Agricultura nos Cerrados de Roraima


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Publicado em: 01/10/2003

Agricultura nos Cerrados de Roraima

Daniel Gianluppi e Oscar SmiderleEmbrapa Roraima BR 174, km 08 - Caixa Postal 133 - 69.301-970 Boa Vista - Roraima-Brasil - Fone: (95) 626 7125 - R.221 - E-mail: ojsmider@cpafrr.embrapa.br

Desde 1982 a Embrapa tem gerado tecnologias e conhecimentos voltados à inserção das culturas de grãos nas áreas de cerrado de Roraima. Pesquisas com as culturas de arroz irrigado, soja, milho, sorgo, arroz de sequeiro, girassol e feijão caupi têm demonstrado um potencial produtivo invejável (Tabela 1). Altas produtividades, alta qualidade de cereais e leguminosas, ciclo curto e produção na entressafra brasileira (Figura 1), são destaques especiais.

Tabela 1. Produtividade de culturas para Cerrado

Produtividade (kg.ha-1)

Cultura

Atual

Lavoura

Potencial

Arroz sequeiro

1.500

3.500

4.000

Arroz irrigado

6.000

8.000

10.000

Milho

-------

6.000

9.000

Soja

2.200

3.500

4.700

Sorgo granífero

-------

4.000

6.000

Feijão Caupi

-------

600

2.200

Girassol

-------

3.000

Algodão em caroço

-------

5.000

Fonte: Embrapa Roraima, 2002

A posição estratégica do Estado em relação aos mercados da Venezuela, Guiana Inglesa e Caribe, além de outros mercados internacionais que podem ser alcançados via Manaus, Venezuela ou via Guiana Inglesa, após a conclusão da estrada que liga Boa Vista a Georgetown, seguindo o traçado do eixo de integração Arco Norte, garante preços internacionais dos grãos que, no período da colheita (agosto/setembro) atinge sempre os mais elevados preços de venda.

Reconhecendo as potencialidades produtivas e as possibilidades comerciais diante dos mercados regionais e internacionais, o governo do Estado de Roraima inclui, em seus projetos de desenvolvimento, a exploração das culturas de grãos na região dos cerrados. Logo em seguida, para apoiar a execução do projeto de produção, criou e regulamentou a Lei nº 215/98, que trata de isenções fiscais aos produtores incluídos no projeto piloto até 2018, inserindo as culturas de soja, milho e arroz. Complementando o apoio governamental aos produtores foi concluído, em 2002, invejável infraestrutura de recebimento, beneficiamento e estocagem de grãos, foi iniciada a interiorização da energia elétrica e foram destinados recursos para incentivar a compra e distribuição do calcário agrícola.

A possibilidade de obter altas produtividades para um mercado que paga os melhores preços somada a um apoio governamental significativo está atraindo produtores de outras regiões do país para produzir grãos nos cerrados de Roraima, onde estabeleceram uma cooperativa de produção e começaram a produzir a partir de maio de 2000. Em 2002 a área plantada foi de aproximadamente 6.000 ha, 3.500 ha de soja e 2.500 ha de milho com boas produtividades.Também foram plantados, por produtores já estabelecidos no Estado, 15.000 ha de arroz irrigado, que resultaram em 97.550 t de grãos.

A expectativa de plantio para 2003 é de 7.000 ha de soja, 5.000 ha de milho e 20.000 ha de arroz irrigado, com produtividades esperadas de 3.000 kg/ha, 6.000 kg/da e 6.500 kg/ha, respectivamente. A taxa de expansão anual de área plantada é de 100% para soja, 50% para milho e 30% para arroz irrigado. Com o plantio da área de cerrado apta para a produção (1.200.000 ha), poderíamos hoje, com o uso de tecnologia disponível, produzir 3.600.000 t de grãos de soja ou 7.200.000 t de milho mais 1.500.000 t de arroz irrigado, contribuindo significativamente com as políticas de geração de emprego e renda e, com a produção de alimentos para o país, justamente no período mais crítico do ano, na entre safra do Brasil. Visualiza-se, aqui, a importância de Roraima como reguladora de estoque ou na garantia de cotas de exportação.

Além da produção de grãos visualiza-se, com enorme potencial, a integração lavoura-pecuária, a piscicultura, a pecuária de pequeno porte e a silvicultura podendo gerar um pólo de produção agroindustrial, com tecnologia avançada, para atender demandas de produtos de alta qualidade.

Os cerrados do Estado, entretanto, apresentam baixa fertilidade natural do solo e um período seco anual de 6 a 7 meses, exigindo o uso de tecnologia de ponta para se obter altas produtividades com sustentabilidade ambiental. Sem o emprego dessa tecnologia, o uso desses cerrados é inviável e, sua contribuição se restringe ao acúmulo de massa seca para as ”fantásticas” queimadas amplamente noticiadas nos veículos de comunicação nacionais todos os anos.

A tecnologia preconizada envolve a correção completa do solo, o uso do plantio direto e rotação de culturas, a integração lavoura-pecuária e lavoura-pecuária-silvicultura que exigem investimentos iniciais altos, especialmente por ser uma região de fronteira agrícola onde o mercado de insumos de produção ainda não está disciplinado. Entretanto, com o aumento da área plantada e da demanda de insumos a tendência é dos custos de produção situarem-se em níveis mais baixos daqueles praticados no centro-oeste brasileiro.

O clima quente durante todo o ano faculta a produção ininterrupta quando se usar a irrigação suplementar. Neste caso pode-se fazer até três safras de grãos por ano com produtividades, por área, acima de 15 t/ha/ano. Os cerrados de Roraima são cortados por vários rios caudalosos que possibilitam a irrigação de grande parte da área.

Os atrativos técnicos são grandes, tais como altos índices de produtividade, ciclo curto das culturas (100 - 110 dias), produção na entressafra ou, durante o ano todo com a utilização de irrigação, maiores teores de óleo e proteína nos grãos das oleaginosas (até 5%) comparados aos produzidos noutras regiões, colheita na época de preços mais elevados (agosto/ setembro) para a comercialização, conjugados com a posição estratégica do Estado quanto aos corredores de exportação de Itacoatiara no Amazonas e do Arco Norte pela Venezuela e Guiana Inglesa, dão aos produtores locais, sempre a melhor remuneração.

Este espelho de Roraima parece até mágico, mas não é. O que existe é um potencial oculto que o Brasil precisa conhecer e saber utilizar bem para melhorar a qualidade de vida do povo aqui estabelecido.