A Fertilidade do Solo é a Chave para o Aumento da Produtividade — Calagem e Adubação (Fertilidade — caminho, pastagens, arroz irrigado, recomendações técnicas)


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Publicado em: 01/06/2003

A fertilidade do solo é a chave para o aumento da produtividade

Calagem e adubação: o caminho da produtividade(SINDICALC - SIARGS)

A melhoria da fertilidade do solo, através da correta utilização de corretivos e fertilizantes, é apenas um dos fatores que determinam o sucesso da atividade agropecuária. Além desta prática, destacam-se as condições climáticas, os manejos adotados, as espécies cultivadas ou as criadas, as condições de mercado, entre outras.

A discussão e o aprofundamento do tema fertilidade é de grande importância, pois verificamos que no Estado do Rio Grande do Sul, cerca de 45% das análises de solo apresentam pH menor do que 5.5 (limite mínimo para o uso eficiente dos fertilizantes e desenvolvimento das principais culturas), 80% apresentam teores de fósforo abaixo dos níveis mínimos exigidos para uma boa produção e 40% dos solos também têm teores de potássio abaixo do mínimo necessário.

O ”Seminário Pró-agricultura: calagem e adubação, o caminho da produtividade”, realizado em Caçapava do Sul, ano passado, teve como objetivo aprofundar o assunto, com enfoque na adubação e calagem em pastagens e arroz irrigado, evento promovido pelo SINDICALC (Sindicato da Indústria de Calcário no RS) e SIARGS (Sindicato da Indústria de Adubos do Rio Grande do Sul), ao qual participaram cerca de 250 produtores rurais.

Com o objetivo de divulgar os resultados obtidos no seminário, realizou-se o presente trabalho que está divido em três partes, sendo que a primeira, apresenta uma abordagem sobre calagem e adubação de pastagens, a segunda sobre calagem e adubação na lavoura de arroz irrigado no Rio Grande do Sul e, a terceira apresenta os resultados dos depoimentos dos produtores que participaram do seminário.Calagem e adubação em pastagensEng. Agr. Dr. Luciano Colpo GatiboniFertilidade do Solo - UFSM gatiboni@uol.com.br.Eng. Agr. Dr. João Kaminski - Professor de Fertilidade do Solo da UFSMEng. Agr. Dr. Danilo S. Rheinheimer - Professor de Fertilidade do Solo da UFSM

As pastagens naturais do Rio Grande do Sul ocupam uma área de, aproximadamente, 10,5 milhões de hectares, o que representa em torno de 37% da área do Estado. Já para as pastagens cultivadas, uma estimativa da área é difícil porque são cultivos anuais e geralmente são utilizadas áreas no período de inverno, em sucessão a cultivos agrícolas de verão, como a soja e o milho. Estimativas do IBGE apontam para 1,2 milhões de hectares de pastagens cultivadas com aveia e azevém no RS. Assim, a utilização de pastagens no RS é principalmente de pastagens nativas. Embora estas existam em todas as regiões do Estado, as maiores extensões encontram-se nas regiões da Campanha, ao sudoeste do RS, na Depressão Central e nos Campos de Cima da Serra, no nordeste do RS.

A produtividade das pastagens naturais normalmente é satisfatória no período de primavera-verão, porém no inverno seu crescimento é paralisado pelas baixas temperaturas, o que acarreta em perda de peso dos animais sob pastejo e, assim, a produtividade anual nesse sistema é baixa. Para melhorar a rentabilidade de suas terras, o produtor deve tomar algumas decisões, que vão desde o aumento da produtividade da pastagem natural até a substituição por pastagens cultivadas, ou cultivo de grãos.

Uma estratégia que mantém as pastagens naturais, mas permite o aumento da sua produtividade e diminuição do período de carência de pasto no inverno, é o melhoramento do campo nativo através da adubação, calagem e introdução de espécies forrageiras de crescimento inverno-primaveril sobre o campo nativo. Com isto, no inverno haverá a produção de forragem das espécies introduzidas e no verão, após seu ciclo, haverá a produção da pastagem natural.

Para o melhoramento da pastagem são introduzidas, via plantio direto sobre a pastagem natural, gramíneas, como aveia e azevém, e leguminosas, como os trevos e cornichão. A utilização de consórcios forrageiros é importante porque as gramíneas aumentam a quantidade de forragem produzida e as leguminosas aumentam a qualidade da forragem, já que estas possuem altos teores de proteína. Porém, como estas espécies são exigentes em fertilidade do solo, é imprescindível a correção da acidez do solo pela adição de calcário e a melhoria da fertilidade pela adubação.

