Uma visão de futuro da agricultura
Homero Dewes Departamento de Biofísica, Instituto de Biociências Centro de Biotecnologia e Centro de Estudos e Pesquisas em Agronegócios da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Nas últimas décadas, vivenciamos uma verdadeira revolução tecnológica em todos os setores produtivos e na agricultura não foi diferente. Graças à pesquisa pública e privada e aos incansáveis esforços em busca de novas tecnologias, cultivares, insumos, máquinas e equipamentos, a agricultura se desenvolveu e vem alcançando recordes de produção, safra após safra. O resultado desse trabalho é um campo mais profissional, tecnificado, voltado às demandas impostas pela população mundial e por um mercado sem fronteiras.
Talvez, a sociedade nunca tenha dado tanta importância ao setor primário como nestes últimos anos quando provou-se que o agronegócio é o grande responsável pelo crescimento e sustentação da nossa economia. Porém, ao mesmo tempo, a tecnologia que toma conta do campo, é muitas vezes questionada sobre suas conseqüências ao futuro, em especial, a biotecnologia. E o mais grave, na questão da biotecnologia, a pesquisa que tanto nos serviu e nos serve, esta sendo deixada em segundo plano, seus resultados são contestados politicamente e, com isso estamos deixando de ser a vanguarda da agricultura.
Na verdade, a transformação que a agricultura sofreu nas últimas décadas transcende a imaginação dos mais otimistas e, isso, é só o começo. Nesse momento, é importante que a sociedade entenda a biotecnologia como mais uma ferramenta disponível, assim como o computador ou o GPS e ainda, que é preciso tratar ciência como ciência e, não criar monstros ao acaso.
Com o intuito de fazermos um ”passeio na agricultura do futuro”, convidamos o professor de Biofísica do Instituto de Biociências e pesquisador do Centro de Biotecnologia e do Centro de Estudos e Pesquisas em Agronegócios da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Dr. Homero Dewes para relatar sobre os desafios da agricultura do futuro, sua visão e experiência como professor na formação de futuros pesquisadores, gestores e profissionais do agronegócio.
Ensinando a pensar
Em contraste com a atividade de campo, os resultados do meu trabalho como professor são de difícil ponderação. A qualidade do que eu faço e os efeitos do meu trabalho na sociedade são impossíveis de serem enquadrados dentro dos critérios objetivos de produção e produtividade que padronizam, em geral, o cotidiano da agricultura.
Isto porque se trata de um trabalho, cujo resultado não aparece no presente, cuja repercussão pode transcender o lugar em que vivemos, que poderá afetar outros, além das pessoas que nos conhecem, com quem convivemos hoje. Temos ouvido à exaustão, que educar, ensinar, é um trabalho de preparação da sociedade para o futuro. Para um futuro, para um o quê e um quando que ninguém conhece ainda, e que apenas uma parte dos que hoje estão aqui, conhecerá.
A tarefa do educador seria, por isto, uma tarefa muito difícil, cujas chances de sucesso dependeriam da capacidade que o educador tem de estudar e compreender o futuro. Ou seja, estudar e compreender o quê não existe.
A inteligência humana desenvolveu métodos eficientes que podemos empregar para antever, descrever e estudar realidades que ainda não existem, e classificá-las como prováveis ou improváveis, possíveis ou impossíveis.
Assim como a história estuda o quê não existe mais, interpretando os vestígios do passado que subsistem no presente, podemos também praticar uma ”arqueologia do futuro” e tratar de interpretar os sinais do nosso presente que nos antecipam o nosso porvir.
Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, entre outras atividades, sou hoje professor de biofísica para estudantes de química. Portanto, ensino biofísica para futuros químicos.
Tenho a tarefa de fazer os estudantes de química estudar um pouco de biologia, com a aplicação das ferramentas da física e da físico-química. A última vez que estes estudantes estudaram biologia foi no segundo-grau, possivelmente com uma revisão para o vestibular. Certamente uma das razões que levou muitos deles à carreira de química, foi o fato de não gostarem de biologia.
Meu primeiro desafio para com eles, que qualquer professor no começo de um semestre enfrenta, é convencê-los a se interessar pela matéria das minhas aulas. Há muito aprendi que não existe melhor método para isto do que a clássica pedagogia da ameaça.
Digo a eles, quando eles estiverem celebrando o vigésimo aniversário da sua formatura em química, que uma parte substancial da indústria química estará baseada no uso de sistemas biológicos. Assim, se eles não quiserem perder os seus empregos num futuro que não é tão distante, é bom eles começarem a se interessar pela biologia, e fazerem o esforço de aprender alguma coisa comigo durante todo o semestre.
