Brasil sediou detabes sobre agricultura conservacionista
Aconteceu de 11 a 15 de agosto, em Foz do Iguaçu, PR, o II Congresso Mundial de Agricultura Conservacionista, um dos mais importantes fóruns do mundo para discutir práticas de uma agricultura que seja eficiente na produtividade sem agressões ao meio ambiente. A promoção foi da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha – FEBRAPDP e da Confederação de Associações Americanas para a Agricultura Sustentável – CAAPAS, com o apoio do CIRAD, ECAF, FAO, Governo do Paraná, Itaipu Binacional e Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento.
A primeira edição do evento aconteceu em 2001, em Madri, Espanha, e reuniu organizações internacionais, associações de agricultores, instituições científicas, organizações governamentais e não governamentais e outras entidades de diversos países, ocasião em que se iniciaram os debates em busca de subsídios para promover a difusão e adoção - em âmbito mundial - dos princípios e práticas da Agricultura Conservacionista.
Na segunda edição do evento, teve seqüência o debate sobre o conjunto de práticas que constituem a Agricultura Consevacionista, como sendo um dos mais notáveis desenvolvimentos da agricultura das últimas décadas. A cobertura permanente do solo, a redução ou eliminação do revolvimento da terra e a rotação de culturas, constituem os pilares de sustentação deste modelo de produção ambiental, principalmente pelas suas qualidades na proteção do solo e da água. Essa evolução é oportuna, pois está ocorrendo em uma época em que a opinião pública despertou para o problema da degradação ambiental. A população, em geral, desconhece a situação da água no mundo, onde apenas 3% é potável, sendo que 2% se encerra nas calotas polares, ou seja, apenas 1% está disponível fora dos pólos. O Brasil detém 8% de toda a água superficial do planeta. A sua distribuição, porém, é desigual. Na Amazônia encontra-se 80% do volume total da água disponível, os restantes 20% se distribuem pelo resto do país, para atender 95% da população, constituindo-se, somente com estes dados numa boa razão para as práticas conservacionistas de produção de alimentos. O Brasil, que ao longo das últimas décadas, acumulou grandes conhecimentos, tornando-se referência, não só na América Latina, mas em todo o mundo, no que diz respeito à Agricultura Conservacionista, conta com uma área cultivada superior a 19 milhões de hectares sob o Sistema de Plantio Direto na Palha.
O II Congresso Mundial recebeu um público superior a 950 participantes, representando mais 50 países, com destaque para os africanos e asiáticos que nesta edição teve programação especial, com a realização de uma sessão limitada a um público distinto.
Segundo as autoridades presentes na solenidade de abertura oficial do II Congresso Mundial, o plantio direto é das técnicas que mais contribui com a agricultura conservacionista e para a eficiência da produtividade, sem agressões ao meio ambiente. Estiveram presentes na cerimônia o secretário executivo do MAPA, Maçao Tadano, representando o Ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, o vice-governador do Estado do Paraná, e Secretário de Agricultura e Abastecimento, Orlando Pessuti; o prefeito de Foz do Iguaçu, Sâmis da Silva; o presidente da FEBRAPDP, Ivo Mello; o presidente da CAAPAS, Roberto Peiretti; o diretor superintendente brasileiro da Itaipu Binacional, Jorge Sameck e o representante da organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação – FAO, José Tubino.
Na avaliação do presidente da FEBRAPDP, Ivo Mello, o crescimento da produtividade nas lavouras tem ligação direta com a evolução do plantio direto no Brasil. Ele lembra que na safra de 85/86, até a safra 2002/2003, a ascendência de produção de grãos combina com a curva da evolução do plantio direto. De 85 milhões de toneladas de grãos, o crescimento foi significativo, atingindo 120 milhões de toneladas de grãos. Ele destaca a atuação do agricultor, que ”mesmo sem subsídios”, colheu este montante. Segundo ele, a Federação está fazendo a sua parte, quando tem como missão promover a rentabilidade sustentável do agricultor brasileiro, através da prática do sistema de plantio direto na palha. Ele garante que o sistema plantio direto desenvolvido no País é uma das grandes e boas ferramentas da agricultura conservacionista”. Mello lembrou ainda que as parcerias plantadas nessa edição do Congresso, contribuirão para o crescimento da qualidade de vida e da produção de alimentos.