Em geral, os solos do RS, especialmente dos Campos de Cima da Serra, são muito ácidos, e a sua correção pela calagem é fundamental para o melhoramento do campo nativo, sobretudo quando da introdução de leguminosas forrageiras. Nas outras regiões, normalmente, as doses de calcário necessárias são menores, porém, indispensáveis.

A correção da acidez do solo pela calagem traz benefícios como: a) aumento da saturação com bases e da disponibilidade de nutrientes; b) aporte de cálcio e magnésio, nutrientes essenciais para as plantas; c) neutralização de elementos tóxicos como o alumínio e o manganês; d) aumento da atividade microbiana do solo; e) incremento da fixação biológica do nitrogênio pela simbiose das bactérias com leguminosas, ou mesmo de bactérias diazotróficas não simbiontes, aumentando a economia na adubação nitrogenada.

Em todas as regiões do Estado a adubação é indispensável, já que os solos sob pastagens naturais são muito pobres em nutrientes. A necessidade da adição de nutrientes dá-se pela alta exigência nutricional das espécies introduzidas, mas os efeitos da adubação também ocorrem na pastagem natural, aumentando a sua produtividade no verão. O nutriente que necessita o maior aporte é o fósforo, devido à deficiência generalizada nos solos do Rio Grande do Sul. Já para o potássio, não são necessárias grandes quantidades, pois os solos geralmente apresentam teores médios a altos. Embora sejam introduzidas leguminosas na pastagem, também é necessária a utilização de adubação nitrogenada, já que o nitrogênio fixado biologicamente pelas leguminosas não é suficiente para suprir as necessidades das gramíneas utilizadas no consórcio. A adubação com micronutrientes comumente não é necessária, pois as culturas não necessitam grandes quantidades e os solos, normalmente, apresentam teores suficientes.

Para o estabelecimento das quantidades de calcário e adubo necessárias para uma produtividade satisfatória da pastagem, sem o risco de adição de doses insuficientes ou desnecessárias, é imprescindível realizar a análise do solo. Pela interpretação da análise de solo, é possível estabelecer a quantidade de insumos a ser adicionada para obter o maior retorno econômico da pastagem.

Quando o melhoramento da pastagem é feito segundo as recomendações técnicas, é possível aumentar a produção anual de carne por hectare em três a quatro vezes, o que cobre perfeitamente os custos de implantação. Além disso, nos anos subseqüentes à implantação das espécies, pequenas doses de reposição de nutrientes são suficientes para a manutenção da produtividade da pastagem, aumentando ainda mais a lucratividade do sistema. Assim, o melhoramento da pastagem natural sem sua substituição, é uma alternativa que não tem custo muito elevado e que aumenta a produtividade sem a necessidade de modificações profundas do sistema de produção, sendo uma boa opção para incrementar a renda do produtor.Calagem e adubação na lavoura de arroz irrigadoEng. Agr. Dr. Leandro Souza da Silva - Prof. do Depto. de Solos da UFSM - e-mail: leandro@smail.ufsm.brO Estado do Rio Grande do Sul apresenta cerca de 20% de sua área (aproximadamente 5,4 milhões de ha) com solos de relevo plano e com má drenagem, denominados solos de várzea, propícios para o cultivo de arroz irrigado por inundação. A área cultivada no Estado no ano de 1999 (aproximadamente 1 milhão de ha) correspondeu a 26% da área cultivada no Brasil, mas os rendimentos médios superiores a 5,6 mil kg/ha resultaram em 48% da produção nacional de arroz, demonstrando a grande importância social e econômica desta cultura e o papel do Estado como fornecedor de um alimento básico para a população brasileira.

O aumento no rendimento do cultivo do arroz, assim como qualquer cultura, depende de vários fatores, tais como o clima (disponibilidade de água, temperatura, luminosidade), potencial genético das variedades, ocorrência de doenças, pragas ou invasoras e as condições de fertilidade do solo (disponibilidade de nutrientes e/ou toxidez de alguns elementos).

Com relação ao fator fertilidade do solo, a recomendação é a de que, inicialmente, para planejar a lavoura, o agricultor deve ter em mãos uma análise de solo representativa da área para que o técnico possa definir a quantidade de insumos necessários para se obter a melhor relação custo/benefício da calagem e da adubação. Para isso, o agricultor deve fazer uma correta amostragem do solo, obedecendo a critérios técnicos, enviar a amostra para um laboratório de análises de solos credenciado pela Rede Oficial de Laboratórios de Análises do Solo do RS e SC (ROLAS), e consultar um técnico habilitado que forneça as recomendações mais apropriadas.

