Ciclos de preços e prospecções sobre o mercado da soja, milho, trigo e algodão
Flávio Renato GassenEng.-agr., mestrando em economia/UFRGS; Supervisor Técnico da Cooplantio PR/SC e HFE-mail: flavio@agri.com.br
SOJA
O período de safra encerrou sua fase de pressão negativa nos preços da soja registrando perdas acumuladas de 33% nos valores reais (deflacionado pelo IGP-M) desde novembro 2002. Por outro lado, o ciclo de alta acumulou ganhos de 85% de maio a outubro de 2002, superando o pico de alta registrado no final de 1998, considerando os preços em reais deflacionados (R$). Com os mesmos preços dolarizados e deflacionados pelo índice de preços ao consumidor dos EUA (Consumer Price Index), os ganhos atingiram 37% de maio a novembro/2002.
A projeção da produção mundial de soja para a safra 2003/04 é de 207,5 milhões de toneladas, representando aumento de aproximadamente 6% em relação ao estimado de 195,8 milhões de toneladas para a safra 2002/03, conforme relatório de julho do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA). Produção recorde anual é naturalmente esperada, pois o aumento do consumo mundial do grão cresce cerca de 7,6 milhões de toneladas ao ano e este deveria ser acompanhado pela oferta que, no entanto, supera o consumo e registra crescimento de 8 milhões de toneladas ao ano, considerando média da série a partir da safra 1991/92. Este excedente é responsável pelo aumento dos estoques internacionais e fomenta o comportamento de ”manada” do produtor que responde aos ciclos dos preços do grão com a alteração na área de plantio, priorizando culturas substitutas. No caso da soja, desde 1972 os ciclos variaram de 20 a 38 meses e o ciclo presente registrou picos de ganhos no final de 2002, apontando para uma fase de baixa na safra 2003/04 (figura 2). A capacidade da cultura da soja em produzir quantidade acima do consumo leva a recorrentes ciclos de excessos e déficits de oferta provocados pelo comportamento de defesa do produtor contra os preços muito baixos ou elevados.
O USDA revisou os índices dos seus relatórios referentes ao complexo-soja desde 1991/92, levando a alterações na relação estoque/consumo neste período, e elevou esta estimativa de 17,4% para 18,1% na safra 2002/03 e projeção de 19,6% para a safra 2003/04. Os preços internacionais da soja apresentam estreita correlação com o percentual de consumo sobre seu potencial de oferta. Conforme a figura 2, mesmo com a manutenção em patamares históricos baixos no uso do grão, os preços apresentaram aumento significativo a partir da safra 2000/01.
A estimativa do USDA para os preços pagos ao produtor dos EUA para a safra 2002/03 é de US$ 12,13 /60kg (US$ 5,50 /bushel) e para a safra atual (2003/04) as projeções apontam para o intervalo de US$ 9,59 a US$ 11,79 /60kg (US$ 4,35 a US$ 5,35 /bushel), ou seja, uma média de US$ 10,69 /60kg (US$ 4,85 /bushel). A projeção citada refere-se ao relatório publicado em julho/2003, sendo que o relatório de junho apontava para uma média superior, US$ 10,91 /60kg (US$ 4,95 /bushel). Neste mesmo relatório de junho, havia uma estimativa de aumento da taxa de uso do grão, mas o relatório de julho inverteu esta tendência e o reduziu para 80,4% (equivalente a 19,6% na relação estoque/consumo) na projeção para a safra 2003/04, a mais baixa conforme a série da figura 2. Sendo assim, é razoável a projeção de queda nos preços internacionais do grão para patamares de US$ 10,69 /sc nos EUA, conforme USDA, e cerca de US$ 10,00/sc no Brasil (PR). Vale ressaltar que houve uma variabilidade significativa na correlação dos preços internacionais da soja quando o percentual de uso do total de grão disponível esteve entre 81 e 83%, mas isto ocorreu em anos recentes onde a commodity foi utilizada pelos fundos como aplicação segura em meio às crises internacionais e depreciação do dólar norte-americano. Em tempos de paz e assimilação do Euro como opção ao investimento em dólar, as commodities deixam de ter a função de garantia e retornam às suas cotações proporcionais à demanda, como espera-se para o ano safra 2003/04.
