Soja dos EUA altera projeções mundiais
Flávio GassenEng.-agr., mestrando em economia/UFRGSe-mail: flavio@agri.com.br
Trigo
A ocorrência de geada no trigo do RS/SC e nas regiões frias do PR reduz a expectativa da produção brasileira de 5 milhões de toneladas para cerca de 4,5 milhões de toneladas. No cenário internacional, os EUA registram redução na produção de 2 milhões de toneladas e 1 milhão de toneladas na Argentina e Canadá, no comparativo do relatório do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) de setembro/2003 com o de agosto. Por outro lado, a Austrália e outros exportadores registram aumento da produção mas com resultados inferiores aos dos anos anteriores na contabilidade global. No longo prazo o trigo tem apresentado um comportamento divergente aos demais grãos, pois registra estabilidade no consumo mundial desde a safra 1997/98, que atingiu 583,6 milhões de toneladas, e para 2003/04 está projetado em 582,2 milhões de toneladas, apontando para redução do consumo per capita. Na ótica brasileira e cientes de que estamos distantes do auto-abastecimento, devemos visar o aumento da produção de grão de elevada qualidade para competirmos com o produto internacional que nos é ofertado.
A produção mundial atingiu 609,3 milhões de toneladas na safra 1997/98 e, para 2003/04, está projetada em somente 547 milhões de toneladas, resultando numa drástica queda dos estoques mundiais que registraram o pico de 204,3 milhões de toneladas em 2001/02 e para a safra 2003/04 aponta para 129 milhões de toneladas, representando 35% e 22,2%, respectivamente na relação estoque/consumo. Numa proporção inversa aos estoques, temos a taxa de uso do grão que está correlacionada positivamente com os preços internacionais. Esta taxa de uso apresenta um comportamento cíclico de 7-8 anos que responde ao estímulo gerado pela variação de preços ao aumento e redução na produção. Quanto ao mercado interno, notamos que os preços acompanham a flutuação internacional (figuras 1 e 2) a partir do afastamento do governo nacional das compras do grão no final da década de 80.
Considerando o ciclo mundial de 8 anos na resposta ao estímulo à produção do trigo, chegamos ao pico na taxa de uso do grão que está projetada em 77,8% (22,2% de estoque final) para 2003/04, indicando período de alta nos preços que, por sua vez, registra ciclo de resposta semelhante aos estoques. Na figura 1, os preços do trigo pagos aos produtores dos EUA registram redução para 2003, no entanto, havia uma expectativa de boa safra que não foi concretizada e há movimento de alta nos preços que pode pressiona-los positivamente como ocorreu na safra 1995/96 (figuras 1 e 2).
Soja
A redução na expectativa de produção da soja nos EUA provocou alteração na projeção mundial de 206,9 milhões de toneladas, realizada no relatório de agosto/2003 do USDA, para 201,7 milhões de toneladas no relatório de setembro, coincidindo com o consumo esperado (201,8 milhões de toneladas). Mesmo com a produção aproximando-se do consumo, os estoques encontram-se elevados em relação à média histórica, mas o percentual de uso do grão aumentou de 81,7% em 2002/03, para 82,8%, projetado para 2003/04. Esta alteração na taxa de uso provoca pressão de alta nos preços, apesar de o mesmo ainda estar baixo para que ocorra sustentação em patamares elevados como os da safra 1995/96 e 1996/97 (Figura 3). Muito se discute sobre a confirmação das projeções de estoque/demanda do USDA, mas são nestas projeções que os operadores de mercado internacionais tomam suas decisões para sua alocação de recursos. Por outro lado, os fundos de investimentos que operam na Bolsa de Chicago são volúveis quanto às suas posições e podem rapidamente realizar lucro e dirigir-se para outras opções, considerando que o período histórico de pressão altista é o de pré-safra e agora será colocada em xeque a expectativa que gerou pressão de alta no mercado futuro.
