Desenvolvimento do plantio direto em áreas sob influência do lago de Itaipu, no Estado do Paraná
Análise dos valores de margem bruta nas unidades de teste e validação1
Osmar Muzilli, Garibaldi B. Medeiros e Ademir Calegari21Resultados de pesquisa participativa, obtidos no projeto ”Plantio Direto com Qualidade”, realizado pelo IAPAR-Instituto Agronômico do Paraná em cooperação com a Itaipu Binacional. 2 Engenheiros Agrônomos, M. Sc., pesquisadores da Área de Solos do IAPAR. Caixa Postal 481, 86001-970, Londrina, Paraná.
Introdução
Historicamente, o planejamento e a tomada de decisão sobre a produção de grãos através de culturas anuais tem sido analisados e interpretados numa visão de contornos muito limitados, que nem sempre leva em conta resultados financeiros e indicadores de rentabilidade acumulados ao longo do tempo.
Essa visão, influenciada pela própria política agrícola prevalecente do país, caracteriza-se pelo imediatismo que tem permeado a análise dos próprios agricultores, dos agentes de assistência técnica, dos agentes de crédito e até mesmo dos pesquisadores. Na área de pesquisa, os trabalhos temáticos de natureza reducionista ainda prevalecem sobre a visão sistêmica do processo produtivo, onde é fundamental a participação ativa dos produtores e outros protagonistas compartilhando a tomada de decisão sobre a adoção (ou rejeição) de determinadas tecnologias. Nesse contexto, expressões tais como ”adubo verde não dá dinheiro”, rotação de cultura dá prejuízo”, dentre outras, têm se cristalizado ao longo do tempo.
Partindo de atividades de pesquisa participativa em meio real, realizadas durante 4 anos agrícolas consecutivos, com envolvimento ativo dos produtores e agentes de assistência técnica, o projeto Plantio Direto com Qualidade, desenvolvido pelo IAPAR em cooperação com a Itaipu Binacional pretende subsidiar a decisão dos agentes envolvidos na produção agropecuária, sobre a importância da diversificação da produção agrícola com inclusão de plantas para cobertura do solo, visando ampliar a sustentabilidade agroecológica e socio-econômica do Sistema Plantio Direto na região sob influência do lago de Itaipu.
Estimativa dos valores de margem bruta
Os resultados financeiros foram obtidos em 39 unidades de validação conduzidas em 13 propriedades de referência, das quais 12 eram unidades de referência (REFs) representativas de sistemas de produção conduzidos pelos próprios produtores sem qualquer interferência dos pesquisadores na orientação ou tomada de decisão e 27 eram unidades de teste e validação (UTVs) planejadas e conduzidas sob orientação dos pesquisadores.
A análise e a interpretação dos resultados fundamentou-se na estimativa da Margem Bruta (MB) acumulada desde a safra de verão do ano agrícola 1999/2000 até a safra de verão do ano agrícola 2002/2003. Cumpre ressalvar que, no ano agrícola 2002/2003, somente 13 das 39 unidades de avaliação foram mantidas, das quais 7 eram UTVs e 6 eram unidades de referência (REFs).
A expressão utilizada para estimativa da Margem Bruta foi: MB= RB – CV, onde RB= Receita Bruta correspondeu aos valores dos rendimentos físicos de produtos, obtidos por unidades de área (hectare), com base nos preços de comercialização declarados pelos produtores de referência no final de cada safra e CV= Custos Variáveis correspondeu aos valores gastos com insumos + operações por unidade de área, tomando-se por base os preços pagos pelos produtores de referência no decorrer de cada safra.
Os valores de MB obtidos em cada safra e de MB total e média acumuladas no período correspondente a 4 safras de verão e 3 safras de inverno, em cada propriedade de referência, serviram de base para proceder-se à análise comparativa das MB entre as UTVs e as unidades de referência (REF), em relação à Margem Bruta média obtida no período, cujos resultados estão sintetizados na Tabela 1.
Tabela 1. Análise comparativa das Margens Brutas (MB) médias entre Unidades de Teste e Validação (UTVs) e Unidades de Referência (REFs) em relação à Margem Bruta média e estimativa de ganho anual por unidade de área (hectare) obtido no período 1999/2000 a 2002/2003 (4 safras de verão e 3 safras de inverno). Projeto Plantio Direto com Qualidade (Cooperação IAPAR-ITAIPU BINACIONAL).