O presidente da CAAPAS, Roberto Peiretti, disse que este é o momento de trocar experiências, a partir da reunião de pessoas que defendem a necessidade de mudança de paradigmas e rumos. Peiretti lembrou que a CAAPAS agrega a cada ano mais países e que atualmente são doze os membros que integram a Confederação e que contribuem com o desenvolvimento de uma agricultura produtiva e sustentável.
Excursão técnica mostra diversidade produtiva da região
No dia 14 de agosto, mais de 500 pessoas participaram da excursão técnica a alguns municípios da região oeste do Paraná, formada por 45 municípios, abrangendo 10% do total da área do Estado. Na região, o sistema de produção é diversificado, tendo destaque a produção de leite, fato que caracteriza a região como a maior bacia leiteira do Paraná. Com relação a produção de grãos, a região registra a produção de 25% do total produzido no Estado. No oeste também predominam as agroindústrias, voltadas a produção de carnes e derivados. E ainda há forte consciência da necessidade de visão preservacionista na execução dos sistemas de produção.
O Rio Grande do Sul na pauta do Congresso Mundial
O Rio Grande do Sul esteve na pauta das palestras realizadas no II Congresso Mundial sobre Agricultura Conservacionista. Entre os painéis e mesas redondas promovidos, três abordaram aspectos sobre o que os gaúchos estão fazendo em relação ao plantio direto.
Sobre Arroz irrigado em rotação com pastagens no sul do Brasil e norte do Uruguai, o engenheiro agrônomo e consultor da Fundação Maronna, de Alegrete, RS, Júlio Taborda, afirmou que os campos naturais da região do pampa, tanto no Brasil quanto do Uruguai, apresentam características culturais, sociais e econômicas muito particulares.
Ele lembrou que na região da fronteira oeste do Rio Grande do Sul, onde a cultura do arroz irrigado tem muita importância, menos de 20% da área presta-se para o cultivo, enquanto que Uruguai, mais de 90% das áreas são exploradas com produção pecuária. Segundo Taborda, a sustentabilidade dos recursos naturais é garantida pela intensificação da produção mediante manejo racional, introdução de espécies forrageiras de boa qualidade e fertilização fosfatada, que permitem atenuar a estacionalidade do campo nativo. Ele mostrou que a adoção do plantio direto, de uma boa drenagem e da inclusão de pastagens com leguminosas em uma rotação arroz-pecuária, aproximam o sistema a um novo equilíbrio sustentável.
Já o engenheiro agrônomo Ivo Mello relatou a experiência da Fazenda Cerro do Tigre, em Alegrete, RS, onde a iniciativa de adotar o sistema de plantio direto, além de pioneira na região, transformou-se na mais importante ferramenta de trabalho na busca e construção gradual da agricultura conservacionista. Com orgulho, Mello revela que há dez anos não são aplicados nem inseticidas e nem fungicidas, em 800 hectares cultivados anualmente com arroz irrigado, graças a adoção de práticas de manejo integrado de pragas por um período de 16 anos.
Ariovaldo Ceratti, da Associação dos Arrozeiros de Uruguaiana, RS, abordou a Certificação com o selo verde para o sistema plantio direto.
