Ciclos de preços, tendências e rentabilidade da soja e milho
Flávio GassenEng.-agr.; Mestrando em economia/UFRGS; Supervisor Técnico da Cooplantio PR, SC e HF
SOJAOs preços da soja registraram forte queda nos últimos meses no mercado interno, pressionado pela colheita indicando safra recorde e valorização do real frente ao dólar (fig. 2). Este declínio está dentro da normalidade para período de safra, quando comparados os mesmos períodos nos preços dolarizados (figura 1). A expectativa de safra recorde é natural para uma crescente demanda mundial e economia exportadora do grão, como o Brasil, e somente produção total acima ou abaixo do crescimento natural esperado seria responsável pelas variações nos ciclos não sazonais dos preços. Em levantamento realizado desde 1975, o preço real da soja no Paraná, ou seja, o valor do grão, registra queda no longo prazo de cerca de 2,9% ao ano, contra aumento de 1,97% na produtividade das lavouras. Isto salienta a necessidade de termos safras recordes todos os anos para mantermos a capacidade de geração de riqueza da terra.
Na figura 3 estão representados os preços médios anuais pagos ao produtor dos Estados Unidos e paranaense com sua respectiva participação do estoque de passagem em relação à demanda mundial.
Historicamente, os preços pagos ao produtor brasileiro situam-se cerca de 1 dólar abaixo do pago aos produtores dos EUA, mas acompanham rigorosamente a dinâmica do mercado internacional. A soja é a commodity não-mineral com mercado mais organizado e de rápida movimentação no cenário internacional e de grande sensibilidade à variação nos seus estoques. A participação dos estoques no consumo total mundial é o indicador de sensibilidade deste mercado, cujo índice é representado pela lei da oferta e demanda. O dinamismo da economia norte-americana está determinando o ritmo da economia internacional e indica queda sucessiva na relação estoque/demanda da soja anualmente. Em meados da década de 80, a participação do estoque do grão no mercado interno dos EUA atingiu cerca de 30% e desde então registra queda. A abertura da economia Russa e Chinesa possibilitou a redução do nível de estoque do produto que garante estabilidade nos preços, para patamares mais baixos. Na figura 3 está evidente a elevada correlação da relação estoque/demanda na formação dos preços da soja, onde aumento neste percentual pressiona negativamente e redução o faz positivamente. Exemplificando, a queda da relação estoque/demanda mundial da safra 94/95 de 9,8% para 5,1% na safra 96/97 promoveu o aumento dos preços médios no Paraná de US$ 10,58/sc para US$ 15,97/sc. A partir daquela safra, a disponibilidade do grão em relação a demanda aumentou para patamares acima de 16% e conseqüente queda dos preços para cerca de 9,5 dólares por saca. Com base na elevada correlação deste índice com a formação dos preços é possível projetar o preço médio para 2003 na ordem de 11 dólares por saca. Esta projeção considera condições normais, da mesma forma que foi projetada a relação estoque/demanda mundial, sendo fundamentos do mercado internacional da soja e passíveis de pressões de um cenário futuro incerto, mas com limitações de variação próximas a US$ 11,00/sc.
O acompanhamento dos preços do mercado interno na moeda nacional ou até mesmo dolarizados, não representam o valor do grão, pois é ignorada a perda do valor da moeda, tanto em R$ como em US$. Sendo assim, a figura 4 representa a taxa de rentabilidade financeira da soja, utilizando os preços dolarizados deflacionados pela inflação dos EUA (CPI Consumer Price Index) e em R$ extraindo-se o índice IGP-M, ou seja, a variação mensal à taxas reais. As variações nas taxas de rentabilidade da figura 4 são válidas para qualquer região no país, pois os diferentes patamares de preços praticados no Brasil variam proporcionalmente.
A partir do final de 1997, a soja iniciou outro ciclo de preços registrando perdas de aproximadamente 50% em 8 meses. O ciclo atual começou no último novembro e aponta sinais de pico de baixa para maio, sendo que os preços praticados nos portos do Golfo dos EUA, Roterdã e pagos aos produtores norte-americanos estão mantendo-se estáveis desde dezembro, contra perda de aproximadamente 10% em dólar (real) no mercado interno brasileiro. As perdas reais da soja na moeda nacional já atingiram cerca de 50%, similar ao ciclo de 1997/98. A diferença entre as perdas de rentabilidade da soja cotada em R$ e US$ deve-se a flutuação cambial, onde torna-se evidente que os ganhos reais na moeda norte-americana foram bem menores.