Situação observada
MB média(*)(R$/ha)
Ganho anual (R$/ha)(MB UTV - MB Ref
Situação com MB acima da média:
UTVs (12 unidades)
584,79
18,97
Refs (08 unidades)
565,82
Margem bruta média(39) unidades de avaliação)
466,54
Situações com MB abaixo da média:
UTVs (15 unidades)
365,30
16,78
REFs (04 unidades)
348,52
(*): Refere-se aos valores médios de MB obtidos em 4 anos agrícolas (1999/2000 a 2002/2003), sendo 4 safras de verão e 3 safras e inverno.
Tomando por base os valores médios de MB acumulada nas 39 unidades acompanhadas, os resultados financeiros proporcionados pelas UTVs foram superiores aos das REFs, tanto nos casos onde as MB situaram-se acima da média, como naqueles onde as MB situaram-se abaixo da média.
Os ganhos proporcionados pela diversificação de culturas com inclusão de plantas de cobertura do solo nas UTVs decorreram basicamente de dois fatores:
a) Incremento gradativo da produtividade das culturas comerciais ao longo do tempo, na medida em que as plantas de cobertura passaram a melhorar os atributos físicos, químicos e biológicos do solo;
b) Redução dos custos de produção devido a racionalização do uso de fertilizantes nos sistemas de produção, possibilitada pela melhoria das propriedades do solo.
Nos casos onde a MB das UTVs foi superior à MB média, houve um ganho adicional de R$ 18,97/ha/ano em relação às REFs. Nos casos onde a MB média das UTVs foi inferior à MB média, o ganho adicional foi de R$ 16,78/ha/ano em relação às REFs.
Melhores seqüencias de culturas
Na Tabela 2 estão indicadas, em ordem decrescente de retorno financeiro, as seqüências de culturas que proporcionaram os melhores valores de Margem Bruta média anual, nas unidades de validação (UTVs e REFs, respectivamente).
Tabela 2. Melhores seqüências de culturas nas unidades (UTVs e REF) com valores de Margem Bruta acima da média.
Sequencia de Culturas(*)
Nº
1º ano
2º ano
3º ano
4º ano
Margem Brutamédia/ha/ano
Verão
Inverno
Verão
Inverno
Verão
Inverno
Verão
UNIDADES DE TESTE E VALIDAÇÃO (UTVs)
06/A
soja
Ap + Ep
Milho
feijão/Ab
soja
milho safr.
soja
776,53
04
soja
Ap+Np+Ef
Milho
feijão/Ab
soja
----
749,81
20
soja
Trigo/Moha
soja
Ap+Np+Ef
soja
Ap+Nf
soja
664,74
07
soja
Ap+Np+Ef
soja
Ab
soja
Ab(grão)
soja
590,49
11/B
soja
Ap+Np+Ep
soja
Ap
soja
-----
578,97
03/B
soja
Ap+Ef
soja
Ap+Np+Ep
soja
Ap+Tb+Ab
milho
566,93
06/B
soja
Trigo/Moha
soja
centeio
soja
milho safr.
soja
559,33
14
milho
Ervilha
soja
Ap+Np+Ec
milho
milho safr.
soja
549,27
13
soja
Milho/Moha
soja
Ap+Ef
milho
milho safr.
soja
521,30
17/B
milho
Ap+Np
milho
Ab
soja
-----
506,69
12/B
soja
Ap+Np+Ef
soja
trigo
soja
-----
482,63
15/A
soja
Milho/Moha
soja
Cf
soja
trigo
soja
470,75
MB média (R$/ha)
584,79±98,28
UNIDADES DE REFERÊNCIA (REFs)
12
soja
Ab (silag)
soja
milho safr.
soja
NP
soja
677,76
38
soja
Trigo
soja
trigo
soja
Ap+Np
soja
645,24
01
soja
Milho safr.
milho
Ab
soja
Ef
milho
603,65
30
soja
Ap
milho
soja safr.
milho
-----
562,27
24
soja
Milho safr.
