Marcas (Editorial — sobre o legado e os exemplos)


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Publicado em: 01/10/2003

Marcas

Não importa quanto tempo vivemos, o mais importante são as marcas que deixamos. É necessário fazer planos e realizar projetos, sermos úteis e importantes, não em titulações ou cargos, mas em exemplos. Nossa existência é muito breve para que passemos por ela sem deixar algo que possa servir de forma positiva aos que ficam.

Há um ano perdemos nosso mestre, amigo e companheiro de todos os momentos. Pouco antes de completar 365 dias de sua ausência física, lançamos um documento que registra parte da história a qual ele estava intensamente ligado. Durante o II Congresso Mundial Sobre Agricultura Conservacionista, realizado em agosto, entregamos a Manoel Henrique Pereira, através da Aldeia Norte Editora, o registro de sua trajetória durante 25 anos de prática, defesa e desenvolvimento do plantio direto. O livro ”Nonô Pereira – 25 anos plantando na palha”, escrito por Gilberto Borges, representa para todos os que estão ligados a essa agricultura racional, o meio de continuar tendo acesso a uma fração da história do plantio direto e seus personagens.

Com seu último trabalho em mãos, sentimos que a saudade é compartilhada e que nosso vazio também está em muitas pessoas que conviveram com Gilberto. Ao completar um ano de sua partida recebemos várias mensagens, porém uma conseguiu definir com extrema clareza seu perfil. O texto reproduzido a seguir faz parte da carta que recebemos de Henrique Guerra, engenheiro agrônomo, de Carazinho-RS, assinante da Revista Plantio Direto há vários anos.

”Gilberto Borges foi, antes de tudo, uma pessoa convicta e apaixonada. Com bravura abraçou e dedicou sua vida a uma causa. Uma agricultura permanente e sustentável, com palha e sem erosão. Uma agricultura em que a preocupação com a natureza caminhasse lado a lado com a melhoria da produtividade. Uma agricultura que seqüestrasse o carbono e limpasse os rios. Uma agricultura baseada na vida, na utilização de coberturas verdes, na rotação de culturas, no aumento da matéria orgânica, na melhoria física do solo. O Sistema Plantio Direto.

Gilberto de forma humilde e persistente ajudou a contar (e a construir) parte da história do plantio direto no Brasil, através das publicações de sua Editora, Aldeia Norte, e da organização e promoção de eventos relacionados ao SPD.

Incansável batalhador e idealista, Gilberto tinha, como editor da Revista Plantio Direto, o objetivo de não ver mais terras lavradas, não ver mais a riqueza de nossos solos ser levada pela água da chuva. Nesse mister cultivou amigos por todo o Brasil e América Latina. Seus únicos inimigos, em toda vida dedicada ao trabalho, foram os arados, os jumbos e as grades.

Com o plantio direto já propagado e utilizado por quase todos, nunca deixou de procurar novos temas e novos desafios. Cada evento era pautado pela competência na escolha dos palestrantes, o equilíbrio entre diversos tópicos e a mediação bem humorada. Se ocorresse um problema com o computador, enquanto a equipe solucionava, lá vinha o Gilberto entreter a platéia com seu vasto repertório de piadas, contadas em um timing perfeito.

Com pesar lembramos que há um ano Gilberto despediu-se prematuramente. Mas com satisfação vemos que o seu exemplo de dinamismo e esperança, de paixão e devoção a um ideal não foi em vão”.

A nós, nesse momento, cabe agradecer o incentivo que recebemos sempre que encontramos pessoas que conheceram, souberam entender e reconhecer o trabalho (as marcas) que o Engenheiro Agrônomo Gilberto Borges desenvolveu durante a vida.

Juliane Borges