No mercado interno, o produtor que toma decisões pelos preços em R$ está segurando a soja e há poucos negócios futuros para a próxima safra. Por outro lado, os preços em US$ estão em níveis adequados considerando a desvalorização do US$ no mercado internacional e apreciação do R$. Desde maio/2003, a taxa cambial nominal manteve-se próxima e levemente acima da taxa cambial real, mas em setembro/2003 houve interceptação após um período de 15 meses com o câmbio fortemente depreciado e favorecendo a economia exportadora. Citado este fato, deve-se ter em mente que a economia não mantém sua estabilidade somente com exportações e se o regime exportador for mantido haverá pressão de alta na inflação. Sendo assim, é razoável a afirmativa de que a taxa cambial não registre desvalorizações significativas e mantenha-se próxima ao real estimado (ao redor de 3,00 R$/US$ para o final do ano).
Quanto ao clima para os produtores sul-americanos, a Oil World divulgou nota no final de setembro de que há indicadores apontando para condições de chuva abaixo do normal para a Argentina, RS, SC e sul do PR para o período de novembro/2003 a janeiro/2004.
Milho
Passado o período de colheita, os preços do milho no mercado interno registram sustentabilidade ao redor de R$ 15/saca no RS, patamares próximos ao registrado na safra de 1995 e apresentando comportamento cíclico confirmado nas safras de 1997, 1999 e 2001, considerando os preços em R$ deflacionados (Figura 5). Comparando-se as curvas dos preços nominais e deflacionados nota-se o afastamento da realidade ao desconsiderarmos a perda do valor da moeda nacional e a dificuldade em estimarmos patamares razoáveis de preços se forem observados somente os nominais. Quanto aos preços dolarizados, nota-se que estes ainda não registraram patamares baixos como os da safra 2001, nem espera-se que ocorra. Todavia, na análise da rentabilidade ao investidor, com o grão dolarizado e deflacionado pelo índice de inflação no varejo dos EUA - CPI, há margem para queda maior, pois a indústria depende de grão barato para manter sua competitividade internacional. Por outro lado, no mercado interno já registrou queda superior a 60% em termos reais. Os preços do grão pagos ao produtor dos EUA e na Bolsa de Chicago registram recuperação desde a safra 2000 (Figura 6) e respondem ao baixo estoque de passagem projetado para 2003/04 pelo USDA que está em 74,3 milhões de toneladas, representando somente 11,8% do consumo mundial. Esta relação estoque/consumo mundial declina desde a safra 1998/99, onde atingiu o pico de 29,6% e registra quedas sucessivas na ordem de 28,4% em 1999/00, 25,4% em 2000/01, 20,8% em 2001/02 e 15,5% em 2002/03. A estiagem na safra dos EUA ainda aponta para uma pequena redução na produtividade, de 8.774 kg/ha para 8.687 kg/ha com produção de 252,59 milhões de toneladas, contra 228,81 milhões de toneladas na safra 2002/03. Entretanto, a projeção da safra atual é recorde mas não extraordinária, pois na safra 2000/01 foi atingida a marca de 251,85 milhões de toneladas e a relação estoque/demanda dos EUA é a mais baixa desde a safra 1996/97. Portanto o maior produtor mundial do grão não está numa posição confortável e os estoques internacionais estão em níveis críticos e prestes a forte pressão de alta ao menor sinal de desabastecimento.
Como é de se esperar, a dinâmica da valorização do produto apresenta relação direta com o percentual de uso (inverso do estoque/demanda) e é gerador do ciclo de longo prazo que apresentou seu pico de alta em meados de 1996 no mercado internacional (Figura 6). Este ciclo apresenta pequena influência no mercado interno, salientando-se o ciclo bi-anual que possui variabilidade sensivelmente superior ao que ocorre com o produtor dos EUA. Na figura 6 há um cenário altista para o grão brasileiro ao ser considerada a pressão de alta do ciclo internacional para a safra 2003/2004.
Dados para referência bibliográfica: Revista Plantio Direto, edição nº 77, setembro/outubro de 2003.