A recomendação de aplicação de calcário é determinada pelo valor de pH do solo, que tem influência na toxidez de alumínio, manganês e ferro e na disponibilidade de muitos nutrientes, incluindo aqueles mais exigidos pelas culturas, como o fósforo, potássio, nitrogênio, cálcio e magnésio. Entretanto, o alagamento que se faz para a irrigação do arroz promove várias reações químicas e biológicas, cujo resultado final é, entre outros, a elevação do pH do solo, constituindo o fenômeno comumente denominado de ”auto-calagem”. Neste processo, que ocorre no período entre 15 e 30 dias após o alagamento, o pH se estabiliza entre 5,5 e 6,5, dependendo das características do solo. Como a inundação do solo promove efeitos sobre o pH semelhantes aos obtidos pela aplicação de calcário, existe uma idéia generalizada de que a calagem seria desnecessária para a cultura do arroz irrigado. Entretanto, a calagem para elevação do pH somente poderia ser plenamente dispensada em sistemas de cultivo onde o alagamento ocorre durante quase todo o ciclo do arroz (pré-germinado, transplante de mudas), pois a condição de pH elevado ocorre coincidentemente ao desenvolvimento do arroz.

No caso de sistemas em que o alagamento ocorre apenas 20 a 30 dias após a emergência das plantas (sistema convencional, plantio direto, cultivo mínimo), onde a planta permanece sob condições de cultivo de sequeiro até que as reações provocadas pelo alagamento elevem o pH do solo, a recomendação é que devem ser utilizados os critérios de tomada de decisão baseados na análise de solo, ou seja, recomendar aplicação de calcário quando o pH em água for menor que 5,5 e se houver presença de alumínio trocável. A dose a ser aplicada é determinada pelo índice SMP para elevar o pH do solo até 5,5.

Outros fatores também podem determinar a necessidade de aplicação de calcário, independente do sistema. Como o calcário dolomítico, que é fonte de cálcio e magnésio, os quais são nutrientes essenciais para o desenvolvimento das plantas, recomenda-se a sua aplicação quando os teores de Ca+Mg trocáveis no solo forem menores que 5,0 cmolc dm-3. Nestes casos, a recomendação é aplicar 1 t de calcário por hectare (considerando PRNT 100%). Outro fator importante, considerando que os efeitos benéficos do alagamento sobre o pH do solo só existem enquanto perdurarem as condições de solo alagado, sempre que o arroz irrigado for cultivado em rotação com culturas de sequeiro (milho, sorgo, soja, pastagens, etc...), deve-se fazer a correção da acidez do solo levando-se em consideração as necessidades da cultura mais exigente. Assim, deve-se consultar as recomendações específicas para estas culturas.

A adubação para o arroz irrigado também deve ser feita conforme resultado da análise de solo, para repor aqueles nutrientes que estão em quantidades limitantes às plantas, que dependem da fertilidade natural do solo. Em geral, as maiores necessidades de nutrientes são de nitrogênio, fósforo e potássio. O cálcio e o magnésio são fornecidos por ocasião da calagem, enquanto que a utilização dos micronutrientes não tem apresentado resposta econômica, segundo as pesquisas desenvolvidas até o momento em algumas regiões do RS. A recomendação das quantidades de nitrogênio, fósforo e potássio seguem os princípios determinados para as demais culturas. Entretanto, o manejo da aplicação dos adubos é que pode sofrer alterações em função do sistema de cultivo do arroz empregado, especialmente para o nitrogênio.

Para fósforo e potássio, no caso do plantio de arroz pré-germinado, os fertilizantes fosfatados e potássicos podem ser aplicados e incorporados com enxada rotativa ou com grade por ocasião da formação da lama ou, após o nivelamento da área, antes da semeadura. Aplicações de fósforo e potássio a lanço e após a semeadura têm sido realizadas para evitar o surgimento de algas que prejudicam o estabelecimento das plantas, mas a eficiência desta prática tem sido pouco avaliada. No sistema de semeadura em solo seco (convencional, cultivo mínimo, plantio direto), os fertilizantes devem ser aplicados por ocasião da semeadura. Entre as fontes de potássio disponíveis no mercado deve-se dar preferência ao cloreto de potássio devido à possibilidade de efeitos tóxicos decorrentes de processos de redução de enxofre a partir de sulfato de potássio.

