Agricultura empresarial e plantio direto
A arte de fazer agricultura de forma racional, ambientalmente correta e eficiente em termos econômicos, tem exigido cada vez mais produtores com perfil profissional ou, como se costuma chamar: ”empresários rurais”.O resultado de uma safra recorde deve-se, em parte, ao processo de modernização que o campo sofreu nas últimas décadas, mas, também, aos produtores que investiram em novas cultivares, na fertilidade do solo, na assistência técnica, no plantio direto e na rotação de culturas como fatores de sucesso.O produtor profissional tem utilizado de forma sistêmica os melhores recursos para produzir e, com isso, tem sido competitivo o suficiente para prosperar na sua atividade. Há duas ou três décadas, percebeu que, da forma como era conduzida a lavoura, com uso de muito ferro e pouca técnica, seria impossível vislumbrar melhores colheitas. O produtor mudou. Com o plantio direto imitou a natureza e transformou a paisagem. Descobriu que o plantio direto, exigia muito mais técnica e conhecimento e, buscou aprender, no tempo que agora sobrava. Em muitas regiões do país, temos visto e acompanhado casos como o do produtor Mauro Antonio Magni, entrevistado nesta edição pela Revista Plantio Direto, por ser um produtor modelo da Cooperativa Cotrijal, diferenciado, através da capacidade de gerenciar sua propriedade como uma empresa, buscando melhores retornos econômicos, mas além disso, integrando atividades, rotacionando culturas, experimentando e fazendo uma agricultura mais profissional.
Revista Plantio Direto - Quando você iniciou sua atividade agrícola?Mauro AntonioMagni - Comecei a atividade em 1984, com 50 hectares de área arrendada, possuía uma indústria de implementos agrícolas, mas sempre gostei do campo, de fazer agricultura, de produzir. Quando surgiu a oportunidade, aproveitei. Expandi com o tempo e hoje possuo duas áreas que totalizam 613 hectares, 453 de área própria e 160 hectares arrendados, nas Fazendas do Ipê, em Carazinho e da Lagoa, em Passo Fundo, RS.
RPD - Quais foram os principais desafios técnicos encontrados no início? Magni - No início a área era cultivada em sistema de plantio convencional, em toda parte se observava os efeitos da erosão, na primeira chuva, a enxurrada levava os nutrientes do solo e o replante era algo normal. As produtividades de soja eram muito baixas, ficavam na média de 32 sacos/ha. Na Fazenda da Lagoa, por exemplo, em 153 hectares existiam 110 terraços, imagine quanta área estávamos deixando de plantar, pois a cada chuva, era necessário entrar com uma máquina e levantar os terraços.
RPD - E os desafios administrativos?Magni - Quando a situação técnica não é boa ou demanda uma série de atividades, fica difícil administrar. Havia uma necessidade de máquinas muito grande, por diversas vezes foi preciso entrar noite adentro lavrando o solo, o que também demandava mais mão-de-obra e como conseqüência, os custos operacionais eram maiores. Estávamos trabalhando numa situação que não era a ideal e, precisávamos mudar.
RPD - Quando você iniciou o plantio direto?Magni - Foi no começo da década de 90 que iniciamos o plantio direto. Estávamos começando com pouca cobertura vegetal e nem milho se plantava. Foi nessa época que a cultura do milho passou a ter um papel importante nas propriedades que estavam fazendo plantio direto, pois quem quisesse colher soja bem e produzir boa palhada precisava plantar milho, ou seja, fazer rotação de culturas. Muitas vezes, colia a soja no final de maio e em outubro/novembro plantava soja novamente. Com o passar do tempo, culturas de cobertura como aveia e o sistema de integração lavoura-pecuária passaram a ter importância.