A química do futuro
Explico como a química vai mudar. Começo por resgatar as imagens das plantas industrias dos grandes complexos da indústria química, associadas à fumaça, calor, efluentes tóxicos, transporte de materiais perigosos, insalubridade, destruição ambiental, insegurança no trabalho e doenças crônicas. Chamo a atenção deles para o imenso consumo energético desta indústria química, o capital envolvido, seus altos custos operacionais, a rapidez do seu desgaste e o seu impacto ambiental dramático, cada vez menos suportável.
Relato então como a biotecnologia industrial irá revolucionar a produção de plásticos, que deixarão de ser sintéticos para serem produzidos nas plantas, dos novos têxteis naturais que já virão naturalmente nas cores desejadas, dos combustíveis renováveis, dos usos inovadores das sementes oleaginosas na produção de detergentes, tintas, resinas, lubrificantes e drogas.
Na química do futuro, as plantas químico-industriais de hoje, darão lugar às plantas manipuladas geneticamente, cultivadas nos campos, movidas à energia solar, gratuita, inesgotável, limpa.
Não existe nada no mundo, mais democrático do que o DNA, o material genético de todas as coisas vivas. Está sempre pronto, desejoso e capaz de aceitar uma recombinação com outro DNA de qualquer outra fonte, e incorpora-lo na sua própria maquinaria, modificando, ampliando e enriquecendo os seus atributos.
Não existe nenhuma contradição intrínseca ou incompatibilidade biofísica entre os genes naturais e os genes manipulados de um mesmo organismo, bem como entre genomas dos mais diferentes seres vivos. Assim, progressivamente nos tornamos capazes de introduzir, sem limites, novas capacidades de manufatura química nas plantas. Os produtos serão mais puros, e serão reduzidas as conseqüências indesejáveis e os efeitos colaterais dos traços de impurezas, encontrados nos compostos químicos manufaturados de modo tradicional.
Plantas industriais
Plantas irão produzir produtos complexos desenhados pelo homem, que são muito caros ou muito difíceis de serem fabricados pelos meios químicos sintéticos tradicionais, tais como alguns fármacos e outras substâncias ativas. Ao lado dos produtos complexos, as plantas se tornarão também a fonte preferida de muitas das moléculas orgânicas simples, que estão na base da indústria química contemporânea, as grandes commodities químicas, hoje produzidas caracteristicamente pela indústria petroquímica, gradativamente deverá dar lugar a uma nova indústria – a indústria fitoquímica. Em um dos seus sub-campos – o da ”farmaprodução” - se insere a produção de biocompostos, como as vacinas e os anticorpos monoclonais, produzidos em frutos e tubérculos.
Para completar minha estratégia de quebra de resistência dos futuros químicos em relação à biologia, abordo a eficiência energética dos sistemas biológicos, comparando-a com os sistemas industriais contemporâneos, convidando-os a olhar pela janela, fixando-se numa planta, num arbusto qualquer.
Peço aos meus alunos que olhem para os diferentes matizes das cores das folhas, migrando do verde evidente das folhas mais velhas, para a revelação do amarelo e do vermelho nas folhas mais jovens. Falo então nos diferentes pigmentos que estão aí e me refiro ao papel diferenciado de cada um destes pigmentos na captação da energia solar, na conversão da energia dos fótons em um potencial de oxiredução, e na utilização da energia associada a este potencial na síntese de compostos complexos, com eficiência energética sem paralelo na química que os meus estudantes já conhecem.
Contemplo então a expressão de perplexidade nos rostos dos estudantes, como se estivessem, pela primeira vez em suas vidas, vendo uma planta. Sei que a partir deste dia, olharão o mundo ao seu redor com outros olhos.
Meus estudantes de química não estão sós, em sua perplexidade diante da indústria química em mudança, que os move a estudar os seres vivos como plantas industriais, que os coloca diante da urgência de reprogramação dos seus cursos, que coloca seus professores diante da urgência de um redirecionamento no ensino das suas matérias. Que força os ”managers” da indústria química a mudar o foco das suas empresas.
O desafio dos produtores
Recentemente, com os estudantes do nosso programa de pós-graduação em agronegócios na UFRGS, fizemos em aula a leitura de uma pesquisa de antecipação sobre o quê será a agricultura em 2010, pela qual foram levantados os principais desafios que os agricultores e os pecuaristas da Califórnia, nos Estados Unidos, deverão enfrentar nos próximos anos.