Não se recomenda nitrogênio na semeadura para o sistema pré-germinado, porém, até 10 kg ha-1 de nitrogênio na base podem ser usados para o sistema convencional. O restante da dose de nitrogênio estabelecida, deve ser aplicada em cobertura, sendo que doses menores do que 50 kg ha-1 podem ser aplicadas em uma vez, por ocasião do início da diferenciação da panícula (IDP) ou ”ponto de algodão”. Doses maiores do que 50 kg ha-1 deverão ser aplicadas em duas vezes: metade no início do perfilhamento (aproximadamente na emissão da quarta folha) e a outra metade no IDP. As fontes de nitrogênio recomendadas para solo alagado são a amoniacal (como o sulfato de amônio) ou amídica (uréia). Entretanto, a uréia é a fonte normalmente mais barata e não oferece riscos de toxidez por formação de H2S a partir do enxofre. A primeira aplicação de nitrogênio pode ser feita sobre a lâmina de água, interrompendo sua circulação na lavoura, ou imediatamente antes da entrada de água para favorecer a incorporação do nitrogênio no perfil do solo e diminuir os custos de aplicação (via terrestre sobre o solo seco ao invés de aérea). Esta prática ainda vem sendo avaliada pela pesquisa, entretanto, para que a aplicação no solo seco seja viável tecnicamente, é necessária a aplicação do adubo nitrogenado o mais próximo possível da entrada de água (no máximo até 3 dias) a fim de evitar perdas significativas de nitrogênio por nitrificação/desnitrificação. A segunda aplicação inevitavelmente será sobre a lâmina de água.Produtores acreditam nas recomendações técnicasEng. Arg. MSc. Jairo André Schlindwein doutorando em fertilidade do solo na UFRGS

Ao final do seminário ”Pró-Agricultura”, realizado em Caçapava do Sul, os produtores responderam um questionário impresso, com perguntas relacionadas as atividades desenvolvidas nas propriedades e, sobre os temas discutidos durante o evento. Dentre os participantes, 103 preencheram o questionário, sendo que destes, 95 são produtores que exploram uma área total de 35.672 hectares. Dentre estes, 60,2% cultivam pastagens e 40,8% são produtores de arroz.

Abaixo estão descritas as opiniões dos participantes sobre as questões levantadas sobre calagem e adubação.

Pastagens

- Calagem em campo nativo - 35% responderam que fazem, pois acreditam que a mesma corrige a acidez, melhora o aproveitamento da adubação e a produtividade. Porém, 48,4% responderam que não usam calcário no campo nativo, pois possuem áreas arrendadas, faltam incentivos financeiros e ou informações das vantagens da prática.

- Calagem em pastagens cultivadas - 71% responderam que fazem, pois acreditam que melhora a qualidade e o rendimento das pastagens e, 19,4% responderam que não, pois faltam esclarecimentos técnicos sobre as vantagens da calagem.

- Adubação de correção ou manutenção em campo nativo - 19,4% responderam que fazem adubação em campo nativo, pois acreditam que melhora a qualidade e o rendimento das pastagens; porém, 56,5% responderam que não, pois acham que é alto o custo dos fertilizantes e tem dúvidas quanto à vantagem na relação benefício custo.

- Adubação de correção ou manutenção em pastagens cultivadas - 71% responderam que fazem, pois acreditam que melhora a qualidade e o rendimento e também para manter a fertilidade do solo; enquanto que, 17,7% responderam que não, devido a dificuldades econômicas e por acreditar que o gado repõe a fertilidade do solo no esterco.

Arroz irrigado

- Calagem na cultura do arroz - 69% responderam que fazem a calagem na lavoura de arroz, pois acreditam que a mesma diminui a acidez do solo, diminui a toxidez de ferro, melhora o aproveitamento dos nutrientes, aumenta a disponibilidade de cálcio e magnésio, melhora a qualidade dos grãos e aumenta o rendimento das culturas. Porém, 31% responderam que não utilizam calcário, pois acreditam que o arroz irrigado não precisa de calcário, o teor de alumínio no solo é baixo, o custo da calagem é alto e usam adubos eficientes para solos ácidos.

- Adubação de correção ou manutenção na cultura do arroz - 93% responderam que fazem, pois acreditam que aumenta a produtividade e produção e, que também repõe o que as plantas extraem do solo; porém, 4,8% responderam que não, com a justificativa de que a análise do solo não recomenda.

Recomendações Técnicas

- Quando questionados se acreditam ou não nas recomendações técnicas - 96,1% responderam que acreditam nas recomendações, pois elas baseiam-se em experimentos práticos e em anos de pesquisa. Além disso, afirmaram que através das recomendações, foi possível aumentar a produção com economia e eficiência. E ainda, verificou-se que os produtores confiam nos órgãos de pesquisa e nos técnicos.