Nonô Pereira fala da importância do plantio direto
Relacionando o plantio direto e sua utilização na América Latina, o produtor referência mundial do sistema, Manoel Henrique Pereira, falou de sua adoção em nível de América Latina. A conferência aconteceu na manhã do dia 15 de agosto, último dia do Congresso. Ele lembrou que alguns produtores foram chamados de inovadores, depois sonhadores e mais adiante de loucos ou fanáticos, mas que hoje são considerados os pioneiros na adoção de alternativas novas de fazer agricultura. Entre eles, Nonô Pereira citou no Brasil o agricultor Herbert Bartz; na Argentina, Rogério Fogante; no Chile, Carlos Crovetto; no Uruguai, Gélio Mazzilli e no Paraguai, Rudi Dressler. Segundo o conferencista, esses são os responsáveis do sistema hoje considerado uma revolução da agricultura das Américas nos últimos 30 anos.
Nonô Pereira disse que o sistema, como conseguia aumento de produção com menor custo, atraiu muitos produtores e o que se via eram médias de produção que atingiam níveis jamais esperados. Ele lembra que nesses 30 anos foram grandes os desafios e as limitações, mas que é maior o prazer de observar que em todo o mundo existe constante discussão sobre o plantio direto e maior número de adeptos. Nonô confirma aquilo que no mundo já é uma realidade, que o plantio direto é o melhor caminho para preservar a água, o solo, a fauna e a flora.
Obra que aborda a vida de Nonô Pereira foi lançada duranteo II Congresso Mundial
O livro ”Nonô Pereira, 25 anos plantando na palha”, de autoria do Engenheiro Agrônomo Gilberto de Oliveira Borges, fundador e editor da Revista Plantio Direto, falecido em agosto de 2002, publicado pela Aldeia Norte Editora com o apoio das Empresas Monsanto e Semeato, foi lançado durante a abertura do II Congresso Mundial de Agricultura Conservacionista, em Foz do Iguaçu-PR, no dia 11 de agosto.
A obra aborda a trajetória de Manoel Henrique Pereira nos 25 anos de prática e defesa do Sistema Plantio Direto no Brasil e América Latina. O texto somado ao riquíssimo acervo de imagens de Nonô Pereira, tornou-se um documento que registra o desenvolvimento do sistema, pois trata dos principais acontecimentos envolvendo pessoas, instituições e empresas que fizeram parte da história de Nonô Pereira.
Na cerimônia de lançamento, Manoel Henrique Pereira recebeu das mãos do Vice-governador e Secretário da Agricultura do Estado do Paraná, Orlando Pessuti o primeiro exemplar da publicação.
Documento sugere ações a serem adotadas em nível mundial
No encerramento do II Congresso Mundial sobre Agricultura Conservacionista comprovando a expectativa de que este seria um fórum para discutir, trocar experiências e agregar aos conhecimentos e informações obtidas em nível mundial, novas oportunidades de atuar em sintonia com o meio-ambiente, preservando os recursos naturais do planeta.
Na conclusão dos trabalhos, representantes das seguintes entidades e organizações internacionais e brasileiras: José Benites e John Dixon - FAO; Christian Pieri - Consultor SLM; Ivo Mello e Manoel Henrique Pereira - FEBRAPDP; Roberto Peiretti - CAAPAS; Eric Scopel e Francis Forest - CIRAD; John Landers - APDC; Ademir Calegari - IAPAR; Waldo Espinoza - IICA; Gláucio Roloff - UFPR; Armando Martinez Vilella e Luís Garcia Torres - ECAF; Martin Bwalya - ACT Zimbabwe- África; Mushtaq Gill - Paquistão Ásia; Patrick Wall e R. K. Gupta -CIMMYT; Des McGarry - Austrália; Don Reicosky - USDA/ARS; Julian Dumanski - Canadá, coordenados pelo Dr. Benami Bacaltchuk, conselheiro da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha e representante da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - EMBRAPA, discutiram as propostas colocadas e concluíram pelo documento ”Declaração do II Congresso Mundial sobre Agricultura Conservacionista” aprovado por todos os participantes (disponível no site www.febrapdp. org.br). Este documento será encaminhado a todas as autoridades envolvidas com o tema, a nível global.
Dados para referência bibliográfica: Revista Plantio Direto, edição nº 77, setembro/outubro de 2003.