De acordo com esta pesquisa, realizada há cerca de três anos, o maior desafio para os produtores será o de produzir um suprimento adequado de alimentos, competindo pela terra, pela água e pela força de trabalho. Deverão se confrontar também com a perda de diversidade genética das plantas e dos animais e com a persistência de pragas, que continuará como um problema crônico, com novas doenças aparecendo.
A regulamentação governamental continuará restringindo o uso de agro-químicos e os ambientalistas vão pressionar ainda mais os fazendeiros a reduzir a poluição associada ao manejo dos rebanhos e cultivos.
Os métodos de gestão das propriedades rurais passarão por uma transição profunda. Paralelo a isto, as corporações de agronegócios continuarão a ameaçar as unidades de produção familiares. A integração vertical prosseguirá, com as empresas esperando incorporar a maior parte do valor agregado gerado ao longo das cadeias agroindustriais.
A produção manual de hortifrutigranjeiros se tornará cada vez mais mecanizada e os produtores terão o desafio de conseguir, eles próprios, os recursos financeiros para esta modernização.
O estudo descreve como a consolidação das operações agrícolas e pecuárias se espelhará em toda a cadeia dos agronegócios. Os produtores continuarão vendendo cada vez mais para compradores grandes e poderosos, que só querem grandes volumes de produtos estandardizados. Nas conexões entre os elos das cadeias agroalimentares, a embalagem terá, cada vez mais, um papel fundamental, desde a plantação até a deposição do lixo. De modo crescente, o alimento será produzido, desenhado e preparado para uma determinada embalagem, desenhada especialmente para assistir a distribuição e o manejo dos alimentos pelo consumidor.
Os sistemas de empacotamento e distribuição inovadores vão controlar o mercado, o qual estará cada vez mais condicionado pelas preferências dos consumidores que têm em mente alimentos preparados, que se preocupam com a segurança dos alimentos e que exigem normas de rotulagem rigorosas.
Enquanto isto, os custos para a introdução de novos produtos continuarão a crescer.
O estudo antecipa que os produtores da Califórnia enfrentarão uma competição crescente, derivada da globalização dos mercados, na medida em que os avanços tecnológicos atingirem os outros países, dando aos produtores estrangeiros um ganho derivado das vantagens dos seus custos mais baixos.
Por último, prevê-se que os consumidores ao redor do mundo se expressarão cada vez mais, não só sobre quais os produtos que eles querem, como também sobre como estes produtos devem ser produzidos. Os atores do complexo dos agronegócios devem, portanto, atentar para as opiniões do público, por exemplo, em relação aos organismos geneticamente modificados, sobre o uso de pesticidas, sobre o bem-estar animal, e sobre as espécies de animais e plantas ameaçadas. Assim, para os produtores, é premente a necessidade de se educar o público, para que este ajuste as suas expectativas e demandas, compreendendo a natureza e a dimensão dos desafios de se produzir alimentos de alta qualidade a um preço acessível.
Na resposta a estes desafios, os produtores deverão inovar suas tecnologias. A pesquisa identificou então as tecnologias de uso mais amplo, que darão suporte a esta agricultura na Califórnia já no ano 2010, que se avizinha. Estas tecnologias podem ser agrupadas em quatro tipos.
As tecnologias
GPS
O primeiro tipo refere-se à tecnologia GPS, o sistema de posicionamento global, baseado em satélites e sensores, que já é muito aplicado no mapeamento dos campos e no controle remoto dos equipamentos. Com o GPS será possível, entre outros inúmeros avanços, aumentar a precisão e a eficiência no plantio das sementes e na aplicação de pesticidas e fertilizantes, assim como na correção do solo e na irrigação.
Pode-se antever as implicações ambientais, decorrentes do uso desta tecnologia na agricultura. As aplicações de insumos poderão ser limitadas aos sítios necessários, evitando-se assim o espalhamento de agro-químicos. Estima-se que o uso do GPS ajudará em muito, na manutenção da fertilidade do solo e evitará o desperdício de água.
GIS
O segundo tipo de tecnologia, que nos próximos anos irá dominar a agricultura, incorpora os sistemas de informações geográficas, os G-I-S, acoplados ao sistema GPS. O G-I-S fornecerá dados em tempo real sobre as condições da produção, específicas para cada metro quadrado do campo.
