De Olho no Pacífico (Clima)


Autores:
Publicado em: 01/08/2003

De olho no Pacífico

Gilberto R. CunhaAgrometeorologista da Embrapa Trigo e membro do Conselho Consultivo da Revista Plantio Direto

Quando os veículos de comunicação divulgam que um evento El Niño ou La Niña poderá ocorrer nos próximos meses, cria-se um ambiente de preocupação e de expectativa, no sul do Brasil. Pelo menos, para aqueles que trabalham em atividades sensíveis às anomalias climáticas extremas; por exemplo, em agricultura. O objetivo deste artigo é fazer uma série de esclarecimentos sobre o fenômeno El Niño-Oscilação do Sul e seus impactos no clima e na agricultura da Região Sul, além de orientar o uso da informação disponível para reduzir os riscos associados e otimizar o aproveitamento das condições climáticas favoráveis, quando for o caso. Também serão destacados alguns aspectos observados no Oceano Pacífico, durante o primeiro semestre de 2003.

Para o sul do Brasil, um dos principais sinais de variabilidade climática estacional e interanual, atualmente conhecido, é o fenômeno El Niño – Oscilação do Sul (ENOS), que está relacionado com as anomalias de temperatura da superfície das águas do Oceano Pacífico tropical junto à costa oeste da América do Sul. Por serem as anomalias de temperatura da superfície do mar (ATSM) no Oceano Pacífico equatorial leste os indicadores de El Niño (+) e La Niña (-), é dada grande ênfase à previsão de ATSM. Nesse particular, a grande dúvida, diante de alertas preliminares que indicam a possibilidade de configuração de um evento ENOS, diz respeito a: (1) El Niño ou La Niña; (2) Impactos no clima do sul do Brasil e (3) Conseqüências para as culturas.

Como agir diante de uma previsão de um evento ENOS? Eis uma questão importante, pois se há uma coisa que não se pode negar é o valor dos alertas antecipados do surgimento de um evento ENOS, El Niño ou La Niña, e suas possíveis anomalias climáticas, para aquelas regiões do mundo vulneráveis ao fenômeno. É um tipo de informação, amplamente disseminada nos veículos de comunicação de massa, que, para ser de fato útil, necessita de uma correta interpretação por parte dos usuários, antes da tomada de qualquer decisão importante envolvendo a mesma.

Diante da divulgação de um evento El Niño/La Niña nos diversos segmentos de mídia (jornal, rádio, televisão e Internet, por exemplo), as pessoas reagem de forma diferente. Algumas reações, seguramente, podem ser consideradas corretas e outras totalmente erradas. Vejamos, qual a melhor forma de comportamento frente a uma previsão de El Niño/La Niña, principalmente quando entra em jogo a agricultura brasileira.

Certo:

 procurar informar-se sobre o que é o fenômeno El Niño/La Niña; saber quando ocorreu nos últimos tempos; tomar conhecimento sobre os tipos de condições climáticas e eventos meteorológicos extremos que ocorreram na sua região durante os eventos anteriores; ter claro como foi afetado pelo último El Niño/La Niña; discutir com amigos e colegas de profissão os possíveis impactos do El Niño/La Niña nas diferentes estações (épocas) do ano; dominar alternativas de resposta para os possíveis impactos climáticos; identificar as alternativas de reação que pode fazer sozinho e com meios próprios; listar as alternativas de reação para as quais depende de auxílio de terceiros (privado ou governamental); esperar, sempre, por atualizações futuras (algumas semanas) do progresso do El Niño/La Niña. Se basear em informações dos serviços meteorológicos. No caso do Brasil, ficar atento aos boletins do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE), que podem ser acessados via Internet nos endereços http://www.inmet.gov.br e http://www.cptec.inpe.br; respectivamente.

Errado:

 ignorar; entrar em pânico; vender a casa, a propriedade rural e se desfazer de todos os bens na região; acompanhar o monitoramento do El Niño/La Niña, de forma obsessiva, todos os dias; acreditar em tudo que ouve falar sobre El Niño/La Niña.

Situação no Pacífico em 2003

A bem da verdade tem de ser dita, as coisas andam meio confusas lá pras bandas do Pacífico. Uma passada de olhos pelos boletins do Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos (Climate Prediction Center) possibilita uma idéia dos fatos. É o que faremos a seguir, analisando os principais destaques das últimas cinco edições do boletim El Niño/Southern Oscillation (ENSO) Diagnostic Discussion. Especificamente as versões liberadas na página Web do Climate Prediction Center (http://www.cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/enso_advisory/) em 6 de março, 10 de abril, 19 de maio, 12 de junho e 10 de julho de 2003; com especial deferência para esta última.