RPD - Que benefícios o SPD trouxe para sua propriedade?Magni - Com a adoção do plantio direto, primeiramente foi possível reestruturar o solo, melhorar suas qualidades físicas e químicas. A monocultura da soja foi abandonada com a adoção de sistemas de rotação de culturas no inverno e verão, o que também ajudou a formar um solo mais fértil, rico em matéria orgânica, mais drenado e com pouca compactação. Além disso, diminui-se o tempo de semeadura, o desgaste das máquinas, as horas de trabalho e com isso, começou a sobrar tempo para gerenciar a propriedade.
RPD - Você faz integração lavoura-pecuária?Magni - No inverno, em uma área nós plantamos trigo e cevada e em outra, aveia e azevém para fazer terminação de bovinos. Quando comecei a fazer plantio direto, fiquei em dúvida se daria certo nas áreas destinadas a terminação, por causa da compactação. Falam que o gado ”estraga” a terra. Não é o meu caso, ao longo destes anos, tive as melhores colheitas de soja em área que tinha gado no inverno, é uma questão de manejo. O preço do gado hoje não está compensando, mesmo assim, é melhor engordar gado gerando uma atividade que diluirá os custos fixos da propriedade e que trará benefícios à produção de grãos mais tarde do que deixar a terra sem produzir.
RPD - Como foi a evolução da produtividade da soja e do milho?Magni - Demorou um pouco até que pudéssemos aumentar a produtividade, mas sabíamos disso, o solo precisava de um tempo para se recompor. Começamos colhendo 32 sacos/ha, quando ainda era plantio convencional, na década de 90, 47 sacos/ha e, nesta safra, estamos fechando uma média de 57 sacos/ha (ver gráfico).Antes de iniciar o plantio direto, praticamente não plantávamos milho. A partir da década de 90 iniciamos com a cultura em sucessão com soja, partindo de 80 sacos/ha, para uma média de 126 na última safra.
RPD - De que forma a propriedade vem sendo administrada, existe um planejamento e controle de custos?
Magni - Eu não tinha na minha propriedade um gerenciamento, não controlava custos e não sabia o que estava acontecendo. A única coisa que fazíamos era algumas anotações na agenda, que eram repassadas ao Engenheiro-Agrônomo e, juntos, calculávamos o que iríamos gastar para cada cultura entre sementes, defensivos e adubos, dividíamos pelos hectares e este era nosso custo. Fazíamos então uma estimativa de produtividade e preço e, com isso, tomávamos as decisões.Na verdade, não sabíamos quanto tínhamos gasto para colher 45 sacos de soja e muito menos quanto estávamos ganhando. Simplesmente olhávamos a eficiência técnica das culturas. Muitas vezes, nessas projeções calculamos o custo da lavoura, determinando o número de sacos para cobrir as despesas, mas quando terminava a colheita não sobrava nem a metade do que havíamos planejado. Onde foi o dinheiro? Não sobrou nada! Não precisamos ir muito longe para sentirmos a importância e a necessidade de mudar a estratégia e controlar realmente os custos. Estava na hora de encarar a propriedade como uma empresa. Em 1999 o Departamento Técnico da Cotrijal, iniciou um trabalho diferenciado de gerenciamento das propriedades, do qual participo, que começou a atender nossas necessidades de gerenciamento real dos custos de produção.
RPD - O fato de ter vindo de outra atividade facilitou o trabalho de gerenciamento na propriedade?Magni - Tanto na indústria quanto na agricultura o gerenciamento através do controle de custos, planejamento das atividades a curto, médio e longo prazos são fundamentais. Para o produtor começar a controlar custos de verdade, basta se conscientizar de que quando ele compra os insumos, vai comprar com o preço que quiserem lhe vender e, quando vende sua produção, vai fazê-lo com o preço que quiserem pagar. Então, as propriedades que não estiverem em dia com seus custos e não fizerem as devidas projeções, estarão com os dias contados.
Dados para referências bibliográficas:
Revista Plantio Direto, Ano XII, edição número 75, maio/junho de 2003, Aldeia Norte Editora Ltda, Passo Fundo, RS.