Gestão de Empresas Rurais — O Caminho da Profissionalização


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Publicado em: 01/10/2003

Gestão de empresas rurais: o caminho da profissionalização

Luiz Gustavo FlossEngenheiro-Agrônomo, Especialista em Administração Rural. Sócio-Gerente da Floss Consultoria e Assessoria em Agronegócios. Consultor de implantação da Agrosoft – Assessoria e Desenvolvimento de Sistemas.E-mail:luizgfpf@terra.com.br - Fone (54) 312-0301.

1. Conceito, realidade e mudança

A evolução do ser humano transformou o simples processo de cultivar plantas e criar animais, que há séculos era feito somente para subsistência depois, como moeda de troca, num complexo processo dentro de uma cadeia em permanente estado de transformação.

Hoje, simples produtos provenientes das lavouras têm sido processados e transformados em produtos com a finalidade de atender os consumidores mais exigentes.

Com a globalização dos mercados, o sucesso de uma empresa inserida no agronegócio, depende cada vez mais da inter-relação entre os fornecedores, produtores de matéria-prima, processadores e distribuidores. Dessa forma, muitas vezes a divisão tradicional entre indústria, serviço e agricultura torna-se inadequada.

A gestão de empresas rurais implica em duas funções distintas a se compreender:

1) Organização – função específica de criar o esquema geral ou plano de produção;

2) Coordenação e supervisão - (atividade operacional, em oposição à atividade organizacional), que se refere à administração propriamente dita, isto é, a função de pôr em execução o esquema e de se fazer os ajustes necessários, com a finalidade de se obter o máximo de rendimento econômico relativo à empresa agrícola como um todo.

Dentre os principais objetivos do gerenciamento de empresas rurais, destacam-se:

gerir com maior competência os recursos humanos, físicos e financeiros disponíveis na propriedade;

adaptar os recursos e as tecnologias disponíveis aos objetivos do produtor;

renda como objetivo e não como conseqüência;

buscar a lucratividade e a sustentabilidade da propriedade;

viabilizar o bem-estar familiar e garantir um bom padrão de vida ao produtor e a sua família;

aumentar a renda e o patrimônio do produtor;

desenvolver um modelo sustentável de administração com as peculiaridades do agronegócio;

buscar a otimização do uso dos recursos;

maior conhecimento da propriedade rural por parte do técnico; e,

minimizar os riscos das atividades de produção e de mercado.

Todo o processo de planejamento, organização, direção e controle da propriedade rural está interligada com as escolhas a serem feitas. Estas, são necessárias para as tomadas de decisão para se eleger o caminho a ser traçado.

Os riscos e as incertezas são aspectos que sempre irão existir quando se trata de realizar alguma atividade na agropecuária e, que também estão presentes em outros setores. Apesar deste aspecto, deve-se proteger destes fatores para que eles se minimizem ao máximo e não prejudiquem o desenvolvimento das atividades.

Em toda a atividade econômica deve-se considerar os riscos. Fato, que torna difícil a tarefa de decidir, considerando que os indivíduos buscam sempre maximizar suas funções de utilidade, embora que para isso tenham de submeter-se a certo risco. O problema do empresário é, então, decidir até que ponto vale a pena correr riscos para alcançar um determinado nível de renda ou, qual a máxima renda que ele pode conseguir ao aceitar determinado nível de risco. O risco é, portanto, variável importante no processo de decisão do empresário, principalmente do pequeno, que se arrisca relativamente mais para atingir níveis de renda iguais ou pouco superiores ao de subsistência.

O processo de tomada de decisão é centralizado na mudança do tomador de decisão, de uma posição atual, para uma posição em que ele deseja chegar. Os ingredientes essenciais nessa definição generalizada são: a existência de várias alternativas que o tomador de decisão possui e, a escolha que envolve a comparação entre essas alternativas e a avaliação de seus resultados.

A organização é um sistema de decisões em que cada pessoa participa consciente e racionalmente, escolhendo e decidindo entre alternativas mais ou menos racionais que se lhes apresentam de acordo com sua personalidade, motivações e atitudes. Os processos de percepção das situações e o raciocínio são básicos para explicar o comportamento humano nas organizações. O que uma pessoa aprecia e deseja influencia naquilo que vê e interpreta, bem como, o que vê e interpreta influência o que ela aprecia e deseja. Cada pessoa decide em função da percepção das situações. As pessoas são processadoras de informação, criadores de opinião e por conseqüência, tomadoras de decisão.

O produtor rural tem que tomar algumas decisões, partindo da sua mudança comportamental, e isso acontece quando enxerga a importância da racionalização dos bens de produção como mecanismo para continuar num mercado cada vez mais competitivo e caro.

Nesse momento de extremas modificações do perfil do agricultor, busca-se sempre a diminuição dos custos, pois essa é a forma de se aumentar a rentabilidade dentro da propriedade. Essa diminuição de custos começa no planejamento adequado da propriedade através da montagem de sistemas de produção capazes de gerar com alta qualidade e escala, com o menor custo possível, sem que haja prejuízo na atividade, através de técnicas adequadas a cada tipo de produtor, o máximo de retorno.