O G-I-S está baseado, e depende, de técnicas sofisticadas de modelagem matemática, tendo como fonte primária de dados as informações captadas por sensores acoplados às plantas e inseridos no solo e de sensores climáticos, tudo ligado a uma parafernália de hardware e software.
Este sistema gera uma base de dados, que vai reunindo informações sobre o consumo de água das plantas, sobre as atividades de fotossíntese, a transpiração, o uso de nutrientes, as condições do solo, as condições do tempo, o aparecimento de doenças e outras informações críticas para a produção. Tudo reunido, a análise é procedida através de um modelo matemático, e o produtor pode então tomar as decisões de manejo do dia-a-dia, aplicáveis às áreas específicas e bem definidas do seu campo.
É difícil de se imaginar a pesquisa agronômica, incluindo a pecuária, daqui prá frente sem o uso dos sistemas geográficos de informações. O mesmo pode-se dizer das pesquisas nos diversos campos das ciências ambientais.
Os sistemas geográficos de informação são vistos como uma ferramenta de pesquisa cada vez mais poderosa e imprescindível na análise das populações, na epidemiologia e nos estudos ecológicos. O estudo das interfaces das lavouras, das terras virgens, das florestas e dos subúrbios será enormemente facilitado pelo G-I-S. Como resultado, os gestores públicos terão uma visão mais clara sobre como regulamentar o uso da terra, do ar e da água que nos rodeiam.
Biotecnologia
No terceiro conjunto de tecnologias que marcará a agricultura no ano 2010 esta outra vez a biotecnologia.
A biotecnologia referida na pesquisa, inclui as técnicas aplicadas ao aumento da eficiência dos cruzamentos convencionais, tanto na produção, quanto na seleção de plantas e animais. Algumas destas técnicas se referem à genômica, à transformação genética, às técnicas de identificação de DNA individual, à seleção e aos cruzamentos orientados por marcadores genéticos, à clonagem e à fertilização in vitro.
Uma vez que estas técnicas são aplicáveis a todo e qualquer organismo vivo, a biotecnologia deverá ter um impacto cada vez maior no melhoramento e na produção agrícola e pecuária, no controle de pragas pelo uso de microorganismos, no processamento dos alimentos e na aqüicultura, por exemplo.
O papel da biotecnologia na pesquisa só irá se expandir. Através da genômica e da proteômica, as funções dos genes serão cada vez melhor compreendidas, assim como as interações entre as plantas e os agentes patogênicos. Os estudos microbiológicos serão beneficiados e uma melhor identificação e compreensão dos agentes patogênicos, como fungos, bactérias e parasitas possibilitará uma melhor previsão dos seus efeitos e um melhor manejo das pragas. O fingerprinting do DNA irá facilitar o estudo dos microrganismos responsáveis pelo balanço de nutrientes do solo, e entre estes, os que atuam na degradação dos agentes tóxicos, adicionados ao solo na atividade agrícola.
Internet
Por último a internet. A Internet e os desenvolvimentos associados às tecnologias da informação experimentarão uma expansão das suas aplicações na educação, na regulamentação ambiental, no marketing e na pesquisa.
O público terá acesso a muito mais informações relativas aos temas da agricultura, tais como sobre o uso da água e da terra, o que lhes possibilitará maior influência na formulação de políticas públicas. Por fim, a Internet irá catalisar, principalmente entre cientistas, um cruzamento de idéias sem precedentes, gerando uma rede de difusão de conhecimentos e de colaboração em pesquisa mundial.
Uma nova agricultura
Quando fizemos em aula a leitura destes desafios e tecnologias, perguntamo -nos se este estudo se aplicaria à realidade do nosso país. Buscamos os dados de produção agropecuária da Califórnia e estudamos a distribuição das propriedades agrícolas, segundo os seus tamanhos. Sem precisar nos aprofundar muito num estudo comparativo, concluímos que estes desafios não são exclusivos dos californianos, são desafios do futuro da agropecuária de qualquer país ou de qualquer região que se desenvolve.
Os efeitos da ciência e tecnologia na agricultura mundial, neste último século, parecem não ter limites. Considerando os benefícios, ciência e tecnologia significaram, entre outros, prosperidade para os agricultores. Para a humanidade, alimento melhor, mais balanceado, nutritivo e mais barato. As mudanças na economia da produção agrícola também foram profundas, entre elas a explosão de produtividade, paralela a uma dramática redução da população rural ativa.