Sendo assim, mesmo que a safra atual dos EUA seja somente razoável e não alcance a produção esperada de 78,5 milhões de toneladas, os preços tendem a baixar pois a elevação dos mesmos superou o incremento no estoque e os operadores do mercado internacional estão cientes disso e com a expectativa da confirmação dos números apresentados pelo USDA.
Na projeção mundial está considerada o aumento da safra brasileira e da Argentina, com 56 e 37 milhões de toneladas, respectivamente.
MILHO
A produção mundial de milho está projetada em 625,6 milhões de toneladas para 2003/04, representando aumento significativo em relação a estimativa do USDA de 599 milhões de toneladas da safra 2002/03. No entanto, apesar destes índices favoráveis na produção, o consumo mundial esperado está na ordem de 636,9 milhões de toneladas para 2003/04. Ao contrário da soja, desde a safra 1999/00 o consumo supera a produção, causando drástica redução nos níveis de estoque, sendo que no período de 1991/92 a 2000/01 o estoque mundial representava cerca de 26% do consumo, declinando acentuadamente desde então e com projeção de 13,4% para a safra 2003/04 contra 15,4% na estimativa da safra 2002/03.
No mercado interno, a estimativa de produção da safra 2002/03 é de aproximadamente 45,8 milhões de toneladas (CONAB), contra demanda de somente 37,5 milhões de toneladas. O desempenho da safra atual representa incremento de 30% em relação a anterior onde a Região Sul participa com 48% do total, ou seja, 22 milhões de toneladas e com produtividade média de 4.475 kg/ha, superando em 26,6% a produtividade nacional que foi de 3.534 kg/ha.
Já para 2003/04, o USDA projeta a safra brasileira em 37,5 milhões de toneladas, equiparando-se ao consumo de 2002/03 e gerando conseqüente pressão de alta nos preços para a safra seguinte. No entanto, considerando a safra atual de 48,5 milhões de toneladas, os números do USDA terão obrigatoriamente ajustes no próximo relatório e provavelmente ficarão pouco acima de 40 milhões de toneladas e equiparando-se ao consumo.
Nos preços domésticos, o milho seguiu trajetória de queda, conforme a figura 4, onde a rentabilidade do ativo milho registrou perda de 40% nos seus preços reais de janeiro a julho de 2003. Este comportamento no preço do milho é cíclico e acompanha a forte variabilidade na oferta do grão, pois a demanda registra crescimento estável. O produtor atende sua expectativa de preço futuro considerando os preços obtidos na safra anterior. Esta estratégia na tomada de decisão sobre área de plantio provoca forte movimento de ”manada”, resultando em ciclos de ganhos/perdas com periodicidade de 24 meses. Considerando que o regime é de 2 anos e separando os preços praticados em anos pares e ímpares nota-se que os melhores preços dos anos ímpares são aproximadamente iguais aos piores preços dos anos pares (figura 3).
Convertendo a variação nos preços em rentabilidade, o investimento no ativo milho registra perda real entre 30 e 40% num período aproximado de 4 meses e o recupera parcialmente no período seguinte de 20 meses (figura 4). O movimento do patamar de preço mais baixo ao mais alto representa uma variação de 33% considerando o período desde a implantação do Real. A importância nesta análise é fundamental pois indica a tolerância do mercado quanto aos ganhos e a tomada de decisão de sua entrada como comprador. Esta tolerância de 33% é confirmada quando a análise é realizada com os preços dolarizados (ver edição 75 da Revista Plantio Direto). A forte elevação na taxa de rentabilidade observada no segundo semestre de 2002 (acima da linha tracejada) é justificada pela desvalorização cambial do real e vale observar que mesmo com os baixos preços atuais ainda não foi atingida a linha tracejada inferior.