Mas, não é apenas na redução de custos que se pode trabalhar. Existe um outro fator a se considerar, o aumento do rendimento que deverá ser compatível com o custo. Ou seja, o aumento do rendimento ou produtividade de uma determinada atividade agrícola, deverá ser maior que o custo adicional realizado. Isto se reflete muitas vezes quando existe baixo poder aquisitivo pelos produtores, ou restrição orçamentária, devendo-se estes, determinarem em que produto ou operação colocar o dinheiro disponível para que este renda o máximo possível.

Sem dúvida, o primeiro passo para a modernização da agricultura é tornar o agricultor um empresário, que administrará a propriedade rural de forma mais séria e profissional, assim o único caminho viável é o da empresa rural.

2. A gestão de empresas rurais na prática

1ª Fase Determinação dos objetivos

O principal elemento de gestão inicia com a definição dos objetivos da empresa rural, determinando o foco de ação, ou seja, onde a empresa quer chegar.

Muitas vezes o pensamento da empresa e do proprietário, se antagonizam devido a interesses diferentes. Nessa hora, cabe ao gestor do negócio buscar a ajuda técnica suficiente para definir o que é melhor para a empresa, com a nítida visão do que a empresa deve buscar, seja a curto, médio ou longo prazo.

Na definição dos objetivos, deve-se levar em conta aspectos financeiros, de estrutura, produção, comercialização e de recursos humanos, identificando o tamanho (em área e/ou produção), localização e tempo para se atingir os objetivos, que normalmente todos os produtores tem mas, que não são definidos e comunicados normalmente nas propriedades rurais tradicionais.

Com a definição dos objetivos, deve-se comunicar aos colaboradores, clientes e fornecedores, identificando os principais pontos a serem buscados no decorrer do tempo. Além disso, sabendo-se onde se quer ir, tem-se condições de prever os passos a serem seguidos para a busca dos resultados, e com isso defini-se metas de produção, produtividade, área cultivada, margem bruta, margem líquida, rentabilidade, pró-labore, entre outros pontos importantes para o gerenciamento do negócio.

2ª Fase Planejamento

Determinada a definição dos objetivos, promove-se o plano de como alcançar as metas almejadas. Nessa ocasião, monta-se o processo do início ao fim, analisando as variáveis inerentes ao negócio, necessidade de recursos, condições de clima, etc.

Com o planejamento da produção, o administrador terá melhores condições de decidir o que, como, quanto, quando, onde e para quem produzir, além disso, com a gestão saberá a que custo, qual rentabilidade, qual margem de contribuição, quando necessitará de recursos financeiros (quando vender/receber e comprar/pagar).

Antes de tudo, o planejamento econômico e financeiro da empresa rural tem fundamental importância para o direcionamento das atividades a serem realizadas, sendo utilizado:

a orçamentação;

o fluxo de caixa orçado; e,

a análise de sensibilidade.

Na área de pessoal, merecem destaques os seguintes aspectos:

disponibilidade de mão-de-obra;

necessidade e distribuição da mão-de-obra;

qualidade e treinamento; e,

motivação, comunicação, liderança, instruções e ordens.

Na área da comercialização está a importância de se desenvolver um planejamento de compra de insumos através da avaliação da necessidade e da quantidade, buscando-se com isso barganhar na hora da compra.

3ª Fase Organização, monitoramento e análise de resultados

Para se alcançar a eficiência e a eficácia da produção não se pode deixar de considerar os aspectos relacionados com a escolha das atividades e da relação que existe entre elas, o uso racional dos fatores de produção, emprego de tecnologia adequada e com o controle da produção.

A área de finanças de uma empresa rural engloba todas as atividades relacionadas com recursos monetários, incluindo acompanhamento e registro das despesas, receitas, investimentos e financiamentos, com o objetivo de avaliar o resultado econômico das atividades da empresa.

A administração financeira preocupa-se em garantir a disponibilidade de fundos para atender às obrigações da empresa. Nesse sentido, é necessário que se faça um estudo sobre:

a análise econômica (incluindo o custo de produção);

o fluxo de caixa realizado (financeiro); e,

o planejamento dos investimentos.

É importante que a empresa disponha de adequado sistema de registros agrícolas que disponibilize para o administrador as informações anteriormente mencionadas, possibilitando-lhe uma administração mais eficiente.

Com a venda de produtos, deve-se analisar a questão da necessidade de receita para cobrir o caixa, o conhecimento histórico e, de momento de mercado para aproveitar janelas com melhores preços.

Fases do processo de gestão

Planejamento

Implementação

Controle

Análise

- Histórico deprodutividadepor talhão- Plano de áreas e culturas- Rotação de culturas- Fertilidade do solo- Cultivares, produtosutilizados e a serem utilizados

- Recomendação do manejo a ser utilizadopara cada atividade

- Manejo das culturas - Produtos- Doses- Forma de aplicação/utilização- Data das operações- Clima

- Análise das culturasquanto os talhões, área cultivada,produtividade,produção, utilizaçãode produtos (específicos ou genéricos), forma de utilização para planejamento posterior

Dados para referências bibliográficas: Revista Plantio Direto, nº 77, edição setembro/outubro de 2003.