soja
Ap
milho
milho safr.
soja
553,49
27
soja
Milho safr.
soja
trigo
soja
milhosafr.
soja
513,37
21
soja
Milho safr.
milho
milho safr.
soja
-----
490,91
18
soja
Milho safr.
soja
trigo
soja
-----
479,84
MB média (R$/ha)
565,82±78,90
(*): Plantas de cobertura: Ab= Aveia branca; Ap= Aveia preta; Cf= Centeio forrageiro; Ef= Ervilha forrageira; Ec= Ervilhaca comum; Ep= Ervilhaca peluda; Np= Nabo pivotante; Tb= Tremoço branco
No elenco das unidades de validação (UTVs), as melhores médias anuais de Margem Bruta foram proporcionadas pelo cultivo do feijão-da-seca no período de outono/inverno, logo após a colheita do milho de safra normal. As características promissoras da cultivar de feijão IAPAR-72 (desenvolvida pelo IAPAR), resistente ao mosaico dourado e com arquitetura de plantas adequada para a colheita mecanizada, associadas à estação climática favorável e em época onde o valor do produto no mercado era atrativo, foram as razões que levaram à opção de substituir o cultivo do milho safrinha ou de outras espécies comerciais de inverno pela sucessão feijão-da-seca/aveia branca, onde a aveia branca serviu como planta de cobertura antecedendo a soja.
Outra característica das UTVs mais rentáveis, foi evitar-se a sucessão contínua de soja-milho safrinha, mantendo-se a soja como cultura principal no verão, em cultivo contínuo ou alternado com milho de safra normal, mas sempre intercalando o cultivo de plantas de cobertura no inverno. Via de regra, as plantas de cobertura eram caracterizadas pela combinação de espécies, com predominância de aveia preta+nabo pivotante+ervilhaca (peluda ou comum). Nestas condições, a sucessão contínua de soja-milho safrinha foi sempre evitada.
No elenco das unidades de referência (REF), inicialmente os produtores optaram pela sucessão soja-milho safrinha. No decorrer do tempo, possivelmente influenciados por observações realizadas nas próprias unidades de validação, passaram a incluir as plantas de cobertura do solo em seus sistemas de produção, preferencialmente a aveia preta e o nabo pivotante, além de se interessarem por outras culturas comerciais de inverno, como o trigo, o triticale e o centeio. Ou seja, os produtores passaram a reconhecer, gradativamente, a importância da diversificação de culturas e das plantas de cobertura no inverno como alternativa ao milho safrinha, visando a melhoria dos seus sistemas de produção.
Também procuraram tirar vantagens comerciais das plantas de cobertura, como foi o caso da utilização de aveia branca para produção de silagem (biomassa da parte aérea ou grãos úmidos), visando suprir necessidades de alimentação do rebanho leiteiro no período de outono-inverno.
Conclusões
Os retornos financeiros proporcionados pelas Unidades de Validação foram superiores aos das unidades de referência, tanto nos casos onde as Margens Brutas situaram-se acima da média, como naqueles onde as Margens Brutas situaram-se abaixo da média.
Os ganhos financeiros proporcionados pela diversificação de culturas com inclusão de plantas de cobertura foram devidos ao aumento de produtividade das culturas comerciais e à redução dos custos de produção pela racionalização do uso de fertilizantes nos sistemas de produção.
As melhores médias anuais de Margem Bruta foram obtidas nos sistemas de produção onde se cultivou a sucessão feijão-da-seca/aveia branca no período de outono/inverno, logo após a colheita do milho de safra normal, usando-se a aveia branca como planta de cobertura para anteceder a soja.
Por meio do acompanhamento das unidades de validação, os produtores de referência passaram a reconhecer e assimilar, gradativamente, a importância da diversificação de culturas e das plantas de cobertura no inverno, como alternativa ao milho safrinha.
Os resultados financeiros obtidos comprovam a importância da diversificação agrícola fundamentada na rotação de culturas com plantas de cobertura, como tecnologia preconizada para ampliar a rentabilidade e, conseqüentemente, a sustentabilidade do Sistema Plantio Direto na região.
Dados para referências bibliográficas: Revista Plantio Direto, nº 77, edição aetembro/outubro de 2003.