TRIGO
O pico de alta nos preços do trigo coincidiu com os da soja e do milho no final de 2002, sendo que o trigo registrou perdas no seu valor (R$ deflacionado) de 30% de novembro/2002 a julho/2003, mas com ligeiro ganho em dólar. Por outro lado, o produtor dos EUA acumulou perdas reais (deflacionado pelo CPI) de 30% no mesmo período, descolando da curva de rentabilidade do trigo paranaense e do RS (figura 6). No cenário mundial, a produção de trigo atingiu o pico de 609,3 milhões de toneladas na safra 1997/98 (USDA) e registra queda desde então, com estimativa de 563,8 milhões de toneladas para 2002/03 e projeção de 560,3 milhões de toneladas para 2003/04. Quanto ao consumo, este manteve-se estável em aproximadamente 587 milhões de toneladas no mesmo período, com projeção de 584 milhões de toneladas para 2003/04. O declínio da produção e manutenção no consumo reduziu drasticamente o estoque mundial, que está estimado em 164,1 milhões de toneladas em 2002/03 e projeção de 140,3 milhões de toneladas para 2003/04, contra a média de 166 milhões de toneladas dos últimos 12 anos. A relação estoque/demanda mundial está projetada para 2003/04 em 24% contra a média de 29,5% desde a safra 1991/92 e pico de 35% na safra 2000/01 que coincidiu com os preços mais baixos desde 1994 (Figura 5, US$/60kg deflacionado pelo CPI). O preço pago ao produtor dos EUA caiu de US$ 9,60 /60kg em outubro/2002 para US$ 6,81 /60kg em junho/2003 (figura 5), representando perda real de 30% do ativo trigo nos EUA. Vale ressaltar que esta queda é sazonal em função da safra, no entanto, foi drástica ao considerar o baixo nível do estoque internacional. Para a safra 2003/04, a projeção dos preços pagos ao produtor dos EUA está entre US$ 6,17 e US$ 7,50 /60kg (US$ 2,80 e US$ 3,40 /bushel).
No mercado interno, há expectativa da produção atingir 4,54 milhões de toneladas, representando aumento de 56% em relação a safra anterior. Salienta-se que esta projeção tem por base a produtividade de 1.934 kg/ha, representando aumento de 36,2% sobre os 1.420 kg/ha da safra 2001/02, considerando condições climáticas favoráveis à cultura e aumento de 14,6% na área de plantio, segundo o 5o Levantamento de safra da CONAB publicado em julho/2003.
ALGODÃO
Os preços do algodão registraram forte alta no decorrer de 2002 até abril/2003, passando de cerca de 8 reais por arroba (com caroço) no Paraná para quase R$ 20,00 no final do período (figura 7). De fev/2002 a abril/2003 os ganhos em termos reais (deflacionado) acumularam cerca de 82%, tanto na moeda nacional como em dólar. Nos preços pagos ao produtor dos EUA, a alta atingiu o acumulado de 73% em período menor (maio/2002 a março/2003). Quanto ao indicador Cotlook Index ”A” de Liverpool, este acumulou ganhos menores, atingindo 49%. Esta recuperação resultou da redução na oferta causada pela queda na área plantada e na produtividade decorrente dos baixos preços internacionais que atingiram os patamares mais baixos dos últimos 30 anos registrado no final de 2001. A produção da China caiu cerca de 8%, passando de 5,3 para 4,9 milhões de toneladas e a dos EUA de 4,4 para 3,7 milhões de toneladas. Após atingir 21,4 milhões de toneladas na safra 2001/02, a maior produção mundial dos últimos 10 anos, a estimativa do USDA para a safra 2002/03 é de 19,1 milhões de toneladas e projeção de 20,6 milhões de toneladas para 2003/04. O consumo, por outro lado, segue pleno aclive passando de 20,6 milhões de toneladas na safra 2001/02, para 21,3 na estimativa da safra 2002/03 e 21,6 milhões de toneladas projetados para 2003/04. O estoque final mundial, conseqüentemente, acumula declínio acentuado desde 2001/02 representando 33,2% do consumo projetado para 2003/04, contra 37,8% na estimativa para 2002/03 e 50% na safra 2001/02. Os estoques chineses deverão cair para somente 40% da média do estoque registrado no período de 1997 a 1999. Há expectativa da China tornar-se o maior importador mundial de algodão com aumento de 80% em relação à 2001/02 nas suas importações.
No período recente, os preços internacionais do algodão registraram declínio de 4,7% em Liverpool e quase 8% de perdas ao produtor dos EUA, considerando dólar deflacionado. Nos preços pagos ao produtor do PR, na moeda nacional e deflacionado pelo IGP-M, as perdas acumularam 16% nos meses de maio a junho/2003, sendo salientado pela apreciação cambial do real em relação ao dólar. Portanto, os mesmos preços dolarizados acumularam somente 10,6% de perdas, mas superior ao constatado nos EUA. O índice Esalq/BMF registrou baixa acumulada de aproximadamente 2,5% em junho.