Começando com a edição do El Niño/Southern Oscillation (ENSO) Diagnostic Discussion de 6 de março. Nela foi salientada a continuidade do enfraquecimento do El Niño, que, conforme observações, já vinha ocorrendo desde dezembro de 2002. A evolução no Oceano Pacífico era típica da fase de declínio dos episódios quentes (El Niño). Projetava-se a continuidade do enfraquecimento do El Niño e a previsão de consenso sinalizava uma condição próxima do normal entre abril e outubro. Previsões individuais indicavam de tudo: desde El Niño fraco até La Niña no segundo semestre de 2003. E mais: o resfriamento do Pacífico equatorial leste avalizava a possibilidade de desenvolvimento de La Niña no final do ano.

Seguindo com o boletim de 10 de abril: repetiu-se o destaque para o enfraquecimento do El Niño 2002-2003, caracterizando-o como um evento de intensidade moderada. Consistente com as observações, as previsões eram de condição próxima do normal até setembro. Também foi dado destaque à incerteza das previsões, com alguns modelos indicando a continuidade de um El Niño fraco e outros o desenvolvimento de La Niña no decorrer do segundo semestre deste ano.

A edição de 19 de maio foi taxativa: as condições de El Niño se dissiparam rapidamente no Pacífico tropical durante março e abril. Também salientava que a tendência observada nas variáveis oceânicas e atmosféricas indicava que uma transição para La Niña estava ocorrendo, com possibilidade de desenvolvimento desse tipo de evento nos próximos meses. Os modelos mostravam grande dispersão nas previsões, indo desde La Niña até o ressurgimento de El Niño. Contudo, frisava, com base nas observações, que parecia mais provável o desenvolvimento de um episódio frio (La Niña).

O boletim de 12 de junho começava enfatizando que as condições oceânicas e atmosféricas no Oceano Pacífico tropical durante o mês de maio foram consistentes com o desenvolvimento de um episódio frio (La Niña). E repetia o destaque do mês anterior: transição para e possibilidade de desenvolvimento de La Niña nos próximos meses. As previsões indicavam ou uma condição próxima da neutralidade ou de La Niña para a segunda metade de 2003. E ainda: as condições atuais e tendências recentes favoreciam o desenvolvimento de um episódio frio.

Finalmente, chegamos ao El Niño/Southern Oscillation (ENSO) Diagnostic Discussion de 10 de julho de 2003 (mais recente) e, não deixa de ser surpreendente, o destaque é este: as condições atmosféricas e oceânicas atuais não suportam o desenvolvimento de La Niña nos próximos meses. São consideráveis as incertezas, mas a maioria dos modelos indica como mais provável uma condição próxima da neutralidade durante o segundo semestre de 2003.

Portanto, cabe a indagação: muda alguma coisa para a agricultura do Sul do Brasil, considerando a versão de 10 de julho do boletim do Climate Predicition Center frente as edições anteirores? Resposta: muda, mas não muito. Primeiro: permanece a perspectiva de uma condição climática menos adversa do que na safra passada para os cereais de inverno (trigo, cevada, aveia branca, triticale etc.). Não há El Niño, com isso a primavera não deverá ser tão chuvosa quanto em 2002. Segundo: para as culturas de verão (milho, soja etc.) melhora a perspectiva, particularmente para as áreas mais suscetíveis aos impactos de redução de chuvas em anos de La Niña.

Considerações Finais

Excessos de chuva e estiagens no período de primavera-verão não são raros no sul do Brasil. Algumas vezes estão relacionados com os fenômenos El Niño e La Niña, em outras não.

Para a agricultura do sul do Brasil, destaca-se que tanto El Niño como La Niña não causam exclusivamente prejuízos. Nos anos de El Niño, por não faltar água no período de primavera-verão, em geral, as culturas de verão (soja e milho, particularmente) são beneficiadas. E, nos anos de La Niña, as favorecidas são as de inverno. O exemplo típico é a cultura de trigo. Pois, os anos de La Niña são caracterizados por primavera seca. E esse tipo de condição meteorológica é favorável porque diminui a ocorrência de doenças da espiga e melhora as caraterísticas de qualidade do grão (PH). Por outro lado, estiagens, que não são exclusividade de La Niña; exemplo a de 1990/91, causam sérios problemas às culturas de verão.

Cabe salientar que os eventos ENSO (El Niño e La Niña) não se repetem exatamente iguais. Os impactos nas condições meteorológicas vão depender da intensidade dos eventos. Por isso, os reflexos na agricultura sul-brasileira podem diferir entre as ocorrências dos episódios El Niño ou La Niña.

Cumpre destacar ainda que previsões meteorológicas perfeitas não existem e ”provavelmente” nunca existirão. De qualquer forma, usar previsões como suporte à tomada de decisões em agricultura é mudar completamente um enfoque de incerteza e passar a trabalhar em um ambiente com riscos quantificados.

Por último, vale lembrar que os previsores apenas fazem previsões, decidir cabe aos tomadores de decisão. E para esses últimos, informações de qualidade são fundamentais.

Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição nº 76, Julho/Agosto de 2003. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.