Os benefícios deste desenvolvimento não estão dissociados de incertezas e de efeitos colaterais dolorosos e indesejados. Penso, entretanto, que estes são devidos mais à má gestão pública e privada dos sistemas de produção e da economia coletiva, do que à tecnologia da agricultura em si.
Devemos discutir a correção destes equívocos. Entretanto, não podemos deixar de pular à frente, para tentar ver como a agricultura pode mudar ainda mais.
A agricultura de vanguarda irá prosseguir na tendência geral de substituir o emprego de habilidades humanas pelo conhecimento científico e recursos tecnológicos incorporados nos equipamentos. Um exemplo deste processo é a robotização da agricultura. Até agora, os robôs têm sido primariamente utilizados como ferramentas nas linhas de montagem da indústria, usadas para substituir o trabalho humano. Os robôs adquiriram mobilidade, adaptabilidade climática, inteligência embarcada, e outros atributos importantes, fazendo-os práticos para operações em ambiente externo. Seu uso corrente na mineração, trabalho submarino, construção civil, e em outras tarefas pesadas e perigosas de todo tipo, será estendido em breve à agricultura.
Os robôs serão capazes de realizar as tarefas presentes com mais facilidade e com menor custo, como também serão capazes de plantar sementes individuais, enquanto vão testando o microambiente em torno deles, e adicionando os corretivos do solo na composição adequada.
A força da genética
A genética continuará sendo uma das mais poderosas forças na reformatação da agricultura. Hoje existem cerca de 3.000 plantas comestíveis razoavelmente conhecidas, e destas, cerca de 300 são consumidas de fato em algum lugar no planeta. Destas, em torno de 30, são usadas em grande volume no comércio e não mais do que 6 suprem cerca de 90% das necessidades da nutrição humana.
Como resultado da pesquisa genética, serão melhoradas a qualidade e o balanço nutricional de cada um destes alimentos que já existem no mercado, seguindo-se a introdução no mercado de um número ainda maior de plantas daquele ”pool” de 300, hoje usados marginalmente. Para isto, as características específicas que os excluem das cadeias comerciais deverão ser tratadas geneticamente.
Alguns destes 300 alimentos são excluídos porque têm películas muito duras, ou porque têm um odor desagradável ou um gosto ruim, se gasta muita energia para cozinhá-los, são muito difíceis de serem manipulados, ou são muito frágeis, ou ainda, facilmente atacados por fungos. Cada uma destas características poderá ser eliminada, modificada ou substituída. Indo além das melhorias, se poderá expandir ainda mais a variedade dos alimentos da nossa dieta, introduzindo espécies de plantas transgênicas, que serão à base de uma pletora de novos alimentos que ainda não tem nome, e nem foram imaginados, produzidos por plantas novas, adequadas a cada condição ambiental específica, a cada gosto e necessidade do consumidor.
A ciência agrícola do futuro poderá muito bem adotar como seu símbolo o deus grego Proteus, aquele que tem o dom da profecia e o poder de mudar a sua forma, incorporando todas as expressões da natureza.
Esse conjunto de alimentos poderá ser ainda complementado por nutrientes produzidos em plantas industriais. Em instalações semelhantes a cervejarias ou a plantas farmacêuticas, serão produzidos microorganismos altamente nutritivos, por exemplo, ricos em proteína, que poderão então ser manipulados do mesmo modo que se manipula farinha ou açúcar para suplementar alimentos preparados. A isto junta-se a habilidade de se cultivar, em instalações fabris, alimentos biossintéticos que simulam alimentos naturais, como suco de tomate que nunca veio de um tomate, suco de laranja que nunca viu uma árvore, e bacon desligado de qualquer suíno.
Reestruturação no campo e na sociedade
As preocupações com a saúde irão moldar significativamente o negócio agrícola. Na medida em que as populações se tornam mais escolarizadas, mas conscientes, mais autônomas, mais preocupadas e informadas a respeito da sua saúde, e mais desejosas de agir em seu próprio benefício, os fornecedores de alimento serão forçados a satisfazer uma lista cada vez mais longa de demandas por qualidade.
Os hábitos vegetarianos receberão um tremendo impulso da biologia molecular, pela capacidade de se produzir produtos vegetais totalmente balanceados e de se introduzir neles as características físicas e gustativas, associadas, por exemplo, à carne e ao peixe. Os vegetarianos do futuro poderão desfrutar de uma variedade maior de alimentos do que dispõem hoje, os quais poderão ter o apelo gustativo que faz parte da nossa história genética omnívera.
