. Ou seja, carbono orgânico e matéria orgânica são, para a maioria dos casos sinônimos.

Os solos agrícolas têm em geral entre 2 a 5% de matéria orgânica (ou 1 a 3% de C). Este C é extremamente sensível ao manejo dos solos, especialmente em ambientes tropicais e subtropicais. Práticas agrícolas que envolvam revolvimento do solo em geral levam a perdas líquidas de C orgânico – por degradação da matéria orgânica pelos microrganismos do solo e perda de C para a atmosfera como CO2 ou por transporte na paisagem (erosão), seguido de deposição temporária e/ou degradação a CO2. Nessa situação os solos se comportam como fonte de C para o ambiente, agravando o tão falado aumento da concentração do CO2 atmosférico (já confirmado em inúmeros estudos e medições em tempo real). Este aumento do CO2 terá muito provável repercussão climática – o aumento do efeito estufa e das temperaturas médias do planeta – uma possibilidade já com fortes indícios científicos1.

Manejo adequado dos solos agrícolas traz ganhos ambientais

Modificações na forma com que praticamos agricultura poderiam tornar os solos agrícolas em drenos ou sumidouros (locais de acumulação) de carbono orgânico. O Brasil detém em torno de 5% do estoque de C dos solos do mundo. Um estudo inicial realizado pelos pesquisadores2 do CENA-ESALQ-Piracicaba mostrou que nosssos solos passaram de uma situação de fonte nas décadas de 70 até 90 – período de grande expansão da fronteira agrícola, quando foi emitido 93.300 milhões de toneladas de C para uma situação de dreno no final de década de 90 – período de consagração do Sistema Plantio Direto, quando tivemos um acúmulo de 34.200 milhões de toneladas de C em 1995. Uma série de novos estudos está examinando com mais detalhe esta observação.

Nos Estados Unidos, o grupo de pesquisas do Dr. Lal, há uma emissão de de cerca de 200 milhões de toneladas de C ou seja, os solos ainda são fonte de CO2, muito em função das práticas agrícolas de lavração, drenagem de banhados e remoção de reísudos (palhada) dos solos agrícolas. Mesmo a erosão é um fator de perda de C importante – 15 milhões de toneladas na situação dos EUA.

Assim, a agricultura pode ter um papel imediato para amenizar o aumento da concentração de CO2 atmosférico, desde que sejam adotadas estratégias de manejo adequadas que propiciem o aumento do C orgânico no solo. Sabemos que por si só o seqüestro de C nos solos agrícolas não vai resolver o problema do aumento do efeito estufa, mas pode servir de solução temporária, um ”tampão” imediato e de relativamente fácil implementação, com duração estimada de 25 a 50 anos, enquanto alternativas para a queima de combustíveis fósseis são discutidas e planejadas. E o melhor de tudo, é que aumentar o C implica em melhorar o potencial de produção e diminuir os impactos ambientais das atividades agrícolas: por exemplo, a matéria orgânica ajuda no acumulo de nutrientes e funciona como filtro para as águas superficiais.

A questão que se impõe é como colocar mais C nos solos – ou de volta aos solos nas áreas degradadas, onde temos o maior potencial de seqüestro. Práticas agrícolas já estabelecidas entre nós como o sistema plantio direto, os vários sistemas de controle de erosão, a rotação de culturas com espécies de alta produção de massa verde (e também raizes abundantes e profundas), além da integração com pastagens perenes ou semi-perenes têm lugar garantido, mas ainda cabe avaliar em que medida, ou melhor dito, com que qualidade, estão sendo praticadas entre nós. É notório que temos vários níveis de qualidades dentro do Sistema de Plantio Direto na produção de grãos, assim como no controle da erosão e da água de escorrimento superficial na agricultura de uma maneira geral.

Neste sentido, uma boa notícia trazida pelo Dr. Lal é o surgimento de várias opções de mercado para a ”recompesa” dos agricultores e pecuaristas que passem a adotar estratégias de seqüestro de carbono, desde que confirmadas e certificadas por agentes independentes. Além do previsto no Protocolo de Kioto – o chamado Mecanismo de Desenvolvimento Limpo – o Banco Mundial criou um programa piloto com US$ 100 milhões iniciais para financiar projetos que envolvam seqüestro ou redução de emissões de CO2. Já existe inclusive um projeto financiado no Brasil: o Projeto Plantar, relativo ao reflorestamento para produção de carvão para industria de ferro-gusa em Minas Gerais.

Na mesma linha, há pouco tempo foi criada a Bolsa de Carbono de Chicago (CCE - Chicago Carbon Exchange) visando associar empresas que buscam atender programas de redução de emissões com projetos e iniciativas que ofereçam seqüestro de C, também comprovados e certificados. A CCE inclusive cita explicitamente práticas agrícolas como passíveis de negociação, o que ainda não é aceito formalmente dentro do Protocolo de Kyoto. Pode ser uma alternativa acessível aos (bons) produtores no Sistema Plantio Direto.

Quem é Rattan Lal?O indiano naturalizado americano RATTAN LAL é Professor de Ciência do Solo na Ohio State University. Depois de iniciar seus estudos em Ciência do Solo na Índia (Punjab e Nova Dehli), veio fazer seu PhD em física do solo na Ohio State Univ, concluido em 1968. Logo em seguida iniciou um longo e científicamente prolífico período no IITA (International Institute of Tropical Agriculture) em Ibadan, Nigéria. Em 1987 voltou a Ohio State como professor e pesquisador, onde permanece até hoje, também acumulando funções no Colégio de Recursos Naturais: e Diretor do Carbon Management and Sequestration Program (Programa de Sequestro e Manejo do Carbono) e da Initiciativa para Asia Meridional.

RATTAN LAL já esteve no Brasil diversas vezes, mas lembra com detalhes a 1a visita ao RS (Passo Fundo, 1978) e a viagem por terra desde o Planalto do RS até São Paulo com Werner Wünsche (pesquisador da EMBRAPA já falecido).

Em 24 de agosto passado, o Dr. Lal esteve em Porto Alegre realizando palestras no Departamento de Solos-Faculdade de Agronomia UFRGS e no Programa de Tecnologias Limpas da FIERGS sobre o emergente mercado de carbono, também chamado de mercado de emissões - decorrente das discussões e iniciativas da Convenção de Mudança de Clima e do Protocolo de Kyoto (ONU) – e as oportunidades e desafios que se apresentam para a agricultura brasileira.

1Sobre o tema ”aquecimento global” no contexto brasileiro, sugerimos a cartilha eleborada pelo Ministério Ciência e Tecnologia, disponível on-line: www.mct.gov.br/clima/quioto/bndes.htm 2 Bernoux et al. 2002. Brazil’s Soil Carbon Stocks. SSAJ, 66:888-896.