Câmbio
Na soja, a taxa cambial é fator determinante dos preços no mercado interno e definem momentos adequados para compra de insumos que possuem sua formação de preços predominantemente estabelecidos na moeda nacional ou em US$. O desafio na utilização do câmbio é determinar se a moeda nacional está sobre ou sub-valorizada em relação a um suposto índice ideal. Para tanto, é estimado o câmbio real por meio da extração da taxa inflacionária sobre o R$ e sobre o US$. O câmbio real é um indicador de sensibilidade entre a diferença da produtividade da economia brasileira e dos EUA, que o câmbio nominal toma como referência. Através do fluxo de capitais ocorre a grande variação no câmbio nominal, mas este sempre oscila ao redor do câmbio real. Taxa cambial nominal acima da real favorece a atividade exportadora em detrimento da importadora e vise versa. Muito se especula sobre o direcionamento da taxa cambial devido a sua influência sobre o mercado interno da soja. Conforme figura 2, desde junho/2002 a taxa cambial nominal está acima da real acumulando vantagens significativas da atividade exportadora que colaborou com os resultados da balança comercial e, por outro lado, pressionou positivamente a taxa inflacionária. Sempre que a taxa cambial nominal é mantida apreciada ou depreciada, um período aproximadamente proporcional e regime oposto ocorre no momento seguinte. Este ajuste é necessário para o equilíbrio da economia.
Como exemplo dos danos numa economia que não observa estes fundamentos, tomamos a Argentina que manteve o câmbio fixado artificialmente por 10 dez anos, exaurindo suas reservas e destruindo a capacidade produtiva do país. Desde novembro a taxa nominal está direcionando-se à real e teremos um período não favorável às atividades exportadoras para os próximos meses, pois o governo atual mantém o compromisso de inflação baixa. Em meados de maio a taxa cambial real estará ao redor de 3,00 R$/US$ e provavelmente manterá o aclive constante desde que a taxa inflacionária também se comporte da mesma forma.MILHO
O mercado do milho está se comportando racionalmente e sem imprevistos, conforme as expectativas do investidor, apesar do declíneo sucessivo dos estoques. Esta afirmação pode surpreender o produtor, pois este observou os preços passarem de próximo a R$12,00/saca em maio/2001 para R$24,00/saca em novembro/2002, representando 70% de rentabilidade real (extraída a inflação) no período. Pela ótica do investidor, ganhos de 70% com taxa inflacionária de aproximadamente 12% ao ano indicam queda drástica dos preços no momento seguinte, independente dos estoques remanescentes, se o objetivo da economia é manter a taxa inflacionária estável. Segundo esta análise, a queda dos preços se deu dentro do esperado, pois houve pequeno avanço da inflação nos últimos 6 meses e conseqüente declínio do valor real do grão, satisfazendo a necessidade parcial de redução dos preços relativos do insumo milho e produto industrial.
Ao contrário da soja, os preços do milho apresentam pequena correlação com disponibilidade do grão em estoque, que registra pleno declínio de 11,9 milhões de toneladas na safra 94/95 para 1,4 milhão de toneladas na safra 2001/02 e estimativa de 2,9 milhões de toneladas para 2002/03 (figura 5). Normalmente a pressão sobre os preços é gerada pela relação dos estoques com a demanda total, mas no milho nota-se que esta relação partiu de 34% na safra brasileira de 94/95 para 3,7% na safra 2001/02 e com aumento para 7,4% na estimativa da safra 2002/03 (figura 6) sem pressionar positivamente o valor real do grão (figura 7). Pode-se afirmar que os preços do milho não estão relacionados com os estoques, pois o ciclo de 24 meses nos preços está sendo respeitado. Se houvesse relação estreita com a disponibilidade do grão haveria ganho constante nos preços reais desde o ano-safra 1994/95, ao contrário do ocorrido. No entanto esta afirmação é válida até que os estoques atinjam níveis críticos e apresentem risco elevado de desabastecimento no caso de problemas na produção. A relação estoque/demanda mundial variou de 23% a 31,8% entre as safras 91/92 e 2000/01, registrando forte queda a partir deste período e atingindo projeção de 17% para a safra 2002/03. Apesar desta brusca redução, os preços internacionais do grão apresentaram somente uma pequena recuperação e indicam estabilidade. Segundo projeções até 2012, realizadas pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), os níveis adequados para a relação estoque/demanda dos EUA situam-se ao redor de 10%. No entanto, em nível mundial esta relação deverá ser superior em função das limitações de logística na distribuição do grão entre países que apresentam grandes diferenças comerciais.
Na safra 2000/01 a produção brasileira atingiu 42,3 milhões de toneladas, superando significativamente a possibilidade de consumo de aproximadamente 35 milhões de toneladas e viabilizando a exportação do grão que levou a demanda total a atingir 42,2 milhões de toneladas e mantendo a relação estoque/demanda em 10%. Para a safra 2002/03 está previsto produção acima de 40 milhões de toneladas para uma demanda de 39,6 milhões de toneladas e manutenção da relação estoque/demanda abaixo de 10%. O declíneo desta relação e no valor do grão, observado nos últimos 8 anos, demonstra o avanço da comercialização internacional e conseqüente facilidade da indústria em absorver variações na disponibilidade deste insumo.