As propriedades de agronegócios continuarão a crescer, produzindo commodities. A propriedade familiar como unidade de operação de tempo integral dará lugar a atividades de tempo parcial, com os membros da família executando trabalhos de natureza urbana, para captação financeira adicional. De importância crescente será o sítio de produção, de tamanho variado, pertencente a pessoas empreendedoras e prósperas, educadas, urbanizadas e também aposentadas, que buscam a terra em razão das vantagens putativas de uma vida bucólica. Nem todos as sítios de produção irão necessariamente operar como investimentos viáveis; alguns irão operar simplesmente para auto-satisfação. O mercado de negócios para cada um destes tipos de unidades de produção será marcadamente diferente.
Agricultura sustentável
A ecologia é uma ciência que se expande rapidamente e as aplicações dos seus princípios na agricultura irá crescer dramaticamente nas próximas décadas. A ecologia, a partir da sua atenção tradicional ao ambiente natural, se expandirá para uma ecologia de ambientes agrícolas gerenciados. A aplicação dos princípios da ecologia aos ambientes gerenciados nas propriedades e outras unidades de produção agrícola se desenvolverá lado a lado com o conceito de agricultura sustentável. Este conceito complexo, que implica em diversas variáveis que operam simultaneamente, tais como rotação de culturas, plantio direto e o uso da água. Mesmo considerando estas complexidades, o conceito de sustentabilidade na agricultura não é diferente do conceito de sustentabilidade em qualquer outra atividade humana ou qualquer outro lugar, ou seja, o desfrutar dos benefícios que a terra oferece hoje, sem prejudicar sua disponibilidade para as gerações de amanhã. Isto de nenhuma maneira implica que aqueles recursos permanecerão imutáveis; eles poderão ser marcadamente diferentes de como se apresentam hoje, mas permanecerão produtivos e disponíveis para as gerações futuras.
A pesquisa continuará a gerar ganhos de produtividade e continuará a ser realizada principalmente pelas instituições públicas, que deverão se manter como o fator básico de desenvolvimento da agricultura através do mundo. A pesquisa do setor privado irá também florescer, particularmente no uso de tecnologias específicas, como a robotização, e na aplicação da biologia molecular nos novos sistemas agrícolas.
Os usuários se interessarão cada vez menos pelos serviços ou produtos oferecidos isoladamente (sementes, agroquímicos, equipamentos e outros insumos), e cada vez mais por todas estas coisas juntas, de modo que funcionem bem, lhes facilitando cultivar uma planta ou criar um animal. O usuário do futuro comprará exclusivamente funcionalidade e performance integradas.
A difícil arte de ensinar a pensar
Para concluir, volto ao meu trabalho de professor, na minha tarefa de tratar de expressar esta visão de futuro do mundo dos agronegócios em um programa pedagógico adequado para os nossos estudantes, um programa formador de profissionais confortáveis com as demandas decorrentes desta visão.
Quero encerrar, chamando a atenção do enorme desafio que temos, de superação do fosso existente entre as disciplinas que constituem nossos programas, que compartimentalizam nosso conhecimento, fragilizando a formação do nosso desbravador do futuro. Gostaria de provoca-los para os desafios da construção de uma educação integrada pela prática da interdisciplinaridade.
Uma das mais graves conseqüências do regime disciplinar ao qual temos submetido o conhecimento e, por conseguinte a educação, é a separação da ciência da política. Esta separação, levada ao seu extremo, dá origem à convicção de que as ciências devem ser separadas dos valores de qualquer outra natureza. O resultado disto é a incapacidade dos cientistas e dos legisladores e gestores de enfrentarem os problemas que transcendem os limites do seu treinamento formal, agravada pela incapacidade de dialogarem entre si. Para os profissionais especialistas e cientistas, que se vêm no centro de uma controvérsia de interesse público, decorrente do cruzamento da sua disciplina com a política, são grandes as frustrações. A controvérsia lamentável que vivenciamos hoje no país, a respeito do cultivo de plantas transgênicas, ilustra dramaticamente essa incapacidade.
O alívio desta condição, na qual todos perdem, o público em geral perdendo mais, talvez possa ser encontrado em um tipo de educação renovada, uma educação que abra os nossos olhos e a nossa inteligência para o futuro.
Dados para referências bibliográficas
Revista Plantio Direto, Ano XII, edição número 75, maio/junho de 2003, Aldeia Norte Editora Ltda, Passo Fundo, RS.