Analisando os dados dos depoimentos feitos pelos produtores, pode-se chegar a duas conclusões. A primeira, de que existem algumas contradições nas respostas, somadas a realidade da fertilidade do solo e rendimento das culturas no RS. A segunda, de que o seminário foi positivo e os produtores saíram convencidos da importância das técnicas e vão, no futuro, tomar as atitudes que são recomendadas pela pesquisa.

Uma das contradições, é o fato de 96,1% dos produtores acreditarem nas recomendações técnicas mas, 48,4 e 31% não fazem a calagem em campos nativos e na cultura do arroz respectivamente. Certamente, alguns produtores podem possuir áreas que não necessitam a aplicação e outros apresentam justificativas, tais como: ”faltam incentivos financeiros”, ”possuem áreas arrendadas”, ”faltam informações das vantagens da calagem”, ”o custo da calagem é alto”, entre outros. Porém, já faz um bom tempo que os resultados de pesquisas e os técnicos, demonstram que esta prática é recomendada, viável e com retorno econômico.

O que falta talvez, é uma maior convicção para o produtor destas vantagens e, isto só pode ser conseguido com um trabalho técnico mais atuante, qualificado, permanente e em parceria com o produtor. E isso pode ser feito através de áreas para validação de tecnologias, por exemplo, áreas demonstrativas, onde o produtor pode acompanhar os trabalhos e discutir os resultados com os técnicos ou com a pesquisa. Se o produtor tiver convicção das vantagens, ele pode buscar os recursos financeiros disponíveis e/ou negociar com os proprietários das áreas arrendadas, pois ambos podem ganhar com o investimento em calagem e adubação.

Outra contradição é sobre a fertilidade do solo no RS, que de um total de mais de 280.000 análises de solo avaliadas no ano de 2000, verificou-se que 45% tem pH inferior a 5,5, ou seja, tecnicamente precisam de calagem (Figura 1). No município de Pelotas, onde predomina a pecuária de corte e a orizicultura, que são atividades representativas da região da metade sul do estado, o problema pode ser mais grave ainda, onde mais de 1400 análises de solo, aproximadamente 70% apresentaram pH inferior a 5,5 (Figura 2).

Quando o pH do solo for inferior a 5,5, pode ocorrer problemas de toxidez de alumínio, manganês e ferro às plantas, menor capacidade de troca de cátions do solo, menor disponibilidade de muitos nutrientes, especialmente do fósforo (um dos mais caros e com maiores problemas de deficiência às plantas e eficiência de utilização), menor atividade microbiológica do solo, responsável pela reciclagem de nutrientes, menor fixação biológica do nitrogênio (feito pelas leguminosas, importantes na alimentação do gado). Quando o pH for menor do que 5,5, geralmente os nutrientes básicos como o cálcio e o magnésio estão em teores inferiores aos que as plantas necessitam para o melhor crescimento. Na verdade, a calagem é a primeira prática que o produtor deve fazer, por propiciar uma série de vantagens, especialmente na eficiência da adubação fosfatada.

Esses problemas de fertilidade do solo, tanto de pH, como de fósforo e potássio, verificados nas Figura 1 e 2, podem explicar, em parte, as baixas produtividades médias das culturas no RS (Figura 3). Por outro lado, ao verificarmos as Figuras 1 e 2, observamos que, certamente, existem muitos solos com faixas de fertilidade suficiente e alta. Esses solos de maior fertilidade podem ser daqueles produtores mais tecnificados e, com bons rendimentos, encontrando-se acima do rendimento médio das culturas no RS.

Estas considerações a respeito do manejo da fertilidade do solo no RS, juntamente com os depoimentos dos produtores, são de extrema importância para governantes, entidades de ensino, pesquisa e extensão, para a sociedade em geral e especialmente para os produtores, pois são estes, que de fato utilizam as tecnologias de produção e, que são responsáveis pela produção primária de alimentos. Todos devem trabalhar em conjunto, para aprimorar a fertilidade do solo e aumentar o rendimento das culturas.

Para os técnicos cabe um papel importantíssimo, o de reavaliar as metodologias de como as pesquisas e as recomendações técnicas estão sendo transmitidas aos produtores, como elas estão sendo executadas e quais as respostas que elas estão produzindo. Este acompanhamento do antes, durante e depois é fundamental para melhorar ou consolidar uma tecnologia.

Dados para referências bibliográficas

Revista Plantio Direto, Ano XII, edição número 75, maio/junho de 2003, Aldeia Norte Editora Ltda, Passo Fundo, RS.