Desde o lançamento do Plano Real, o milho tem apresentado aumentos sucessivos nos seus preços nominais (figura 7), mas ao extrairmos a perda do valor da moeda nacional utilizando o deflator IGP-M (Índice Geral de Preços no Mercado) torna-se evidente a queda do valor do grão no decorrer do tempo, respeitando ciclos de 24 meses. Com a extração da perda do valor do dólar temos maior depreciação do grão no longo prazo, atingindo perda de 2,3% em média ao ano desde 1975.
Objetivando determinar a tendência do mercado futuro do milho deve-se considerar a ótica do investidor, pois este é responsável pelo estabelecimento dos preços do grão. Convertendo-se a variação dos preços pagos ao produtor em rentabilidade financeira, ou seja, convertendo o grão em ativo financeiro, torna-se evidente os limites superiores e inferiores que determinam o movimento do mercado comprador e, conseqüentemente, os seus ciclos de rentabilidade. Para o comprador, além da disponibilidade do grão, este observa a probabilidade da conversão do insumo em rentabilidade ao utilizá-lo na sua linha industrial.
Desde a implantação do Plano Real, a moeda estável tem salientado os ciclos de 24 meses nos preços do milho com perdas reais de 30 a 40% ocorridas em períodos de aproximadamente 4 meses nas safras de 94/95, 96/97, 98/99, 2000/01 e 2002/03 (figura 8). Por outro lado, os ganhos são distribuídos em cerca de 20 meses. A diferença de rentabilidade do grão nos preços deflacionados em Reais e em Dólar ocorrido em janeiro de 1999 deve-se a forte desvalorização da moeda nacional neste período. Se não ocorresse este ajuste da economia, a queda em termos de rentabilidade do milho na moeda nacional seria de quase 40% (linha verde fina na figura 8). Outro momento de forte juste da economia ocorreu entre os meses de maio e outubro de 2002, proporcionando significativo aumento da rentabilidade do grão em Reais até dezembro/2002.
Na figura 9 se tornam evidentes os momentos de mercado comprador e vendedor quando traçadas as linhas (reta cinza tracejada) nos picos de alta e de baixa na curva de rentabilidade do grão com seus preços deflacionados em dólar (linha verde fina). Com base na diferença entre as linhas tracejadas pode-se considerar que há uma região de aproximadamente 35% de variação que o mercado tolera nos preços reais do milho (diferença entre a linha tracejada inferior e superior). Na safra 98/99, a forte depreciação cambial provocou movimento divergente entre compradores que tomam sua decisão baseada no grão cotado em dólar e aquele que decide em reais. Conforme figura 9, neste momento o mercado tornou-se tumultuado, com nova queda entre julho e setembro/1999, e somente a partir daí registrando ganhos. Em condições estáveis de câmbio a curva atingiria a linha tracejada inferior, concordando com a análise discutida neste informativo.
A análise dos preços do milho do ponto de vista do retorno financeiro ao investir no grão demonstra a possibilidade de rentabilidade ao utilizar este insumo na indústria e comportamento do industrial. A utilização dos preços deflacionados em dólar apresentam significativa correlação com a tomada de decisão do mercado, pois o dólar oriundo do produto exportado pode ser convertido em grão importado se não houver possibilidade de rentabilidade com a compra de grão nacional. Esta tomada de decisão da indústria é justa e desta depende sua sobrevivência. Não há indústria que mantenha sua viabilidade com seu principal insumo registrando aumento real de 70% comparado com inflação de aproximadamente 30%, ou seja, somente 30% de correção nos preços reais do seu produto industrializado acumulado em 18 meses.
Considerando que esta análise esteja correta, o prolongamento da curva de rentabilidade do milho em março/2003 deveria partir de 40% negativo para aproximadamente 65% negativo no encontro com a linha tracejada inferior (figura 9) para maio. A posição de 65% de rentabilidade negativa coincidiria com preços nominais de R$ 15,00/ saca. Deve-se salientar que estes mesmos picos de baixa foram atingidos regularmente desde o início do Plano Real seguindo ciclos de 24 meses. No entanto, a baixa relação estoque/demanda brasileira e índices igualmente baixos no mercado internacional poderão sustentar os preços. Por outro lado, a apreciação do câmbio aumenta o custo em dólar para exportação da carne e a indústria somente reduzirá os mesmos por meio do controle dos preços de seus insumos.
Dados para referências bibliográficas
Revista Plantio Direto, Ano XII, edição número 75, maio/junho de 2003, Aldeia Norte Editora Ltda, Passo Fundo, RS.